segunda-feira, 30 de maio de 2011
O EFEITO MARINA
Lançamento do livro O EFEITO MARINA, de Alfredo Sirkis , edição Nova Fronteira - Bastidores da campanha que mudou o rumo das eleições- será na Livraria Travessa, no Leblon, dia 06 de junho, às 19hs.""
O tigre de Cortázar
Em Bestiário, um conto de Julio Cortázar, a narrativa começa num clima que seria familiar e confortável, não fosse o estilo vivo do escritor, que não o deixa cair no previsível ou entediante. Através da perspectiva da personagem principal, a menina Isabel, a história se inicia nos olhares um pouco enigmáticos entre sua mãe e Inês, supostamente uma criada de confiança.
Isabel é convidada para as férias em casa dos Funes, no campo. A mãe e Inês relutam em consentir que ela vá, embora isso já tenha acontecido antes. A essa altura, Inês comenta que “nem é por causa do tigre”, mas porque se trata de uma casa triste. Imediatamente se acende um alerta: não é usual que uma casa de campo abrigue um tigre. Alguma coisa está portanto fora de ordem.
Além dessa figura insólita, a expectativa de Isabel quanto às férias, o primo e a viagem é toda descrita em imagens que parecem flutuar no texto, independentes umas das outras, e são como tomadas de um filme, oferecidas ao leitor sem que se perca o caráter literário do conto. Pelos olhos da menina, o não sentido se justifica e se instala.
O tigre vai ser citado em diversas passagens, de modo que ninguém – autor, moradores da casa ou leitores – se esqueça de sua existência. Enquanto o capataz não avisa onde está o tigre naquele dia, ninguém sai de seus aposentos ou circula pela casa. Não está visível; depois do aviso do capataz, o aposento ou área do jardim fica interditado por sua presença.
Esse fato por si só seria motivo de estranheza, mas através do olhar da menina de nove anos é visto com naturalidade. Assim como “a hora da penumbra”, quando, deitada para dormir, ela vê passarem as imagens do dia, as que lhe dão medo, como o formicário, um grande vidro com terra e formigas, onde ela e o primo de sua idade fazem “pesquisas” e que a assusta um pouco à noite, porque se torna uma presença estranha e pesada dentro do quarto depois das luzes apagadas. Mãos, expressões, olhares, palavras mal assimiladas e todo tipo de vestígio do dia passa pelos olhos de sua fantasia, enquanto não pega no sono.
O tigre, não. A presença do tigre, diariamente lembrada e localizada, parece ser aceita passivamente pelas crianças – e adultos – sem que aparentemente perturbe a ordem da casa. Se está na sala de jantar de cristais, e então ninguém entra naquela sala e janta-se em outra. A casa é grande o suficiente para acomodar o tigre, os moradores e seus interesses.
A verdadeira história no entanto está condicionada à figura do animal invisível, e é todo um drama com doses de violência, sexo e ciúme que permanecem protegidos pelo silêncio do olhar infantil, assim como o tigre permanece oculto. A verdadeira relação entre os personagens adultos da casa é denunciada por pequenos detalhes que, aos olhos da menina, tornam-se primeiro enigmáticos, mas são interpretados afetivamente, quando capta a existência de uma tensão oculta como o tigre.
Esse tigre oculto – pulsão de morte – é um significante perfeito, porque seu significado é ambíguo o bastante para dar o tom da história e catalisar todo o peso que poderia torná-la uma narrativa “imprópria para menores”. Ao mesmo tempo, como o clímax aponta, ele fala também de uma pulsão destrutiva capaz de ser mobilizada até em nome de um impulso amoroso.
domingo, 29 de maio de 2011
HELLO DOLLY! UM PACOTE INTEIRO – PEGAR OU LARGAR
Por Dorothy Coutinho
Toda emoção é inconstante, assim como toda paixão é bipolar. Tudo é mistério, tudo é instável. E buscar uma razão lógica para as emoções em publicações sobre o assunto só me leva até a página dois. Por vezes, no final da leitura ou no final do dia, desisto da busca.
E um novo dia surge trazendo com ele as coisas que estão certas, mas depois... As pessoas que dizem que te amam e depois... Um amigo que estava muito bem de saúde, mas, depois... Na manhã que você estava infeliz, mas que depois, lá pelo meio da tarde...
Tento me desembaraçar das imposições culturais que me impedem de considerar esses dias em dias comuns. Que a vida é assim. Assim, o quê cara pálida?
Faço caretas, danço sozinha, e fico só pensando no que está faltando fazer, querendo de volta as horas em que fiquei bestando. Seguro na química a pressão, nos chás o colesterol e mesmo sem fazer fisioterapia para apressar o passo quero fazer muita coisa ainda, mesmo sem saber para quê!
Uma dessas coisas é escrever. E do meu caldeirão de bruxa sai boa parte do que escrevo.
Cada uma das minhas histórias pode ser complexa, hilária, obscura, inocente, reveladora, ou perversa.
O desejo de escrever é o da cumplicidade para obter respostas, mesmo que elas não existam.
Falo sobre o que somos: nobres, vulgares, sonhadores, consumidores, soprados pela esperança, ou corroídos pelo terror, generosos ou tantas vezes mesquinhos.
Falo da solidão daquele homem sentado à beira do rio: será que ele cultiva medos secretos, pensa na morte ou simplesmente deseja ser amado?
Falo de um pequeno apartamento sendo reformado à espera do jovem casal e penso nas luminárias que estão sendo instaladas no lugar das anteriores que foram parar no saco do passado.
Falo em encontrar conexões entre atitudes e pensamentos mesmo sabendo que não temos controle sobre coisa alguma, já que somos reféns dos imprevistos.
Falo do dilema “pegar ou largar”.
Falo do pacote inteiro que nos lembra que na vida, a única conclusão lógica que temos é a de que todo homem é mortal.
sábado, 28 de maio de 2011
84, CHARING CROSS. O MUSEU DO PRADO - PARTE I
Por Ana Paula Medeiros
Ah, o Museu do Prado, na Espanha. Fui numa quinta-feira. Cheguei lá pouco depois da hora que abriu, emocionadinha. Rolava uma exposição paralela, só de Francis Bacon, numa ala separada, mas era um ingresso pago à parte. Juntando isso com o fato de que eu só teria aquele dia para visitar o Prado, achei melhor priorizar a coleção permanente, e o Bacon ficou pra outra vez. Não podia fotografar nem sem flash, e dada a quantidade de câmeras e guardinhas em cada sala, eu imaginei que era melhor não arriscar. De mais a mais, pra quê? A maior parte dos quadros está na internet, nos livros de história da arte, até em postais e catálogos vendidos na lojinha, com uma qualidade muito melhor do que eu conseguiria sem flash, escondido e driblando todos os turistas na minha frente.
Antes de começar o tour, devo contar duas coisas que me chamaram a atenção. Uma foi que em praticamente todas as salas havia uma reprodução, em curso, de uma das obras-primas expostas. Explico: acho que eram estudantes de arte, de pintura, alguma coisa assim, e estavam lá, de cavalete montado, um professor rondando e dando pequenas instruções, e o cara ali, tentando reproduzir um daqueles quadros. Achei muito legal. Ajuda a gente a se dar conta (como se precisasse) da dificuldade que é achar aquele tom de pele, fazer brilhar aquele reflexo num cabelo ou num olho, mostrar aquela sombra na dobra da roupa. E olha que o aluno nem tem que se preocupar com o tema ou a composição, que já estão dadas.
A outra coisa que me encantou foi ver, ao longo de todo o dia, várias excursões de alunos ao museu. E não eram alunos adolescentes, nem sequer crianças, eram praticamente bebês. Turminhas de 3, 4 anos, que não sabiam ler ainda, passeando em filas, mãozinha no ombro do colega da frente, com as professoras mostrando a eles as coisas. E o mais legal, é que não era uma explicação inútil sobre o autor da obra ou a simbologia do quadro, ou sequer sobre os personagens retratados, que não faria nenhum sentido para eles. Era só uma coisa de percepção de cores e formas gerais, e sobre as impressões espontâneas deles, o que era bonito, ou feio ou assustador. Eu achei genial. Você vai impregnando as criancinhas com arte desde cedo, de forma que passe a ser quase natural para elas estar dentro de um museu, apreciar uma obra de arte, se familiarizar com artistas, pinturas, esculturas, com todo aquele ambiente. E eu vou te dizer, as criancinhas pareciam estar gostando daquilo.
Ainda antes de falar dos quadros, uma outra coisa que eu fiquei estatelada de ver foram as mesas com mosaicos de pedra, quase todas com etiquetas que contavam que tinham sido presente de algum nobre a um chefe de estado ou eclesiástico e vice-versa. Os trabalhos mais fantásticos, com flores e animais luxuriantes, retratados em pedras cortadas com perfeição e montadas em tampos que encimavam mesas espetaculares, de madeiras nobres, pés trabalhadíssimos, eu fiquei completamente uau.
Agora vamos nós. Eu peguei um mapinha e tentei ir acompanhando sala a sala, na ordem. As primeiras coisas que vi foram os Tintorettos. A luz explode, as cores são claras e lindas. Do Veronês, eu gostei especialmente de Susana y los viejos. Deus, o que é aquele brocado? Parece cintilar ali, na sua frente, a gente sente a textura do tecido, da pele da Susana.
Depois, acho que vi Goya. As pinturas negras têm caras aterradoras. O sujeito sabia compor um clima nos seus quadros. Saturno, que é uma das mais conhecidas, é terrível, chega a dar um arrepio na gente, ver a representação que ele cria do deus que comia os próprios filhos. Os velhos são descarnados, cadavéricos, de órbitas quase vazias. Eu me encantei com Perro semihundido. É uma tela quase vazia, os tons de fogo e terra, e só um focinho canino aparecendo, muito assustado, mirando o vazio, sem entender coisa alguma. O cãozinho é a própria expressão do abandono diante do Nada, dá vontade de pegar o bichinho e trazer pra casa e garantir que nada, nunca mais, vai ameaçá-lo.
Mais pinturas. As do Renascimento têm cores vivas, brilhosas, a composição é rigorosamente geométrica, dá pra decupar as imagens em figuras como triângulos e losangos. Tudo é bacana, mas os tecidos me deixaram fascinada: brocados, cetins, véus transparentes, veludos, dobras. As cores, texturas, bordados, rendas, brilhos, tudo com absurda nitidez.
E quantos homens imponentes retratados, sisudos, arrogantes, cheios de soberba em suas capas, chapéus, espadas, poses. Deus me perdoe a impertinência, mas eu juro que eu ficava olhando aquelas figuras e imaginando como devia ser amá-los. E me dava um asco imediato. Eu não devo regular bem da cabeça.
Nas composições religiosas, muuuuito frequentes, diga-se, eu achava engraçado perceber que o menino jesus quase sempre apresentava uma proporção errada da cabeça com o corpo. A cabeça parecia menor do que devia ser pra um bebê daquela idade, quase como se ele fosse um mini-adulto. Procede isso? E que enorme quantidade de Sagradas Famílias. Um monte delas de Rafael. Mas eu fiquei com a impressão de que em todas elas, Maria era muito parecida, ainda que os outros personagens variassem (São José cada hora tinha uma cara diferente, ou Santa Ana, ou os bebês Jesus e João Batista, mas as feições de Maria eram sempre as mesmas). Pode ser que ele tenha usado a mesma modelo para o papel?
Por falar em Rafael, o que é aquele Cardeal? O cara salta pra fora da tela! O braço está nitidamente à frente do resto do corpo, parece que vai sair da moldura, é tridimensional aquilo. Tinha um desses alunos tentando fazer uma reprodução do cardeal, e eu via que o menino suava pra tentar dar vida ao rosto do eclesiástico, sem o menor sucesso. Aí a professora se aproximou e chamou a atenção para o detalhe da luz na ponta do nariz. Eu olhei, e não é que é mesmo? Nossa, dava pra escrever um texto inteiro só sobre esse quadro. Eu nem vou falar sobre o fato de ele apresentar a mesma composição da Mona Lisa, porque isso eu tinha lido antes, então não foi nenhuma sacação minha. Mas não é que é mesmo?
A Anunciação, de Fra Angelico. Eu AMO aqueles dourados meio bizantinos (é folhação a ouro mesmo!), a perspectiva ainda incipiente. Aliás, todas essas pinturas do século XIV, trípticos, retábulos, tudo monumental e dourado, eu acho lindo. Ainda apresentam os arcos orientais, bizantinos, e não os arcos plenos que voltarão hegemônicos com o Renascimento. Há uma espiritualidade, um misticismo nessas pinturas que eu acho que se retrai muito com toda a racionalidade renascentista. Deixei-me ficar um tempão respirando esse momento, até me dar conta que eu ainda tava no primeiro andar e era quase hora do almoço!
A seguir, vieram os flamencos. É outro traço, né? E fiquei reparando, são outros rostos, outras mãos e pés e olhos. Outras cores também. E montes de detalhinhos minúsculos, uma profusão de pequenos objetos e seres e elementos. Essa coisa da cor, eu fiquei pensando. Estamos no século XVI, XVII. Não dá pra ir ali na papelaria da esquina e comprar tubos de tintas de tudo que é cor, e pincéis de cerdas disso e daquilo, numerados por tamanho, e telas padronizadas. Devia haver poucos pigmentos, e dependendo do fornecedor, da escassez da matéria-prima, de um monte de fatores que eu nem sei enumerar, cada pintor devia conseguir fazer um azul, um vermelho diferente. Daí que, em regiões distintas, as cores predominantes nas telas também serão distintas. E vai da maestria do artista saber se virar com aqueles tons e tirar dele todas as nuances de cor e luminosidade.
O Triunfo da Morte, de Brueghel, é de cortar a respiração, doer as juntas dos dedos, e arrepiar os cabelinhos. Se a gente fica olhando muito praquilo, reparando nos detalhes de horror, perde até a fome, porque o sorriso já terá sido apagado há muito tempo. A Rowling deve ter posto uma imagem desse quadro na frente quando bolou os dementadores.
Já o Jardim das Delícias, de El Bosco, é como se fosse o reverso da mesma medalha. Mas você já escreveu muito melhor sobre esse quadro, lá na apostila de história da arte, do que eu poderia sonhar em fazer.
Já o Jardim das Delícias, de El Bosco, é como se fosse o reverso da mesma medalha. Mas você já escreveu muito melhor sobre esse quadro, lá na apostila de história da arte, do que eu poderia sonhar em fazer.
Nesse ponto, na minha caderneta, há uma anotação que eu já não sei se diz respeito a outros quadros do El Bosco, ou a outros quadros em geral que eu tava vendo nessa hora. Acho mais provável a segunda opção. A anotação diz que a Virgem está quase sempre de olhos baixos, recatados, raramente ela olha para a pessoa que está ali, vendo a imagem, isso me causou uma impressão.
... Vencida a primeira parte, semana que vem mostrarei o segundo andar do museu... seguimos juntos, sim? Até lá!
... Vencida a primeira parte, semana que vem mostrarei o segundo andar do museu... seguimos juntos, sim? Até lá!
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sexta-feira, 27 de maio de 2011
COLE PORTER E SEUS AMORES
Por Ana Laura Diniz
Cole Porter e seus amores. Nunca separo uma coisa da outra quando penso nele... ou o escuto. Talvez porque apesar de todos os conflitos existenciais intrínsecos à forma dele levar a vida, maior fosse a sua devoção à música, aos seus rapazes e à sua esposa, Linda - que de maneira completamente especial o acompanhou até morrer de câncer - evidenciando as possibilidades de relações que um ser humano pode ter e assumir, e de ser feliz.Havia ali, aparentemente ao menos, uma complexidade simples (por mais que às vezes, sofrida: afinal, sentimentos são propícios a isso).
Tudo, sem tirar nem por, fez de Cole Porter um artista completo, popular, mas nunca vulgar, tampouco banal. Seu senso de humor, único. Sua música é ainda nos dias de hoje convite à dança, à festa, à alegria – capaz de promover qualquer situação, incluindo também os romances.
Tudo, sem tirar nem por, fez de Cole Porter um artista completo, popular, mas nunca vulgar, tampouco banal. Seu senso de humor, único. Sua música é ainda nos dias de hoje convite à dança, à festa, à alegria – capaz de promover qualquer situação, incluindo também os romances.
Nascido em 09 de junho de 1891, em Indiana (EUA), desde criança foi obrigado pela mãe a estudar música. Rica e completamente obcecada, Kate Porter desejou transformar o filho em astro e conseguiu. Não mediu esforços para tanto: chegou a falsificar a certidão de nascimento dele para rotulá-lo de menino prodígio – aos 8 anos de idade, Porter seria então um magnífico pianista e violinista. Sua idade real? 12 anos, mas por ser magro demais, a todos convenciam.
Boêmio sem conserto, passou a vida usufruindo o que nela houve de melhor - luxo, fama e muitos prazeres – em plena Era do Jazz. Vida agitada entre o piano, os teatros, os muitos copos de champanhe e charutos. Tempo de Ernest Hemingway, James Joyce, Coco Chanel, Greta Garbo, Fred Astaire e do cubismo de Picasso.
Sua música, assim como as outras americanas, eram para o teatro repleto de musicais. Quando para o cinema, ainda mudo. Escrevia para a Broadway e vendia partituras, pois o piano tornara-se moda nas requintadas festas. Anos e mais anos sob a mesma batuta.
A partir dos idos de 50 é que sua música se popularizou na voz de intérpretes famosos. Cole Porter parecia ter asas: voava sem sair do chão. Não pertencia apenas ao teatro e ao cinema; estava em todos os lugares, nas ruas, na vida das pessoas.
A partir dos idos de 50 é que sua música se popularizou na voz de intérpretes famosos. Cole Porter parecia ter asas: voava sem sair do chão. Não pertencia apenas ao teatro e ao cinema; estava em todos os lugares, nas ruas, na vida das pessoas.
| Cena de De-Lovely |
Sua vastíssima criação inclui clássicos como 'Night and day', 'Beguin the beguine' (gravado por Gal Costa), 'My heart belongs to daddy', ''Anything Goes'', 'Don't fence me in', ''I've Got You Under My Skin'', 'Get Out Of Town' (gravado por Caetano Veloso), 'I Get a Kick Out of You', 'Just One of Those Things', 'What Is This Thing Called Love?', 'Love for Sale', 'I Love Paris', entre outros. Entre os musicais da Broadway, destacam-se 'The New Yorkers' (1930), 'Gay Divorce' (1932), 'Anything Goes' (1934), 'Jubilee' (1935), 'Kiss me Kate' (1948).
Em 1937, ao cair de um cavalo, sua vida mudaria. O acidente que lhe quebrou as pernas causaria dores agudas pelo resto da vida. Submetido a mais de 30 cirurgias, mesmo a um humor vacilante e por vezes deveras depressivo, continuou compondo. Com a perna direita, por fim, amputada em 1958, Porter – já sozinho (nesse meio tempo, Linda faleceu) – abandona a vida social, distancia-se inclusive dos amigos mais próximos e abraça a depressão. Em decorrência, não mais compõe e toca... transforma-se num alcóolatra e cai em decadência. Morre na solidão, em 15 de outubro de 1964, num hospital da Califórnia.
Mas como sempre, morre o artista, não a obra. E Cole Porter é referência de música de qualidade, amorosa e divertida.

Em 2004, foi lançado mundialmente o filme De-Lovely – Vida e amores de Cole Porter – que deve ser comprado, pois certamente você, caro(a) leitor(a), quererá ver e rever e rever... dada a produção de altíssimo nível, enredo e interpretações impecáveis.
E apesar de ser um tanto mais difícil de encontrar, é impossível não indicar também o CD feito por Carlos Rennó, “Canções Versões”, um trabalho de tradução também no plano musical com obras de Cole Porter e George Gershwin. O disco teve por objetivo transpor para uma linguagem de MPB moderna os elaborados clássicos dos dois gênios da música americana e mundial do passado. Cumpriu a missão, e ocupa lugar mais que especial em meu acervo musical. O álbum apresenta uma seleção de catorze músicas dos dois grandes compositores da era clássica da canção americana. Vertidas para o português, elas são interpretadas por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Elza Soares, Rita Lee, Tom Zé, Zélia Duncan, Cássia Eller, Sandra de Sá, Ed Motta, Paula Toller, Carlos Fernando, Jussara Silveira, Mônica Salmaso e Jane Duboc.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
CORRESPONDÊNCIA URBANA. QUE VALHA A LEMBRANÇA!
ANA LAURA DINIZ CONVERSA COM FLÁVIA RIZZO
![]() |
| Flávia por ela mesma: "Flávia Fernandes Rizzo Morking, 33 anos, administradora, funcionária pública, aluna de MBA - Gestão e Engenharia da Qualidade, mãe, esposa, e cansada (risos)" |
Oi, Flavinha,
Tudo bem?
Direto ao ponto: semana passada eu conversei com a Carla San sobre encontros e desencontros, você leu? Então pensei, pensei, e como um rio que deságua no mar... cheguei às lembranças que colecionamos... queiramos ou não...
Você já teve a sensação de pensar em alguém que já passou pela sua vida... alguém que foi importante de certa forma... mas a vida seguiu rumos diferentes... e a lembrança ser tão forte a ponto de bater a dúvida se aquela pessoa ainda pensa em você? Ou acontecer de pensar em alguém e a primeira coisa que lhe acontece no dia é ver ou receber uma mensagem da pessoa, coisa assim? Ou o contrário, rárá. De não querer ver alguém, e abrir a porta de casa e – pá! – dar de cara com a pessoa?
Você para pra pensar nessas coisas? O que acha que é isso? Que lugar na vida da gente é reservado às lembranças? E quando isso é bom ou ruim?
Acredita que uma lembrança - de alguma forma - possa motivar alguém a crescer, a superar desafios, a se conhecer e a se tornar uma pessoa melhor?
Aquela pergunta que rompe casório... (mui amiga eu, né?!)... mas já teve um grande amor... que na separação nunca mais teve notícias... e anos e mais anos depois, vez ou outra lembrasse dele? Do nada, pá, a lembrança, o rosto estampado na tela mental... Já teve dúvida de onde vinha aquilo ou se a pessoa estava pensando forte também em você? Saberia explicar porque isso acontece com as pessoas? Haverá uma forma de pesquisar isso? Ou só ligando pra saber? Existe fórmula mágica?
Tudo que é vivido se torna memória. Se pudesse elencar as cinco mais gostosas lembranças, quais seriam?
Você acredita em intuição? Acha que de alguma forma ela está atrelada à lembrança ou cada coisa é uma coisa?
Se pudesse escolher, que lembranças gostaria de deixar ao mundo?
Acredita em horóscopos, astrologia? Acha que as pessoas já nascem com lembranças? Será que lembranças da vida passada estariam atreladas àquelas situações em que vemos uma pessoa e de graça vamos com "o santo" dela. É ou não é? Tem gente que carrega a sensação exata de já ser nossa conhecida antiga... coisas da vida... aliás, a vida pra você, de que vale?
Clarice Lispector dissera uma vez: "Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."... As suas lembranças pesam? Se sim, quanto?
Beijos,beijos,
Ana Laura
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![]() |
| Flávia: "quero ser lembrada como quem fez coisas boas" |
Oi Ana,
Tudo bem?
Eu li a Correspondência da semana passada, eu amo a Carlota.
E sabe, muitas vezes eu já me peguei pensando, e recordando os bons momentos que tive com pessoas que hoje não fazem mais parte do meu círculo de amigos. Muitos eu reencontrei no Orkut ou Facebook, mas tem alguns que nunca mais vi. E sim, sim, já me fiz essa pergunta muitas vezes: “será que fulano(a) pensa em mim do mesmo modo que ainda penso nele(a)?”
Eu tenho um contato direto com Deus, e se sinto muito a saudade de alguém eu sonho com essa pessoa. Sempre foi assim, sempre fui abençoada com esse dom, que julgo ser uma benção mesmo.
Felizmente, podemos ir onde quisermos com a força de nosso pensamento. Às vezes, sinto um cheiro que sentia quando era adolescente, ou criança e me vem toda a lembrança daquela época, ou de algum dia especial. As lembranças se tornam nítidas e fortes, e pra mim isso é sempre bom.
Não gosto de me sentir assim só quando estou triste, porque acho que lembranças nos entristecem se não estamos bem com o presente... daí vamos querer que o tempo volte, e não dá... e naturalmente nos sentimos frustrados.
Mas também acredito que lembranças podem promover crescimento nas pessoas, pois elas têm a necessidade de se sentirem motivadas o tempo todo para que consigam subir os degraus colocados pela vida ao longo de nossa trajetória. Não importa de onde venha a motivação, ela é sempre bem-vinda. Se vier de uma lembrança antiga, de algo já vivido, melhor ainda, pois assim podemos saborear as boas sensações novamente.
Sempre relembro dos meus ex-amores com carinho. Eles fizeram parte da minha vida e sempre farão. Lembro dos cheiros, dos toques, do tipo de carinho, enfim, lembro de tudo com requinte de detalhes, mas já joguei fora os bilhetes de amor que guardava - hahaha - esses sim, são motivos de rompimento de casório – hahahaha. No mais, não consigo saber se, quando penso num ex-amor ele está pensando ou lembrando de mim. Gostaria de crer que sim, que ele estava pensando em mim na mesma hora, se lembrando dos bons momentos, mas não sei se isso acontece... preciso pesquisar uma fórmula mágica pra saber se alguém pensa em mim quando penso nesse alguém, oras – hahaha. Mas como perdi o contato com quase todos, acredito não ter como resolver esse mistério.
Seja como for, eu acho que as coisas sempre acontecem quando elas devem acontecer. Pode ter sido por imaturidade, por ciúmes excessivo, por uma vida monótona, mas com todos eles eu aprendi muita coisa. Acabei com o coração tranquilo, conhecendo meu marido pela internet e já vamos fazer sete anos de casados. Então o que foi, foi... e o que ficou é o que importa pra mim hoje. Até que o presente seja passado, ele será vivido intensa e inteiramente. Assim quando se tornar lembrança, será uma lembrança inesquecível.
Como a do banho de chuva, chocolate liverpoll, empanada de escarola com linguiça, esfira quentinha de carne e o perfume ravena da Natura... penso muito em comida, né? ... perfumes e comida, meus preferidos...
Da mesma forma que tenho lembranças também prezo as intuições. Mas acredito que elas estejam relacionadas aos eventos que acontecerão, não estão presas ou vinculas às lembranças.
Se pudesse escolher, gostaria de ser lembrada sempre como quem fez coisas boas, pois, como não fui santa, preferia que as pessoas deixassem as más lembranças de lado... o mundo fica mais colorido assim (risos). Porque o “não ser santa”, sabe... é não ser uma pessoa que só faz o bem. Sou escorpiana, com ascendente em touro, e serpente no horóscopo chinês... daí que sou vingativa, muito encrenqueira, briguenta... isso não é legal, né?
As pessoas são únicas, porém já nascem carregando algumas características dos seus signos, isso é fato. Não creio que as pessoas já nasçam com lembranças... Não... acredito que elas tenham apenas características que vieram do seu signo, mas isso não seriam lembranças de vidas passadas... ou seriam? Acho que não, as lembranças que aparecem ao longo dos anos, mesmo as de vidas passadas, não definem as características da pessoa, apenas as faz refletir.
Situações como aquelas em que temos a sensação de já conhecer alguém que acabamos de ser apresentados talvez estejam relacionadas às vidas passadas, lembranças passadas... não às características da pessoa... nisso eu creio.
Pra mim a vida é só sentimento... amizade, amor, compaixão, carinho, afago, afeto... depois que fui mãe, a vida ficou bem mais cor-de-rosa e os sentimentos bem mais aflorados, então pra mim hoje, a vida é só sentimento.
Em termos gerais, acho que a minha vida hoje carrega uns 30% de lembrança... sou muito mais presente do que passado... De repente, quando eu for bem velhinha, mudarei esse valor, mas ainda vivo muito o presente. Minhas lembranças pesam sim, mas ainda é um fardo leve de ser carregado.
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