quarta-feira, 21 de setembro de 2011

PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W

Globos terrestres pintados por celebridades mundiais alertam para o aquecimento global




Mini Cool GlobesDe 22 de setembro a 9 de outubro, uma mostra inédita reunindo artes plásticas e sustentabilidade terá lugar no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. É a exposição "Mini Cool Globes", que apresenta 35 globos terrestres pintados por artistas, estudantes, designers e personalidades de diferentes áreas com o intuito de sensibilizar e conscientizar as pessoas para o tema do aquecimento global. A mostra faz parte do movimento “Cool Globes: Hot Ideas for a Cooler Planet”, criado em 2005.

Os atores Tom Hanks e Robert Redford, os músicos BB King e Elvis Costello e o político Al Gore, entre outros, já deixaram suas assinaturas em globos que poderão ser vistos pelos visitantes do Jardim Botânico. Na versão carioca, além de 15 globos vindos do exterior, outros oito foram pintados por um time de personalidades brasileiras entre artistas, estilistas, atletas e ambientalistas. E mais 12 globos representarão escolas públicas e particulares do Rio, pintados por grupos de alunos. A consultoria é do designer Felipe Taborda.

A exposição Mini Cool Globes acontecerá no Centro de Visitantes do Jardim Botânico, das 9h às 17h, com entrada franca. Acesso pela R. Jardim Botânico, 1008.
Realização da Brasil 1 com patrocínio da Light e da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, através de Lei de Incentivo à Cultura, e o apoio do JBRJ e da Associação de Amigos do Jardim Botânico.



Orquídeas na Primavera , 25º edição


A exposição Orquídeas na Primavera terá sua 25ºedição em 23, 24 e 25 de setembro, no Orquidário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Serão quase cinco mil flores das mais variadas formas e cores para deslumbrar o público durante todo o horário de visitação do Jardim – das 8h às 17h.

Na Ilha Central do Orquidário estarão expostas as orquídeas premiadas, escolhidas por um júri de especialistas. O julgamento ocorre na noite anterior à inauguração e elege as três melhores plantas de mais de 70 categorias. Mas o público também pode votar e escolher o stand que achar mais bonito. Participam 14 orquidários, do Rio e de São Paulo. O vencedor levará um prêmio confeccionado pelo designer de joias Antonio Bernardo, patrocinador do Orquidário e realizador da exposição.

A 25º Orquídeas na Primavera também homenageará um dos maiores orquidófilos do país, Rolf Altenburg, pioneiro na hibridação dessas flores no Brasil. A mostra será ainda acompanhada por palestras, oficinas, workshop e uma atração infantil, sem falar na venda das plantas nos quiosques, em frente ao Orquidário.

Programação:
Dias 23 (sexta) e 24 (sábado)
Visitação monitorada - 8h30, 9h
Workshop de cultivo - 10h, 12h, 14h
Teatro infantil – 11h
Oficina de Origami – 15h

Dia 25/09 - domingo
Visitação monitorada 8h30, 9h
Curso básico de cultivo de orquídeas – Valor : R$ 70,00 - custo do material didático à parte.
1ª parte – 9h30 às 12h
2ª parte - 13h30 às 16h30
Teatro infantil – 11h
Oficina de Origami – 15h


Inscrições abertas para o curso “Saberes e Sabores das Plantas Medicinais”

Voltado para os interessados em alimentação saudável, o curso acontecerá entre os dias 3 de outubro e 9 de novembro. As aulas serão ministradas por Yara Lúcia Oliveira, bióloga, especialista em fisiologia vegetal, responsável técnica da Coleção de Plantas Medicinais do JBRJ, e Inês Braconnot, chef de gastronomia vegetariana crudívora e autora do blog “O diário de uma Krud”.

As inscrições podem ser feitas na Associação de Amigos do Jardim Botânico. O custo é de R$ 250,00, mais taxa de material de R$ 30,00. As aulas serão as segundas, quartas e sextas-feiras, das 14h às 17h, na Coleção Temática de Plantas Medicinais.

Mais informações pelos telefones 2294-6590 e 2239-9742.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

QUITANDA DA VIDA XLIV

Telinha Cavalcanti

Preguiça pura, nenhuma vontade de comer comida de verdade. Onde eu vou parar? No patezinho com torrada e um suquinho. Bom para enganar a fome, dividir com amigas, deixar na geladeira pro lanchinho da meia noite.

Patê de cebola

1 cebola pequena picada
1 pote de cream cheese
1 pitada de sal
1 pitada de pimenta

bata tudo no processador de alimentos. Se quiser, acrescente uma pitada de orégano

Patê de frango defumado


um pote de cream cheese
200 gr de frango defumado desfiado

bata os dois no processador de alimentos. Se precisar, corrija o sal e coloque uma pitadinha de pimenta moída na hora

Pastinha de queijo

1/2 xícara de queijo ralado
1 colher bem cheia de maionese

misture os dois. Funciona bem melhor se o queijo não for o parmesão, e sim outro queijo duro, pois aí o pessoal se surpreende. Jà vi grana padano ralado e é o máximo! Se quiser, pode trocar a maionese por cream cheese, que dá mais sustança :)

Patê de atum

1 lata de atum em óleo - ralado - bem escorrida
2 colheres de maionese bem cheias
1 colher de sopa de cenoura ralada
1 colher de sopa de azeitona picadinha

misturou tudo? tá pronto.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Que a brisa do Brasil beija e balança






Passou o dia da Independência e eu me lembrei das paradas a que todas as crianças dos vizinhos assistiam e algumas até imitavam, das quais eu nem queria ouvir falar. Achava até bonitas algumas daquelas marchas militares e o auriverde-pendão-da-minha-terra, mas isso não seria suficiente para ficar lá no sol a pino, olhando aquele interminável desfile de sujeitos assustadores, de cara fechada, batendo os pés no chão, vestidos com uma roupa que me parecia de cimento-armado.
A bandeira me comovia de qualquer mastro onde a pendurassem. Dava o vento e ela ondulava, ficava flexível, me parecia doce, e não sei por que na minha cabeça a imagem ficou ligada ao mar de Caymmi.
Minha bandeira nunca foi propriamente só símbolo da pátria. Mais pra símbolo da mátria, minha bandeira ficou feita de retalhos da infância, adolesceu e amadureceu comigo, começa a esgarçar e a cada fase de minha vida vai ficando mais parecida com uma obra de Bispo do Rosário. Nela cabem todas as vidas e todas as mortes, bandeira inclusiva, com muito mais cores que as tradicionais. Tem franjas no losango, estrelas profundas no círculo azul que sorri no centro com um fio de pérolas, remendos de lamê do carnaval e chita de um bumba-meu-boi. O retângulo verde está todo brotado de orvalho, cristal e flores coloridas.
Minha bandeira dança de liberdade em ritmos marcados por atabaques, canções caboclas, violões de bossa-nova, buzinas enlouquecidas. E às vezes emudece durante um minuto diante do mundo em guerras desvairadas, da insensibilidade das pessoas, da crueldade de que é capaz o ser humano. Mas logo volta a tremular e se colorir do apesar-de-tudo em que a gente ainda vive nesta terra.

domingo, 18 de setembro de 2011

CARTA ANÔNIMA

Para se ler ao som de Melodia Sentimental, de Villa-Lobos cantada por Olívia Byington



Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.

Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam?

Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.

Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.

Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.


Caio Fernando Abreu
O Estado de S. Paulo, 16/03/88
Pequenas epifanias

sábado, 17 de setembro de 2011

FREDZILA - TAKUSHII NI NORITARI DESU!

Carlos Frederico Abreu

Takushii ni noritari desu, ou "vou de táxi"!

Segui de táxi com mais dois conhecidos até o prédio só de material esportivo da Mizuno, sete andares no centro de Shinjuku, um andar para cada modalidade.

Andar de táxi em Tóquio é tranqüilo e desmistifica aquela idéia de que é um absurdo de caro.

Os motoristas usam luvas, terno, gravata e quepe.
Arriscam no inglês e se desdobram em mesuras e gentilezas.


A bandeirada em Tóquio é de 700 ienes, e uma corrida de 15 minutos saiu por 1200 ienes.
Eu sei que para o japonês médio não é um preço acessível, principalmente frente ao metrô, cujo bilhete mínimo custa 160 ienes.




Os carros, porém, não são lá estas brastemps todas.
São pesadões, ultrapassados, em comum são todos cafonas (com paninhos bordados e decorados com lacinhos) e as portas são automáticas. Você não deve tentar abrir ou fechar, pede um aviso.


Algumas fotos de táxis de diversas cidades.




Quando estávamos indo para o prédio da Mizuno, uma das pessoas que estava comigo conversava em japonês com o motorista.

Como de praxe, quando estranhos se encontram, o motorista iniciou a apresentação, disse seu nome e onde nasceu. Assim cada qual foi se apresentando.

-Fulana de tal, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil.
E o motorista: - Huhmmm.

-Fulaninho de tal, Goiânia, Goiás, Brasil.
E o motorista sem tirar os olhos do caminho: - Huhmm

- Carlos Frederico, Rio de Janeiro, Brasil.
Ai o motorista se vira pra mim, abre um enorme sorriso e diz: - Carnivaro, né?

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

ROMEU E JULIETA POR ANNIE LEIBOVITZ

Telinha Cavalcanti

Em novembro de 2008, a revista Vogue publicou este ensaio dos amantes de Verona pela fotógrafa Annie Leibovitz. A modelo Coco Rocha é Julieta, e o bailarino Roberto Bolle é Romeu.

Clique nas imagens para que elas cresçam - e sonhe.


ROMEU - Ah! ela ensina as tochas a brilhar! Parece estar suspensa na face da noite, tal qual jóia rara na orelha de uma etíope; beleza incalculável, cara demais para ser usada, por demais preciosa para uso terreno!
Ato I, cena 5

 AMA - Seu nome é Romeu, e é um Montéquio: filho único de seu grande inimigo.
JULIETA - Meu único amor, nascido de meu único ódio! Cedo demais o vi, ignorando-lhe o nome, e tarde demais fiquei sabendo quem é. Monstruoso para mim é o nascedouro desse amor, que me faz amar tão odiado inimigo!
Ato I, cena 5


JULIETA - Três palavrinhas, meu querido Romeu, e depois boa noite. Se a tua inclinação amorosa for honrada, se for tua intenção o casamento, manda-me um recado amanhã, pela pessoa que enviarei ao teu encontro.
Ato II, cena 2


FREI LOURENÇO - Estes prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que ao se beijarem, se consomem.
Ato II, cena 6


ROMEU - O negro desfecho deste dia depende de outros dias. O dia de hoje apenas inaugura a desgraça que outros dias devem dar por finda.
Ato III, cena 1


FREI LOURENÇO - Seque suas lágrimas e cubra de rosmaninho esse belo cadáver e, como é de costume, traga-a até a igreja vestida vestida em suas melhores roupas. Embora nossa tola natureza nos leve a deseseperar, as lágrimas, que são naturais nos momentos de dor, fazem rir a razão.
Ato IV, cena 5


PRÍNCIPE — Melancólica paz nos traz esta manhã. O sol, de luto, não se mostrará. Embora daqui, vão, e conversem mais sobre esses tristes fatos. Alguns serão perdoados, e outros, punidos, pois jamais houve história mais dolorosa que esta de Julieta e seu Romeu.
Ato V, cena 3


Reconheceu o ator John Lithgow como Frei Lourenço?


Annie Leibovitz fotografou quase todas as grandes personagens do fim do século passado - e as deste século também. Celebridades, cantores, atores, escritores. Você pode não reconhecer o nome dela, mas vai reconhecer as fotos: John Lennon pelado, abraçado com Yoko Ono. Bruce Springsteen (a bunda dele, pelo menos) na capa do disco Born in the USA. Demi Moore grávida e nua na capa da Vanity Fair. Pois é, são fotos da Annie Leibovitz.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

CACHORROS NA RUA: E EU COM ISSO?

Paula Clarice Grazziotin de Jesus

Você está dirigindo pela cidade e um cachorro atravessa a rua. Você vê se consegue frear para evitar o atropelamento, pragueja e segue a vida. Essa cena poderia se passar em qualquer cidade. Eu nem sei onde você mora, mas aposto que ela acontece todos os dias na sua cidade. Você, que me lê, sabe do que estou falando. Se não foi no trânsito, foi algum cachorro que revirou lixo na calçada da tua casa, ou foi um gato que fez xixi na areia do parquinho onde seu filho brinca. 

A gente convive com cães e gatos de rua, eles são parte da nossa vida. Mas são uma parte tão insignificante que dá para lidar com ela só assim: a gente xinga e segue a vida. Alguém devia fazer alguma coisa...
Porque cada animal solto na cidade representa potencialmente uma série de doenças perigosas para o ser humano – e que se tornam mais graves ainda no contexto precário da educação e saúde do Brasil – zoonoses, verminoses, parasitoses e mais um monte de –oses

E fica ainda mais complexo se a gente pensar que eles se reproduzem e uma cadelinha solta hoje equivale a dezenas de novos cachorros de rua em um período muito curto. Mais doenças, mais risco para a saúde humana. E de quem é a responsabilidade?

Por se tratar de uma questão de saúde pública, o poder público em geral tem órgãos ligados às secretarias de saúde que controlam as zoonoses e gerenciam a população de animais não domiciliados. Mas é a saúde pública, é uma realidade que a gente conhece bem, e a questão dos cães e gatos de rua está longe de ser prioridade. Pense: diante da qualidade dos hospitais do nosso país, qual será a condição de vida dos animais nos abrigos públicos? 

Daí surgem as entidades de proteção aos animais, que são a sociedade civil organizada para tentar contornar este problema – que atinge humanos, animais, o baile todo.

 Protetores dos animais: essa gente que gosta de bicho

Quando se fala em associação protetora dos animais, nosso senso comum logo pensa na moça boazinha que recolhe vira-latas da rua. Não é bem por aí. O principal trabalho destas entidades é para diminuir a população de gatos e cachorros de rua da cidade. Bem além de recolher animais machucados (que também é um trabalho feito por eles e muito lindo), os protetores trabalham para a educação da população. Afinal, são as pessoas que soltam os animais nas ruas, pelos mais variados motivos, e que mantêm seus cães e gatos  não castrados em regime semidomiciliado (ou seja, com liberdade para sair e se reproduzir). Educando as pessoas, podemos encolher esta população de animais de ruas em um período de poucos anos. E aí, quanto menos cachorros, menos cachorros.

O que eu posso fazer?

Apesar de ainda haver muita desinformação sobre este problema dos animais de rua, também existem pessoas com grande conhecimento da causa que mesmo assim não se sentem capazes de ajudar a solucioná-lo. Isso está ligado à ideia da moça boazinha, ou seja, ao nosso preconceito de que, para ser parte da solução, devemos abrir espaço em nossas casas para acolher animais de rua, oferecer tratamento. É muita responsabilidade! Mas existem algumas ações bem menos impactantes no seu cotidiano que podem fazer alguma diferença e é sobre elas que quero falar. 

A principal delas é a posse responsável: se você tem um animal de estimação, deve providenciar a castração (pode-se conseguir este procedimento de graça informe-se na sua cidade) ou então mantê-lo em casa para que não se reproduza na rua. 

Se você ainda não tem animal de estimação e pretende comprar ou adotar, procure o máximo de informações sobre as características dele, pondere se está disposto a dar todos os cuidados e adaptar-se a um animal em sua rotina. Pets dão muito trabalho, apesar de serem fofos e amorosos, e às vezes não estamos preparados para recebê-los em nossas vidas naquele momento.

Mas, se você se sentir à vontade, em vez de comprar, adote um animal resgatado pelos protetores. Você estará dando uma chance de ser feliz a um bichinho que, como vimos, é tão vítima deste abandono quanto todos nós. E não tem culpa nenhuma. E se for vira-lata ainda é peça única, pensa bem? Um cachorro exclusivo.

Eu e o Nestor, nosso cachorro exclusivo (em momento Felícia)

Além disso, você pode ser um apoiador do trabalho das entidades de muitas maneiras, mesmo sem acolher um animal em casa: divulgando informações; alertando as pessoas do seu bairro, da sua família e os amigos da internet sobre a questão da posse responsável; denunciando os casos maus tratos a animais (é crime, sabia?); fazendo doações em dinheiro ou produtos animais como ração; se envolvendo em ações de reivindicação junto ao poder público; e até ajudando nas questões operacionais da entidade (como a organização das feiras de doação de animais resgatados).
 
***

Então quando você vir um cachorro atrapalhando o trânsito, em vez de xingar ou nada, apenas pense por um momento. Refletir sobre as coisas que consideramos banais sempre vale a pena.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O NOVO HINO DE PERNAMBUCO?

Telinha Cavalcanti

Lançada por Lenine em 1993, a música Leão do Norte se tornou um hino informal de Pernambuco. Cheia de referências à cultura do Estado, a música é uma aula cantada das belezas da minha terra :)






Leão do Norte
(Lenine e Paulo César Pinheiro)

No coração do folclore nordestino
Eu sou Mateus e Bastião do Boi Bumbá
Sou um boneco do Mestre Vitalino
Dançando uma ciranda em Itamaracá
Eu sou um verso de Carlos Pena Filho
Num frevo de Capiba
Ao som da Orquestra Armorial
Sou Capibaribe
Num livro de João Cabral


Sou mamulengo de São Bento do Una
Vindo no baque solto de Maracatu
Eu sou um auto de Ariano Suassuna
No meio da Feira de Caruaru
Sou Frei Caneca do Pastoril do Faceta
Levando a Flor da Lira prá Nova Jerusalém
Sou Luiz Gonzaga
E sou do mangue também

Eu sou mameluco, sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco, eu sou o Leão do Norte

Sou Macambira de Joaquim Cardozo
Banda de Pife no meio do canavial
Na Noite dos Tambores Silenciosos
Sou a calunga revelando o carnaval
Sou a folia que desce lá de Olinda
O Homem da Meia-Noite eu sou puxando esse cordão
Sou jangadeiro na festa de Jaboatão


Explicando a letra


No coração do folclore nordestino – O primeiro verso da letra de Paulo César Pinheiro já anuncia que a música cantará as manifestações culturais mais autênticas que pulsam no coração da região, onde nasceu o compositor Lenine.

Eu sou Mateus e Bastião do Boi Bumbá – Conhecido também como bumba-meu-boi, este folguedo foi considerado pelo teatrólogo Hemilio Borba Filho como mais puro dos espetáculos populares nordestinos. É um auto ou drama pastoril que tem como mote a morte e a ressurreição do boi, figura feita de pano, com armação de madeira, carregada por uma ou duas pessoas. Presepeiro, Mateus namora com a negra Catirina. Bastião é o filho do capitão boca-mole, mestre do folguedo.

Sou um boneco de mestre Vitalino – Vitalino Pereira dos Santos (10/07/1909-20/01/63) é considerado o maior ceramista, filho de um agricultor e de uma artesã de peças utilitárias de barro, desde menino começou a fazer figuras de barro representando a cultura nordestina e seus folguedos. Influenciou toda a comunidade do Alto do Moura, onde morava, transformando Caruaru no maior centro de arte figurativa da América, segundo a Unesco.

Dançando uma ciranda em Itamaracá – Dança de roda praieira, a ciranda tem suas raízes portuguesas, mas desenvolveu-se, segundo alguns estudiosos, na região de Goiana e teve o seu auge de popularidade nos anos 70. Na Ilha de Itamaracá mora uma das cirandeiras mais famosas, a Lia, citada em versos de canções.

Eu sou um verso de Carlos Pena Filho - Carlos Pena Filho era conhecido como “O Poeta Azul”.
Nascido em 1929 e morto em 1960, num acidente automobilístico, deixou entre suas obras mais importantes, O Livro Geral e Memórias do Boi Serapião.

Num frevo de Capiba - Autor de mais de 200 canções, o grande nome do frevo pernambucano também compôs músicas em vários gêneros, do samba à música erudita. Entre os seus sucessos, estão "Maria Betânia" (canção consagrada por Nelson Gonçalves); "A Mesma Rosa Amarela" (samba); "Serenata Suburbana" (guarânia); "Verde Mar de Navegar" (maracatu) e vários outros. Foi parceiro dos poetas Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes e, "Trem de Ferro" e "Soneto de Fidelidade". Alguns de seus frevos de maior sucesso são "Madeira que Cupim não Rói", "Cala a Boca Menino"," Oh, Bela" e "De Chapéu de Sol Aberto."

Ao som da Orquestra Armorial –  A Orquestra Armorial de Câmara foi fundada no início dos anos 60, pelo maestro Cussy de Almeida, sob a inspiração do Movimento Armorial, idealizado e liderado pelo romancista, dramaturgo e ex-secretário estadual de Cultura, Ariano Suassuna. Propunha-se a fazer uma arte brasileira erudita de raízes populares. Na música, valoriza o som áspero de instrumentos como a rabeca, a viola sertaneja e o berimbau, em conjunção com as harmonias ibéricas.

Sou Capibaribe / Num Livro de João Cabral – O pernambucano João Cabral de Melo Neto dedicou vários poemas e mesmo livros ao rio que corta a Zona da Mata e desemboca no Atlântico, serpenteando o Recife. Entre os livros que tratam do Capibaribe estão O Cão Sem Plumas, O Rio ou A Relação da Viagem que faz o Capibaribe do Recife, Morte e vida Severina.

Sou mamulengo de São Bento do Una
Mamulengo é o teatro dos bonecos ou de títeres, que começou com caráter religioso. Profanou-se. Acompanha-se de uma pequena orquestra. Alguns grupos utilizam personagens do bumba-meu-boi, como o Mateus, o Bastião e a Catirina. O enredo é jocoso e picaresco, mas os desfechos normalmente são moralizantes. Em Olinda, há um Museu de Mamulengo, no Espaço Tiridá, do grupo Só Riso. São Bento do Una é a cidade natal do cantor Alceu Valença.

Vindo num baque solto de Maracatu - O maracatu é uma das maiores expressões culturais de Pernambuco e está dividido em dois grupos: O Maracatu de Baque Virado ou Nação, é um cortejo afrobrasileiro de descendência nagô e evoca a coroação do Rei do Congo. Suas figuras principais são o rei, a rainha, toda a sua corte, com embaixadores, ministro e demais figuras; as baianas, as damas-de-passo, lanceiros e batuqueiros. O Maracatu de Baque Solto ou Rural é uma espécie de fusão de vários folguedos, surgido na Zona da Mata pernambucana. Sem reis nem rainhas, sua figura central são os caboclos de lança que usam cabeleira de papel celofone, cobrindo o chapéu de palha, rosto pintado, camisa e calça de chitão e carregam o surrão, armadura de madeira onde são presos os chocalhos. A dança do baque solto é em círculos e acelerada, num ritmo rápido ao som dos chocalhos.

Eu sou um auto de Ariano Suassuna -
O auto é a forma teatral originária na Comédia dell´Arte medieval. Suassuna consagrou-se internacionalmente com a peça o Auto da Compadecida, escrita em 1955. Neste texto, destacam-se personagens como o esperto e traquino João Grilo e a presença de um Cristo Negro.

No meio da Feira de Caruaru – A feira de Caruaru tornou-se a mais famosa do Nordeste, pela sua variedade de ofertas, informalidade e a grande quantidade de artigos de artesanato popular à venda, entre os quais os bonecos de barro de Vitalino e seus herdeiros.

Sou Frei Caneca  -
Sacerdote, jornalista e político, frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, Caneca (1779-1825) foi um dos revolucionários de 1817 e um dos mártires da Confederação do Equador. Morreu fuzilado em frente ao Forte de Cinco Pontas.

no Pastoril do Faceta - O pastoril é um auto de Natal de origem religiosa, mas também profanado com o passar do tempo. Tem dois cordões rivais, formados por mulheres: o azul e o encarnado. A Diana ou Borboleta é a mediadora. Elas cantam, dançam e se desafiam. O velho é quem comanda o pastoril, com suas anedotas, pilhérias com o público e suas canções de duplo sentido. Faceta foi um dos seus maiores mestres.

Levando a Flor da Lira - O bloco misto Flor da Lira é uma das antigas agremiações carnavalesca de Pernambuco. Foi fundado em 1920 e desfila até hoje.

para Nova Jerusalém – Nova Jerusalém, o teatro monumental ao ar livre de Fazenda Nova, Agreste do Estado, onde é realizada a Paixão de Cristo, durante a Semana Santa.

Sou Luiz Gonzaga 
O sanfoneiro Luiz Gonzaga (*13/12/1912 + 02/08/1989), o Rei do Baião, natural de Exu, é o maior nome da música popular nordestina. Autor de clássicos como Asa Branca, Assum Preto, O Xote das Meninas, O Cheiro da Carolina, entre outros.

E eu sou do Mangue também - Manguebeat ou Manguebit -Movimento musical surgido na cidade de Recife, no começo dos anos 90, quando bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A decidiram misturar a música pop internacional de ponta (o rap, as várias vertentes eletrônicas e o rock neopsicodélico inglês) aos gêneros tradicionais da música de Pernambuco (maracatu, coco, ciranda, caboclinho etc.).

Eu sou Mameluco -   mestiço resultante do cruzamento de índios com brancos. 

Sou de Casa Forte  Casa Forte é um dos bairros mais tradicionais do Recife, onde ficava o engenho homônimo de Ana Paes, que ajudou na campanha da expulsão holandesa. 

Sou de Pernambuco, eu sou o Leão do Norte - Pernambuco é conhecido como Leão do Norte por sua história de lutas libertárias, como a Batalha dos Guararapes, as revoluções dos Mascates, Praieira e de 1817, além da Confederação do Equador, e mais, recentemente, na redemocratização do país. A origem vem do brasão das armas do donatário Duarte Coelho Pereira, no século XVI, no qual figurava em sua heráldica a estampa altiva de um leão.

Sou Macambira de Joaquim Cardozo
Refere-se à peça Coronel de Macambira (1963), do poeta e engenheiro pernambucano Joaquim Cardozo, responsável pelo cálculo estrutural da Pampulha (MG) e de Brasília. É um auto baseado no bumba-meu-boi e o capitão, mestre do cavalo-marinho, foi inspirado no chefe do bando de cangaceiros do Morro, na Paraíba, Chico Fulô, que havia trabalhado para ele, quando demarcava terras devolutas da União em território dos cablocos descendentes dos aimorés, onde havia canavial, nos idos de 40.

Banda de Pife no meio do canavial - A banda de pife ou pífano é um conjunto musical tradicional, formado por pife, pífano ou pífaro, espécie de flautim de madeira com som agudo e estridente e ainda por zabumba, triângulos e às vezes sanfona ou pandeiro. Toca geralmente forró. Um dos grupos mais conhecidos é a Banda de Pífanos de Caruaru, de Biu do Pife.

Na noite dos tambores silenciosos -
Um dos mais solenes e belos momentos do carnaval pernambucano, a Noite dos Tambores Silenciosos acontece sempre na segunda-feira, em frente à Igreja do Pátio do Terço, no bairro de São José. A partir das 23 horas, reúnem-se os maracatus de tradição de baque virado ou nação, que reverenciam Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, a quem são tiradas as loas.

Sou a Calunga revelando o carnaval – A calunga é a boneca de pano, madeira ou plásticos vestida de baiana, que encarna a divindade dos orixás, recebendo em sua cabeça os axés e a veneração da corte e seus vassalos.

Sou a folia que desce lá de Olinda / O Homem da Meia-Noite / Eu sou puxando este cordão – Quem é folião sabe o que é subir e descer as ladeiras de Olinda, ao som do frevo, maracatu, afoxé e até mesmo o samba, seguindo as mais variadas agremiações que confluem para a cidade. O Homem da Meia Noite é o mais antigo e famoso boneco gigante que desfila na Marim dos Caetés. Foi fundado em 1932. Quando sai, na meia-noite de Sábado, o boneco puxa o cordão formado pela multidão.

Sou Jangadeiro / Na festa de Jaboatão – Os versos finais da letra de Leão do Norte são uma alusão à famosa Festa da Pitomba, realizada em abril, em homenagem à padroeira Nossa Senhora dos Prazeres, e aos jangadeiros de Piedade, Candeias e Barra de Jangada, seus primeiros devotos.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

QUITANDA DA VIDA XLIII

Telinha Cavalcanti

"Na dúvida, asse e sirva com batatas!"
Esse é um ditado que Amado Marido aprendeu com a mãe dele :D
É uma boa dica e uma sugestão para aqueles dias que a gente não sabe o que fazer na cozinha...

Então, que tal umas batatas gratinadas para servir com o que quer que você resolva assar para o almoço de domingo?

Batatas Gratinadas

Ingredientes
4 batatas inglesas
1 caixinha de creme de leite
1 pote de requeijão
2 dentes de alho esmagados ou uma colher de chá (bem cheia) de alho já picadinho
queijo prato
sal
pimenta para moer



Como fazer

Corte as batatas em fatias grossas, mais ou menos 1/2 centímetro.
Coloque dentro de uma panela com água, reserve.
Misture o creme de leite, o requeijão, o sal, o alho e a pimenta. Reserve.
Unte uma forma refratária. Aproveite e coloque o forno para aquecer, em temperatura média.
Escorra a batata crua e enxugue bem enxutinho.
Faça camadas de batata e creme, com cuidado para não empilhar muito as fatias, afinal todas elas devem cozinhar corretamente.
Se quiser, coloque queijo por cima, leve ao forno médio até dourar - antes de servir, espete um garfo e confime que elas estão no ponto certo.

Para sofisticar o prato, mude o queijo, jogue uns galhinhos de tomilho, solte a imaginação :)


imagem: blog Heat and Knives

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma história de amor e guerra suja

Por Dade Amorim



Laura Restrepo. Heróis demais. Trad. Ernani Ssó. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

O nome de Laura Restrepo para mim é uma evocação do romance Delírio, primeira obra que conheci da autora e que me impressionou pela fluidez do texto, pela intensidade dos sentimentos, versatilidade e certo calor humano que a torna irresistível, desses livros que a gente não consegue largar até o final.
Durante a Flip deste ano, Laura e Héctor Abda formaram uma dupla irresistivemente simpática e deram aos espectadores a oportunidade de presenciar e quase participar da conversa deliciosa entre dois amigos de grandes afinidades. A comunicação parece ser o forte dos dois autores, e sua amizade era tão evidente que chegava a contagiar a plateia.
Aproveitei o aniversário para pedir alguns livros aos filhos, que já conhecem meu ponto fraco, e entre outros ganhei Heróis demais, um dos alvos do debate entre ela e Abda.
Laura, que é colombiana, tem sido militante política desde alguns anos. O romance fala desse assunto, enquanto narra a história encantadora do amor entre dois ativistas, uma jornalista e escritora colombiana e um argentino trotskista, que lutam contra o autoritarismo. O que me atrai mais nos textos da Restrepo é um misto de realismo e ingenuidade, dessa vez envolvendo um filho adolescente dos protagonistas, ora separados, entre os quais, ao menos de parte dela, ainda existe um sentimento bastante forte.
A interferência da atividade política no relacionamento de Lorenza e Ramón fica bem caracterizada desde o início, e a narrativa segue esse percurso enquanto ela trata de esclarecer alguns pontos que permanecem obscuros para Mateo, o filho, que deseja intensamente reencontrar o pai, do qual se viu separado ainda criança, doze anos atrás. Mateo não foi mordido pelo micróbio da política, mas tem uma questão familiar pendente, e sua mãe o conduz pelos meandros de Buenos Aires, levando-o a conhecer os lugares onde ela e seu pai viveram, correram riscos e acabaram por se separar, quando lhes chega uma mensagem convencionada como aviso para que fujam antes de serem presos. Os sentimentos do jovem Mateo oscilam entre os extremos do ressentimento e da esperança de reencontrar seu pai, enquanto ele descobre fatos e situações que a própria Loenza ignorava.
Para mim – mas isso é estritamente pessoal, e bem pode ser que outros leitores não partilhem dessa opinião – Delírio foi mais envolvente como leitura. O que não quer dizer que Heróis demais seja desinteressante, longe disso. Laura Restrepo é uma autora capaz de prender o leitor até atingir o ponto final de seu texto, e essa qualidade não é assim tão comum entre os escritores que conhecemos.

domingo, 11 de setembro de 2011

SENHORA DO TEMPO - O MAIS CARINHOSO PARA PIXINGUINHA


Um cavalo que era ídolo na Móoca foi o inspirador de uma das mais famosas peças da Música Popular Brasileira


Por Maurício Ielo
in memorian


O maestro Pixinguinha sabia viver a vida. Como muitos dos maiores músicos de todo o mundo nos anos 10 e 20, começou tocando, como Patápio Silva e Ernesto Nazareth, dois outros gênios da música brasileira, piano nos cabarés e nos cinemas que exibiam filmes mudos. No seu Rio de Janeiro, entre uma audição e outra, Pixinguinha - que se estivesse vivo estaria comemorando exatos 100 anos - gostava mesmo era frequentar as uisquerias do bairro da Lapa e os dois prados locais da época, o São Francisco Xavier e o Derby Club. Quando surgiu o imponente Jockey Club Brasileiro, com seu hipódromo às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, Pixinguinha fazia de tudo para comparecer às corridas, hábito que adquiriu em nada menos que do que Paris, numa das excursões dos Oito Batutas, seu conjunto. E mais, nos finais de semana não tocava nas matinês. As corridas tinham prioridade.


Já nos anos 30, turfista veterano e músico famoso, Pixinguinha vinha cada vez mais para São Paulo. As rádios exigiam sua presença. E o músico, obviamente, descobriu o caminho do pradinho da Móoca. Quando em São Paulo, não havia outro endereço para encontrá-lo: o último quarteirão da rua Bresser.

Não era apenas nos dias de corrida que Pixinguinha ia ao prado. Era um coruja. Cronômetro em punho, ia marcar os tempos dos trabalhos, logicamente para descobrir as barbadas. E voltava no final da tarde para conhecer mais novidades. E, da mesma forma que já acontecera no Rio de Janeiro, tornou-se amigo de muitos treinadores e jóqueis. Nas cocheiras das ruas Taquari, Marcial e Catarina Braida tinha acesso livre. Muitas vezes pegava um violão e tocava para os profissionais.

Em 1953 apareceu na Móoca um potro muito simpático. Chamava-se oficialmente Tomate devido à pelagem rosilha, mas na cocheira era chamado por Carinhoso. O potro, muito bonito, havia sido campeão da Exposição de Produtos. E poderia ter ficado famoso apenas por ser um dos primeiros animais a correr um Derby Paulista tendo um nacional como pai. Mas a história foi muito além.

O potro pertencia ao Comendador Constantino Pinto Coelho e era de criação do Coronel Antenor de Lara Campos. E era venerado pelo público da Móoca que o chamava pelo apelido da cocheira, Carinhoso, ao invés do singelo Tomate que aparecia impresso no programa. E Pixinguinha, obviamente, era um desses tantos fãs. E Carinhoso passou à história, assim como quem o eternizou.

Pixinguinha sempre foi um turfista de primeira,
de não perder reunião no Rio ou em São Paulo
O trabalho de Carinhoso uma semana antes do Derby, diziam, foi um assombro. E como era do feitio da época, alguém nunca identificado, mas certamente de stud adversário, invadiu, altas horas, o box em que estava Carinhoso, e tentou cortar sua jugular. Não conseguiu, mas o cavalo ficara marcado por um estilete que produziu um corte de quase 25 centímetros. E obviamente perdeu estado. Para surpresa geral, uma vez que estava inscrito no Derby, acabou sendo apresentado apenas uma semana depois do atentado. E se já era simpático ao público, ficou ainda mais ainda pela heróica presença na prova. 

Lógico que, naquele estado, Carinhoso não venceu. Quem ganhou foi Organdy, das cocheiras de Erasmo & Antonio Asumpção. Mesmo assim, Carinhoso chegou em quinto lugar, à frente de potros criados pelo Coronel Rodolpho de Lara Campos e por Lineu de Paula Machado. Mas na sequência, levantou várias provas clássicas e foi levado ao Rio de Janeiro em 1936, para correr o GP Brasil vencido pelo matungo Cullingham, com animais como a própria Organdy, Sargento e Formasterus no campo da prova.

Carinhoso chegou apenas na nona colocação, à frente de Formasterus e mais cinco competidores, mas naquela mesma semana do GP Brasil, Pixinguinha lançava um 78 rpm, apenas orquestrado, sem letra. O título do lado A era "Carinhoso", que somente alguns anos depois João de Barro colocaria a letra.
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Maurício Ielo, jornalista e inesquecível.
Filho de Luciano Otello Ielo (in memorian) e Carla Castelli Ielo, 82 anos.
Irmão de Simonetta Ielo. 
Pai de Diana Ielo e Marina Ielo. 
Avô de Pablo Ielo.
Companheiro de Betsy Neila Honorato. 
Amigo na melhor definição da palavra.


* Esse artigo foi originalmente publicado na revista PURO SANGUE INGLÊS da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo de Corrida - ANO 4 - MARÇO/ABRIL 1996.

sábado, 10 de setembro de 2011

FREDZILA - HIROSHIMA

Carlos Frederico Abreu

“A rosa radioativa / Estúpida e inválida / A rosa com cirrose / A anti-rosa atômica / Sem cor sem perfume / Sem rosa sem nada.”

Esta canção (letra de Vinicius de Moraes e Gerson Conrad, gravada pelos ‘Secos e Molhados’ em 1973) me assombra desde sempre, igual à visão emblemática da famosa cúpula do Hall do comércio (Hiroshima Prefectural Commercial Exhibition Hall), única construção em concreto na época, num raio de 2 quilômetros da explosão.


Confesso que estar diante das ruínas, não me trouxe a esperada estupefação, somente um leve mal estar, ampliado pelo campeonato de jetski que ocorria no canal ao lado, o mesmo que naquela fatídica manhã de 6 de Agosto de 45, ficara apinhado de vítimas.


Vida que segue.


Meio anestesiado, visitei os monumentos oficiais do parque como a Chama da Paz, (que só será apagada no dia em que todas as armas nucleares do planeta forem banidas).


O parque não é tão grande quanto parece em fotos, mas seria o mais silencioso do planeta, se não fosse pelo ronco dos jetskis.


Aquele estranha e triste procissão de turistas cabisbaixos encontra seu ponto mais dramático na visitação do Museu da Paz, um complexo formado por dois prédios baixos, ligados por um corredor de vidro suspenso.


Não me lembrou de ‘Hiroshima mon amour’, o filme sobre o amor impossível, do diretor Alan Resnais, mais me pareceu uma expiação encenada da dor impossível de ser representada, apesar das evidências atrás de vitrines, das centenas de fotos doloridas de ver e da música triste de fundo.

Impossível abstrair com números, dados científicos e históricos, aquilo que parece que não acabou, pelo menos para os japoneses.

Tentei conversar um pouco sobre o ocorrido com a guia japonesa.
Não consegui chegar a uma conclusão, pois parece ser muito vergonhoso para todos eles, não somente a bomba, mas a situação que levou o Japão a guerra e todas as barbaridades cometidas pelos japoneses que não estão em um museu, mas na memória, no inconsciente coletivo.

"Ainda não dá pra entender" foi o que eu escrevi no livro de visitas, na saída.

Uma advertência para corações fracos é não passar para o segundo prédio... terminar a ‘visita’ no primeiro prédio, sair, descer a escada, dar uma volta pelo gramado, entre as árvores de Ginkgo Biloba (árvore nacional), esvaziar a cabeça...

Nada mais a comentar, talvez apenas a perplexidade.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

MAURÍCIO IELO, O JORNALISTA E O AMIGO

Por Ana Laura Diniz

Maurício Ielo e Ana Laura Diniz: avesso à fotografia, o único registro
juntos na redação
Ele veio quando eu menos supunha. A bem da verdade, quem chegou fui eu, e para uma entrevista de trabalho – quinze minutos de conversa e tudo feito. Em menos de uma hora, ele já perguntava se eu podia começar dois dias depois. Jogo rápido entre o pedido de demissão de um emprego e o começo do outro: entrava naquele momento para a equipe jornalística de Maurício Ielo numa revista de Educação. O ano era 2002.

A equipe, entendam, era mesmo enorme: Ielo e eu. E de peso, pois genialidade à parte, característica que descobriria pouquíssimo tempo depois, àquela época ele era de corpo quase duas vezes a mais que eu, somando uns vinte centímetros a mais na altura, pra contrabalancear. "Um dinossauro, um leão-marinho", eu mexia com ele, que me devolvia qualquer palavrão. Eu adorava.

E foi assim. Entre reuniões de pautas, entrevistas e intensas produções de matérias, rolavam cafés em pequenos intervalos. “Um curto, por favor” – ele pedia e tomava: sem açúcar, encorpadíssimo. Só de olhar a borra do café na xícara, dispensava. Eu, suco de cupuaçu: “Humm, a mocinha é selvagem, é?”. Impressionantemente sarcástico.

Maurício era cheio de tiradas e piadinhas. Eu ria quase sempre. Por outras, fingia ignorá-lo. Mas ele não sossegava enquanto não percebesse um olhar que fosse, daqueles que entregavam a situação – de uma forma ou de outra. Espezinhava e gritava como nos tempos áureos da ECA-USP: "É Branca, é branca, é branca, leone, leone, leone!" -  Brancaleone, protagonista do filme de Mario Monicelli, não à toa, era um dos seus personagens preferidos.

Adorável era ouvir os causos de Ielo. Excelente contador, ele repassou a História do Brasil e do mundo inúmeras vezes, em jantares maravilhosos que oferecia, regado a ótimas conversas, bebida e músicas inesquecíveis, algumas revolucionárias. Foi com ele que absorvi a essência da "Canção do Subdesenvolvido" - e ele cantava junto sempre com legítima alegria nos olhos. E "Bella Ciao", com a sua Itália sempre estampada no peito.



Palmeirense roxo, criou apelidos diversos para mim: "viadinha", por eu ser são-paulina convicta; e "criptojornalista", que se derivava também para "criptoartista". 

Os assuntos extra-profissionais versavam pelo futebol, pela política (e salve as memórias d'O Partidão!), pela sua passagem no DOPS de São Paulo onde fora interrogado pela famosa Greve da ECA na época da Ditadura e por aí seguia. Foi com ele que voltei a reconhecer a minha infância com "as músicas proibidas de Juca Chaves", que ouvia em casa; e conheci "Cúmplice", que, para ele, era uma das canções românticas mais bonitas que alguém já criara. "Ana, quem diria que o Juca pudesse ter essa sensibilidade: ouça essa musiquinha!".




Maurício foi quem me disse a verdadeira razão de Pixinguinha ter composto Carinhoso. Mas isso, deixarei para ele mesmo explicar nesse domingo, numa seção especial reservada para ele. Vai o homem, fica a sua história. Foram tantos os bons momentos. E sustos, porque de vez em quando ele passava mal: a pressão ia às alturas. A primeira vez, ele transpirou muito e mesmo com falta de ar, acendeu um cigarro, que - abruptamente - eu joguei pela janela do carro. Ele ficou pasmo. Pensando agora, não lembro de ter visto o Maurício sem reação, excetuando esse dia. Ele sempre tinha resposta para tudo. Adepto às invencionices, brincava - como quando cheguei ao trabalho, e na parede ao lado da minha mesa, o recado: “A mocinha aqui do lado é uma criptojornalista”.


Ana Laura Diniz e o prazer de trabalhar frente-a-frente com Ielo
Daí, o surgimento do apelido. Ele sabia dos meus anteriores trabalhos investigativos como jornalista e se divertia com isso. 


DA ETERNIDADE - Para o meu espanto, aquele homem de fala firme e bonita, digno de um tenor, se tornou não apenas um grande chefe, mas um amicíssimo – daqueles que – quero eu acreditar – valerá por muitas outras vidas.

Um dos maiores conhecedores de turfe do Brasil, quiçá do mundo, eu o segui enquanto pude, acompanhando suas transições e mudanças de casa. Quando o conheci, morava na rua Alagoas, em Higienópolis, zona oeste da capital. Depois foi para perto da rua Augusta, São Bernardo do Campo, e chegou em Santa Cecília, último apartamento em que o visitei. Acho que foi exatamente nessa ordem, a memória falha, talvez. Depois eu mudei para Caxambu, no Sul de Minas, e nossos encontros ficaram – infelizmente – nas promessas.

Quanta saudade.

Como jornalista, foi um dos que me deu mais carta branca, e confiou em tudo, sempre, sem titubear, sem esmorecer – e por felicidade, tudo deu certo, sem exceção; até que um dia nos separaram profissionalmente - e ele voltou a escrever sobre turfe. Não demorou muito para eu sair da tal revista e alçar voo para o Grupo Folha.

A partir daí, os encontros permaneceram, mas cada vez mais esporádicos. A vida cobra situações que, ao menos aparentemente, não faz o menor sentido. E as obrigações, as responsabilidades, impedem que o melhor dela às vezes aconteça.

Driblamos enquanto pudemos. Amigos assim não se encontram em cada esquina. E ele morreu. “Aos 56 anos, vitimado por complicações pós-operatórias de uma cirurgia de coração”. E eu apenas soube quase um ano depois: nesse 17 de setembro que se aproxima, data em que tomarei posse na Academia Caxambuense de Letras, marcará um ano sem ele. E foi por conta desse convite não entregue, no desejo de que ele pudesse finalmente vir a Caxambu me ver, juntamente com a sua companheira Betsy, que resolvi digitar o nome dele no google. Há mais de oito meses sem notícias e com tentativas nulas de contato, encontrei a notícia que temia, aquela que falava da sua morte.

E o que é a morte senão um silêncio profundo?
Um mergulho no abismo da gente mesmo.
Um chamado sem resposta.
Uma dor contínua, que não cessa.

Procuro alucinadamente concretizar o infinito. Choro a saudade da pessoa que foi o Maurício e a pessoa que eu fui com e depois dele. 

“Mau”, como também costumava chamá-lo, foi para poucos, ainda que fosse muito. Tudo era intenso nele, hiperbólico, exagerado. Objetivo e ciente do seu papel como jornalista, colecionou amigos e inimigos; mas até estes, vejam só, o respeitavam. Porque ele primava por uma ética e um respeito cada vez mais raros na profissão. Dono de uma sensibilidade ímpar – mas invisível aos olhos da maioria, talvez – era criativo na mesma medida em que afoito para criar projetos, cumprir prazos, ter grana para as contas no início do mês. Chego a pensar que, cigarro à parte, de alguma forma o jornalismo talvez tenha contribuído para a sua morte precoce.

Foi tão fácil amá-lo. Difícil mesmo é esquecê-lo. Mas esquecer para quê?!
...

Tantas coisas mais. Qualquer palavra dita fica aquém da realidade... e, por isso mesmo, deixo o pensamento sem rédeas: o porvir tem mais sentido e doçura que qualquer ponto final - por si só recluso, e pior, definitivo.

"Mau, cadê você?!". Não há ponto final nessa história... 


Maurício Ielo, o jornalista e o amigo, permanece presente, imortal, com todos aqueles que o admiram e amam.
...

Ouça a Bella Ciao que é Maurício puro, em uma das possíveis versões!



Aamulla varhain kivääriin tartuin. Oi, bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Aamulla varhain kivääriin tartuin, sen käänsin kohti sortajaa. Aamulla varhain kivääriin tartuin, sen käänsin kohti sortajaa.

Käy partisaani nyt rinnalleni. Oi bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Käy partisaani nyt rinnalleni ja kohtaloni aavistan. Käy partisaani nyt rinnalleni ja kohtaloni aavistan.

Kun surmaluodin, saan taistelussa. Oi bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Kun surmaluodin, saan taistelussa, toverit minut haudatkaa. Kun surmaluodin, saan taistelussa, toverit minut haudatkaa.

Sen haudan ylle, kauniina jääköön. Oi bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Sen haudan ylle, kauniina jääköön vuoriston kukka kasvamaan. Sen haudan ylle, kauniina jääköön vuoriston kukka kasvamaan.

Niin, että kansa voi vuoritiellä. Oi bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Niin, että kansa voi vuoritiellä sen nähdä hiljaa hehkuvan. Niin, että kansa voi vuoritiellä sen nähdä hiljaa hehkuvan.

Se kaunis kukka, on partisaanin. Oi bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Se kaunis kukka, on partisaanin, vapauden vuoksi taistelleen. Se kaunis kukka, on partisaanin, vapauden vuoksi taistelleen.