segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

VIAGENS AOS MESMOS LUGARES

 
 
Dade Amorim

Imagem sem menção de autor


· Durante duas semanas deixo de ler jornais e revistas, não vejo mais noticiário de tevê nem quero saber das notícias de política e polícia, muito menos das que misturam as duas e que são cada vez mais frequentes. Estou louca pra ver se isso muda alguma coisa na minha cabeça. Se mudar para melhor, repito a dose. Alienação? No, babies. Entrei num período de desintoxicação mental.
· Afinal, penso o pensamento de quem? Se é o meu mesmo, por que tem tanta influência dos outros? Se não é meu, como se explica que eu, e não outro, diga o que acho que penso? Às vezes fico assombrada com a uniformidade de determinados discursos. Vivemos à sombra de um emaranhado de idéias e pontos de vista ditados por interesses que não conhecemos e não são os nossos. Não dá pra confundir os gestos e atitudes correntes e repetidas com opiniões próprias.
· Uma coisa que me deixa cabreira é a diferença entre o que de fato acontece na vida real e o que chega a nosso conhecimento via mídia. Aderimos um pouco sem sentir à opinião de um ou outro colunista que admiramos, pelo que sabemos dele e por suas idéias. Até aí, tudo bem. Mas parece que isso tem um efeito cumulativo. Acabamos nos condicionando a pensar pela cabeça dos outros, o que não se recomenda, por melhores que os outros sejam.
· Enquanto isso, vou pondo em dia as leituras que se acumulam em pilhas, perigando desmantelar alguns livros antigos, heranças de papá e de um tio bacana.

domingo, 16 de dezembro de 2012

SENHORA DO TEMPO: LEQUES, ABANOS, VENTAROLAS

Vera Guimarães

Amiga me conta que em recente confraternização de fim de ano foi assediada como nunca, e atribui o fato à circunstância de estar usando um leque. Bobagem! Linda e na exuberância de seus 40 anos, nada mais natural que os moços quisessem se aproximar dela.


Ah, o leque! É mesmo! Na minha adolescência, década 1950, ele era acessório natural e obrigatório nas sessões de cinema e em outras ocasiões. As salas não eram climatizadas e sempre queríamos acrescentar um charme à produção. O meu leque era branco, pequeno, varetas de madrepérola, e, nelas, vazados formando arabescos. Perdeu-se no desgaste das fitas que uniam as varetas, nas mudanças de casa, no desuso.

Depois dele, em passeio num parque aquático dos EUA, precisei espantar o calor e comprei numa das lojinhas de souvenir um abano feito de palha trançada, com a etiqueta Made in Philippines. Esse está comigo até hoje e compõe um painel de outros objetos de fibra, a maioria chapéus.
Há cerca de dois anos ganhei um leque. Na ocasião fiquei agradavelmente surpreendida com a escolha do presente, nem cogitava que eles ainda existissem assim corriqueiramente. Apesar de apreciá-lo, nunca o usei. Vou corrigir isso.

A importância desse objeto utilitário, estético e testemunho de épocas fica patente no complexo de Greenwich, onde existe um museu dedicado exclusivamente ao leque. E a prova de que ele continua despertando interesse até mesmo econômico está nessa sofisticada loja. Ali você pode encomendar leque personalizado para o seu casamento, leque com estampa moderna ou clássica, há linha exclusiva para homens, para publicidade, para comemorações.


Recursos para refrescar o indivíduo ou o grupo existem desde sempre. Na caverna quente, alguém pegou uma folha grande ou talvez as asas de um pássaro e as agitou na frente do rosto, produzindo um ventinho gostoso. À medida que se descobriam novos materiais e que se desenvolviam novas habilidades, com certeza esses objetos foram aperfeiçoados. O que nunca faltou foi inspiração na natureza.

Leques foram e são largamente utilizados no Oriente. Há registros antigos deles na Assíria, China, Japão, Índia e Oceania. Eram confeccionados em madeira, bambu, papiro, seda, madrepérola, cascos de tartaruga, fibras vegetais, plumas. Eram entalhados, pintados, bordados, esculpidos, pirogravados.
Foram trazidos para o mundo ocidental por ocasião das Cruzadas. Muito tempo depois, se sofisticaram e passaram a compor o vestuário e os rituais sociais das cortes dos séculos XVII, XVIII e XIX. Vejam aqui mais detalhes curiosos.

Cria-se, no contexto mundano e frívolo de certas cortes, a linguagem do leque, um complicado sistema de comunicação baseado no posicionamento do adereço em diferentes partes do corpo, no grau de abertura das varetas, no ritmo da abanação etc., através do qual se mandavam recados. Alguns desses códigos:

• Colocar o leque junto ao coração: Conquistaste meu amor.
• Tocar com a mão no leque ao abaná-lo: O meu desejo era estar sempre junto de ti.
• Acariciar o leque fechado: Não sejas tão imprudente.
• Tocar com o leque meio aberto nos lábios: Podes me beijar.
• Tocar o leque na face direita: Sim.
• Tocar o leque na face esquerda: Não.
• Fechar e abrir o leque várias vezes: És cruel.
• Abanar o leque muito depressa: Estou comprometida.
• Segurar o leque na mão direita e em frente à face: Segue-me.
• Colocar o leque junto da orelha esquerda: Quero ver-me livre de ti.
Passar o leque pela testa: Tu mudaste.

Aqui tem mais códigos.


Algo me ocorre! Embora eu sustente veementemente que minha amiga foi assediada em função de seus dotes físicos e de sua sensualidade, fico pensando: como será que ela teria usado o leque?! Passou com ele alguma mensagem de que nem ela mesma se deu conta? Não! Não pode! Por mais explícito que pudesse ter sido o recado, duvido que algum cavalheiro de hoje fosse capaz da sutileza de decifrá-lo.

Fig. 1 - http://belissime.blogspot.com.br/2010/08/leque-glamour.html
Fig. 2 - http://petarnews.blogspot.com.br/2010/11/fauna-e-flora-do-petar.html
Fig. 3 - http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c8/Pontes_Collection%27s_fans.jpg

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O CASO DO BIGODE




Esther Lucio Bittencourt




 Bigodes (imagem google)
 
Tem pra mais de 50 anos o caso do Vicentinho.  Era um tal galorote de barba mal despontada que avisou que a bela mulher de saia remexendo os quadris vinha vindo com a criança na mão.  Vicentinho já estava sentado na cadeira do barbeiro. Àquele um que ficava na esquina da rua mais movimentada da cidade de poucas almas. Hoje finou. Então o galorote , todo empinado , que ia receber as pagas do bicho que seu pai botava banca, no tempo do tudo permitido, colocou o pé na parede da casa,  como os homens faziam,  repousou as costas nela, de frente para a calçada , e acompanhou a andada da mulher . Avisou pra dentro da barbearia que parece que ela está vindo nesta direção .
Vicentinho deu um salto até a porta da barbearia, com risco da tesoura de mestre Aroldo fazer estrago no seu cultivado bigode e, com meia cabeça para fora , acompanhou o trajeto. Quando viu que era vero, que ela vinha vindo que nem vento balançando a roseira, nos saltos altos, de classe a mulher, alta classe, direto em linha reta para o empreendimento saltou de volta para a cadeira e pediu que o Mestre dos cabelos e bigodes aparasse um fio rebelde imaginário.
Seu Aroldo pegou da navalha com a mão trêmula, para fazer a cena mais convincente, e fingiu que acertava as penugens que nascem entre o bigode e o nariz. Belo bigode,  dizia a cidade para o maior garanhão que vivia pelas paragens. Vicentinho, sempre de calça esporte e paletó fino já havia provado de um tudo dos sabores femininos, dizia garboso.
A mulher entrou na barbearia e perguntou pro mestre   se ele atenderia mais alguém além do homem sentado na cadeira pois trouxera seu filho para cortar o cabelo. Coisa de pouca monta a fazer nesta barba, garantiu mestre Aroldo.
A mulher sentou na cadeira, cruzou as pernas justo em frente ao espelho onde estava a cadeira do Vicentinho e onde o mestre esmerava em apontar os fiapos.
O nervoso foi sentido até na cidade vizinha. Mestre Aroldo raspou de um só golpe metade do bigode cevado do Vicentinho. Ar parado, nem suspiro dava para ouvir. Mas nenhum deles tirava os olhos das pernas da mulher. Mulher de família, letrada, pois que ensinava o alfabeto para a criançada da escola. Muito digna, isto sim. O que não impedia a beleza das curvas e das retas.
O Galorote, atento ao movimento, reteve a respiração: Vicentinho com meio bigode!
Mestre Aroldo fez o que fez , mas precisou rapar tudo. Nem um só fio restou no rosto do Vicentinho que, cabisbaixo de vergonha da cara nua, saiu da barbearia.
Enquanto cortava o cabelo do filho da mulher Mestre Aroldo pensava: este nunca mais que vem aqui e é bom cliente.
Dia seguinte, Mestre Aroldo abre a porta do empreendimento e logo chega Vicentinho que todas as manhãs tinha um fio rebelde de bigode para aparar, mas, desta vez, glabro.

Apertou a mão do Mestre e disse , voz de baixo: Foi justo, foi  justo.




quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

CLARICE e os Leitores infantis: A SURPRESA E A CRIAÇÃO




Por Claudia Lopes Borio

ilustração de Leila Pugnaloni
 


"A ave sai do ovo. O ovo é um mundo. Quem quer nascer tem de destruir um mundo." (Hermann Hesse)

Nesta nossa conversa vou analisar brevemente a escrita de Clarice na literatura infantil.

Alguns elementos encontrados nos livros infantis de Clarice também estão presentes nos livros para adultos. É comum a autora criar uma narradora que diz que não sabe escrever, e que pede desculpas por não conseguir começar a história. Ela trabalha isso de forma criativa, muito espontânea, e acaba “escrevendo distraidamente”, expressão que ela usou no livro Água Viva.  Esse artifício, que foi chamado de “escrita natural”, foi entendido por muitos críticos como escrita automática ou espontânea, mas na verdade parece cuidadosamente pensado para se atingir um determinado efeito estilístico.

Clarice se utiliza muito de narradores que estão conscientes de sua relação com a linguagem e com toda a construção do texto. O leitor é confrontado de propósito com textos que escapam ao seu conhecimento usual sobre o mundo, tendo finais abertos em todas as narrativas. O espaço que Clarice cria em comunicação com as crianças é bastante diverso das narrativas convencionais, sem se restringir às delimitações tradicionais do gênero.  

Os livros infantis de Clarice são quatro: A mulher que matou os peixes, A vida íntima de Laura, Quase de verdade e O mistério do coelho pensante.  Há ainda a coletânea de lendas brasileiras “Como nasceram as estrelas”.

Quase de verdade narra uma viagem ao quintal de uma casa, onde uma árvore acaba se tornando uma tirana por inveja às galinhas. A narrativa é feita pelo cachorro Ulisses. Ulisses existiu de verdade, era um cão favorito de Clarice, existe até uma carta escrita por ela... para ele. Começa assim: “oh, doce mistério animal”... oh doce dor de não saber falar, e sim saber latir... “ Ulisses não era tão bonzinho assim. Uma vez ele mordeu o rosto dela. Dizem os que a conheciam, que ele fumava junto com ela, era famoso na época e chegou a aparecer no Pasquim. Alguns acham que esse nome seria uma homenagem ao misterioso analista que Clarice teve quando morava na Suíça. Ela passeava com ele com freqüência pelo Leme.

Mas nesse livro  Quase Verdade, ela fica enrolando e de repente pergunta:

“Mas quando é que você vai começar com a história”??

Ulisses conta suas aventuras com latidos, que Clarice afirma entender. Ela é uma narradora que parece realmente tomar parte nas aventuras que conta, tornando o livro muito mais interessante e aberto para as crianças. Apesar do formato de fábula com que ela inicia a história (era uma vez...), logo se nota que o cachorro falante projeta uma narrativa muito mais engraçada do que o normal.

É muito interessante o uso que ela faz em um parágrafo inteiro de substantivos verbalizados,  que não servem para dizer nada, senão que a vida continua:

“ os homens homenzavam, as mulheres mulherizavam, os meninos e meninas meninizavam, os ventos ventavam, a chuva chuvava, as galinhas galinhavam, os galos galavam, a figueira figueirava, os ovos ovavam. E assim por diante”.

Essa forma de utilizar expressões inusitadas é um recurso que mostra que Clarice segue a tradição iniciada por Monteiro Lobato, de não considerar as crianças leitoras bobas e passivas, e sim fazê-las entrar na brincadeira e dar-lhes a possibilidade de recriar o texto em suas falas ou escrita. Trata-se de uma forma extremamente inteligente e simpática de escrever, que torna o texto interessante e divertido inclusive para os adultos.

Mas ela sempre diz para não perdermos a paciência, pois a “história vai historijar” em breve.

A compreensão dos substantivos verbalizados (a figueira que figueirava) se faz com naturalidade, por associação, ou seja, é um artifício usado pela autora, criando um estranhamento com uma série de brincadeiras que vão se encadeando e atraindo a atenção para o texto e, mais importante, para a forma de escrever. Assim, enquanto a criança lê o texto de Clarice, aprende como se pode fazer, ou como se pode escrever, de forma original.

No melhor estilo clariceano, apresenta-nos um texto fragmentado com superposições de histórias. Tal estrutura não costuma até hoje ser comum nos livros destinados a crianças e requer um leitor atento, ciente das histórias que se formam. Nesse sentido, o leitor fica diante de duas narrativas: a primeira, subjetiva em que Ulisses se apresenta,  fala de si, de sua dona,  e a segunda apresenta um caráter moral.

Esta  “moral” da história permite uma comparação com o famoso livro Revolução do bichos (1945) de George Orwell,  quando observamos a similaridade da história com a exploração que a figueira submete as galinhas. A figueira, tal qual, o "Homem", não participa do processo de produção: "O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, ..."

Na obra “O mistério do coelho pensante” há um coelho, chamado Joãozinho, que pensa  “mexendo bem depressa o nariz” , mas ele não pensa, ele “cheira’ as ideias. O leitor é convidado a também cheirar a ideia - aliás, Clarice sempre invoca os outros sentidos, convidando-nos a compartilhar o cheirinho ruim que as galinhas têm embaixo das asas, como se fosse um “cesto de roupa suja”.  Mas a história do coelho também traz um mistério, como é que ele consegue fugir de uma gaiola com tampa pesada de ferro e voltar, explorando lugares cada vez mais longe, adivinhando com seu nariz que a Terra era redonda, e que as nuvens se mexiam no céu, formando grandes coelhos.
Essa aproximação entre o narrador e o leitor também mostra como a vida é cheia de experiências possíveis e interessantes, por mais singelas que sejam.

E ela termina a história convidando o leitor a experimentar por si mesmo, explicando ainda que sempre que ela franze o nariz fica com vontade de comer cenoura:

“Se você quiser adivinhar o mistério, Paulinho, experimente você mesmo franzir o nariz para ver se dá certo. É capaz de você descobrir a solução, porque menino e menina entendem mais de coelho do que pai e mãe. Quando você descobrir, você me conta. Eu é que não vou mais franzir meu nariz, porque já estou cansada, meu bem, de só comer cenoura. “

O pensar do coelho não passa de um exercício de imaginação, equivalendo ao modo como a criança assimila a realidade. A volta à gaiola é a volta à realidade, onde o coelho fica “preso”.

O final das histórias de Clarice não pretende resolver nada, mas manter um pouco de mistério em suspenso, para que a própria criança tente dar uma solução para o caso.

No livro A Mulher Que Matou os Peixes ela também surpreende, trazendo o leitor para bem perto:

“Vocês pensam que estou inventando? Mas, se eu jurar por Deus que tudo que contei
neste livro é verdade, vocês acreditam? Pois juro por Deus que tudo o que contei é a pura verdade e  aconteceu mesmo.”

A insistência em afirmar a verdade do texto, mais do que fidelidade ao real, revela o desejo de encontro com uma outra espécie de verdade, desentranhada das palavras. Dessa forma, a narradora pode dizer que não engana seus leitores, pois é consciente de que ela fez um pacto, através da linguagem, de contar a verdade, e é esta que vai lhe proporcionar a salvação para o seu crime. Contar a história de vários bichos é uma maneira de dar existência às coisas, pois a escrita tem o poder gerador. Paradoxalmente, a escrita também é responsável pelo esquecimento fatal que leva à morte dos peixes, pois é ela a verdadeira causa do crime:

“Bem, chegou a hora de falar sobre o meu crime: matei dois peixinhos. Juro que não foi de propósito. Juro que não foi culpa minha. Se fosse eu dizia. Meu filho foi viajar por um mês e mandou -me tomar conta de dois peixinhos vermelhos dentro do aquário. Mas era tempo demais para deixarem os peixes comigo. Não é que eu não
seja de confiança. Mas é que sou muito ocupada, porque também escrevo histórias para gente grande. E assim como a mãe ou a empregada esquecem uma panela no fogo, e quando vão ver já se queimou toda a comida  – eu estava também
ocupada escrevendo história. E simplesmente fiz um coisa parecida com deixar a comida queimar no fogo: esqueci de dar comida aos peixes!”

Ao final do relato a narradora encerra a história com a pergunta: “Vocês me perdoam? ”, o que pode estabelecer uma radical inversão de  poderes: submete-se ao juízo infantil, circunstância inusitada na literatura infantil, tradicionalmente marcada pela tutela dos adultos.

Afinal, o que ela quer é um leitor que seja criativo, como ela mesma propõe:
— Está ouvindo agora mesmo um passarinho cantando? Se não está, faz-de-conta que está. (...) Para ajudar você a inventar a sua pequena cantiga, vou lhe dizer como ele canta. Canta assim: pirilim-pim-pim, pirilim-pim-pim, pirilim-pim-pim. Esse é um pássaro de alegria. (Quase de Verdade).

O uso dessas onomatopéias também prepara a imaginação para leituras mais difíceis. Veja-se que no livro “Perto do Coração Selvagem” ela também usa esse recurso no primeiro capítulo, intitulado “O Pai”:

"A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac...O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? Roupa-roupa-roupa." 

Simulando uma sessão de contação de histórias, Clarice traz para a criança leitora um pouco da mágica da leitura e da imaginação.

Por fim, longe de esgotar todas as possibilidades de análise das obras infantis, o que se quis com este texto  foi chamar a atenção para o que está por trás do discurso de Clarice, observando que tipo de leitor almeja e forma. A criança, assim como o jovem ou adulto, que ler Clarice, tem diante de si um universo de exploração cognitiva, lingüística, política e social, permitindo-lhe ser um sujeito criativo, reflexivo, crítico e, sobretudo, autônomo. Assim, a literatura de Clarice Lispector não só permite uma investigação artística quanto pedagógica.


No livro A Paixão Segundo  GH ela também faz apelo à imaginação dos leitores:

Este livro é como um livro qualquer.
Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas
por pessoas de alma já formada.
Aquelas que sabem que a aproximação,
do que quer que seja, se faz gradualmente
e penosamente — atravessando inclusive
o posto daquilo que se vai aproximar.
Aquelas pessoas que, só elas,
entenderão bem devagar que este livro
nada tira de ninguém.
A mim, por exemplo, o personagem G.H.
Foi dando pouco a pouco uma alegria difícil;
Mas chama-se alegria.



 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O ANO NOVO DESTE MÊS





Dade Amorim




 
                                                                                  Vista do rio Paraíba.

A festa do Ano Novo guarda um link permanente com a vida, a alegria, os planos, os sentimentos e as emoções mais queridas. Não é a toa que toda mensagem traz marolas de doçura, um leve eriçar de adrenalina que nos faz sorrir para tudo e todos. E pode acontecer que a gente nunca se esqueça de um réveillon por sua alegria, de como foi bom abraçar e beijar pessoas queridas, conhecer gente nova, querer bem, ouvir vozes e viver as mensagens do tempo em que ficamos um pouquinho crianças de novo, para agitar o corpo e aproveitar a boa vontade geral.
E pode ser que afinal se queira fazer desse novo pedaço de tempo uma viagem nova, ver lugares diferentes, entrar em caminhos abertos fora das trilhas já tão pisadas de sempre. O dia-a-dia vai endurecendo uma casquinha em volta das coisas que se repetem; os atos habituais, obrigatórios, automatizados, vão tomando um lugar mais extenso e, antes que a gente se aperceba, engolem boa parte de nossa vida, escondem a espontaneidade, o prazer das pequenas coisas.
Mas não é preciso esperar que chegue o dia. Se é tão bom quebrar a rotina e inovar, por que não fazer isso a qualquer momento, criando uma oportunidade?
Velejar por outros mares, mesmo sem iate nem lancha. Mesmo sem sair de casa, do escritório, do carro que não foi trocado, do metrô, do ônibus nosso de cada dia. O que tem que mudar não é o lugar, o que está fora e não depende só de nossa vontade. Dá pra ver com outros olhos, de outro ângulo. Viajar descobrindo o novo, o diferente. Reavaliar o que sempre consideramos desimportante ou indigno de atenção. Pôr à prova nossas convicções inabaláveis, nossas certezas absolutas; questionar as "questões de honra" que, fala sério, acabam nos tornando uns chatos até para nós mesmos. Olhar com olhos de ver as pequenas belezas que cruzam o caminho, atentar ao canto fugidio de pássaros nas árvores da calçada em frente da janela; no riso, na voz, na fragilidade das crianças; em cores, sons e aromas que deixamos passar e podem ser uma fonte de prazer sensível. Reparar nos outros, não com olhos de crítica ou desdém, como tantas vezes acontece, mas para notar o que cada um tem de pessoal e diferente – uma voz bonita, gestos agradáveis de ver, um andar desenvolto, uma beleza física qualquer, um olhar caloroso, um sorriso bom de olhar. Voar nas asas da música à qual temos negado a terminação mais sensível do ouvido, do livro que ainda não lemos, do quadro que não olhamos com atenção, e até de uma fachada bonita, um telhado maneiro, sem outro interesse que contemplar, ganhar alguma coisa que o dinheiro não compra.
Estar em casa, no trabalho ou na rua não significa estar preso, atado, limitado. A não ser que se prefira ficar repetindo “não gosto, não quero, nunca experimentei e não vou começar agora”, há um jeito mais leve de levar a vida. Perceber que a liberdade interior é sem limites é um passo decisivo. O prazer de viver, que parece desbotado porque a vida em volta de nós cegamente se repete, forma uma nuvem espessa, um calo – esse prazer se redescobre e até nos espanta, logo que se fura a casca da rotina e se inaugura um ano novo particular. Nada complicado, nem caro nem inatingível. Basta estar vivo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Conviver é preciso



 
É inevitável. Às vezes desejável; outras, cansativo, tedioso e até irritante.
Convive-se em casa, nas calçadas, nos transportes coletivos – com sorte, num trem de metrô meio vazio ou num ônibus de horário mais tranquilo; ou então ocupando espaços impossíveis, sentindo os odores alheios, ouvindo conversas estranhas e até aturando o assédio de algum sem-noção. Convive-se no táxi, no avião, no mercado, no shopping, no clube, na boate, na igreja, no trabalho, na escola. É preciso aprender desde cedo porque, caso isso não aconteça, forma-se um ser anti-social ou uma daquelas pessoas que não sabem como lidar com o próximo e acabam se machucando muito pela vida afora.

Gente exige treinamento. Na falta dessa preparação para a convivência, alguma coisa essencial para uma vida satisfatória fica faltando e a consequência pode ser uma solidão difícil de aturar ou um comportamento pendular e muita insegurança. Ver os outros com olhos hostis sem um motivo sólido, apenas como uma forma de autodefesa, é um desastre para o convívio. Uma espécie de desvantagem de início, se olharmos a coisa como um jogo (e a vida tem um lado lúdico que não dá pra ignorar). Tenho visto pais que induzem essa atitude nos filhos ainda crianças, achando que com isso os tornam mais fortes para conviver. Ter uma atitude pejorativa para as diferenças alheias, pretender tirar vantagem em tudo e assumir o lado brucutu, que cada um de nós carrega, como exemplos para os filhos, podem pavimentar um caminho para a encrenca e estragar boa parte da vida deles.

Cada convivência tem seus lados amenos, agradáveis ou ásperos e indigestos. Quando predominam os últimos, é preciso saber onde se pisa para não sofrer as consequências em todo seu peso. Assim como é preciso estar preparado para poder tirar de uma boa convivência tudo que pode nos dar em termos de amizade, amor ou companheirismo.
Coisas que só se aprende convivendo.