domingo, 11 de agosto de 2013

QUANDO MINHA MÃE CANTAVA COM MEU PAI

Esther Lucio Bitterncourt




Pedro e Marina, meu sobrinho e sobrinha neta


Quando minha mãe Sara cantava o mundo estacionava para ouvir. Em seguida, meu pai Tonio, com sua voz de tenor, a acompanhava. Geralmente estes encontros musicais continuavam com os dois dançando valsas.

Quando mamãe morreu, a família, reunida , cantou para ela em todos os momentos. Ela foi enterrada com os filho e os netos cantando e tocando violão. Lágrimas não seriam permitidas, Que ela levasse a alegria com que nos presenteou uma vida inteira de convivência.

Com meu pai foi diferente: havia injunções políticas e ele ficou em São Pedro da Aldeia com aviões sobrevoando em rasante o céu, em sua homenagem. Mas as rosas que colocaram sobre ele eu as cobri de flores da acácia rainha, era o tempo delas florirem, e como ele gostava destes cachos caprichosos que se amarelavam de pequenas flores! Mesmo sob protesto das autoridades presente. Tia Dulce e tia Odete viram em silêncio a minha ida às ruas, voltar carregada de acácias e recobrir o corpo dele.


Tanto papai quanto mamãe tinham uma afinação perfeita na voz, cantavam com doçura para que dormíssemos. Éramos sete filhos. Cada noite um deles era embalado no colo do papai, não importasse a idade.

O tempo passou , seis filhos ficaram, netos e bisnetos nasceram e seguiram pela vida a cantar. Então, quando a família se reúne acontecem momentos como este: Claudio, marido de Cristina, ao violão ; Cristina canta e olha para ele dizendo de seu amor. Sua filha Laura a ajuda em Penas do Tiê, depois os homens fazem a cancão, Philippe, Pedro filma e Claudio, que também toca um cavaquinho de fazer a alma gemer, reforça o tom.

É uma família musical, por exelencia. Todos tocam piano e mais algum instrumento. Estes que cantam agora são filho de Vera Lucia, minha irmã. https://www.facebook.com/photo.php?v=614581641896261&set=vb.100000332926991&type=2&theater

Não iria escrever nada hoje, ainda mais no domingo, dia de Vera Guimarães, a Senhora do Tempo, mas não resisti contar tudo isto.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A GUARDADORA DAS ÁGUAS (ou de como não se pode conter a força das águas)



Eloísa Maranhão


Para Frei Titto, para os guerrilheiros do Araguaia, e para todos que enfrentaram as ditaduras militares no Brasil e na América Latina... e para Las Madres de Plaza de Mayo que "só queria agasalhar meu anjo, e deixar seu corpo descansar". 



Enquanto os milhares de outros bebês que nasciam naquele momento no mundo inteiro choravam de desconforto e dor para respirar, abandonando o útero materno quente e aconchegante, Marina apenas resmungou, revoltada de ter saído das águas para um ambiente seco. Resmungou para deixar clara sua revolta, mas recusou-se a chorar para poupar as lágrimas. E assim foi durante toda sua vida; chorava a seco, recusando-se a perder aquilo que era seu tesouro pessoal: as águas.

Assim Marina cresceu, amando as águas e cuidando para que se mantivessem sempre limpas, e sempre correntes, e sempre em seus cursos naturais, o que não era fácil naquelas épocas em que a tecnologia era tão valorizada, e domar a natureza também; naquelas épocas em que os homens ainda não sabiam que a natureza não se doma, pois o instinto e o poder de milhões de anos sempre encontram um meio de impor sua força, e os governos eram ocupados por tecnocratas tão entendidos de novas tecnologias e matérias-primas e fontes de energia, e tão pouco sábios em todo o resto. Aliás eram tão, mas tão sem sabedoria, que nem sabiam - suprema lástima! - que o resto é o que realmente importa. E que o que não importa é resto. Eles não sabiam e nunca vieram a saber, morrendo nos seus devidos tempos sem aprender nada de importante com a vida, mas Marina sabia, soube desde que nasceu, e acabou morrendo fora do tempo por isso.

Ainda bebê gostava dos banhos demorados que tomava de chuveirinho, ou dentro de bacias no quintal; ficava com a pele enrugada de tanto se demorar dentro d'água, sentindo-se umedecer, molhar, refrescar nas águas geladas no calor, ou esquentar nas águas tépidas, quando fazia frio; sentia-se no seu meio natural, e logo percebeu que seu nome, Marina, viera a calhar.

Tinha pais da geração e do tipo hippie, que adoravam viajar nos fins-de-semana procurando estar mais perto da natureza; procuravam cachoeiras, matas virgens e nem tanto, até as já defloradas serviam nesse mundo escasso de virgens de todo tipo - o que para seus pais e para a menina não fazia a menor diferença, ter virgens de mais ou de menos, ao contrário da sociedade em geral, que ainda se batia pela virgindade de suas filhas, o mesmo não acontecendo com a dos filhos, sabe-se lá Deus por quais motivos ocultos. Procuravam rios de águas clarinhas e frescas, limpas, que pudessem usar para beber e para nadar, lagos e lagoas onde pudessem molhar os pés e olhar os patos, gansos e outras aves deslizarem e pousarem mansamente, riachos e córregos de todos os tipos, dos que brotam das pedras, e dos que encharcam as terras, e dos que se aprofundam e somem no meio das rochas ou no meio da mata.

Daqueles anos de sua infância Marina sempre se lembraria com saudades, aquela nostalgia de quem foi feliz e sabia, e por isso aproveitava todos os momentos, sorvia-os, sugava-os com canudinho, mergulhava neles espantando qualquer sinal de melancolia ou de "um dia isso pode acabar". Para Marina, como para todas as crianças, os momentos se esgotavam em si, e o futuro seria vivido no momento certo, e não no presente, como angústia ou ansiedade. Isso é para os adultos, e a menina nunca foi nem quis ser adulta antes do tempo.

Lembrava-se com um gozo cortante e amolecedor de quando as chuvas chegavam; sim, por que antes das chuvas, quando estas se estavam guardando e preparando, Marina se sentia um bicho enjaulado; ficava deprimida, irritada, agitada sem saber porque, procurando e não encontrando, aquela fome de tudo que alimento nenhum saciava, aquela moleza e vontade de chorar; uma TPM infantil. Mas quando chegava a chuva tudo que era ruim e doloroso passava magicamente, ficava para trás, no esquecimento benvindo; a chuva lavava Marina por dentro e por fora, por que sempre corria para o quintal, para a rua, sem suportar que lhe privassem das águas; era um ser aquático vivendo deslocadamente num meio seco. E passou a vida procurando molhar o que devia ser mudado para que se sentisse feliz.

Por exemplo, molhar o ambiente árido das escolas em que estudava, com aquelas lições imensas para serem feitas em casa depois das lições imensas feitas na escola; molhar a desertidão das filas e dos uniformes que era obrigada a enfrentar, e os cantos ufanistas louvando a pátria, "as praias do Brasil ensolaradas, lá rá lá rá, eu te amo meu Brasil, eu te amo", ou louvando a Deus e ao maná "papai do céu abençoe esse lanchinho que vamos tomar"; umedecer os livros didáticos e as aulas de moral e cívica, assim como as de matemática, história, geografia, francês e inglês, e língua pátria, a suprema abominação das cópias quilométricas em cadernos de caligrafia, e as redações com temas e número de linhas definidos - muitíssimo bem delimitados - como aliás tudo o mais na vida das crianças dentro da escola, como se escrever e pensar pudessem ser contidos no tempo e espaço; todas as férias Marina escrevia sobre "minhas férias no sítio" (mesmo que não tivesse ido para sítio nenhum), e contava dos rios em que nadou, das fontes que visitou e sentiu os respingos na pele, das lagoas cheias de aves e peixes, com os quais havia conversado e convivido e sido feliz; contava que passara horas deitada de barriga pra cima olhando as nuvens, identificando cirros, cumulus, nimbus, stratus, imaginando as formas delas, que pareciam tubarões, arraias, golfinhos, anêmonas com tentáculos, plantas aquáticas, vitórias-régias, seres de outros planetas, e tentando calcular mentalmente quanto vapor d'água conteriam (pois as nuvens são formadas por vapor d'água, aprendera nas aulas de ciência, naqueles tempos em que só havia água nelas, e não ácidos e enxofres) e quando deveriam chover e se esvaziar, enchendo-a de alívio quando chegavam.

Portanto Marina passara a vida tentando molhar o ressecado, regar o árido, pra ver se brotava vida de algum tipo naquele imenso deserto que era a vida e a nação debaixo de uma ditadura militar; tentava molhar a igreja e a religião, lendo a Bíblia de trás pra frente, procurando outras interpretações para ela, criando rezas e orações especiais e diferentes que chegassem mais rápido e com mais eficácia aos céus; tentava molhar as brincadeiras com os amigos na rua, inventando regras novas para jogar bolinhas de gude e soltar pipa, afinal o objetivo não era que as bolinhas fossem matadas e as pipas empinadas? Mas os amigos não compreendiam tão filosóficas regras, já que as antigas e tradicionais sempre lhes pareciam naturais, pra quê mudá-las?, e entendiam menos ainda a necessidade que a menina sentia de molhar a vida e acabar com a aridez dela.

Cresceu assim solitária, no meio de tanta gente, molhada no meio do seco, cheia de vida no meio do deserto; e só começou a perceber que era muito diferente, um ser úmido e fluido no meio da rigidez, quando percebeu o que fazia a vida secar.

Não foi algo mágico, "a compreensão desse instante solitário", caído sobre ela; foi, antes, um processo, que levou Marina a questionar tudo, comparando com as águas que fluíam dentro dela, e das quais tinha vindo e nas quais seus ancestrais haviam vivido e lhe deixado gravado no corpo; foi sentindo no próprio corpo a diferença entre ser e não-ser, entre se submeter e mandar, entre ser livre e escrava, que Marina foi percebendo a rigidez e a sequidão do mundo que a rodeava, das regras e normas que lhe faziam obedecer, das leis e da autoridade que lhe haviam imposto sem que pudesse escolher; sentia a dureza e a inflexibilidade dos sistemas, a escola, a família, a religião; tudo lhe parecia seco em contraste com as águas que deviam e podiam chover e penetrar onde quisessem, sem necessidade de explicações ou justificativas, simplesmente por que existiam e cumpriam sua missão: ser água e ser livre. Ser o que era e não o que lhe obrigassem. Nada conseguia conter as águas, e nada continha Marina, ao menos internamente.

Sentindo a intensa e terrível ruptura entre ser o que queria e ser o que podia, entre o interno e o externo, o pessoal e o social, Marina começou a se debater como um peixe fisgado. A boca sangrava, a rede oprimia, e ela foi percebendo que debater-se não resolvia. As forças externas eram mais fortes que as internas, que a vontade de liberdade e o desejo de expansão.

E foi se debatendo que Marina acabou chegando a pessoas como ela, fluidas, flexíveis, seres aquáticos num mundo terrestre; do mesmo modo que não se pode conter as águas, não se pode impedir que os seres aquáticos se encontrem, reúnam-se, misturem suas águas, e espumem, e borbulhem.

Não se consegue impedir que as águas caminhem por onde queiram, assim como não conseguiram impedir que os seres aquáticos abrissem seus próprios caminhos no meio do deserto. Apesar dos tanques, dos canhões, das metralhadoras, dos rolos de arame farpado fechando os caminhos; apesar das fardas, e dos coturnos, dos quépis, das condecorações, dos desfiles e marchas oficiais; apesar das leis, das regras, das normas, dos regulamentos, dos castigos e punições; apesar dos concursos públicos, dos empregos difíceis, do dinheiro dos empresários, do poder dos amigos, das relações pessoais; apesar dos telefones grampeados, das intervenções nos sindicatos, dos partidos políticos proibidos, do fechamento do Congresso; apesar do medo, das traições, das delações, das prisões, das torturas... apesar, ou mesmo por tudo isso, os seres aquáticos continuaram a se encontrar, e agitar, e espumar, e borbulhar, e nadar no meio dos imobilizados, das trilhas dos corpos estáticos e mortos, por entre as pedras, as folhas, os galhos, as redes, os animais apodrecendo cheios de fedor, por entre todo tipo de obstáculos que pareciam intransponíveis.

Marina vivia, enquanto isso acontecia lá fora; vivia como podia, como podiam os adolescentes, assustada com o que os adultos e poderosos faziam da vida, apavorada com o que os humanos faziam de sua humanidade, represando os instintos e vivendo pela metade. Nos dias de sol inclemente que derretia o asfalto das ruas, amolecendo-o e formando poças pastosas, Marina costumava sentar-se na varanda do quarto de sua casa no interior e conversar sobre o futuro com suas amigas.

Futuro era uma palavra tão distante, como se uma ou duas horas depois não fosse futuro; futuro era o que as pegaria de surpresa dali a alguns anos, muito tempo à frente. Fazendo as contas sempre descobriam estupefatas que teriam bem mais de quarenta anos no ano 2000, imagine, mais de qua-ren-ta-a-nos!, velhas, vamos estar muito velhas.

Umas ficavam em desespero, velhas, com rugas, filhos crescidos, maridos barrigudos, seios caídos - delas, não dos maridos - isso por que ainda não havia a abençoada cirurgia plástica, os liftings, as lipoaspirações assassinas; davam gritinhos de desespero assanhado, enquanto Marina pensava. Não achava assim tão drástico ter quarenta anos, sua intuição lhe dizia que seria interessante, que se sentiria bem, talvez até mesmo feliz, quando fosse adulta e independente, podendo cuidar da própria vida e morte, inclusive se matando se achasse conveniente.

Já nessa época, por volta dos treze, catorze anos de idade, Marina lia Sartre e Camus, considerando o suicídio uma opção, uma boa saída se não houvesse nenhuma outra. Era seu trunfo para o futuro, caso ele fosse insuportável. Nunca lhe passava pela cabeça pensar no suicídio como covardia, como achavam alguns, pois para ela era um direito seu e de todos, um direito inalienável de todo ser humano poder dispor da própria morte, assim como deveria poder dispor da própria vida. Gostava de se sentir trágica, uma Medéia ou uma Perséfone brasileira, a tragédia lhe dava sensação de profundidade, excentricidade. Gostava de olhar-se no espelho sofrendo, as lágrimas escorrendo de seus olhos que se tornavam mais verdes assim úmidos, o sofrimento imaginário pelas mazelas concretas lhe caía bem.

Sofria pelas crianças famélicas, de pé, ó vítimas da fome!, sofria pelos bombardeados da guerra, sofria por Anne Frank, por Polianna, por Chico Buarque e seus olhos verdes cor de ardósia exilado no exterior, barbudo, bêbado e infeliz, sofria por Víctor Jara com as mãos e a língua cortadas pela ditadura dos vizinhos andinos, da ditadura do “pobre ancião” cujo Papa, muitos anos depois, intercederia por clemência - por que não pediu piedade para os torturados? - sofria por todos e por si mesma, por ser cidadã deste mundo cão e vil.

Sofria de amor platônico pelos professores da escola, costumava apaixonar-se por um a cada ano, geralmente os mais intelectuais, mesmo que mais feios, casados, com esposa e cheios de filhos, e ia sempre muito bem nas matérias que eles lecionavam.

Apaixonava-se também pelos personagens e escritores dos livros que retirava na biblioteca municipal, A.J.Cronin, Érico Veríssimo, Darwin, Garcia Márquez, Sartre, Dostoiévski, Galileu Galilei e Giordano Bruno (tinha um fraco pelos renascentistas), apesar das fotos impressas nos livros mostrarem homens velhos e horrorosos; mas isso não importava, e ela lhes escrevia cartas, conversando todas as noites com eles, sem se importar que àquela hora deveriam estar ocupados com suas esposas e amantes, ou há muito, muito tempo, apodrecidos em seus túmulos.

Sabia que vivia na tangente da vida, que qualquer forçazinha maior poderia jogá-la fora, assim como tinha receio de ser sugada para o centro - nesse caso era preferível continuar na tangente. Vivia na tangente da vida assim como vivia na periferia da grande capital de seu país, que por sua vez vivia na periferia do continente, e este na periferia do planeta e este na periferia do Sistema Solar, que vivia na periferia da galáxia, e esta na periferia do Universo... haja luz, e houve luz, um grande big bang, mas a luz foi apropriada por alguns mais espertos enquanto outros continuavam periféricos pela vida afora, mal iluminados e cheios de frio na alma.

Continuou sofrendo pela vida adentro, sabendo que se houvesse uma redenção esta estaria no futuro, na velhice, quando tornar-se-ia sábia, muito velha e muito sábia, repleta de histórias para contar e de doces para as crianças; teria aprendido a amar as pessoas, individualmente, sem exasperar-se com sua mediocridade, suas pequenas e odiosas mesquinharias. Teria aprendido a molhar o mundo, nem que fosse com suas lágrimas.

Nessa época, apesar de ter alguns poucos amigos e uma multidão de conviventes, amava a humanidade em geral, irritando-se com os indivíduos especificamente; preferia amar apenas as aves do céu, os peixes do mar e as bestas feras do campo, que nada lhe exigiam nem a decepcionavam. E, claro, os professores e intelectuais, que lhe faziam companhia na sua solidão.

Os tempos eram de ditadura militar, mas suas amigas, como ela própria no início, nem se apercebiam disso, vivendo como tantas outras meninas, preocupadas com a escola e os garotos, as roupas que iam usar, os discos que poderiam comprar com o pouco dinheiro que possuíam, apaixonadas pelos artistas de cinema e da televisão.

Eram tempos de transamazônica na rede de televisão do grande apresentador dos domingos, que louvava os feitos dos governos militares enquanto estes esmagavam a juventude e outros nem tão jovens da oposição. Tempos de desfiles de 7 de setembro, data tão festiva, foi a independência desta terra tão querida, e Marina adorava desfilar na fanfarra da escola, com o uniforme cheio de cordonês e botões dourados, com franjas que marchavam junto ao vento; só não gostava de tocar triângulos e pratos, sonhando em sair empunhando uma caixa de repique ou um surdo, a glória seria tocar um bumbo daqueles bem grandes, amarrados na frente do peito com tiras de couro nas costas, mas isso era apenas para os meninos, futuros homens da república, herdeiros legítimos do milagre brasileiro. Ela ainda não sabia que as louras do norte do mundo queimavam sutiãs em praça pública. Eram tempos de MOBRAL e Don e Ravel, você também é responsável, então me ensine a escrever, e a menina sonhava em ser professora e acabar com o analfabetismo, tomara que sobrem alguns analfabetos para quando ela crescer, e como sobraram e se reproduziram, a miséria se espalha como erva daninha quando não arrancada constantemente. Sobraram, mas Marina já não havia mais, justamente por que desejava acabar com o analfabetismo e todo tipo de outras injustiças.

Eram tempos de Gretchen, Lady Zu, Odair José, desbravamento da Amazônia, integração nacional, músicas bregas que todos cantavam, pois ninguém passa impune por uma ditadura militar, mesmo que não perceba, mas Marina se recusava. Apenas ela guardava tudo, inconscientemente, em seu coração, grande e sensível, sofrendo as dores que outros fingiam ou realmente não sentiam.

Apesar da opção de um futuro abreviado pelo suicídio, sentia que o futuro, aquele futuro distante, poderia ser mais interessante que o presente, e que valia a pena esperar um pouco mais; afinal, se nada tinha sentido mesmo, então por que não pagar pra ver? E enquanto vivia ir mudando tudo, molhando o seco?

Assim nasceu Marina. Nasceu pela segunda vez no mar, durante um batismo num navio, quando pegou as poucas coisas que tinha, mudou-se para a cidade grande que tinha mar e decidiu fazer parte de um grupo de guerrilha e foi aceita, apesar da pouca idade. Era uma das mais jovens do grupo, o que era absolutamente irrelevante, por que apesar, ou justamente por ser tão nova, era a mais corajosa, a mais destemida, a que ia sempre na frente, e empunhava as armas, e falava nas esquinas para grupos de transeuntes que paravam para escutá-la mas logo se afastavam com medo, enquanto ela corria e se misturava à população, quando apareciam policiais de ronda.

Doce Marina, melíflua Marina, de água doce com açúcar, que brigava, lutava, corria, se escondia, e tudo por que decidira ensopar o mundo, liberando as águas que outros haviam represado sem consultar ninguém, nem pedir desculpas pelas conseqüências do represamento mal feito.

Doce Marina que um dia, sem nunca ter sabido como, acabou presa pelos homens da ditadura, levada do apartamento em que morava com alguns companheiros, companheiros que nunca mais a viram depois daquela manhã ensolarada em que foi levada de camisola, chinelo de dedo e com apenas uma muda de roupa e a escova de dentes que lhe permitiram pegar.

Doce Marina, presa sozinha, sem janela para ao menos olhar o mar, ou as nuvens, sem água para molhar-se, e que naqueles dias pôde contar apenas com as águas que havia guardado dentro de si; cantava canções de mar e chuva que os companheiros das outras celas escutavam com os olhos marejados, sem saber quem estava cantando e embalando-os naquelas noites de escuridão nacional.

Marina cantava, esperava o tempo passar, se recusando a falar qualquer coisa sobre as atividades e pessoas do seu grupo; sabia que havia caído delatada por alguém, mas se recusava a derrubar outros; calou-se, e isso foi sua ruína. Seu silêncio e sua beleza úmida e doce, de águas de igarapés profundos, os cabelos escorridos como depois da chuva, os olhos e lábios sempre úmidos, e a alma sempre encharcada de sonhos, de justiça, de vontade de mudanças, de igualdade.

Marina cantava enquanto lhe batiam, enquanto torturavam, cantava interiormente em meio aos choques elétricos que queimavam e ardiam seus dedos, suas orelhas, suas narinas, sua língua, sua vagina. Fechava os olhos e pensava nas chuvas e nas ondas do mar enquanto seu corpo era tomado de si, usado por outros, despersonalizado, machucado, arroxeado, estuprado. Não aplicaram nela a máxima do governador do seu Estado de origem que declarou anos depois na televisão "está com vontade sexual? Estupra, mas não mata". Com ela, como com outras, os homens da ditadura fizeram o serviço completo. Estupraram e mataram.

Marina estava morta. Tão leve aquele corpo quando a carregaram, colocaram no carro, amarraram uma pedra grande e levaram para o mar. Tão leve aquele corpo quando bateu nas ondas e afundou, acolhido pelas águas, os cabelos enroscando-se em algas enquanto afundava. Tão leve aquela alma que não levava as omissões, nem as delações, nem as covardias da maioria dos habitantes que andavam pelas ruas das cidades como se nada estivesse acontecendo.

Marina estava morta. E ninguém sabia. Não houve velório. Não houve enterro. Não houve condolências para os que a amavam. Só a ausência, pesada como a pedra que havia afundado seu corpo.

Marina estava morta e o povo vivia normalmente. Marina estava morta e ninguém sabia. Marina estava morta e seus torturadores viviam. Eles sabiam. Só eles sabiam, mas nunca falariam. Morreriam velhos, entre os filhos e netos, sem nunca contar quantos, como e onde mataram. Eles só sabiam por que mataram. Receberam ordens para agir, e o fizeram pela Segurança Nacional. Marina estava morta e eles nunca carregariam essa culpa, pois não sentiam culpa por essas mortes.

Nem notaram que Marina estava mais viva que eles. Que os mortos estavam vivos, e eles eram os mortos. Nasceram mortos, viveram mortos, morreram já mortos. Não notaram nem nunca notariam, por que os mortos nada notam.

Marina estava morta como o resto do país. Morta de miséria, morta de desigualdade, morta de injustiça, morta de dependência, morta de entreguismo, morta de desesperança. Mas Marina estava morta da morte alheia, da morte que os vivos repassaram a ela, da morte que a fizeram morrer para que pudessem continuar mortos-vivos.

Marina estava morta e ninguém sabia. Ninguém chorava. As águas continuavam represadas.

Seu corpo afundou no mar, e os peixes desandaram a chorar. As algas choravam. O plâncton chorava. As baleias e tubarões verteram suas lágrimas. As ostras e os mariscos abriram suas conchas e choraram por Marina. As anêmonas, as estrelas-do-mar, os pepinos-do-mar, os camarões, e lulas, e polvos choraram, os siris choraram e choraram os caranguejos. Choraram as arraias e choraram as cobras marinhas. Os seres aquáticos choraram, e o nível do mar começou a subir.

As águas subiam veloz e violentamente, engrossadas pelo choro copioso dos seres das águas que não conseguiam parar de chorar, por Marina, por si próprios, pela vida, pelo mundo... o Atlântico transbordava.

Os homens altos e loiros de New York fugiram em seus carros subindo os Apalaches para evitar o afogamento, embrenhando-se no continente na tentativa de se salvarem, mas não adiantava muito, pois as águas entraram pelo São Lourenço, transbordaram os Grandes Lagos, desceram pelo Mississipi e Missouri, até o Rio Grande, onde pararam milagrosamente, misericordiosas com os mexicanos, herdeiros desse pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos. As águas pararam ali, formaram nuvens sob aquele sol do deserto, atravessaram o país todo, olhando para o povo indígena que cantava, e dançava, dança da morte e da vida, e jogava futebol e bebia chocolate, e explorava as minas já esgotadas, e plantava milho nas terras baixas e batatas nos platôs das montanhas frias. Batatas que haviam jogado nos navios dos espanhóis, mas não tinham trazido de volta sua princesa asteca, indo alimentar os europeus pelos séculos seguintes. As nuvens atravessaram o pobre México, tão de longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos, passaram sobre as indústrias maquiadoras das fronteiras, olhando desconsoladamente e piscando de vergonha. Passaram sobre a capital e viraram o rosto, vermelhas de indignação, para não ver os homens do PRI mal-governando o pobre México. Só choveram no sul, na província de Chiapas, mas isso foi décadas depois, quando o sub-comandante com o rosto encapuzado molhou-se com aquelas águas e decidiu que era hora de dar um basta na secura do seu rico país.

Os europeus da costa do Atlântico também subiam os montes e fugiam desesperados, enquanto pescadores noruegueses abandonavam seus barcos cheios de bacalhaus que seriam salgados e vendidos para o mundo por preços impossíveis de se comer. Vendidos junto com o corpo do Cristo morto que proibia que se comesse a carne dos bois e porcos na quaresma, alimentando as importações dos peixes salgados.

A costa oeste da África recebeu aquelas águas como bênção dos orixás. Os negros saíam às ruas e corriam para as praias para ver aquelas águas abençoadas que fertilizavam suas terras, molhavam seus desertos, salvavam suas lavouras domésticas e coletivas enquanto destruíam as plantations de algodão, e de amendoim, de sorgo e de cacau, de tudo que exportavam para os europeus e agora não mais plantariam. Por que agora a África voltava a ser dos negros.

O Primeiro Mundo assistiu boquiaberto à revolta do Atlântico, que nunca, nunca havia agido assim, sendo um oceano tão compreensivo e tranqüilo até o momento, desde a época do descobrimento da América, apesar do medo que assaltara os primeiros navegantes, e sequer puderam desconfiar que os maremotos e inundações eram provocados pelas lágrimas de uns seres marinhos da periferia do mundo, que sofreram com os olhos secos por tempo demais, mas enfim conseguiram soltar o choro represado dentro deles, liberado pela morte de Marina.

Nunca conseguiram entender nem ficaram sabendo da força que existe na vida e na morte de um injustiçado.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

SENHORA DO TEMPO. COSTUREIRAS E ARMARINHO

Em 27 de fevereiro de 2011, domingo como sempre, a Senhora do Tempo, Vera Guimarães escreveu esta deliciosa crônica, hoje republicada com ilustração de Patrícia Caetano.


Patrícia Caetano ilustrou

Por Vera Guimarães


Instigada pela amiga Fal, comecei a pensar no assunto: como nos vestíamos em 1940, 1950, 1960?

No interior de Minas, onde eu vivi até meus 18 anos, completados em 1960, não existia roupa pronta para comprar. Nossas roupas eram feitas sob medida, por alguém de casa ou por costureiras, moças e senhoras habilidosas que viviam de transformar tecidos e linhas em nossos sonhos e desejos. No meu caso, minha irmã mais velha, que já se foi deste mundo, era costureira profissional e também fazia nossas roupas, até ela se casar.

No geral, as costureiras faziam todo tipo de vestimenta, mas algumas se dedicavam a alguma especialidade: havia as que faziam roupa de festa, havia as camiseiras, as que faziam calças compridas (slacks), as que faziam roupa de cama...

Catálogo de Verão 1964
Imagem: Flickr 

Até nossas calcinhas e soutiens eram feitos por costureiras. Os soutiens eram feitos de algodão firme, pespontados para ficarem ainda mais firmes, acolchoados com algum material próprio e quase tão pontudos como os do Jean-Paul Gaultier consagrados por Madonna. As calcinhas eram abotoadas de lado, obrigando-nos a uma ginástica para entrar nelas e delas sair. Éramos jovens e flexíveis.

As modistas, outro nome para costureiras, geralmente trabalhavam em suas próprias casas. Nossa irmã costurava num cômodo separado da casa, um barracão ensolarado, de onde soava a cadência da velha máquina de costura PFAFF e de onde saía seu alegre cantar. Sempre achei uma delicia chegar a um desses lugares, cheios de cortes de tecidos, caixas de aviamentos, linhas coloridas, fitas métricas, moldes, vestidos alinhavados em manequins, fiapos pelo chão, e principalmente os figurinos, ah, os figurinos! Meus preferidos eram os Lana Lobell, americanos, que exibiam moças esguias, em vestidos rodadíssimos e cheios de graça, que tentávamos imitar.



Alceu Penna
Foto: Blog Zaz

Além dos figurinos, nossas fontes de inspiração ou cópia eram o cinema e a revista O CRUZEIRO, onde reinava soberano o imortal Alceu Penna, cujas garotas, encanto dos encantos, eram meu ideal de aparência e, principalmente, de atitude perante a vida: esportivas, bem humoradas, soltas, enturmadas, articuladas, tudo o que eu sonhava para mim.

Escolhido o modelo e o tecido adequado ao modelo, definida a metragem , a tarefa agora era ir às compras. Havia muitas, mas muitas mesmo, lojas de tecidos. Minha mãe tinha suas preferidas, fosse pela variedade, simpatia das vendedoras, preço bom, facilidade de pagamento. Eu adorava acompanhá-la nessas expedições de caça ao tesouro. Se a ocasião - uma formatura, um casamento - exigisse algo mais sofisticado, até se considerava a hipótese de uma ida a Belo Horizonte, onde nos maravilhávamos com o tamanho e o estoque da Casa da Sogra ou da Copacabana Tecidos.

Comprar tecidos nos introduzia num mundo de vocabulário precioso: cetim, cetim de algodão, gorgurão, fustão, tricoline, tafetá, organza, organdi, laise, seda-pura, veludo, shantung, changeant, chiffon, mousseline, crêpe, cambraia, renda valenciana, renda marescot, renda guipure...

Definir com exatidão o que queríamos implicava o uso de um jargão e falávamos com propriedade sobre blusado, enviesado, nesga, manga japonesa, manga fofa, manga ¾, redingote, godet, evasé, plissé, chemisier, palavras que, ademais, nos familiarizavam com a língua francesa.

A confecção das roupas demandava no mínimo duas idas à costureira: tirar medidas e fazer a prova. Dependendo do grau de detalhismo da freguesa ou da profissional, essas provas viravam duas ou três. Finalmente, a emoção de sair da costureira carregando a preciosa carga envolvida em papel de embrulho – lembro-me direitinho dos tons de rosa, verde, amarelo ou azul desses papéis -, fechada nas laterais com alfinetes, por supuesto.

Lá pelo fim da década 1950, começaram a chegar à cidade as lojas de roupas prontas, as confecções, onde comprávamos principalmente roupas de malha, lingerie, as meias e os agasalhos para a escola. Nada muito sofisticado.



Mas, ah, sofisticado, comprado pronto e certamente importado foi o que uma de minhas irmãs ganhou dos patrões, num Natal: um conjuntinho de ban-lon, malha macia como eu nunca havia tocado, num amarelinho pastel encantador, aquela coisa mais linda que só se via nas revistas e nem ao menos se podia copiar.

Deve ter sido por aí que começou o domínio das confecções, que investiam no que não podia ser copiado, ao mesmo tempo em que valorizavam suas marcas, suas logomarcas, e assim deslocavam das salas das modistas para as novas lojas o objeto do nosso desejo.

Sei que aos poucos fomos abandonando as costureiras. Guardo delas, e de tudo que cercava seu ofício, lembranças carinhosas.

Ah, os armarinhos do título? Ficam para uma próxima conversa.














PÊÉFE às 06:01

terça-feira, 6 de agosto de 2013

DO IMPACTO QUE MATOU SATÉLITE

Fal Vitiello de Azevedo




Um livro é tão mais, mais do que palavras, do que uma história, mais do que palavrinhas enfileiradas, doces, amargas, ecoando em nossa caixa toráxica.
Um livro é tão mais do que um universo, dois, três mundos imaginados, vitórias, medos, certezas, uma Lua que se tenta alcançar em uma cápsula vitoriana lançada por um canhão.
De sons garantidos pelo silêncio, de pequenas sublimações de amigos acrobatas, um livro pode seguir, este livro pode seguir, abrindo caminho pela pele, arrebentando veias, estilhaçando músculos, arrastando correntes.
Um livro nos faz fechar os olhos no meio da página,este livro nos faz fechar os olhos no meio da página e pensar no que há e não há, no possível, no tangível, no que está.
As nossas dores e verdades, encantamentos e certezas. Expostos, claro, quando queremos, quando não queremos, quando anunciamos, quando calamos, quando desafiamos todas as leis da física e abrimos a escotilha e atiramos, no espaço sideral, o corpo que nos seguirá como um fantasma, talvez amigável.

Digo, penso, acho, sou nas palavras de Esther, no ritmo de Esther, no que Esther revela, no que Esther adivinha. Ao sol, penduradas, nossas breves vaidades, nosso profundo encantamento.
Esther inventa meu dia, ela me vê saturada e aflita, pronta e exausta, sobrecarregada e frustada, iludida, sorridente. Ela sabe que você será lançado no Cabo Canaveral rouco e sombrio, ainda que em cem anos, ainda que de uma outra forma, ainda que não seja lá.

Um rei amou Esther mais do que a todas as mulheres e lhe disse sim e incrustou sua coroa de joias e abriu caminhos e ofereceu segredos e desdobrou o linho e respirou o sol e construiu parênteses.
A cadência que ondula, as frases, petardos, as metáforas, comboios. Minha Esther profética sonha com viagens do próximo século, com bibelôs eduardianos, com avanços ainda sem nome.
O rei amou a Esther mais do que a todas as mulheres, eu amei a Esther mais do que todos os demais e em suas palavras encontrei a Graça e perseverei e entendi os sinais e amei as respostas e fui salva, mais de uma vez. E fui salva, todos os dias. E fui salva de mim mesma, de você, das palavras dela, da minha dor abissal, do impacto que matou Satélite, do impacto, do impacto.

E as jóias da coroa de rainha nos cabelos dela.
você encontra o livro da Esther aqui


domingo, 4 de agosto de 2013

INTRODUÇÃO



Dade Amorim

Ao participar de ações promocionais de saúde em comunidades do município do Rio de Janeiro, observa-se que muitas pessoas desenvolvem doenças por desconhecer alguns cuidados básicos de saúde. Porém, alguns alegam que o problema de saúde é devido à dificuldade de acesso aos serviços oferecidos pelo SUS em hospitais de grandes emergências ou nos centros de atendimentos primários. “Qual atendimento procurar? Como marcar uma consulta? Como ter um próximo atendimento?”
Esses questionamentos despertaram o interesse em verificar as formas e meios utilizados de comunicação nos serviços oferecidos pelo SUS, levantando a questão: será que as formas utilizadas para a divulgação dos serviços de planejamento prestados são suficientes, adequadas, eficazes e objetivas?
A dificuldade da população quanto ao acesso aos serviços é fato inquestionável, apresentado em noticiários que apontam problemas do atendimento, filas e falta de vagas. O presente estudo deseja saber se o problema poderia ser minimizado com uma nova política de comunicação ou se a comunicação realizada atualmente já esgota as possibilidades de ação.
Para tal, serão analisados alguns estudos científicos, mediante pesquisa bibliográfica sobre o tema da política de planejamento familiar, sua estrutura e abordagem. Utiliza-se, como amostragem da atuação dos postos de saúde municipais, a experiência vivida no Centro Municipal de Saúde Jorge Saldanha Bandeira de Mello, observada a atuação dos profissionais, suas opiniões e experiências, com base no desempenho da divulgação de informações e serviços. Incluiremos, também, a opinião da clientela que participa do programa.
No primeiro capítulo será apresentado o conceito de saúde pública, desde seus primórdios até que tenha sido percebida sua importância para o desenvolvimento econômico. Incluem-se ainda comentários acerca da estruturação da saúde pública no Brasil e a reforma de Oswaldo Cruz enquanto medida de saneamento econômico, ressaltando-se a Revolta da Vacina como fruto do desconhecimento popular sobre os benefícios da vacina.
Apresenta-se aqui a mudança gradual da assistência social no país até a promulgação da Constituição de 1988, a criação do Sistema Único de Saúde e o projeto da participação popular.
O capítulo ressalta o lançamento do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher e do Programa de Planejamento Familiar em 1983 e as dificuldades de continuidade e avanços nessa área durante longo tempo, mencionando alguns pontos da lei 9.263, que define o planejamento familiar. Expõe estudos e pesquisas realizadas sobre o funcionamento deste programa, seu entendimento por parte dos funcionários e usuários do sistema, a incidência de gravidez não planejada e abortos, além do perfil dos usuários.
O segundo capítulo tratará de esclarecer o que é comunicação segundo diversos teóricos, os processos utilizados, a comunicação de massa e sua segmentação. Chega ao entendimento do uso da comunicação como instrumento estratégico, do desenvolvimento de uma comunicação eficaz e da importância da comunicação interna e do feedback.
Finaliza comentando sobre um estudo científico que trata da política pública de comunicação no Brasil, e outro estudo que apresenta problemas do SUS para receber as queixas dos usuários.
Já o terceiro capítulo apresentará a experiência no Centro Municipal de Saúde Jorge Saldanha Bandeira de Mello, acerca do trabalho dos profissionais que atuam no programa de planejamento familiar e dos usuários do serviço; o que foi observado quanto à forma de comunicação aos usuários do posto em outros serviços; a opinião dos profissionais quanto ao suporte oferecido pela Secretaria; as dificuldades de obter material didático, insumos ou profissionais para atuarem no serviço. Analisa ainda as ações de planejamento visando a comunicação com o público – jovens, adolescentes, homens ou mulheres sem filhos –, as capacitações fornecidas pela Secretaria Municipal, e como é percebida a atenção do SUS relativamente ao programa.
Será analisado o perfil dos usuários que participaram do grupo de planejamento familiar formado durante o estudo, como chegaram a ter conhecimento sobre o serviço e que atendimento lhes foi prestado.
Na conclusão, apresenta-se uma problematização com base nos estudos científicos expostos no primeiro capítulo e na realidade experimentada no Centro Municipal de Saúde Jorge Saldanha Bandeira de Mello, confrontada com a teoria da Comunicação, em paralelo com um planejamento estratégico de comunicação.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

SENHORA DO TEMPO: CINEMAS DA MINHA VIDA

Por Vera Guimarães


Agora, com ilustração de Patricia Caetano.
Esta crônica foi publicada no Primeira Fonte em 13 de fevereiro de 2011. 



Muito cedo as salas de cinema me encantaram. Na minha cidade no interior de Minas, cresci sabendo da existência daqueles dois cinemas. Eles já estavam lá antes de mim.


O Cine Theatro Trianon, situado num extremo da rua do footing, velho e pequeno, era composto de uma platéia e das galerias. A platéia, provida de poltronas de madeira fixadas no piso, se situava no nível térreo. As galerias eram estruturas de madeira localizadas acima e nas laterais da platéia, formando praticamente um teatro elisabetano, o que descobri muito tempo depois, ao conhecer o teatrinho de Sabará.  Os pilares de madeira entalhada que sustentavam as galerias laterais saiam diretamente da platéia e criavam poltronas indesejáveis, das quais não se enxergava a tela. Quem se assentasse ali, ficava com o pescoço torto para se desviar do pilar e ver o filme. Azar de quem chegasse tarde, o que não ousávamos, já que ver e ser visto fazia parte do programa.

Na praça no outro extremo da rua do footing,ficava o Cine Meridiano, maior e mais novo, amplo, um vão enorme (eu gostaria de conferir esse “enorme” hoje, mas o prédio não existe mais). Neste as poltronas já eram estofadas e a tela era grande, permitindo a projeção de filmes em cinemas cope.

Logo que pude sair de casa sozinha, isto é, sem a companhia de meus pais ou irmãos, lá pelos 8 anos, ia com amigas para a porta do Trianon e dávamos  um jeito de nos irmos esgueirando para dentro do saguão, com a desculpa de vermos mais de perto os cartazetes, e aos poucos estávamos vendo pedaços do filme pela greta da cortina. Por várias vezes o porteiro veio nos dizer que aquele filme não era para nós. No passeio e na rua procurávamos por pedacinhos de filmes, fotogramas que guardávamos como tesouro quando encontrávamos uma cena inspiradora ou o galã dos sonhos.

Lá pelos 10, 11 anos, já familiarizada com as salas de cinema, comecei a ir, às terças-feiras, à Sessão das Moças, cujo ingresso custava “um dinheiro”, provavelmente Cr$1,00, valor que eu conseguia vendendo vidros e garrafas para a farmácia, vendendo jornais velhos, entregando marmita, ou, bênção, ganhando um trocado de algum irmão mais velho ou de algum tio em visita à cidade. E principalmente de minha mãe.

Pouco tempo depois, eu devia ter uns 14, 15 anos, anunciou-se a construção de outro cinema, esse, sim, prometendo tecnologia, conforto e charme. Ainda mais que a vizinha cidade de Curvelo, tida como rival de Sete Lagoas, tinha acabado de inaugurar seu Cine Denise, que diziam ser uma maravilha. Existir lá um cinema assim era um desaforo para os setelagoanos. Perto da inauguração, já pronto o prédio de amplas dimensões e linhas modernas, os donos lançaram um concurso para escolha do nome do cinema. Espalharam urnas pela cidade, e as vitrines de uma loja de tecidos exibiam alguns dos palpites. Eu me lembro de ter ficado ansiosa pelo resultado que, quando veio, para mim foi absolutamente decepcionante: Cine Rivello. Como?  Por quê? Revelou-se, depois, que Rivello era a cidade italiana de onde vieram os ascendentes dos donos do cinema. Não importa, era um nome simpático e passou a fazer parte da minha vida.


Conheci, depois, muitas salas. Na Capital, freqüentei cinemas que ainda exibiam o luxo de arquitetura art déco, cortinas de veludo, pisos de mármore e granito, ferragens preciosas, lustres e arandelas bem desenhados, jogos de luzes, trilha sonora para antes e depois do filme. Frequentei também as salas mais modestas de cineclubes, instalados em centros acadêmicos, na Imprensa Oficial, ou mesmo em algum cinema que se dispusesse a carregar o título, para o bem e para o mal, de “cinema de arte”. Vi, depois, os cinemas darem lugar a igrejas e migrarem para os shoppings, onde hoje se encontra a maioria delas. Embora o bulício e a desconcentração que reinam nas salas de hoje não me agradem, continuo amando ir ao cinema.

Mas foi naquelas salas da minha infância que conheci a magia do cinema. Nos filmes que vi viajei por lugares inacessíveis e inimagináveis, aprendi História e acompanhei histórias, chorei por amores contrariados, torci por mocinhos, vibrei com cowboys falsos, copiei modelos de vestidos e cabelos, ri demais com O GORDO E O MAGRO, desejei tanto saber dançar sapateado, me afligi com o destino da mocinha em seriados que se interrompiam em horas cruciais, me meti  a falar inglês embromation...


Mas, principalmente, comecei a considerar a possibilidade de uma vida que, até ali, eu não sabia ser possível.


domingo, 14 de julho de 2013

SENHORA DO TEMPO: LADEIRAS DE BH





 Vera Guimarães




 A cidade do interior onde vivi até os 18 anos era (é) relativamente plana, e até o final da década de 1960 tudo ali se fazia a pé.

Já Belo Horizonte é cidade não apenas cercada de morros, mas seus bairros se espalham por colinas, serras, elevações diversas. Enfim, as montanhas alterosas.

Lá vivi dos 18 aos 52 anos, e foi ali que ocorreram todos os eventos de minha vida adulta: fazer faculdade, trabalhar, me divertir, ir e vir, abastecer a casa, levar filhos a médico e escola... Então, transitar pela cidade.

Morando na Serra (olha o nome) e estudando na então FAFI-UMG no Santo Antônio, fiz muitas vezes o percurso casa-escola a pé, freando para descer a Contorno, na altura do Cruzeiro, e bufando para subir a mesma Contorno para chegar à Carangola. Mesmo em outros endereços, sempre encontrei uma ladeira para vencer. Mas eu era jovem...

Mais tarde, já de carro, conheci verdadeiras pirambeiras. Até hoje ainda me espanto com o declive da rua Carlos Gomes para desembocar na Prudente de Morais. Por que eu me aventurava por ali? Com certeza haveria alternativa menos estressante. Da Barroca para o Gutierrez, havia também uma descida assustadora, não me lembro mais em qual rua.

Sobrinhos cariocas, acostumados à planura de Ipanema, quando em férias conosco, ficavam aterrorizados sempre que descíamos a Contorno no chamado Tobogã.

Até agora só falei das descidas apavorantes. Já as subidas demandavam motoristas habilidosos no controle de embreagem, já que não existiam carros com transmissão automática.

Para levar as crianças ao colégio, tínhamos que vencer o violento aclive da rua Campos Elíseos, na Barroca. Em uma manhã chuvosa, patinamos e não saímos do lugar. Na época, tínhamos a querida Belina amarela, amarela, não, mostarda, de tração dianteira. Marido, engenheiro mecânico, manobrou e pôs a frente do carro na direção contrária à que nos dirigíamos, e assim, de ré, ridiculamente subimos a ladeira escorregadia. (Ele tenta me explicar a lógica da coisa, peso sobre o eixo motor, aderência etc...) Só sei que por diversas vezes fiz essa manobra bizarra e não faço ideia do que os passantes imaginavam à visão de um carro cheio de crianças subindo a rua de ré.

Essa não foi a única circunstância em que a dócil Belina andou pra trás. Voltando de chácara que tínhamos, o câmbio quebrou de tal maneira que só aceitava ré e ponto morto. Quer dizer, nos 16 quilômetros entre Funilândia e Prudente de Morais, andávamos de frente nas descidas e no plano, até onde nos levava o embalo; depois virávamos o carro para vencer o plano e os aclives. Se nem todas as crianças se divertiram com isso, tenho certeza de que o mais novo, até hoje aficionado por carros e suas manhas, se interessou pelo caso, deu palpites, ajudou e curtiu as manobras, não foi, Lucas?

Hoje morando no Planalto Central, exatamente em Brasília, mais ando de carro que a pé. Sempre se disse que o brasiliense tem cabeça, tronco e rodas. Se eu for andar, mais encontro planuras que ladeiras.

Neste julho de 2013 passei uns dez dias em BH. De onde eu estava tudo se alcançava como pedestre: supermercado, cinema, praça, shopping, restaurante, clube. E muito andei, com prazer. Mas, velha que sou, confesso que sofri todas as vezes que tive que enfrentar a última ladeira até chegar ao apartamento da minha filha.

Por coincidência, antes que me viessem essas lembranças, e a propósito de outros assuntos, consogra me conta que meu genro sofreu violenta contratura na panturrilha e que, cheio de dor, ao encarar a referida última ladeira, se vira e completa o trecho de fasto.

Não é que nós, bípedes humanos, tal qual os automóveis quadrúpedes, também temos tração dianteira?

 Fig. 1- www.notícias.r7.com
 Fig. 2 – do acervo familiar: filha mais velha, a Belina, a chácara no cerrado, talvez 1980.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

SENHORA DO TEMPO: LEQUES, ABANOS E VENTAROLAS



Patricia Caetano, ilustra mais uma crônica de Vera Guimarães, publicada em 16 de dezembro de 2012, e republicada hoje. As cores de Patrícia, seu traço, remetem-me à exuberância de Frida Kalo, ao calor, à vida. Esta menina precisa ser entrevistada.
elb



 Ilustração de Patrícia Caetano


Vera Guimarães

Amiga me conta que em recente confraternização de fim de ano foi assediada como nunca, e atribui o fato à circunstância de estar usando um leque. Bobagem! Linda e na exuberância de seus 40 anos, nada mais natural que os moços quisessem se aproximar dela.


Ah, o leque! É mesmo! Na minha adolescência, década 1950, ele era acessório natural e obrigatório nas sessões de cinema e em outras ocasiões. As salas não eram climatizadas e sempre queríamos acrescentar um charme à produção. O meu leque era branco, pequeno, varetas de madrepérola, e, nelas, vazados formando arabescos. Perdeu-se no desgaste das fitas que uniam as varetas, nas mudanças de casa, no desuso.

Depois dele, em passeio num parque aquático dos EUA, precisei espantar o calor e comprei numa das lojinhas de souvenir um abano feito de palha trançada, com a etiqueta Made in Philippines. Esse está comigo até hoje e compõe um painel de outros objetos de fibra, a maioria chapéus.
Há cerca de dois anos ganhei um leque. Na ocasião fiquei agradavelmente surpreendida com a escolha do presente, nem cogitava que eles ainda existissem assim corriqueiramente. Apesar de apreciá-lo, nunca o usei. Vou corrigir isso.

A importância desse objeto utilitário, estético e testemunho de épocas fica patente no complexo de Greenwich, onde existe um museu dedicado exclusivamente ao leque. E a prova de que ele continua despertando interesse até mesmo econômico está nessa sofisticada loja. Ali você pode encomendar leque personalizado para o seu casamento, leque com estampa moderna ou clássica, há linha exclusiva para homens, para publicidade, para comemorações.


Recursos para refrescar o indivíduo ou o grupo existem desde sempre. Na caverna quente, alguém pegou uma folha grande ou talvez as asas de um pássaro e as agitou na frente do rosto, produzindo um ventinho gostoso. À medida que se descobriam novos materiais e que se desenvolviam novas habilidades, com certeza esses objetos foram aperfeiçoados. O que nunca faltou foi inspiração na natureza.

Leques foram e são largamente utilizados no Oriente. Há registros antigos deles na Assíria, China, Japão, Índia e Oceania. Eram confeccionados em madeira, bambu, papiro, seda, madrepérola, cascos de tartaruga, fibras vegetais, plumas. Eram entalhados, pintados, bordados, esculpidos, pirogravados.
Foram trazidos para o mundo ocidental por ocasião das Cruzadas. Muito tempo depois, se sofisticaram e passaram a compor o vestuário e os rituais sociais das cortes dos séculos XVII, XVIII e XIX. Vejam aqui mais detalhes curiosos.

Cria-se, no contexto mundano e frívolo de certas cortes, a linguagem do leque, um complicado sistema de comunicação baseado no posicionamento do adereço em diferentes partes do corpo, no grau de abertura das varetas, no ritmo da abanação etc., através do qual se mandavam recados. Alguns desses códigos:

• Colocar o leque junto ao coração: Conquistaste meu amor.
• Tocar com a mão no leque ao abaná-lo: O meu desejo era estar sempre junto de ti.
• Acariciar o leque fechado: Não sejas tão imprudente.
• Tocar com o leque meio aberto nos lábios: Podes me beijar.
• Tocar o leque na face direita: Sim.
• Tocar o leque na face esquerda: Não.
• Fechar e abrir o leque várias vezes: És cruel.
• Abanar o leque muito depressa: Estou comprometida.
• Segurar o leque na mão direita e em frente à face: Segue-me.
• Colocar o leque junto da orelha esquerda: Quero ver-me livre de ti.
Passar o leque pela testa: Tu mudaste.

Aqui tem mais códigos.


Algo me ocorre! Embora eu sustente veementemente que minha amiga foi assediada em função de seus dotes físicos e de sua sensualidade, fico pensando: como será que ela teria usado o leque?! Passou com ele alguma mensagem de que nem ela mesma se deu conta? Não! Não pode! Por mais explícito que pudesse ter sido o recado, duvido que algum cavalheiro de hoje fosse capaz da sutileza de decifrá-lo.

Fig. 1 - http://belissime.blogspot.com.br/2010/08/leque-glamour.html
Fig. 2 - http://petarnews.blogspot.com.br/2010/11/fauna-e-flora-do-petar.html
Fig. 3 - http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c8/Pontes_Collection%27s_fans.jpg


quarta-feira, 10 de julho de 2013

SENHORA DO TEMPO : EU E A BICICLETA

 

A crônica de Vera Guimarães, Eu e a Bicicleta, foi publicada em 11/12/2011. Faz tempo!

Hoje está republicada porque Patricia Caetano fez a ilustração abaixo, para a mesma:  

 

EU E A BICICLETA

Por Vera Guimarães


Recentemente, em Pirenópolis, GO, visitamos o   MUSEU RODAS DO TEMPO .
Num espaço muito bem cuidado e agradável, estão expostos veículos de duas rodas, motos de diversos países e épocas. E como a moto se originou da bicicleta, um bom pedaço do museu é dedicado a ela, a magrela, a bike. Os idealizadores do museu tiveram a gentileza de acionar artesãos, verdadeiros artistas, que fizeram réplicas das primeiras engenhocas, o celerífero, a draisiana e a bone shaker (chacoalhador de ossos). 



“A história da bicicleta começa de fato com a criação de um brinquedo, o "celerífero", realizado pelo Conde de Sivrac. Construído todo em madeira, constituído por duas rodas alinhadas, uma atrás da outra, unidas por uma viga onde se podia sentar. A máquina não tinha um sistema de direção, só uma barra transversal fixa à viga que servia para apoiar as mãos.” 
roberto-menezes.blogspot.com



elquivalleyclub.cl/cic
“O alemão Barão Karl von Drais, engenheiro agrônomo e florestal vindo de família de posses, pode ser considerado de fato o inventor da bicicleta. Em 1817 instalou em um celerífero um sistema de direção que permitia fazer curvas e com isto manter o equilíbrio da bicicleta quando em movimento. Além do mais a "draisiana" vinha com um rudimentar sistema de freio e um ajuste de altura do selim para facilitar o seu uso por pessoas de diversas estaturas.”



“James Starley, um apaixonado por máquinas e responsável pelo desenvolvimento das máquinas de costura fabricados pela Coventry, decidiu repensar este biciclo e acabou criando um modelo completamente diferente. Tinha construção em aço, com roda raiada, pneus em borracha maciça e um sistema de freios inovador. Sua grande roda dianteira, de 50 polegadas ou aproximadamente 125 cm, fazia dela a máquina de propulsão humana mais rápida até então fabricada.”
presenteparahomem.com.br






O mais incrível é que Leonardo da Vinci já havia feito projetos muito mais elaborados para um veículo de duas rodas, provido de muito mais recursos que os dos modelos acima. Será verdade? 
“O primeiro projeto conhecido de uma bicicleta é um desenho de Leonardo da Vinci sem data, mas de aproximadamente 1490. Só foi descoberto em 1966 por monges italianos. 
Os princípios básicos de uma bicicleta estão lá: duas rodas, sistemas de direção e propulsão por corrente, além de um selim.”

Estas e muitas outras histórias compõem a memória da bicicleta, contada aqui: escola de bicicleta




Já as MINHAS lembranças, suscitadas pela visita ao museu, incluem as bicicletas como as conhecemos hoje e remontam aos meus verdes anos, lá pelos seis, sete anos. Meu irmão mais velho, muito meu amigo, me botava no quadro da bicicleta e me levava com ele quando ia namorar. Eu adorava esses passeios. Naquela casa agradabilíssima, de pessoas gentis, era servido um delicioso café com quitandas. Quando o sono me vencia, eu ia para o quarto de passar roupa e desabava na cama onde se empilhavam perfumadas roupas recém-lavadas. Não sei como ia embora.

Algum tempo depois, já com turma, inventávamos passeios pelos arredores, piqueniques, idas ao Posto Agropecuário, tudo fora da cidade. Eram passeios deliciosos, alegres, festivos e... arriscados, claro, que a gente abusava do Anjo da Guarda. Não tínhamos bicicleta feminina, então eu calçava a cara e pedia emprestada a de alguma amiga da família. Obrigada, Ilma Francisco!


Aos 15 anos, já trabalhando, uma irmã e eu nos associamos e compramos a desejada bicicleta a prestação, uma linda PHILLIPS inglesa, cor vinho, aro 26. Com ela íamos ao trabalho, minha irmã visitava as muitas amigas, eu ia aos treinos de vôlei na Praça de Esportes, à igreja, dava voltas na lagoa. Que linda ela era! 


Até os selos espalhados pelos componentes da bicicleta atestam como tudo era feito com carinho e requinte.
«http://www.8p.com.br/bestservice/flog/a60001949/#a60001949

Nas décadas 1940/1950 nossas ruas exibiam profusão de bicicletas, usadas não apenas para lazer. As pessoas iam e voltavam pedalando no trajeto casa-trabalho, pais levavam crianças à escola, verdureiros transportavam sua mercadoria em bicicletas, mensageiros se deslocavam de um ponto a outro da cidade. A via pública era democrática e acolhia a todos com generosidade, fossem caminhões, bicicletas, automóveis, carroças, pedestres, cavalos. Era a política do compartilhamento do espaço urbano, com grande dose de paciência e respeito a todos. 

Infelizmente isso aqui desapareceu. Já em grandes cidades europeias incentiva-se cada vez mais o uso de transporte não poluente e não atravancável. Em Paris, o projeto VÉLIB como alugar uma bicicleta em Paris é um sucesso. Em Amsterdam, executivos bem arrumados transitam vestidos com elegância, portando suas pastas executivas, em bicicletas bem velhinhas, nem um pouco ostentatórias. Jovens mães atrelam caixotinhos às suas e ali colocam as criancinhas, e compartilham a via pública com carros e enormes trens urbanos.

Por falar em bicicleta e Amsterdam, uma brasileira foi morar ali por perto e precisava se deslocar do bairro dela até o centro da cidadezinha. Mas aos 60 anos nunca havia andado de bicicleta. Uma amiga se dispôs a ajudá-la a desvendar os segredos do equilíbrio com impulsão. Aquilo virou atração, já que as pessoas não concebiam que algum adulto não soubesse andar de bicicleta. Supunha-se que já se nascia sabendo. Sei que, no dia em que finalmente a amiga a soltou e ela saiu pedalando, de uma construção próxima vieram estrepitosos aplausos e vivas!
Da mesma maneira como lamento o desaparecimento dos trens, lamento a hoje inviável convivência de carros e bicicletas. Aqui, por supuesto. Porque em Amsterdam... ai! (suspiros de inveja)