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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O ENCONTRO QUE NÃO MARQUEI

Por Dade Amorim



Ia começar a faculdade, e o centro da cidade ainda era cheio de segredos, quando descobri o primeiro sebo, na rua de São José. Conhecia Monteiro Lobato e alguns autores, principalmente os da estante de meu pai, uma verdadeira mina. O sebo era uma descoberta e tanto. Fiquei meio perdida e um pouco delirante, conferindo os títulos, já pensando em levar uma pilha deles, quando vi o nome de Clarice Lispector numa lombada um pouquinho mais larga que a da maioria dos livros em volta. Tinha ouvido falar dela, que já fazia sucesso, e comecei a folhear o livro – O Lustre – e a lê-lo ali mesmo.
Nem é o melhor livro de Clarice, hoje sei. Mas era o primeiro dela com que tinha contato, e não conseguia parar de ler. Na condução, em casa, até altas horas, na manhã seguinte e em cada instante entre uma e outra atividade. Quase de um fôlego, até a página 341, a última. Depois vieram os outros, tudo que ela deixou escrito e nunca me cansei de ler.
Anos depois, com a cabeça mais fria e mais informação sobre literatura, acho que o que muitos consideram magia no texto de Clarice é simplesmente poesia. A força dessa primeira experiência deixou isso bem claro: ela escreveu poesia durante toda sua vida. Não uma poesia em forma de poemas convencionais, mas em estado puro, quase bruto, que flui de seus textos espontaneamente e foi sua grande motivação. Um certo aturdimento, o inesperado, as epifanias presentes em seus contos e romances, a escolha dos termos, tudo obedece a um impulso que se identifica com o que para mim é o melhor da poesia. Um olhar que não se deixa limitar ou contaminar por convenções ou conveniências, mas vai às fontes, seja lá o que sejam as fontes do que se percebe – e que ninguém descobriu ainda. Um raio-X capaz de ver as pessoas na íntegra, sem se deter na aparência, e chegar aonde o senso comum nem desconfia: a inocência, o primitivo de cada um de nós, o núcleo onde a pessoa se resolve. Clarice via o que a maioria apenas obscuramente pode intuir. 

***

Espero que o Natal tenha sido muito bom, e que o novo ano prometa ser melhor ainda.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MOMENTOS

Por Dade Amorim

Maira Parula. Não feche seus olhos esta noite. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.


“Entre o susto e a coragem”, como diz José Castello no texto de apresentação, cada página desse livro empurra o leitor e o espicaça para a página seguinte. Descontínuo e inusitado, cada texto desperta uma curiosidade nova. É preciso saber onde vai dar aquilo. Logo porém se percebe que cada item é um beco. No máximo pode se aventar a hipótese de que se comuniquem subterraneamente, como subterrâneo parece ser o rumor da iminência que sustenta os textos sem os detonar.

Posto esse primeiro resultado da leitura, é preciso levar em conta que todo primeiro resultado é provisório e generalizante. E é impossível nivelar os textos de Não feche seus olhos esta noite sem cometer uma tremenda injustiça. Não estou pensando em diferenças de qualidade que destaquem uns ou outros, mas na particularidade que se inscreve em cada um deles.

Há que voltar sobre os calcanhares e olhar de novo, sem se deixar levar pela novidade. Maira domina a escrita e tira dela o melhor partido para seus objetivos, entre os quais o de expor seu desconcerto diante do mundo e das pessoas. Cria para isso um clima às vezes um tanto delirante, às vezes assustador, onde o leitor se sente à vontade para reconhecer e saudar, quem sabe, suas próprias obsessões com um sorriso autoindulgente. Mas o cheiro de universalidade, que se acentua em certas passagens, deixa entrever alguma instância obscura, como o próprio inconsciente.

Castello diz, a certa altura, que o texto de Maira “nem poesia é”. Mas na retomada de suas páginas, percebe-se que uma poesia meio nocauteada, suja e perplexa, mas nem por isso derrotada, vem à tona de vez em quando. Não necessariamente nos textos dispostos em versos, um lirismo de olho roxo manifesta sua presença e se confirma aqui e ali com menos ou mais intensidade. Na página 9, logo após a epígrafe, num texto versificado, grita uma angústia intensa que explode em silencioso desespero, pondo em cena a magnum que pontua outros momentos do livro. A 97 abre com um poema à la Artaud, a 99 traz o que talvez seja o texto em versos mais lírico entre todos, com um jeitinho de Sylvia Plath. Na 165, um poeminha expressionista com pedigree.

Há textos de nonsense e pitadas de besteirol; contos com pé e cabeça, um humor gostoso de ler, trechos que parecem depoimentos dados num divã de analista. Há também sinais de erudição tratados com elegante displicência; sintomas de síndrome do pânico e um poema florido de Cesário Verde.

Uma coisa é certa: Maira Parula não dá pra ler início meio e fim. É tudo ou nada.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A solidão é um traço da vida

Por Dade Amorim

Marcos Santarrita. A solidão do cavaleiro no horizonte. Rio de Janeiro: F. Alves, 1978.

Esse é um livro que fala de solidão. Não se iludem os leitores que percebem esse tema entremeado na prosa fluente e literariamente muito boa de Santarrita.

À primeira vista, o livro desenvolve um tema político – a época da ditadura militar no Brasil – e modela personagens bastante reais, embora se trate de um romance, portanto uma criação ficcional. Mais que modelar, Santarrita desenvolve uma interação em diálogos e acontecimentos que vão envolvendo o leitor e prendem a atenção de tal forma que não dá vontade de parar de ler ou pular alguns trechos, como acontece com alguns livros.

Não terminei a leitura, estou no meio de A solidão. Mas tenho o hábito de avançar aleatoriamente antes de alcançar o final. Gosto de avaliar a qualidade e a homogeneidade do texto, ter uma ideia de como se desenvolve e do rumo traçado para o final da história. Com isso, pude avaliar melhor a evolução do romance. Comprovei a coerência e a tarimba desse ex-jornalista que nos deixou uma coleção de obras de ficção.
Nunca havia lido Marcos Santarrita, que conhecia somente de nome. Convenhamos, ele não é um autor da moda, e anda muito mais esquecido do que lembrado.

Agora porém pretendo ler outros livros seus, assim como pesquisar um pouco mais sobre ele, me informar de dados que não encontrei na Wikipédia.

Mas quero registrar neste comentário um fato que me abalou um tanto e que não creio que vá esquecer tão cedo. No dia 5 deste mês, pesquisando a vida de Marcos na enciclopédia da rede, primeiro item encontrado no Google, me inteirei de sua data de nascimento, 16 de abril de 1941, e sua terra natal, Aracaju; soube que aos três anos foi levado para a Bahia e que agora, já há alguns anos, vivia no Rio de Janeiro. Dei uma olhada na lista de seus livros e, quando me dispunha a passar para outra página mais rica em detalhes, uma notinha de rodapé me chamou a atenção. Vinha em letras azuis, e dizia apenas o seguinte: Marcos Santarrita morreu no Rio de Janeiro no dia 5 de outubro de 2011. 

Reli a nota, achando que tinha me enganado, mas era isso mesmo. Eu tinha resolvido pesquisar a vida do autor daquele livro, que estava me interessando tanto, exatamente no dia de sua morte. Parei um pouco para pensar no caso, e tive um impulso momentâneo de assistir aos funerais no dia seguinte. Acontece que o dia seguinte estava todo programado, não haveria tempo para chegar ao cemitério. Então tive outra sensação muito estranha: de repente, achei que tinha perdido um grande amigo – embora, na verdade, nunca o tivesse visto e nem ao menos conhecesse mais que um fragmento de sua obra.
De tudo isso, mais uma vez ficou patente o papel da morte em nossa vida. E a morte, assim como a solidão, está presente em A solidão do cavaleiro no horizonte desde o começo. Não que todo mundo saia morrendo pela história. Há mortes, é claro, mas a indesejada se mistura ao texto sob uma forma que só escritores muito sensíveis são capazes de abordar: a vulnerabilidade das pessoas, o predomínio de alguns fatos capazes de arrasar alguém, os medos que nos acompanham de dentro, e dos quais é bem difícil se livrar.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Feira do Autor. Visuais – os imaginários e os virtuais

invencaomorel [Romance] A Invenção De Morel   Adolfo Bioy Casares

Por Dade Amorim

Adolfo Bioy Casares. A invenção de Morel. Trad. Samuel Titan Jr. São Paulo: CosacNaify, 2006. 136 p.

Nestes tempos de delírios visuais, imagens vertiginosas que supostamente dispensariam as palavras e se autoexplicariam sem maiores delongas (uia!), este livro – um cult da literatura internacional, de trama considerada perfeita por Jorge Luís Borges, amigo de Casares, seu parceiro e admirador – é um exemplo de que o uso das palavras é uma fonte de recursos que as imagens por si sós nunca vão suprir. Ainda por cima fala justamente de imagens, essas capazes de subverter a vida do protagonista, um fugitivo político da justiça que se esconde em uma ilha deserta.

Os enigmas de A invenção aguçam a atenção do leitor e o impelem a perseguir o fio da narrativa, que em alguns trechos parece perdido entre as folhas secas do chão da ilha. O caráter teleológico que alguns emprestam ao texto de Casares pode ser discutido. Dificilmente uma literatura tão perfeita e enxuta poderia visar outra finalidade que não ela própria. Mas para o leitor atento fica bem claro que estão em jogo fatores imanentes ao ser humano, como a percepção nem sempre confiável e a imaginação que se alia ao desejo para lhe pregar peças – às vezes de mau gosto.

Em jogo também está a questão da sobrevida ou da própria eternidade. Mas não se trata aqui de uma eternidade metafísica, e sim da projeção de uma idéia que tem fascinado o homem através dos tempos: a idéia que teria impulsionado o personagem Morel em sua invenção maravilhosa e terrível. A fábula explora um ângulo fenomenológico da experiência da imortalidade, que quase sempre tem sido abordada com visada mística ou filosófica. Os personagens em cena se opõem à realidade que estariam manifestando pelo simples fato de não serem senão espectros de si mesmos. Mais do que simplesmente descrever os fenômenos (o que Casares faz com perfeição e apelo para o leitor), o livro capta o que se poderia chamar a insustentável leveza da ilusão, parafraseando Kundera, e todo o sofrimento humano que ela implica.

Um belo prólogo de Borges e um posfácio competente de Otto Maria Carpeaux dão o toque especial a esse primeiro volume da coleção Prosa do Observatório, coordenada pelo escritor e teórico de literatura Davi Arrigucci Jr. Vem muita coisa imperdível por aí, vamos esperar.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

OS PARADOXOS DE MARCEL PROUST

Por Dade Amorim
Foto: Google Images
Já adulto e escritor, Marcel Proust via segundas intenções em excesso nos aristocratas dos salões que frequentava. Em troca, entre os habitués desses salões, ele mesmo era incompreendido. O formalismo do escritor fazia-o obedecer a um código, de acordo com o qual ele, nunca bem integrado com seus hóspedes, não se sentava à mesa com eles. Preferia jantar antes de sua chegada para ficar livre de ter de prender-se a um só lugar durante a ceia, podendo assim dar atenção ora a um, ora a outro, mostrando-lhes desse modo que dava extrema importância à presença de cada um.
Parece que essa extrema importância emprestada por Proust aos convidados, não só de sua casa, como também dos salões que frequentava, criava um obstáculo a que convivesse com eles em termos de igualdade. Em uma carta do escritor à mãe, onde narra seu espanto e a agradável surpresa que lhe causara um cumprimento "de verdade" que conde d'Eu lhe concedera, “a saudação de um velho e bom homem extremamente educado", como jamais recebera, nem dos "simples burgueses" diante dos quais se curvava, mas que permaneciam "empertigados como príncipes".
Proust deixava transparecer aí sua não-integração à sociedade, à qual no entanto estava sempre presente. Ele via um pouco a alta sociedade, a aristocracia, e em particular os Guermantes, como uma realidade um tanto distante, apesar de ter aprendido a valorizar e aspirar a seus objetivos. Analisava, com agudeza e sem idealizações, o comportamento daqueles com quem convivia nos salões que ocuparam largo espaço em sua obra.
Havia simplicidade e uma certa timidez nos Guermantes, que surpreendiam o escritor, incapaz de entender a exata extensão e o significado verdadeiro desses sentimentos.
Criava-se assim um paralelismo entre Marcel e os personagens de seu grupo social, o que não o impediria de exercer uma análise de gênio desses personagens e de suas vidas.
A explicação disso deve estar enraizada na própria genialidade e perfeição técnica com que Proust se serviria das reminiscências para recriar esses personagens, aproveitando deles seu potencial de poesia e transubstanciando suas próprias dificuldades de convívio em um fator a mais de harmonia.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Invenção de Jorge

Por Dade Amorim


Jorge de Lima. Invenção de Orfeu. São Paulo: Círculo do Livro, s.d. 382p.

“Biografia épica, biografia total
não uma simples descrição de viagem ou
de aventuras. Biografia com sondagens;
relativo, absoluto e uno.
Mesmo o maior canto é denominado –
Biografia.”

O texto acima é uma espécie de prólogo acrescentado à mão pelo autor, assim como as notas que a edição reproduz nas margens do texto. Jorge de Lima entregou seu original ao amigo Murilo Mendes para uma leitura preliminar. Murilo, autor da nota que abre a edição, teve uma espécie de choque ante esse poema grandioso e complexo, onde tudo cabe. Na verdade, a biografia épica e total é como a própria vida, só que revisitada por uma linguagem que dá conta da multiplicidade com grande beleza e harmonia. A performance do autor é ainda mais notável quando se leva em conta que existe aqui uma narrativa histórica registrada nas cores e imagens da fantasia, paralela a uma outra, intimista, que a leitura do poema dá a perceber.

Vida e calor transpiram dos versos de Jorge de Lima até os limites de um certo escândalo. Talvez pela visão múltipla, fantástica, às vezes de imagens delirantes. Ou pelas associações desconcertantes, pelas metáforas e figuras inesperadas que se justapõem, orquestradas pela música dos poemas, que nos dão a impressão de uma avalanche poética. O barroquismo com que Jorge encadeou seus temas, as expressões fortes dos versos, a vitalidade que permeia toda a obra têm alguma coisa de súbito, embora rigorosamente equilibrados no conjunto. Pela harmonia com que cada tema se associa ao seguinte, sem perder o valor intrínseco, Jorge de Lima nos deixou uma sinfonia em palavras.

Foi também providencial, para conseguir essa vitalidade, que ele abrisse mão das formas métricas parnasianas que predominavam em suas obras anteriores. O alento de saberes, fantasia e memórias servem-se da linguagem mais livre para produzir uma série em que a realidade se alia ao sonho. A leitura de Invenção de Orfeu deixa na boca um gosto de paraíso perdido, da decadência como traço significativo da arte e da vida, estreitamente unidas no poema. É essa a vertente dominante que garante a biografia total e suas sondagens, a reunião de relativo, absoluto e uno, como propõe o subtítulo do livro ou prólogo proposto pelo autor. Nada se subtraiu desse poema, onde se abriram trilhas para a vida na integralidade de sua beleza possível, na especificidade de suas agruras e gozos. O poeta não foge, não se furta a nada e não se poupa, mas se entrega todo inteiro em sua reinvenção pela palavra.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

VIVA NOSSA LITERATURA

Por Dade Amorim

João Ubaldo Ribeiro. Viva o povo brasileiro. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 700 p.


Um país que conta com autores do quilate do itaparicano João Ubaldo Ribeiro não precisa se preocupar com seu lugar no mundo das letras. Assim como um povo que inspira um livro como Viva o povo brasileiro pode ter certeza de que, mesmo injustiçado, mal servido de líderes políticos, usurpado e vilipendiado como tem sido pelos séculos afora, tem tido ao menos grandes e solidários analistas: Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Antonio Callado e João Ubaldo, por exemplo. Gente capaz de encarnar num livro as dores e atrocidades, a incompreensão e a injustiça de um regime social que, a serviço da crueldade, tornou impossível ou simplesmente extinguiu a vida de tantas pessoas.

Tem havido vários outros, eu sei; mas aqui falo de Ubaldo e sua obra antológica e – como diz Geraldo Carneiro em seu prefácio – fundadora. Fundamental, digo eu, para que se compreenda e se aprofunde o conhecimento histórico e antropológico do Brasil e da formação de sua gente. 

A existência de autores como João Ubaldo não serve de consolo nem corrige de imediato todas as iniquidades. A idéia porém não é essa. Se ninguém levantasse a voz – e com tal potência – nem deixasse documentos assim; se tanta miséria, covardia e crueldade ficassem sem outro registro que os dados oficiais, omissos, obscuros, impessoais, como esperar alguma resposta, mesmo lenta? O que acontece tem que deixar ecos, porque sem eles tudo se esquece no silêncio da história. E até para falar da beleza e das qualidades desse povo incrível, de suas crenças, da pureza que ainda marca os hábitos cotidianos, para entender seus valores, é preciso conhecer os episódios e a crueza do processo de sua formação.  

Depois de muitos anos, reli Viva o povo, e novamente me espantei diante da riqueza barroca de seu estilo, da linguagem a um tempo esfuziante e precisa com que nos transporta a tempos e lugares estranhos para nós. É um livro cheio de vida, de uma visão irônica e dolorida de um tempo que se estende sobre séculos. São personagens cujas vozes ouvimos ainda, que nos cercam em seus alpendres, nas salas dos ricaços, em clareiras no mato, em quartos e senzalas; são fatos que ainda repercutem em nossa carne de agora, e que explicam tanta coisa sobre as dores persistentes de nosso tempo.

Viva o povo brasileiro não é apenas uma obra-prima literária. É também uma obra-prima de brasilidade, além de uma demonstração irrefutável da teoria da pedrinha na água e seus atavismos.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

HUMANISMO BRASILEIRO DO SEGUNDO MILÊNIO

Por Dade Amorim

Luiz Eduardo Soares, MV Bill & Celso Athayde. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 295 p.

Os autores de Cabeça de porco têm em comum algo que faz do livro um depoimento por assim dizer “ao vivo”. Mais do que o mero registro dos fatos a que assistiram e das entrevistas realizadas pelos autores em diversas regiões e cidades do país, o texto fala de uma zona de fronteiras incertas, marcadas por um rastilho de pólvora em certos pontos, quase apagadas em outros, em outros ainda fundamente cavadas no solo, de tal maneira que para ser atravessadas exigiriam uma sólida ponte cuja construção ainda está longe de se completar – se é que estará pronta algum dia.

O alento desse texto, sua motivação fundamental, é uma referência, quase uma variante do pensamento humanista que há séculos se manifesta na história de nossas sociedades, tantas vezes sistematizado em doutrinas filosóficas, mais recentemente em forma de pensamento político, econômico, antropológico ou simplesmente sociocultural. O humanismo aqui no Brasil fácil, fácil descamba para os lados da demagogia, fica paternalista, assistencialista, perde a consistência e a respeitabilidade e se desmancha em emendas que às vezes pioram o soneto.
Não é esse tipo de humanismo que alimenta o livro dos três. Há nele uma dose de empatia que se explica pela história de cada um, pelas origens de quem viveu os problemas da extrema pobreza e os revisita tentando entender melhor os mecanismos pelos quais, nos casos examinados, eles deram no que deram. É uma pesquisa, sim, mas uma pesquisa sem a frieza da isenção olímpica que reduz o sofrimento e suas seqüelas a números. Eles, os autores, sabem muito bem a que os números por si sós podem levar – à racionalização estéril, à punição sem outro resultado que piorar a qualidade humana do punido. Nenhum deles cogita de tais soluções para nossos maiores problemas: a miséria e o tráfico de drogas que nela viceja, em muitos casos como uma seqüência quase natural, a saída mais à mão. E quando “parece que o destino é maior do que a razão”, é preciso mesmo muita coragem e valor moral para ainda acreditar que é possível ser solidário e disponível a ponto de mostrar outro caminho a quem se condicionou ao imediatismo estúpido da violência.

Ao mesmo tempo em que realizam sua pesquisa de campo, os três colocam em exame suas próprias biografias, reações e impressões, e chegam à proposta que aparece logo num dos primeiros capítulos e é exposta por Athayde com simplicidade, em linguagem direta e sem rodeios ou intenções ocultas: querem que o Brasil saiba “... que, por trás de uma arma, tem um coração batendo; que é preciso uma grande intervenção política no país para que não estejamos fadados à escravidão de seres humanos; e que essa intervenção não seja policial, mas em todas as áreas. ... Não é possível a sociedade se escandalizar com as rebeliões dos menores e não ficarmos escandalizados com o fato de serem zero as chances de suas famílias serem parte de uma sociedade civilizada.”

Quando fala da “escravidão de seres humanos”, Athayde alude naturalmente às sucessivas gerações de jovens sem perspectiva que o tráfico absorve, porque é a única saída imediata para fugir à penúria – saída precária, nós sabemos, e mais grave: eles também sabem, mas dificilmente vêem outra. Caso o menino chegue à adolescência, provavelmente sua vida e breve “carreira” se reduzirão à fugaz ostentação de tênis de marca, correntes de ouro, símbolos de sucesso, poder e riqueza que o marketing impinge, mas a realidade impediria.

Não se trata de ter pena desses meninos de futuro breve e tempestuoso. Não se trata de sentimentalismo ou qualquer forma de leniência. Na tentativa de pôr em prática uma atitude capaz de efetivamente inovar, sugerir algum caminho menos arrasador, os autores tentam nos sensibilizar para sua proposta, enquanto refletem sobre “a loucura que é a vida daquelas pessoas e o quanto somos ingênuos, o quanto somos bandidos, o quanto somos irresponsáveis e o quanto somos medrosos.” Mas também o quanto podemos ser criativos, corajosos e generosos a ponto de conseguir vislumbrar nessas crianças o que elas são: parte dessa maioria que “tem necessidade imediata de comer, não de estudar”. E que, se forem despedidas de seus pontos-de-venda, não terão quem as empregue ou ponha na escola. Como explica o motorista a serviço do tráfico: “a maioria desses que, segundo a imprensa, são traficantes, lava o dinheiro do tráfico em padarias e açougues, comprando um quilo de carne e meia dúzia de pães”. Aí começa uma outra discussão, e Cabeça de porco não se furta a ela.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Poesia é um barulho da vida

Por Dade Amorim

Carlos Drummond de Andrade
A tradição européia liga a poesia à primavera. Essa foi uma convenção estabelecida como tantas outras. O que determina o aparecimento da poesia ou a composição de um poema é de ordem mais sutil e subjetiva. Assunto para um tratado dos grandes – e ao mesmo tempo quase nada. A natureza e o mundo que nos cerca, o tempo, a interação com os outros, sentimentos, emoções, o que se aprendeu e experimentou desempenham um papel importante no fazer poético.
Hoje em dia, quando o modo de vida nas cidades (e mesmo fora delas) exige de nós tanta contenção e causa tanto desgaste emocional; quando os problemas crescem na razão direta das exigências que não conseguimos satisfazer; quando o que se espera de cada um é talvez muito mais do que seria razoável esperar de seres humanos perdidos em nossas babéis em ritmo de globalização caótica; quando cada pessoa é confrontada com desempenhos consagrados e inteiramente inalcançáveis para a absoluta maioria; quando nossos limites são testados e desafiados dia a dia no trabalho, na família, na rua, é claro que a poesia tem que refletir isso.
Não só a linguagem mudou. O modo de sentir o mundo e reagir aos estímulos se tornou mais tenso, mais áspero, porque é preciso ativar as defesas para não se ferir a toda hora.
Ferreira Gullar
Nada no entanto impediu que continuassem surgindo poetas verdadeiros neste mundo difícil e tantas vezes cruel. Parece que enquanto existir gente na Terra, existirão poetas. Poetas que falam não só de amor e flor, mas da humana condição, da falta permanente de alguma coisa que amenize a inquietação e a angústia, das coisas que os afetam, da própria circunstância do poema. Específico da poesia é o sentimento súbito do que toca a pele, da percepção aguçada que se amplia, instigadora, e num certo momento irrompe e mobiliza alguém a expressá-la. Mas para isso é preciso que haja um silêncio interior, uma certa contemplação desse processo, condição para ouvir o “barulho” da poesia. Desse barulho de que fala Ferreira Gullar, num poema que expressa quase a essência da questão:

Todo poema é feito de ar
apenas: a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa de mulher.
O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura.

De Carlos Drummond de Andrade, um poema instrutivo, que fala das palavras, da serenidade e do silêncio, três colunas mestras de um poema:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros.
Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Reparem como Paulo Leminski incorpora a turbulência de nossos dias sem deixar de seguir essas receitas:

maldito
o que não deixa cantar
o canto é fraco
maldito
o que não deixa cantar
o canto é forte
maldito
o que não deixa cantar
o canto gera outro canto
maldito
o que não deixa cantar
o canto nunca deixa de cantar

Paulo Leminski
O que legitima um poema são as marcas, as cicatrizes, os efeitos concretos da realidade sobre quem o escreve; é a experiência vivida – embora precise existir “calma e frescura na superfície intacta” para deixar que venha à tona e se estruture. Importa muito pouco se é um soneto, um haicai, se são trovas, versos livres e brancos ou redondilhas. Cada poema deve se impor por si mesmo, “com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio.”
Poesia não é antídoto de nada, não é remédio, não relaxa, não dá sono. Ignora rótulos e visões preconcebidas. Como tudo nesta vida, tem suas formas próprias, que devem e precisam ser bem cuidadas para que o poema soe verdadeiro, mas que pouco valem se o que se diz for fraco, falso, artificial, pretensioso. Os puristas que me perdoem, mas um poema tem que ser do mundo, dos outros, da morte, e sempre, sempre da precariedade humana que se recria em palavras. Isso vale também para poemas que falam de uma realidade interior, de sentimentos subjetivos, porque, já dizia Vinicius, “a vida só se dá pra quem se deu”. E acho que não está errado dizer que fazer poesia é um modo bem-sofrido de viver – e por bem-sofrido quero dizer a dor e a alegria, o amor e seus avessos experimentados em profundidade.