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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

TODOS POR UM

Por Dade Amorim

Mia Couto





Num tempo em que pensar parece coisa fora de moda, porque já existem modelos prontinhos pra ser usados, e as escolhas estão cada vez mais limitadas às ofertas consagradas pelo mercado, gostar de alguma coisa tornou-se meio que uma convenção. Sair dos padrões em uso é motivo de estranheza e má vontade por parte de certa massa de gente pré-fabricada, de cabeça feita pra encher os bolsos de uma indústria de espetáculos acelerados e barulhentos, que se dedica a impedir que seus consumidores possam pensar alguma coisa enquanto se agitam sem trégua. Essa educação pelo barulho liquida a capacidade de refletir e a liberdade de escolher o que realmente agrada a cada um. Barulho e agito demais prejudicam não só a audição como também criam calos na sensibilidade.

Por conta disso, boa parte de nossa gente perde a oportunidade de conhecer autores que nos enriquecem pela leitura, nos ajudam a desenvolver o senso crítico, estender o vocabulário e perceber certos mecanismos de nossa língua na sutileza de um bom texto.

No conto O espelho, de Machado de Assis, por exemplo, o autor expõe um ponto de vista segundo o qual as pessoas têm na verdade duas almas – uma interna, que olha o mundo de dentro para fora, e outra externa, que se vê de acordo com os olhos do mundo a sua volta. Em nosso caso – “Um mundo em que as pessoas costumam ser reduzidas a títulos, a contas correntes, a imagens na mídia, a currículos, a crachás. A ‘alma exterior’ dá as cartas num mundo que se define pela superfície e pela velocidade e que tem horror à profundidade e à lentidão –”* pode-se perceber o quanto o velho Machado é atual ainda hoje. E necessário.

É na capacidade de ser atual, mesmo fora de seu tempo, que reside uma das características do bom escritor, chame-se ele Machado, Poe ou Mia Couto.


* De uma palestra de José Castello, crítico literário.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MOMENTOS

Por Dade Amorim

Maira Parula. Não feche seus olhos esta noite. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.


“Entre o susto e a coragem”, como diz José Castello no texto de apresentação, cada página desse livro empurra o leitor e o espicaça para a página seguinte. Descontínuo e inusitado, cada texto desperta uma curiosidade nova. É preciso saber onde vai dar aquilo. Logo porém se percebe que cada item é um beco. No máximo pode se aventar a hipótese de que se comuniquem subterraneamente, como subterrâneo parece ser o rumor da iminência que sustenta os textos sem os detonar.

Posto esse primeiro resultado da leitura, é preciso levar em conta que todo primeiro resultado é provisório e generalizante. E é impossível nivelar os textos de Não feche seus olhos esta noite sem cometer uma tremenda injustiça. Não estou pensando em diferenças de qualidade que destaquem uns ou outros, mas na particularidade que se inscreve em cada um deles.

Há que voltar sobre os calcanhares e olhar de novo, sem se deixar levar pela novidade. Maira domina a escrita e tira dela o melhor partido para seus objetivos, entre os quais o de expor seu desconcerto diante do mundo e das pessoas. Cria para isso um clima às vezes um tanto delirante, às vezes assustador, onde o leitor se sente à vontade para reconhecer e saudar, quem sabe, suas próprias obsessões com um sorriso autoindulgente. Mas o cheiro de universalidade, que se acentua em certas passagens, deixa entrever alguma instância obscura, como o próprio inconsciente.

Castello diz, a certa altura, que o texto de Maira “nem poesia é”. Mas na retomada de suas páginas, percebe-se que uma poesia meio nocauteada, suja e perplexa, mas nem por isso derrotada, vem à tona de vez em quando. Não necessariamente nos textos dispostos em versos, um lirismo de olho roxo manifesta sua presença e se confirma aqui e ali com menos ou mais intensidade. Na página 9, logo após a epígrafe, num texto versificado, grita uma angústia intensa que explode em silencioso desespero, pondo em cena a magnum que pontua outros momentos do livro. A 97 abre com um poema à la Artaud, a 99 traz o que talvez seja o texto em versos mais lírico entre todos, com um jeitinho de Sylvia Plath. Na 165, um poeminha expressionista com pedigree.

Há textos de nonsense e pitadas de besteirol; contos com pé e cabeça, um humor gostoso de ler, trechos que parecem depoimentos dados num divã de analista. Há também sinais de erudição tratados com elegante displicência; sintomas de síndrome do pânico e um poema florido de Cesário Verde.

Uma coisa é certa: Maira Parula não dá pra ler início meio e fim. É tudo ou nada.