Mostrando postagens com marcador fal azevedo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fal azevedo. Mostrar todas as postagens

sábado, 31 de março de 2012

SENHORA DO TEMPO- SONHEI QUE A NEVE FERVIA







CONVERSA COM FAZ AZEVEDO



Antes de ser uma entrevista é conversa. Sobre tempos idos e vividos. Quando Ana Paula Medeiros expressa seu espanto de que de relações virtuais possam nascer amizades reais é porque era o tempo do espanto. Fal, radiografa isto em seu livro além da dificuldade de pronunciar certas palavras, o aprendizado do singular após anos de plural,a busca de sentido no que sentido não tem. Este o livro. Mas é também nossa vida. Nosso absurdo viver de costas para que lado? O ocaso de nada saber em determinado momento enfiando agulhas nos ossos.... Alguém consegue diagnosticar onde o lado de cada coisa sem se ater na convenção estabelecida? O livro de Faz Azevedo nos afoga no insólito. É assim.

Esther-O bom é conversar à toa , né Fal? É isto que você faz quando escreve ou como os demais escritores costumam dizer, sofre, geme, sua sangue e se retorce.

Fal- Esther, quando escrevo dou voz ao que penso. E, mais importante e só possível após uns bons anos de psicanálise, ao que sinto. A conversa, a toa ou não, vem antes. Tou mais na turma que sofre e se retorce, hahaha.

Esther - Por que você começou a escrever. Quando as palavras formaram frases e se tornaram, contos, crônicas, romances?

Fal- Té, quando era guria, eu escrevia. Basicamente pra minha mãe e meu pai gostarem de mim. Redação, a única matéria na qual eu ia bem de verdade. No começo da vida adulta, fui acometida duma brutal, brutal depressão, com síndrome de pânico de brinde, num tempo em que não era moda ter síndrome de pânico. Daí, fui pra psicanálise. E depois duns anos ali, no divã, voltei a escrever, com o mesmo prazer de menina, mas com um bônus: tendo aprendido que o que eu sentia era tão lícito quanto o que eu pensava. Demorô.

Esther - Todas as histórias poderiam ter acontecido, não é mesmo. Mas sempre têm alguma coisa da gente, mesmo que seja do mal dito alter ego.

Fal- Sempre.Creio nisso profundamente. Tudo é versão, tudo é o que achamos que é, nada é isento, puro e limpinho. A realidade, Esther, não existe. Você se carrega onde quer que vá, para o bem e para o mal. E você é um cara parcial pacas.

Esther - Bem, é de praxe, então farei a pergunta: Como surgiu a ideia de "Sonhei que a Neve Fervia"? Em quanto tempo foi escrito? Quanto para ser editado. Você tem contrato de exclusividade com a Rocco?

Fal- Comecei a escrever aí na sua casa, depois que o Alexandre morreu. Basicamente, porque é isso que faço, né Té, eu escrevo. E aquele montão de folhas soltas foi virando o Sonhei bem devagar. Foi escrito em um ano, ele foi aquilo, um diário. Depois, foi reescrito em mais um ano. Anos e anos pra ser editado. E sim, tenho contrato com a Rocco.

Esther - A literatura te sustenta? Afinal já são cinco livros, não? E, segundo consta o Brasil caminha ou já está, que sei eu, no primeiro mundo, onde ler é ato corriqueiro.

Fal- Hahaha, nem vou discutir isso. Mas não, a literatura não me sustenta. A minha, quero dizer. A literatura alheia me sustenta, porque sou tradutora. E são quatro livros solo. Uma participação num projeto chamado Blog de Papel, que adoro, da editora Genese. E uma participação num livro, pasme, sobre dinâmicas de grupo. Fiz cousas que até Deus dúvida.

Esther - Se não te sustenta cê vive de quê criatura? Como escrever ser precisa correr atrás da sobrevivência quando sugerem que é preciso um mecenas para desenvolver o ócio criativo?

Fal- Traduzo, Esther. E sim, esse negócio de ganhar a vida e pagar areia dos gatos atrapalha pacas a criação. Sou cada vez mais fã do ócio criativo, um sonho distante. Devo texto pra metade da internéte brasileira, mas depois de 14 horas de trabalho, quedê que a criatura consegue escrever o que preste? (hahaha, pronto, começou o mimimi)

Esther- Por que o escritor tem esta compulsão de escrever, você me explica? De onde sai esta necessidade de verbalizar em livro mesmo tendo os canais de convivência como face e Twitter, os blogs... Para que o livro?

Fal- Esther, não sei também. Será que a gente encara livro como algo mais definitivo, real, ‘eu escrevo aqui e ali, cisco, cisco, cisco, mas ó, fiz um livro’? Sei não. Mas sim, eu escrevo. Muito, sempre, loucamente.

domingo, 25 de março de 2012

SENHORA DO TEMPO-SOBRE LIVROS


FAL AZEVEDO, DEPOIMENTO


Fal Azevedo criança

Minha mãe tratava os livros e a leitura como o maior dos privilégios em nossa casa. Praticamente só ganhávamos livros. Os brinquedos vinham das tias, das madrinhas. De mãe e pai, só livro. E ler era, mesmo um privilegio. Um prêmio. Praticamente só ganhávamos livros em casa. Daí, que ler era privilégio... Nota boa? Livro? Coisa certa? Livro. Ah, fez coisa errada? Pois então tiro de você o livro que  está lendo . Se comportou mal? Não conto história antes de dormir, não leio em voz alta.
Livro era presente de aniversário e Natal, o único (mesmo) tipo de consumo estimulado em minha casa, a única coisa que éramos encorajados a desejar, e o grande privilégio que tínhamos. E claro, como era um privilégio, não uma obrigação, um prêmio, não um castigo, éramos loucos por eles. Tínhamos que merecer nossos livros. Esperávamos por livros, pedíamos por eles, sonhávamos com eles como outras crianças sonhavam com o Falcon, ou a Susie. E, exatamente, como brinquedos, nunca achávamos que eram suficientes.
Foi assim que minha mãe criou dois viciados em livros.
E outra coisa: dedicatória. Mãe precisa mesmo colocar dedicatória nos livros que der.
Assim, quando chegar aos 41 anos, sua filha vai ter o prazer de abrir um livro capenga e ler:
Para a minha amada Biuccina, esse "Mulherzinhas", que carrega um pouco da doçura que, espero, ela terá em sua vida.
mamãe, dezembro de 1977

carteirinha da Fal

sexta-feira, 23 de março de 2012

ENTREVISTA COM FAL AZEVEDO, FAL DO DROPS, SOBRE O LANÇAMENTO DE SEU NOVO LIVRO: "SONHEI QUE A NEVE FERVIA"

Vou contar a história direitinho. Pedi a Claudia que após ler o Livro "Sonhei que a Neve Fervia" de Fal Azevedo fizesse considerações sobre ele, entrevistando a autora. Com esta entrevista inauguramos uma semana de Fal Azevedo.


Este livro é impossível ler sem se emocionar muito e muito e muito. Ele nos traz um pouco de Caxambu, esta cidade com 12 fontes de água mineral , cada uma mais diversa do que a outra. Deixe a Claudia  explicar a pergunta sobre as irmãs Goés, que entra na matéria: 


Por Claudia Lopes Borio



Fal Azevedo, na televisão

"A Claudia e a Fal foram para dois colégios que eram de propriedade de duas irmãs geniais, em São Paulo era o Colégio da Gávea, da Laura Góes (não sei exatamente o nome da escola), e em Curitiba era a Escola Anjo da Guarda, da Vera Miraglia. Eu não sei o que a Fal achava, mas o colégio Anjo da Guarda era e é uma escola genial, onde todos os alunos têm voz e vez, mesmo que sejam considerados "crianças problemáticas" em outras escolas, enfim, um ambiente amigável com base no ensino
construtivista. Os sobrenomes das irmãs são diferentes, pois esses são seus nomes de casadas, eu acho que o nome de solteiras delas era Lacombe. A Laura, hoje em dia, tem uma pousada em Petrópolis (Pousada da Alcobaça)  e o Anjo da Guarda é sempre mencionado  entre as melhores  escolas do Brasil, onde a Vera Miraglia, mesmo velhinha, continua  no leme ( a minha filha estudou lá também).
É isso, mais ou menos"

Claudia Borio


Oi Fal.

Eu sou a Claudia, amiga da Esther. Para você saber quem eu sou, eu também sou tradutora, sou revisora, estudei no colégio da irmã da Laura Goes aqui em Curitiba e tenho dois Moby Dick na minha estante.

Fal- Ei, que legal!! Somos ambas produtos das irmãs Góes! Você conhece a pousada da Laura em Petrópolis, a Pousada da Alcobaça? É o lugar (mesmo) mais lindo da face da Terra. Tirante Caxambu. :o)

Então gostaria de fazer as seguintes perguntas:

1. Os leitores provavelmente não sabem, e por isso pergunto. É você essa mulher terrivelmente enlutada, que descreve no seu livro a experiência dilacerante de perder o amor da sua vida? Quero dizer, é você mesma, não é um personagem de ficção?

Fal- Sou eu. Creio profundamente que, botou no papel, virou ficção. Não acredito em jornalismo-verdade, na realidade crua dos fatos, em nada disso, Clau. Acredito em interpretação, ângulo, verão – a minha e a sua. Então o que posso dizer é que sim, sou eu ali. Mas é a minha versão. A minha dor, a minha vidinha, a minha visão disso tudo, da perda, do medo, da ausência. Sou eu, não uma personagem de ficção, mas só enquanto é possível não sermos todos, personagens de ficção. Se é que me explico.

2. Você acha que a nossa sociedade tem uma atitude tipo “seja forte, a vida continua’ com relação ao luto? Ou talvez, refazendo a pergunta: será que se morássemos na Idade da Pedra na Sardenha, ou em algum lugar assim, nossos mortos seriam pranteados com mais dignidade e haveria mais rituais de despedida, dignos e graves, que poderiam trazer um pouco mais de consolo nessas horas terríveis?

Fal- Acho essa negação da fragilidade, da dor, do medo, da perda uma coisa extremamente perigosa e vou repetir até a morte: não, a vida não continua. A vida acaba. Quando a pessoa que você mais ama morre nas suas mãos, desculpe ser eu a lhe dizer, a vida acaba. E uma outra cousa começa. Feliz, infeliz, melhor ou pior, não sei, depende, mas é outra coisa. Acho sim, Clau, que noutra épocas chorávamos mais e melhor. Não sempre, o passado não é uniforme, mas nalguns bolsões do tempo, nalguns lugares, o luto foi mais respeitado. Olha. Nem meia hora depois do Alexandre ter morrido nos meus braços, eu estava numa salinha de espera de delegacia. Entende? Eu estava ali, sentadinha, esperando o delegado ter a bondade de me atender, enquanto o escrivão assistia um daqueles reality shows de construir motoca. Não por dez minutos, não, horas. Esperei horas com minha boa amiga Carina. Isso lá é jeito de prantear a morte de alguém? Antes até, isso lá é forma de lidar com o próprio susto, o próprio pavor, o cara tinha acabado de morrer, bem na minha frente. Não, não é. Luto precisa de tempo. Chorar por alguém demora. Demora muito. Tirar o cara do seu sistema e recolocar o cara no seu sistema, noutras bases, é processo muy lento e muy doloroso. E o tempo de cada um precisa ser observado e respeitado. Bom, num mundo ideal.

3. Você não perdeu o espírito crítico nem nas piores horas, achei incrível você reparando e se indignando com uma pessoa que falou que o funeral era “só isso”, e quando a menininha teve alergia com o salgadinho amarelo, você também se indignou que todo mundo ficou pondo culpa nela... pode comentar isso?

Fal- Hahahah, Clau-de-Deus, como qualquer um que me conheça poderá testemunhar, eu sou sempre este ser humano insuportável.

4. Como é que você tomou a decisão de enfrentar esse desnudamento total da alma e transformar tudo isso em literatura?

Fal- A coisa toda foi meio orgânica. Eu escrevo. Sempre, todo o tempo, sobre tudo. Sou daquelas criaturas alucinadas que têm blog e diário de papel e quatro ou cinco grupos de e-mail e sete, talvez dez, correspondentes fixos e diários. Eu escrevo. Gosto de esmiuçar o pensado e o sentido, o vivido e o visto, o sonhado e o planejado no papel.Portanto, quando Alexandre morreu, eu escrevi. Quando as amigas dele, Esther e Ana Laura, foram me buscar pra ficar com elas, eu escrevi. Enquanto o ano passava, eu escrevia. Quando minha então editora na Rocco, a Anninha Buarque, perguntou ‘muié-que-que-cê-tá-fazendo?”, respondi: escrevendo. E foi isso. A Rocco botou contrato e estamos aqui.

5. É incrível de ver (ou ler) no seu livro como você tem amigos e amigas geniais e queridos que ficaram ao teu lado, escrevendo, abraçando, te recebendo, escrevendo mais etc., o que me fez pensar muito: será que eu teria amigos assim também? O que você faz para ter tantos amigos? Conta o segredo aí.

Fal- Não faço absolutamente nada e não sei de onde essa gente saiu. A Esther e a Nalaura, vá lá, herdei do Alexandre. E minha mãe, bão, ela tem obrigação de me aturar e tal. O resto, Deus é testemunha, não sei. Não sei donde eles brotam e certamente não sei por que alguns ficam. É um mistério.

6. Existe um homem misterioso que passa a noite do 31 de dezembro com você, quase ao final do livro, e fala que te “esperou muito tempo”, mas você não conta mais nada sobre ele. Eu fiquei morrendo de curiosidade, será que ele será tema de um próximo livro?

Fal -Ele foi meu amigo, meu amigo querido, quando o mundo desabava e eu não tinha pronde correr. No meu coração pro resto da vida. Tive muita sorte.

7. Eu adorei as citações literárias que você faz ao longo do texto, especialmente quando você fala do Darwin. O que é que o Darwin é para você? Você se imagina andando pelo jardim do Mendel, aquele das ervilhas, de braço dado com o Darwin e conversando?

Fal- Darwin foi um grande cara. Não apenas porque ele foi genial e viu o que ninguém mais viu. Mas porque ele passou por cima de toda a vida e a criação dele pra falar o que ele falou. Ele escolheu pagar o preço. A evolução como mecanismo evolutivo, esse conceitinhotão tãotão importante, mudou a vida dele e a nossa. E, para além da teoria da evolução, o cara foi um pensador. Da época em que vivia, da classe social em que havia nascido, sobre as cousas que o cercavam. Um observador, primeiro, e depois um pensador. Gosto demais disso.

8. E quando você terminou de escrever, revisar, imprimir, encadernar e tudo o mais esse seu manuscrito, você sentiu alguma coisa como “dever cumprido, etapa superada” sei lá, algum sentimento de encerramento de uma fase na sua vida? Você acredita nisso, que há fases que passam e capítulos que se fecham na vida, como nos livros?

Fal- Não, pra ser sincera. Não. Só sou capaz de enxergar o fim dum ciclo anos e anos depois, ali, no meio da confa e no calor dos acontecimentos, fica tudo misturado, na minha cabeça e no meu coração.

9. Você contou que foi morar na sua mãe e aí começou a pensar em batom e em pincel de maquiagem. Será que quando a mulher recupera a vaidade ela está melhorando, pelo menos um pouquinho, colando os caquinhos do coração partido?

Fal-Hahaha. Nunca tinha prestado atenção aos pincéis. Acho que um mundo de cousas pequenas, bobinhas, cotidianas, tolas, vai se tornando mais e mais visível, conforme se altera o nível do luto, da dor. A vida vai se infiltrando devagar, ocupando espaços vazios. Pincéis de blush, cartas, filminho do Hannibal, uma nova gatinha-bebê, a gente vai mudando, o mundo em volta da gentevai mudando,uma nova vida começa. No meu caso, espantosamente devagar. 

10. Para terminar, vou perguntar só esta vez sobre seu marido, esse homem doce e apaixonante que morreu, vamos falar claramente, por favor me perdoe mas tenho que perguntar. Esse homem não tinha defeito algum? Ele lavava mesmo o seu cabelo? Você tem idéia de que 99 % das mulheres nunca tiveram nem terão coisa parecida nas suas vidas? (nem os homens, aliás). Que feliz conjunção de fatores fez com que ele fosse tão legal?

Fal-Hahaha, ele lavava meu cabelo toda santa noite. E sim, ele tinha defeitos. Defeitos que, pra mim, não significavam. Por isso era tão bom viver com ele. Assim como meus defeitos (que, cara, são abissais e numa quantidade que, vamos combinar, é sobre-humana), para ele, eram fáceis de driblar. Por isso ele era feliz comigo. No fundo não é isso. Achar alguém para quem seus defeitos não são um fardo, e cujos defeitos sejam possíveis? Eu não ia casar, não fui criada para casar. Então, quando casei, casei porque o Alexandre era o Alexandre. Eu casei com ele. Porque ele era ele. Só casei por isso. Não foi um casamento. Foi um casamento com o Alexandre.

11. Última (prometo). Eu adoro o jeito que você descreve as coisas, por isso vou perguntar: fora responder este questionário gauche de quem não tem prática em entrevistar escritores, o que é que você fez de bom hoje? (risos)

Fal- Ô linda. Trabalho. Escrevo, muito menos do que deveria. Leio. Xô ver. Só. Ah, troco a areia dos gatos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

JANELAS

Por Fal Azevedo


Lista das coisas que não deve fazer depois dos 23 anos? Eu ia começar com drogas - nada mais patético que um trintão que paga aluguel e frequenta reuniões de pais e mestres drogado e se sentindo da rapeize (meu deus, como eu sou sou velha, de onde eu fui tirar 'rapeize'?) - cheio de pó, erva ou seja lá o que vocês jovens usam, nesses dias que correm, mas não, minha lista tem que começar com despedida de solteiro. 

Ah, não, nada contra uma reunião de amigos, de ambos os sexos, de preferência num bar (as pessoas sensatas 'recebem' apenas em bares hoje em dia, já reparei nisso... a única imbecil que limpa chão com lisoform antes das visitas chegarem, e que fica, depois que todos foram embora, lavando taças até de manhã sou eu... e o pior é que eu adoooro. Eu sou uma pessoa com problemas), para comemorar a data que se aproxima, para dar risadas, para alguma dança, alguma pizza, alguma vodka e algumas reminiscências, brindando a nova fase da vida de, pelo menos, dois deles. Não é a esse tipo de despedida de solteiro a qual me refiro. 

Nem falo daquela instituição chamada "chá de panela", onde senhoritas em flor ou senhoronas em fruto, ajudam a amiga casadoira a montar a casa nova no que há de mais básico que uma casa pode ter: baldes, vassouras, rodos, pregadores e material de limpeza. Porque esse ritual de passagem eu também adoro. Aliás, desconfio que, se eu tivesse tido uma festa de casamento e tivesse recebido presentes, os presentes do chá de panela me divirtiriam mais que os do casamento. Adoro quinquilharias.

O que me dá a tal da "vergonha pelos outros", se não por mim mesma, são essas despedidas de solteiro onde senhouras que, se nascidas noutros tempos, nem tão longínquos assim, já teriam, elas mesmas, filhas casadoiras, pintam a cara de outra senhoura da idade delas, com imagens de caralhos y otras cositas más, fazendo jogos de adivinhação onde uma mulher de meia idade (sim, queridinhas, 37 é meia idade, ninguém vive até os 120. Bom, quase ninguém, em todo caso) tem que pagar prendas que vão de andar pelas ruas com um modess pintado de batom amarrado na testa, até colocar camisinha com a boca numa banana. 

O que eu quero dizer é: essa gente não teve adolescência? Não que eu fizesse essas coisas quando adolescente, eu fui criada pra ter um razoável senso crítico, mas jesus, se alguém vai fazer que seja aos 17, jamais aos quase-quarenta!

Enfim, entreguei meu maravilhoso jogo de panos de prato - praticamente um enxoval, a moça terá os mais belos panos de prato até a década de 20 do presente século - dei um olá geral e vimembora, que se não dei gritinhos e nem fiquei fazendo barulhos de gozo pelo Kadu Miloterno (não, eu não sou velha, eu era precoce, só isso), nas janelas da minha juventude não farei isso pelo Rodrigo Santoro, nas janelas da não-juventude alheia.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CURSO ARTE NA HISTÓRIA COM FAL AZEVEDO



O curso é completamente virtual. A cada 15 dias será enviada uma aula para os emails dos participantes que, após lida, começam os debates via email.
São 10 aulas, ou 5 meses de curso. Data de início a combinar. Custo : 450 reais.
Na primeira aula o assunto será Pedra Lascada e Pedra Polida até chegar a décima aula;" O Havaí seja aqui: Internet, a nova arte e o diário coletivo.

Interessados podem enviar emails para fal.drops@gmail.com.
Clique na imagem para ampliar.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

GABRIELA BRAGA FALA SOBRE A PEÇA QUE ADAPTOU DO LIVRO MINÚSCULOS ASSASSINATOS...

...E ALGUNS COPOS DE LEITE


Por Gabriela Braga



Fui ao lançamento do livro em SP. Encontrei as meninas, a Fal. E vim lendo no vôo de volta. Degustei até a última página, depois de ter passado por todas emoções que o Minúsculos traz - chorei no avião, dei gargalhadas. Sobrevoando Goiás, me descobri chocada, identificada, apaixonada pela Alma. Literalmente!

Na semana seguinte, entreguei o livro ao Arthur Tadeu Curado, meu amigo queridíssimo, ator e dramaturgo de mão cheia. Só disse: leia.
Não me lembro bem do que aconteceu depois, mas terminamos resolvendo que não tinha jeito. A gente estava inescapavelmente atado à Alma... e tinha que dividi-la, mostrá-la ao maior número possível de pessoas. E foi assim que levamos Minúsculos pros palcos.


No Rio a adaptação para teatro foi do Crônicas de Quase Amor, outro livro da Fal. Até onde eu sei, não houve outra adaptação do Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite antes dessa.

Eu não tenho técnica nenhuma. Quem pode explicar melhor isso é o Arthur. Eu fui com ele, pela mão, me levando. A gente selecionou o que, no nosso jeito de ver, não poderia ficar de fora do nosso jeito de contar essa história. A gente se apropriou mesmo dela. E foi a partir disso que foi saindo a peça. Eu participei do começo, mas tive que me afastar por motivos pessoais (que eu já te contei, meio por cima) e voltei só pra ver um ensaio e dar uns pitacos. Quem apita a coisa toda é mesmo o Arthur.

Nunca tinha participado de uma adaptação. Li algumas peças, Nelson Rodrigues, Shakespeare... essas coisas. Assisti a muitas e me dou relativamente bem com as palavras... Mas o que eu mais sou nessa vida mesmo é cara de pau! hahahahaha pode acreditar no que eu digo. Eu não me intimido com o que eu não conheço. Eu vou lá ver como é que é. Eu sou cricri, eu pergunto até entender... Taí a única coisa que me orgulha na minha teimosia capricorniana. ;)

A história do teatro começa, na minha vida, provavelmente, por motivos bem diferentes dos tradicionais. Minha família tem gente que fala muito bem e eu sempre admirei profundamente os oradores, aqueles cabras que pegam a idéia pela rabo, dão umas boas rodadas nela e botam a coisa pra trabalhar a favor deles, sabe?

Depois, vieram os livros... E lá estavam as palavrinhas... E os meus autores preferidos foram surgindo e eu me apaixonando cada vez mais. Daí pro teatro foi um pulo. Com meus 12 anos, meu pai me levou pra assistir "Brincando em cima daquilo" um monólogo com a Marília Pêra. Eu sai de lá sem pisar no chão.
Profissionalmente, fiz produção de teatro pra uma peça da Andréa Alfaia, aqui em Brasília, chamada "Canção pra se dançar sem par" (monólogo dirigido por ela, dessa vez com Arthur no palco!).

A Alma é uma figura! Eu gosto dela. Eu quero que as pessoas conheçam a Alma. Ela tem um jeito muito bacana de contar a própria história e eu acredito mesmo que todo mundo e cada um, num determinado momento, vai se identificar com ela. Ela é uma sobrevivente dela mesma. Ela tem o poder de "ligar" umas luzinhas fundamentais dentro das pessoas.

A peça fica em cartaz de 02 a 26 de junho, em Brasília, no teatro do Brasília Shopping. Depois? Só Deus sabe. Mas, se a MERDA for abundante como esperamos... O Céu é o limite!


Livro da escritora Fal Azevedo e que foi adaptado para o teatro por Arthur Tadeu Curado, Thaís Strieder e Gabriela Braga, produtora da TV Brasil, estréia dia 3 de junho, sexta-feira em Brasília, no Shopping onde fica o Teatro de Brasília.

O texto é da escritora paulistana Fal Azevedo foi adaptado para o teatro pelo Arthur Tadeu Curado, Thaís Strieder e Gabriela Braga. A direção é do Arthur e a atriz é a Thaís Strieder.

Gabriela Braga, a Bela, convida a todos para conhecer a Alma, personagem central do livro. "Não poderia guardá-la sozinha para mim."

O TEATRO DO BRASÍLIA SHOPPING

O Brasília Shopping é considerado um Shopping Monumento e ponto turístico. Foi construído em 1997 e está localizado na extremidade central da Asa Norte. É um centro de negócios, compras, serviços e lazer. São 105.000 m² de área construída.

A autora do livro, Fal Azevedo, estará no local.

quinta-feira, 3 de março de 2011

SANDRO

Por Fal Azevedo



Ele odeia a mãe dele. 
Odeia. 
Descobriu isso há muito tempo e, claro, não contou a ninguém. 
A velhinha cheira a pomada e a malhas de lã – sim, malhas de lã têm um cheiro. 
Ele odeia a velha, seu sotaque e seu cabelo amarelado. 
Pensando bem, do cabelo amarelado ele tem nojo. 
Odeia suas certezas, sua fragilidade. 
Ele odeia cada centímetro quadrado daquele maldita velha. 
A velha não mora com ele, graças a Deus, a velha tem a sua própria casa. 
Uma vez por mês, Sandro a leva ao mercado e empurra seu carrinho, aguenta seus comentários imbecis – a velha tem opinião sobre tudo – e paga suas compras. 
A velha compra coisas que os velhos adoram comprar, aveia, ameixa, alface americana e geléia real, e fala sozinha com os pacotes na mão. Sandro tem fantasias de acertar a cabeça dela com latas de ervilhas. 
No final, ele embala e paga as compras, bota tudo no carro, leva a velha para casa. 
Descarrega as compras, mas não a ajuda a guardá-las, a velha não gosta porque a velha tem um “método” – a velha tem muitos “métodos” e Sandro odeia cada um deles tanto quanto odeia a velha. 
Depois da visita mensal à velha, Sandro quase se esquece dela, quase esquece seu ódio e seu mal-estar, quase, porque eles estão ali em algum lugar. 
E, mês que vem, ele vai precisar deles.

BLÉ BLÉ BLÉ

Por Fal Azevedo

Meu filho, meus parachoques se você é bem resolvido, magro, in, não fumante, politicamente corretíssimo, tem os dentes brancos, ganha um monte de grana, medita, tem barriga de tanquinho, liga pra sua mãe 20 vezes por semana, descobriu uma tintura/manicure/guru/dieta que mudou sua vida, se você discute relação até com o porteiro, se você só dirige com cinto de segurança. Que Deus te abençoe.

Só deixa eu te dizer uma coisinha: nada, nada, nada, nem esse estado de iluminação astral, de perfeição purificada no qual você e outros deuses do Olimpo se encontram, permite que você fale sem ser perguntado, entre na vida alheia e cutuque.

E nem venha com essa conversinha que você “só quer ajudar”. Os colarinho que você só quer ajudar.

Um ser iluminado, leitor de Pablo Conerrrrrrro, louro-de-olhos-azuis, comedor de tofu, como você, sabe muito bem que o outro sabe das delícias e dos pavores de ser burro, pobre, desorganizado, alienado, gordo, ateu, desorientado, desmemoriado e desdentado.
 
O que você quer, de verdade, é se meter. 
E bancar o gostosão. 
Back off. 
E milhões de bléssss pra você.

A QUEDA

Por Fal Azevedo

Caos humano - bico de pena sobre papel, de Guilherme Kramer

O Sistema Caiu
Parece nome de livro de economista.
Que sistema?
Como assim "o sistema"? 
Quem é "o sistema". 
É Sistema, sistema?
É o sistema solar?
É o sistema Anhangüera-Bandeirantes? 
É um sistema operacional?
É um sistema que adota políticas descentralizadoras?
É um sistema que auxilia a preparação e a composição de alternativas às soluções ortodoxas? 
O sistema que oprime?
O sistema militar? 
É o Sistema Único de Saúde?
Ou é "Senhor Sistema para você – sabe com qual Sistema tá falando?"
Cai-cai-cai-cai, que eu não vou te levantar.
The Sistema left the biulding.
O sistema subiu no telhado. 
O sistema já foi tarde.
O sistema era tão moço, tão bom filho.
Se o sistema caiu, ele que aprenda a levantar.
"Ama, com fé e orgulho a conectividade em que nasceste! Criança! Não verás
nenhum sistema como este! Olha que servidores! Que aplicativos! Que bancos de dados! Que links!" 
O sistema caiu.
Machucou?
Fez dodói?
Quando o sistema casar, sara.
Quebrou algum osso?
Alguém acudiu?
O sistema caiu de maduro.
O sistema descansou.
O sistema foi em paz.
O sistema parecia tão sereno, parecia estar dormindo. 
Cai, cai, sistema, cai, cai sistema, aqui na minha mão.
O sistema é solar?
É neurológico?
É nervoso, coitado?
Cai onde, como foi? 
Escorregou no xixi do gato, caiu, bateu a cabeça?
Torceu o pé no estacionamento do Carrefour e ficou engessado 50 dias ? 
Foi mordido por um cachorro furioso, caiu e teve que reconstituir o tendão? 
Se estabacou no banheiro, entalou no box, tiveram que chamar a vizinha do 403 pra levar o sistema ao pronto socorro?
O Sistema caiu, quebrou os dentinhos da frente, mas tudo bem, eram dentes de leite? 
O Sistema caiu lamentavelmente nas mais recentes avaliações do pessoal?
Despencou do oitavo andar?
Caiu na rede? É peixe?
Caiu no meu conceito?
Caiu em si?
Caiu em desgraça?
Caiu na boca do povo?
Caiu no crime?
Caiu como uma luva?
Caiu na gandaia?
Caiu na real?
Caiu na malha fina do imposto de renda?
Ele que levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

DEU NA SANFONA DE PEDRO CUNATO: É ANIVERSÁRIO DA FAL

Por Esther Lucio Bittencourt


Ahab! “O que houver de ser grandioso, em ti, deverá forçosamente ser arrancado ao céu e procurado nas profundezas das águas e esboçado no ar incorpóreo (H. Melville, Moby Dick)”.
O que a Fal gosta



É final de verão. O outono já se anuncia no céu avermelhado do nascer e pôr do sol. As manhãs parecem feitas de vapores de gelo e os finais da tarde, rispidamente, perdem sua claridade e ficam frios. Aqui em Caxambu, no sul de Minas Gerais, há um azul desproporcional no céu, como se o inverno já houvesse chegado.

E é apenas dia 16 de fevereiro, tempo de calor tropical, e o carnaval, nem chongas. Mas Fal Azevedo aniversaria, o que é motivo de orgulho e felicidade para todos nós. E pensar que aquela menina de cabelos de trigo ao vento nos daria pão para a alma, em abundância, com sua obra.

Se a vida paulista vive outra realidade, calores insanos, céus empoeirados é porque ninguém conhece o canto da Fal. Lá , onde mora com Maliú, a vida tem um correr macio, com céus de brócolis, ruas de marmelada, a verdadeira, feita de marmelo,  e esquinas de abricó.

No dia 16 de fevereiro, quando iam ao ar  novelas como Renúncia, Céu cor-de-rosa e Helena (na década de 30; pois sabem, a Fal veio antes de todo mundo) que eram grandes atrações da Rádio Nacional do RJ, nasceu Fal Azevedo entre uma e outra propaganda da Bayer que dizia assim: “Não há nada que possa derreter a neve eterna dos Andes, não há nada que possa substituir os comprimidos Bayer de aspirina”, “As pirâmides do Egito são únicas e insuperáveis, os comprimidos Bayer de aspirina são únicos e insubstituíveis” e “Como a bússola marca o caminho seguro a quem navega, os comprimidos Bayer de aspirina...”.

Da mesma forma que a aspirina, a neve dos Andes, as pirâmides e a bússola  são  imprescindíveis, Fal é quem nos livra das dores de cabeça, que refresca os calores dos verões tropicais, nos ensina os segredos da história e da arte e é a guia de nossos caminhos que se emaranham, pois aponta a saída do labirinto com seu humor e amor. Tenho a certeza de que todos nós, do Primeira Fonte, desejamos feliz aniversário para Fal, para Fábia que nos oferece drops refrescantes para os dias de desencanto e encanto.

Nosso amor é mais do que aspirina, Fal.  

Veja no link abaixo entrevista concedida pela Fal quando do Lançamento de "Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite".

COUSA DE MULHER, POR CLAUDIO LUIZ E MONIX










Cláudio Luiz foi ver, e olhem acompanhado de quems, a peça "Cousa de Mulher", baseada no livro da Fal Azevedo,-hoje é aniversário da Fal-   "O Nome da Cousa" e escreveu suas impressões. Mônica Chaves que o acompanhou, a Monix, também escreveu sobre e, nós do Primeira Fonte, agradecemos aos dois.


Esther, Boa noite / Bom dia.

Acabei de chegar do teatro,( Ipanema, no Rio de Janeiro) .
Comigo foram a  Ana Paula, a Carla San e a Monix (de duas fridas).Pedi a todas que escrevessem. A Ana e a Carla enviarão direto pra você, a Monix, enviou-me, por não ter o seu endereço.

Vou colocar o Texto na Monix em rosa e o meu em roxo para não ter dúvida.



Mônica Chaves



Ana, Paola e Lia são três mulheres interessantes. Amáveis - não no sentido de dóceis, mas porque a gente aprende a amá-las, muito rápido. São fortes, complexas, meio instáveis, como quase todas as mulheres.
Elas são assim porque suas palavras são um espelho (daqueles meio distorcidos, de parque de diversões) das palavras da Fal. Que é tudo isso e é doce, inteligente, às vezes um pouco malvada, como devem ser todas as pessoas que me interessam.

As palavras da Fal são universais, e a peça 'Cousa de Mulher' é a prova disso. Quem as pronuncia pode ser uma louríssima sexy, uma dona de casa numa encruzilhada da vida ou uma proto-atriz meio sem rumo: as palavras da Fal caem bem em qualquer uma de nós. Sair do teatro se sentindo um pouco amiga de cada uma das personagens é uma cousa bacana.

Agora não sei se ela quer que use Monix ou Mônica Chaves. Acho que deve ser Monix mesmo.
Monix - Duas Fridas  - http://duasfridas.wordpress.com/



Cláudio Luiz

Primeiro preciso agradecer o Domingos pelo convite.

Segundo, parabenizar o Anderson pela escolha do texto da Fal.

Depois, mesmo sabendo que vou cair no lugar comum, não poderei deixar de dizer que a Fal é ótima. E ela está lá na peça. Quando não está totalmente escrachada, ipsis litteris, está num ponto de vista do Anderson, mostrando outras possíveis leituras dos textos e das personagens.

O melhor que eu poderia dizer sobre a peça  seria se eu conseguisse reproduzir os comentários que ouvi das amigas que foram comigo – Cousas de Mulher sobre Cousas de Mulher.

É impossível não identificar-se com elas, é impossível não identificá-las. Sempre se terá uma amiga, uma tia, uma mãe que é exatamente igual àquelas personagens.

O que fiquei pensando foi na agonia daqueles que (ainda) não leram o livro por não poder sublinhar aquelas frases geniais, aquelas respostas maravilhosas (que nunca nos vem à boca quando queremos e precisamos), aquelas tiras de humor e sarcasmos ótimas para guardarmos e usar num dia qualquer. Não tenho dúvida que estas pessoas saiam do teatro com uma frase ecoando na cabeça.

Agora, com licença que vou ali pegar o meu exemplar do livro pra ver se estão mesmo todas sublinhadas.

NB – uma sugestão pro Domingos, que ouvi da Carla San, depois do espetáculo - que tivesse alguns exemplares do livro disponível pra venda no foyer do teatro.

Cláudio Luiz