Mostrando postagens com marcador lilian zaremba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lilian zaremba. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

DON JUAN NO TERCEIRO MILÊNIO

                                                                  Giacomo Casanova


da CAPA ESPADA ao LIVRO

Por Lilian Zaremba

Sedução é tormento antigo, encanto devastador.
Da maçã bíblica, fruto proibido, ao conversível importado numa vitrine, preço nas esferas, distante do bolso do seu olhar, sedução ganhou muitos contornos nas curvas do Tempo.
Hoje então, o que é verdadeiramente sedutor ?
O anúncio na TV, a brisa na praia ao entardecer, a eloqüênciade um discurso ou a voz aveludada que sussurra em nosso ouvido ?
Quando o assunto é sedução amorosa, costuma-se obter ao menos dois pontos de vista a respeito : o primeiro é cômico. Observar o incrível esforço que demanda a batalha de um sedutor é, visto a distância, bem divertido.
O segundo ângulo de observação é, infelizmente, trágico.
Isso acontece quando a sedução acaba por deixar alguém na mão ... nesse caso, em geral, o problema é o stress moral ...
De qualquer forma, como nem sempre é possível resistir e não se envolver, a saída para uma cilada sedutora poderá ser o raciocínio, mesmo que este ocorra posteriormente ! Raciocínio e sedução, quase como água e óleo, são uma dessas coisas que ninguém deve se meter a explicar ... Just one of those things...

se EXISTE uma ORIGEM...

Don Juan, o maior sedutor de todos os tempos, nasceu em Sevilha, Espanha, em 1630, encarnado como aristocrata cínico.
Personagem saído da imaginação de um padre, o Frei Gabriel Tellez, que utilizava o codinome Tirso de Molina, para assinar suas peças de teatro.
Abusado, maldito, aventureiro, este o Don Juan desenhado pela pena do padre-dramaturgo que inaugurou, provavelmente sem saber, o mito do homem irresistível.
Don Juan escapou das fábulas do Frei Gabriel migrando como pólen, solto para sempre no ar que atravessa os séculos. Conseguiu fugir das chamas da moral capa e espada do século 17, onde sempre no fim, era obrigado a acertar suas contas com Deus.
Hoje este sedutor incorrigível anda solto por aí, embora sempre exista quem lhe ameace com as chamas do inferno. Pensando de forma objetiva, queimar pode até ser num inferninho, desde que muito bem acompanhado, é claro.
Aristóteles acreditava que o sono liberta a mente da responsabilidade moral. Se assim for, Don Juan pode ser aquele indivíduo sonâmbulo a espreita. Dormindo acordado, sonhando com a sedução de um mundo mais feliz.

um OUTRO DON JUAN

Espetáculo e filosofia, homem e Deus, valete ridículo e mestre maldito, liberdade escolhida e punição divina, à partir deste conjunto de idéias antagônicas Molière desenhou seu Don Juan. Durante algum tempo Molière se viu censurado, impedido de encenar seu Tartuffo, nome de seu Don Juan, porque vez por outra alguém se percebia retratado ... quando esse alguém era o Rei, então ...
Molière foi acusado: ateu e libertino, embora o problema não fosse seu : suas peças eram ótimas e até hoje muito divertidas. Riso ou sorriso certo.
Embora a figura de Don Juan tenha nascido masculina, não é de hoje que salpicam as saias nas rédeas da sedução. Mas é preciso definir territórios : não se deve misturar por exemplo, sereias e Don Juanitas, digamos assim.
As sereias possuem outro encanto sedutor, diferente mas talvez até complementar nessa altura do campeonato.
No famoso romance Ligações Perigosas, escrito pelo francês Choderlos de Laclos em 1782, Don Juan, ou melhor o Don Juanismo, está concentrado numa figura feminina, a Marquesa de Merteuil. Assim, Don Juan no século 18, quem diria, mudou de sexo...
Um Don Juan feminino, mais moderno e nada cruel, como Valentina engraçadamente sedutora, Funny Valentine, ampliada em seus encantos.

a LENDA da FIDELIDADE

Seguindo a tradição histórica que cunhou as características do personagem, Don Juan, essencialmente um sedutor, não cultiva a alma mas os sentidos, numa expressão do amor sensual absolutamente infiel : ele não ama apenas uma pessoa mas, todas.
Gregorio Marañon, em seu livro Don Juan e o Don Juanismo lançado em 1958, acredita que o destino desse personagem, e de resto, de todos que a ele se alinham nas atitudes, está rodeado pelo aro da lenda.
A lenda construída no sonho de um desejo eterno pelo amor perfeito. Este, sempre tão distante do real. Triste sina ou fantástico estímulo, tudo vai depender desta equação fantasia versus realidade, ou fantasia e realidade...
Extensa é a lista dos escritores, autores, artistas e pensadores que se debruçaram sobre o mito de Don Juan. Julia Kristeva,Sören Kierkegaard, Lord Byron, Mozart, Bernard Shaw, Balzac, Baudelaire, Richard Strauss, Tolstoi, Bertold Brecht, e Georges Bataille são apenas alguns ... Bataille é um dos melhores representantes da atitude crítica diante da obsessão Don Juanística. Para ele, Don Juan não é um réles sedutor de bar, mas um prosaico colecionador de conquistas, um herói da orgia e da transgressão.
O pensamento de Bataille, como não poderia deixar de ser, é um ataque ao puritanismo...

DON JUAN no TERCEIRO MILÊNIO

O Don Juan inventado no século 17, foi seguramente reinventado nesta distância que nos coloca no belvedere do século 20 / 21.
Do personagem original, frio sedutor, calculista e no fundo, em guerra contra a morte moral e física, às diversas formas derivadas que acabaram por moldar sua mitologia, Don Juan virou sinônimo de sedução e sedução sinônimo de muitas outras formas e personagens, numa diluição assustadora.
Em nosso mundo contemporâneo, longe dos palcos de Molière e da sedução quase ingênua dos pequenos crimes da carne, os Don Juans sobreviventes levam adiante sua batalha.
Num esforço agora heróico, seduzem a si próprios tentando fazer com que sonhos impossíveis ainda possam ser sonhados.

=====================================================
sugestão: passeio virtual pela exposição "Casanova- A Paixão pela Liberdade". Evento que mostra os textos manuscritos originais do sedutor em seu livro de memórias, que não por acaso está na Biblioteca Nacional da França.




Casanova – filme de Fellini



Don Juan – de Strauss

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

DIANTE DA PALAVRA RADIOFÔNICA

Por Lilian Zaremba









Valère Novarina

As palavras... sempre estiveram no ar...
Nas frases da retórica, nos versos da poesia, nos hiatos do silencio...
Mas como alguém pode estar... diante da Palavra?

A palavra um dia deve ter sido célula nervosa saudável, imaginou William Burroughs...mas tornou-se impulso compulsivo, onipresença interior que nos sequestra a noção de silencio criando...um organismo parasitário, que invade e danifica o sistema nervoso, resistente e...força você a falar.
Mas, em se tratando de falar no rádio, não apenas a palavra, mas a voz, este corpo de nuances sonoras habilita suas leis...

A preocupação técnica com a clareza da transmissão exposta a ruídos e interferências, acabou deslocada para a limpeza de todos os elementos que poderiam ameaçar esta clareza: sussurros, respirações, salivações, rouquidão, e como diria Novarina...“...todas as impurezas que marcam a natureza animal e material das palavras produzidas pelo corpo humano”.


tentando acabar com o julgamento redutor



Quem se preocupou em destacar esses limites da palavra no rádio foi ele... o projeto radiofônico de Antonin Artaud avançou feroz na demolição dessas exigências estéticas e suas normas de pronúncia das palavras.Liberou sonoridades, mas sobretudo, liberou as vozes.
Artaud realizou “Para acabar com o julgamento de Deus”, em 1947, construindo sua plástica radiofônica na representação sonora da loucura humana: vozes demoníacas e seu próprio sofrimento e solidão amplificados. Ficaria insatisfeito com o resultado por conta da tecnologia da época, todos os efeitos sonoros acabaram achatados naquela transmissão em apenas um canal... e declarou:
“...onde existe a máquina sempre existe o nada e o abismo...ali existe a intervenção técnica que deforma e aniquila o que alguém tenha feito”.

Neste mesmo ano de 1947 em que Artaud se aventura pelas ondas do rádio, André Jolivet estréia versão radiofônica de sua ópera bufa “Dolores”...enquanto na Ópera de Paris George Bizet apresenta sua música para arte abstrata, o ballet Palácio de Cristal”...eFrancis Poulenc escreve música para dramasurrealista escrito por Apollinaire ou uma peça musical breve sobre o nome de Albert Roussel...

o tempo passou e a tecnologia avançou

Muito tempo se passou desde então...a tecnologia de áudio avançou tremendamente... agora, outro ator francês sintoniza a palavra no rádio...Devant la Parole...Diante da Palavra.
“....a experiência singular que cada falante faz, cada falador daqui, de uma viagem da fala”... escreveu Valere Novarina, que abre seu livro com a frase do poeta Gérard de Nerval:“A neve cobria a terra”.
Valere Novarina nasceu em Genebra no ano em que Artaud fez sua emissão de rádio, 1947.Tornou-se escritor, dramaturgo, fotografo, ator, pintor, pensador da palavra. Seus textos encontraram uma tradutora para língua portuguesa: Ângela Leite Lopes, que explica:
“...a intenção de Novarina é acabar com a indústria da explicação e fazer a arte usar a linguagem como criação, não como mensagem ou produto”...

Em 2011 Angela Leite Lopes apresentou em livro sua tradução para “O teatro dos ouvidos” peça radiofônica escrita por Novaria em 1980. Sendo o rádio um lugar aonde o espaço é o tempo e a visualidade uma conjugação da memória eletiva, é quase instantâneo fazer a ligação direta entre o teatro de Novarina e rádio. Para quem não conhece, a seguir, alguns destaques deste Teatro dos Ouvidos...
“ele pensava ter arquitetado um método para fazer sua boca dizer tudo que quisesse. Queria dobrá-la, submetê-la todo dia ao treino respirado, torna-la firme, flexível, dar-lhe músculos... até que ela se transformasse numa boca sem fala, até falar uma língua sem boca...”
“...ele ouve a língua na sua fala...em língua sem palavra...em dança imóvel.
“...ele teria querido desaprender, não falar mais uma língua que nos foi ditada...
tinha usado a linguagem como um animal, renunciado à sua cabeça, renunciado a ser, pela língua, o mestre das coisas”.

O Teatro dos Ouvidos, proposto por Novarina, é uma forma de persistir em ampliar a escuta, para além das amarras definidas por linguagens impostas. Este esforço é um contínuo na História, incluindo discursos do cotidiano, como aqueles gritos medievais...
Os gritos dos vendedores de rua, algo comum nas cidades que começavam a surgir nos séculos medievais, acabaram servindo de inspiração para compositores como Édouard Deransart ,Clement Janequin e Vicent Bouchot, escreverem seus “Os gritos de Paris”Diante da Palavra,Rádio Mirabilis-Lilian Zaremba- MEC FM
=======================================================
sugestão de leitura :

“Diante da Palavra”
“O teatro dos Ouvidos”
livros de Valere Novarina, traduzidos por Angela Leite Lopes
editora 7 Letras / coleção dramaturgia

sugestão de escuta :

“Les Cris de Paris” ou seja, “os gritos de Paris”, transformados em músicas por Édouard Deransart no século 19, Clement Janequin, no século 15 e e Vicent Bouchot, no século 20.Gravações realizadas pelo Ensemble Janequin, sob direção de Dominique Visse.


rádio mirabilis de Lilian Zaremba

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

VIDAS IMAGINADAS


Por Lilian Zaremba             


Monteverdi : “Altri Canti d’Amor”, madrigal do oitavo livro


Claudio Monteverdi (1567-1643) - Volgendo il ciel (1/2)The Consort of Musicke
Anthony Rooley

Paul Agnew, tenore solo
Emma Kirkby, Suzie LeBlanc, soprani
Mary Nichols, contralto
Alan Ewing, basso


Se alguém descrevesse sua vida...
se alguém escrevesse sobre como você viveu...
Seria possível que fosse verdade?
Até que ponto alguém pode descrever a vida que você viveu?      
Giorgio Vasari fez isso, escrevendo a biografia “Vidas Artistas”... e passou à História. Marcel Schowb escreveu “Vidas Imaginárias” e também passou à História... realidade ou ficção? em qual biógrafo você depositaria o relato de sua vida?

a História

Giorgio Vasari, nasceu em  Arezzo, 1511, Toscana.
                       Ainda garoto foi estudar em Florença com Miguelangelo, que mais tarde se tornaria seu amigo.  Depois, quando seu patrão Duque Alessandro foi assassinado, Vasari passou a vagar pela Itália com seu caderno de desenhos na mão.Foi nesta época que teriapensado em escrever sobre a vida e obra dos artistas.
                        Aos trinta anos Vasari era, ele próprio, um pintor de sucesso embora sem patronagem... e isso, em plena era do mecenato como forma de sobrevivência artística era realmente um impasse...
                        Em 1550 publica a primeira versão de seu livro “Vidas de Artistas” que é recebido com entusiasmo. Dedica este livro a Cosimo I de Médici, um possível futuro mecenas... por isso retorna a Florença conseguindo afinal servir ao Duque de Médici.

               Fatos e sua invenção

                        Miguelangelo nunca quis pintar a Capela Sistina, e fez tudo o que pôde para evitar este trabalho.
Concluiu que pintar era a forma que seus rivais encontravam para banir seu trabalho de escultor para longe das atenções... e pensava que o forte de sua arte eram as esculturas...
                        Por isso decidiu pintar a Capela Sistina sem que ninguém pudesse acompanhar o processo de pintura...mas outro artista, Raphael, foi esperto, bisbilhotou conseguindo ver o bastante para, imediatamente, mudar o rumo de seu próprio estilo!
                        Este é um exemplo de histórias sobre a arte italiana que Vasari registrou em seu livro “Vida de Artistas”,  livro considerado a pedra inaugural no conceito de “rinascita”, ou seja, Renascimento.
                        Segundo a historiadora,  Elisa Byington curadora de importante exposição sobre este “teórico“italiano que agora abre na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro“devemos a Vasari todos os conceitos que explicam o que foi o Renascimento”.

Vidas Imaginadas

Vasari escreveu sobre a realidade cotidiana e profissional de artistas...mas será possível escrever sobre a vida de alguém? Marcel Schowb disse:“...a ciência histórica nos leva à incertezas quando se trata de indivíduos. Não faz mais do que revelar alguns momentos, editados de ações gerais...”

                        Para Marcel Schowb, um escritor simbolista do século 19, todos os feitos individuais valem unicamente por terem modificado algum acontecimento ou uma série deles. Eis a medida da Ciência mas, como lembrou, a Arte se encontra no lado oposto das idéias gerais...nunca classifica...geralmente...desclassifica. Sendo assim Schowb em seu livro “Vidas Imaginárias descreve outro plano desta que poderia ter sido a vida de Paolo Ucello...

                        “Na realidade se chamava Paolo di Dono, mas os florentinos o chamavam de Ucello ou também “Paulo Pássaros” por causa da grande quantidade de pássaros e animais pintados nas paredes de sua casa”...
                        “era tão pobre que não podia manter animais ou mesmo conhecer os que nunca vira... o problema é que ao pintar um afresco sob encomenda em uma capela de Pádua, acabou desenhando a imagem de um camaleão que ele inventou: parecia um camelo barrigudo e boquiaberto!
“a verdade é que para Ucello pouco importava a realidade das coisas, preferindo sua multiplicidade e infinito das linhas...”
                        “pintou campos azuis, cidades roxas, cavaleiros com armaduras negras em cavalos de ébano que soltavam fogo pela boca...“...Paolo Ucello viveu como um alquimista...perto dele viviam Donatello, Brunelleschi, dela Robbia... cada um com mais orgulho de sua arte e zombando de Ucello que a cada nova combinação de linhas esperava ter encontrado nova maneira de criar...”
“...não era sua finalidade imitar, copiar um modelo...Ucello buscava desenvolver algo novo...

Esta teria sido a vida de Paolo Ucello?
Fato real ou imaginário?

entre o real e imaginário

Paolo Ucello existiu: viveu em Florença entre 1397 e 1475 sendo pintor e matemático. Segundo Vasari escreveu em seu livro, Ucello era tão obcecado por perspectiva que era capaz de passar noites acordado até encontrar o ponto exato de finitude de uma linha.
                        Ucello, usava a perspectiva para criar o sentimento de profundidade em suas pinturas.
Para Giorgio Vasari,  o talento de Ucello, embora imaginativo era excêntrico, encontrando prazer em dificuldades, isto é, desvendar impasses, frequentemente abandonando um talento fértil e espontâneo em algo estéril... aonde Vasari viu desperdício, Schwob viu uma mente efervescente... quem teria a melhor descrição da vida deste artista?      As descrições são complementares: a biografia escrita por Vasari possui inquestionável importância para os estudos da arte do Renascimento...
e as pequenas biografias imaginárias escritas por Marcel Schwob nos lembram que a realidade sempre anda junto com a ficção...


sugestão de leitura :

Vidas Imaginárias – Marcel Schowb (prefácio de Jorge Luis Borges).
Vidas de Artistas  - Giorgio Vasari



Mostra da Fundação Biblioteca Nacional celebra os cinco séculos do pintor, arquiteto e historiador italiano Giorgio Vasari


Início hoje, sexta feira, 28 de outubro de 2011. Entrada Grátis








Gravura de Giovanni Cavalleris, de 1571: reprodução do afresco de Rafael A Batalha de Constantino contra Maxêncio, do Museu do Vaticano

Natural de Arezzo, Giorgio Vasari (1511-1574) conjugava as habilidades de arquiteto e pintor ao projetar imponentes edificações e decorar os interiores com afrescos. Seus legados mais notáveis são a Galeria Uffizi e o Palazzo Vecchio, ambos em Florença. Ganhou notoriedade também como crítico e por ser o primeiro historiador da arte de que se tem notícia. Foi ele quem lançou, em 1550, o pioneiro livro do gênero, As Vidas dos Mais Conhecidos Pintores, Escultores e Arquitetos — De Cimabue até Nossos Dias. Era um catálogo com biografias de artistas que atuaram nos séculos anteriores, como Giovanni Cimabue (1240-1303) e Giotto di Bondone (1266-1337), e também de Michelangelo (1475-1564) e Rafael Sanzio (1483-1520). Muitos atribuem a ele a conceituação desse período como “Rinascita”, o que lhe valeu o título de Pai do Renascimento. Um pouco dessa rica trajetória e produção poderá ser conhecido por meio dos 200 desenhos, gravuras e livros raros integrantes da mostra Giorgio Vasari: a Invenção do Artista Moderno.
As peças foram pinçadas do acervo da Real Biblioteca de Portugal, trazido ao Rio em 1810 a mando de dom João VI e conservado na Biblioteca Nacional. Curadora da atração, a historiadora Elisa Byington destaca entre os itens expostos um exemplar original da segunda edição do livro Le Vite de’ Più Eccellenti Pittori, Scultori e Architetti, de 1568. Haverá também um setor com gravuras de Michelangelo e de Rafael, além de obras de artistas da geração seguinte por eles influenciados. Entre eles está Giovanni Battista Cavalleris (1525-1597), autor da gravura A Batalha de Constantino contra Maxêncio, com 1,68 metro de comprimento. Datada de 1571, a peça reproduz o afresco homônimo de Rafael, que fica no Museu do Vaticano.
Giorgio Vasari: a Invenção do Artista Moderno. Fundação Biblioteca Nacional — Espaço Eliseu Visconti. Rua México, s/nº, Centro, 3095-3862. ↕ Cinelândia. Terça a sexta, 10h às 18h; sábado, domingo e feriados, 12h às 17h. Grátis. Até 4 de dezembro. A partir de sexta (21). Fundação Biblioteca Nacional/


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Marco Polo: o mundo em vozes e silêncios.

por Lilian Zaremba


Você acorda, toma café e sai para trabalhar.
Retira seu carro da garagem ou anda pela rua até o ponto de ônibus, metrô ou trem. Ocorre a você que todo esse percurso pode ser uma aventura ?
Há mais de 700 anos atrás Marco Polo saiu de sua casa para trabalhar. Seu trabalho entrou para a História como grande aventura. Até que ponto ele sabia disso ?
Um aventureiro na rota da seda, atravessando mares e territórios, conhecendo reis, rainhas, homens dignos e indignos. Marco Polo, o italiano de Veneza, descreveu o que viu com seus próprios olhos.
Mas será que viu mesmo ?
Sem dúvida, muitas coisas não viu.
Em seu livro, intitulado “A descrição do Mundo” publicado vinte e cinco anos depois desta longa viagem, escreveu:
...não vi mas obtive as informações de homens dignos de serem acreditados ... de forma que nosso livro seja sincero e verdadeiro, sem nenhuma mentira e que seus propósitos não possam ser taxados de fábulas.
Marco Polo descreveu o mundo para seus contemporâneos ao mesmo tempo que continua descrevendo este mundo para nós, em sua disposição por viver aventuras.
Aventura de viajar, não necessariamente para o Oriente de Marco Polo mas através do Oriente de Marco Polo, renovando essa aventura que no século 20 virou ópera pelas mãos de um chinês.

Você compõe a música ou a música compõe você ?

Tan Dun diz que realmente não consegue responder a essa pergunta ... um monge me colocou esta questão quinze anos antes de eu começar a compor a música para a ópera Marco Polo ... eu penso que sons e diferentes culturas acabam guiando meu trabalho, me levando por uma longa jornada, antes mesmo que eu possa refinar tecnicamente a escrita da música...

Tan Dun nasceu em Huan, em 1957.

Depois de passar dois anos plantando arroz, durante a Revolução Cultural Chinesa, consegue trabalho como violinista numa trupe de Ópera em Pequim.
Aos dezenove anos ouve uma sinfonia de Beethoven pela primeira vez, este o momento de começo da aventura: decide ser compositor e apenas um ano depois já está no Conservatório de Pequim, um pulo para uma bolsa na Universidade de Columbia, em Nova York. Seria nesta cidade norteamericana que Tan Dun completaria seu doutorado e fixaria residência.

Uma ópera dentro de uma ópera

Esta jornada leva Tan Dun através dos cantos medievais e das canções da Mongólia, da música Ocidental até a Ópera de Pequim; da Orquestra até a cítara, flautas de bambu ou cornetas do ritual Tibetano ... a fusão destas sonoridades de todas as esquinas do globo terrestre é a definição que Tan Dun pode fixar em sua ópera Marco Polo, e ainda pergunta ...
Será que a viagem de Marco Polo poderia acontecer hoje ?
Será que alguém sonha com esta viagem? Ou será que a jornada nos imagina ?
Você é a borboleta ou a borboleta é que é você ?

Perguntas feitas a um sonhador. Ou a um artista que sabe fazer outros sonhar ...
Leste e Oeste, Oriente e Ocidente, Marco Polo é uma ópera dentro de uma ópera. Uma aventura da escuta construída por Tan Dun e apresentada pela primeira vez em 1996, na Bienal de Munique. Comissionada pelo Festival de Edimburgo e tendo também o apoio da Mary Flager Trust e da Fundação Rockefeller, a ópera de Tan Dun foi gravada ao vivo em Amsterdam, 1996.

Muito mais se poderia falar sobre o compositor e sua obra, mas o importante a destacar aqui é sua proposta para a forma denominada “ópera” no século 21: utilização do clássico, multimídia e sistemas musicais do Oriente e Ocidente. Um artista que ainda jovem já conseguiu encontrar sua própria voz e linguagem, transcendendo a simples fusão de culturas para fazer música com todas as informações da atenção humana: vozes, espaço e silencio.

sugestão de escuta :

A integral, com duração de duas horas sem intervalos, da ópera “Marco Polo”, composta por Tan Dun e com libretto do crítico britânico Paul Griffiths. Apresentando o tenor dramático Thomas Young como “Polo” e a mezzo-soprano Alexandra Montano, como “Marco”, e ainda o baixo Dong-Jian Gong, no papel de Kublai Khan. Orquestra de Câmara da Radio Netherlands e Capella Amsterdam, regência do próprio compositor Tan Dun.

Para ver:

sexta-feira, 13 de maio de 2011

PRA LÁ DE ISTAMBUL

Istambul: o antigo bairro Sultanahmet 
Foto: Google Images
Lilian Zaremba

Às margens do Bósforo, um estreito que liga o mar Negro ao mar de Mármara, dividindo em duas partes a cidade de Istambul, o turismo fervilha...

Ironia ou não, a pátria nos segue mesmo quando a world music ecoa como nesta fusão da tradição turca com a música eletrônica internacional...

Isso tem mais que duzentos anos.

Maior cidade da Turquia e a quinta cidade mais populosa da Europa, possui centro industrial, comercial, universitário, sede da Igreja Ortodoxa. Foi criada no ano 667 Antes de Cristo e batizada Bizancio, e não por acaso, hoje, reúne uma mistura de culturas milenares traduzidas em suas mesquitas, sinagogas, igrejas e palácios.

Em Istambul, qualquer coisa com menos de um século ninguém dá muita importância... aquela construção ali tem duzentos anos? É pouco!

Vamos então ecoar o século 17 pelo som do tanbur, instrumento clássico muito presente no Oriente durante a Idade Média embora atualmente, apenas os turcos mantenham esta tradição.





Espécie de alaúde com uma caixa pequena e redonda, acoplada a longo cabo, com mais de um metro de comprimento, aonde estão as oito cordas duplas.BurhanÖçal é um virtuoso deste instrumento, um dos poucos a renovar esta tradição musical da arte otomana.

Existem diferenças entre repertórios: segundo os estudiosos, a música folclórica turca se origina da Mongólia, Ásia, em contraste com a refinada música clássica cultivada na Turquia durante o Império Otomano.

Além disso, cada região da Turquia desenvolveu sua própria tradição em dança e música folclórica, utilizando outros instrumentos como sinos, clarinetas, tímpanos artesanais e pratos, incluindo também o Saz, outro tipo de instrumento de corda. De fato, atualmente existem vários descendentes, digamos assim, do alaúde árabe.

O saz, também chamado “bata’ma”, é o instrumento de cordas muito presente na música clássica e folclórica turca, possui uma caixa mais redonda e longo cabo, aonde estão esticadas as cordas. 




Mas, a tradição se modernizou em Instambul...

O trio Baba Zula utiliza Saz elétrico, com outros instrumentos como o Darbuka, que é um instrumento de percussão e colheres, além de samples eletrônicos numa fusão que classificam como “oriental Dub”.
O músico alemão Alexander Hacke rodou pelas ruas de Istambul com um gravador nas mãos . A idéia era recolher a sonoridade atual da cidade,encontrando Arabesque - gênero no estilo árabe muito popular na Turquia dos anos 60 aos 90 possui um pé nas formas clássicas da tradição Otomana - músicaspop, passando pelo clássico, eletrônico e rap. Reuniu tudo no documentário “Crossing the Bridge”, The Soundof Istambul, dirigido por Faith Akin e lançado em 2005.

Istambul está na moda?

Considerando as inúmeras operadoras de turismo que oferecem incessantemente seus pacotes, parece que sim, está na moda visitar Istambul...
Mas como apontou Edward Rothstein, “até o começo do século 20, era tão íntima a conexão entre poder político e religioso que, quando Atatürk fundou a República da Turquia em 1923, impôs o secularismo quase como doutrina religiosa. Declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO, hoje, este patrimônio erguido por várias culturas, acolhe outras culturas...


                                   vendedor de rua em Istambul

Prá lá de Istambul

Passado o tempo, jornalistas e analistas internacionais sugerem a Turquia como uma “combinação ideal de islamismo e democracia”.Mas essa combinação, se existe mesmo, não é recente e nem sabemos se é exportável. Ocorrea ocidentalização do mundo em geral, isso sim,e segundo declarou FatihAkin, cineasta turco da nova geração...“em Istambul existe um deslumbramento com os países ocidentalizados. Mas penso como o poeta Cavafis: não podemos encontrar nem outro país nem outro mar. Nossa pátria irá sempre nos seguir”.

sugestão de escuta. procure no Youtube os títulos:



- Burhan Öcal-Fazıl Say-Patricia K-42nd Montreux Jazz Fsetival


- ISTANBUL "crossing the bridge"


- BurhanÖçal, em Monteux (percussão) 


- ensemble oriental

- OrhanGencebay (tocando saz)

- Mercan Dede


sexta-feira, 6 de maio de 2011

CONFERÊNCIA DOS PÁSSAROS

Se oriente rapaz

Por Lilian Zaremba, pesquisadora doutora em teorias da comunicação



Tu és Fogo.
Tu és fogo ...
como posso proteger meus castelos de cera
do calor devorador de tuas chamas?
(poeta Sayat Nova)

Se oriente rapaz... pela constelação do Cruzeiro do Sul, cantou Gilberto Gil... mas você olha para o céu e este grupo de estrelas não está lá... afinal, você está em outra localização ao norte, em outro hemisfério...
Se os homens começaram a olhar as estrelas para entender seus caminhos na terra, o percurso celeste atual parece determinar uma bela mistura: quais seriam os limites atuais entre Oriente-Ocidente?
Não foram as estrelas que embaralharam este outro céu.
Nos territórios terrestres há milênios os caminhos se cruzam, conectados ou desconectados.
A paisagem acumulada em dois milênios avança ao terceiro indicando alguns renascimentos... nem que sejam aqueles ditados pela moda e alimentados pelo movimento turístico, conectividades eletrônicas e ainda que ofuscados nesta neblina incessante das notícias bélicas.
Afinal, o que sei sobre as estrelas no céu do Oriente?
Opção nesses países milenares nos é fornecida pelas informações da ciência e arte: poesia, música, literatura, e todo conhecimento acumulado nesse outro lado do mundo que possa facilitar nossa compreensão e comunicação.
...o rádio é o meio e a mensagem, já ensinou McLuhan, então...
Rádio Mirabilis, sintonizando miragens - alguns desses “mirabilis”, (milagres) contemporâneos – captados nesta História, correndo em paralelo à realidade banalizada pelas notícias gerais. Saem as guerras, entram os poemas: sociedades milenares como a Pérsia (atual Irã) Armênia (aonde mais de 98% da população é alfabetizada e católica), Turquia, arte sonora no rádio francês trabalhado por Pierre Schaeffer nos anos 40, sonhos do compositor Terry Riley transformados em obra radiofônica, entre outras, indicam caminhos de beleza.
Sim, precisamos de beleza neste mundo um tanto insano.
Basta utilizar seus recursos atuais: internet, podcast, site da emissora MEC-FM . Acione este rádio e escute outros mundos, no seu tapete voador doméstico. Porque não ?

serviço: série RÁDIO MIRABILIS
concepção, roteiro e produção: Lilian Zaremba
quarta-feira, meia noite e meia
MEC-FM 98.9 MHZ ou
www.radiomec.com.br
podcast : http://www.radiomec.com.br/radiomirabilis/podcast/

(na sequência, parte do roteiro do programa Conferência dos Pássaros, sobre o poema do persa Uddin Attar escrito do século 12).


Conferência dos Pássaros

O mundo arde nas chamas dos embates econômicos, políticos e culturais.
A Terra treme, transborda, queima larvas, racha o chão...
Enquanto isso, o poeta escreve sua forma de oração.
“um dia, todos os pássaros do mundo, conhecidos e desconhecidos, se reuniram em uma grande conferência”.
“Todos reunidos, aparece ela...e se coloca no meio deles... e toma a palavra:
“Caros pássaros, passo meus dias na ansiedade. Não entendo porque tantas lutas por alguns punhados de grãos... coisas que não duram. Durante muitos tempo atravessei o Céu e a Terra. Percorri imenso espaço e conheci muitos segredos. Me escutem. Nós tínhamos um rei. Devemos partir em sua procura. Caso contrário, estaremos perdidos.”

Assim começa a “Conferência dos Pássaros”, poema escrito por Farid Uddin Attar que viveu na Persia, no século 12, na mesma cidade daquele outro poeta persa mais famoso , Omar Kahayyam.
Farid Attar herdou de seu pai o comércio de ervas medicinais e perfumes.
O sobrenome “Attar” significa “o perfumista”.
Farid passou a maior parte de sua vida ali, naquela loja vendendo perfumes, mas também, nos intervalos, escreveu...
“o que acontece? Me ajude!
“a noite terminou, porque gritas?”
“O que eu vi... ninguém enxerga!”
“mas o que você viu?
Será que os poetas enxergam mais? Ou apenas conseguem interpretar um pouco mais além?
Talvez.
De qualquer forma foi apenas no século 19, que se pôde ler pela primeira uma tradução deste poema escrito por Farid Attar sete séculos antes.
A primeira tradução para o Ocidente do poema “Manteq Ol-Teyr” foi realizada em 1863 na França, por Garcin de Tassy. Embora elegante, com o passar dos anos não foi considerada correta.
Manteq Ol-Teyr, pode e foi traduzido como “A Linguagem dos Pássaros”, “A Reunião”, ou ainda “A Conferência dos Pássatos”. Foi esta última opção, que Jean Claude Carriere escolheu.
Altamente alegórico, neste poema Attar joga com centenas de observações, histórias, enigmas, tudo sempre muito próximo, refletindo realidades, como uma cópia refratada... uma forma espelhada na qual insistimos não nos enxergar ...
“Você fez uma longa viagem para chegar ao viajante”,
disse o poeta aos pássaros esgotados que queriam encontrar seu verdadeiro rei e que não queriam ver a própria imagem no espelho que lhes foi oferecido.
Nasreddin Hodja passeava com seus amigos quando encontrou um espelho perdido no chão.
Veja, disse o amigo de Nasreddin apontando para o espelho:
Parece que conheço este homem.
Nasreddin pegou o espelho nas mãos olhou e disse:
Evidente que você conhece, este sou eu!

________________________________________

(parte do roteiro do programa “A Conferência dos Pássaros” realizado por Lilian Zaremba em abril de 2011 para a série RÁDIO MIRABILIS rádio MEC-FM, e que pode ser ouvido no podcast da emissora no link: Conferência dos Pássaros, Rádio Mirabilis, podcast/

domingo, 12 de dezembro de 2010

MESSIAS DE HANDEL , ENTRE OUVIDOS

 Messias  é um oratório, composto por George Frideric Handel, com libreto de Charles Jdennens baseado na bíblia do Rei James da Ingraterra. Foi escrito durante o verão de 1741, em Londres e estreado em Dublin, na Irlanda em 13 de abril de 1741.

Imaginem a deliciosa surpresa dos comensais deste fast food de Los Angeles ao ouvir o coral apresentando o Aleluia, utilizando sinais de wireless, telefones celulares, microfones e mall´s PA system, sofisticação eletrônica muito distante de nossa realidade , principalmente aqui em Caxambu, Minas Gerais.

A radialista, escritora, professora Lilian Zaremba, no ano passado lançou mais um livro, o "Entre Ouvidos" . veja mais em Caros Ouvintes
Nele é contada a experiência, em um dos artigos (o livro é coordenado pela  Lilian e tem artigos assinados por vários colaboradores) de transmissão de som, feita em pontos determinados de uma localidade, utilizando aparelhos celulares .

Estas apresentações do Flash Mob Musical, que desta vez contou com 16 participantes, está sendo executada há seis anos, em Nova York, em mais de  70 locais. A que esta postada no Youtube e indicamos foi feita em 13 de novembro deste ano. Vá até lá e procure pelo título:


Christmas Food Court Flash Mob, Hallelujah Chorus - Must See!