quinta-feira, 24 de março de 2011

CORRESPONDÊNCIA URBANA. MEMÓRIAS DE UMA JORNALISTA BELA E JOVEM

Querida Bela,


Tudo bem?
Ainda lembro de quando eu ficava trabalhando até quase o amanhecer na edição de algum audiolivro para a plug-me e trocávamos uma palavra ou outra por meio do skype, enquanto você editava o último telejornal. Apesar de muita pauleira, tenho saudade desse tempo, Bela.

1) Hoje você faz o quê? Ainda edita o telejornal? Se sim, qual a sua função?
Lembro também quando a Dilma Rousseff ganhou, e você me mandou um sms dizendo "é nóis na fita, mano". Como é que você sabia que eu torcia pela Dilma se nunca comentei isso? E como choramos no telefonema que nos demos em seguida - emocionadas - pelo feito histórico da chegada da primeira mulher à Presidência da República.
2) Como é o seu trabalho de escolha de notícias, de edição mesmo? Quais os critérios usados?
3) Quando eu te mandei o primeiro e-mail, solicitando a entrevista, você estava viajando. Foi 
com os filhos? Como foi de férias?
4) Bela, como é que é a sua vida aí em Brasília? Você é daí mesmo?
5) Como é a sua convivência com o poder? Fale um pouco sobre a sua vida, a sua formação... e, claro, não esqueça de mencionar o seu nome completo.

Beijos,
Esther

Por Bela Braga


Vista noturna de Brasília
Foto: Google Images

Meu nome todo é Gabriela Braga Santos. Tenho 39 anos. Sou jornalista por desempenho da profissão. Cozinheira e mãe, por talento. Namorada, por amor. Amiga, pelo mesmo motivo. Produtora cultural, por teimosia. Brasiliense, de nascença. Brasileira sem salvação. Amém.


Também tenho saudade dos tempos que a gente podia se falar na madrugada, Esther querida.

Mas não tenho muita saudade de entrar a madrugada fazendo edição do Clipping. Era isso que eu fazia, o Clippin da Presidência. A equipe era enorme e os turnos se sucediam, no stop.

Bastante corrido e não me dava espaço pra criar. Com o tempo, vai ficando bem aborrecido, esse tipo de trabalho, né?

Hoje eu faço a produção de jornalismo da TV Brasil. Antes disso, há muito pouco tempo, tínhamos criado um núcleo maravilhoso, de expertise em Multimídia e Interatividade. Uma delícia. Gente nova, cheia de habilidades inacreditáveis, criativos. Mas a empresa não compreendeu o cotidiano de uma equipe multidisciplinar, embora premiada com Herzogs e que tais, que contava com jornalistas, técnicos altamente capacitados, designers, programadores, flasheiros. Na verdade, não deram conta de entender "como" as coisas aconteciam dentro dessa equipe. Não entendiam prazos de programação, pedidos de máquinas, de treinamento constante, o que diabos era renderizar (essas coisas técnicas que a gente traduz, mas o jornalismo tradicional tem uma dificuldade ENORME de entender). E acabaram com a equipe às vésperas das últimas Eleições... Veja bem...
Imagem: Google Images

Meu dream team foi pulverizado, caindo em áreas onde podiam ser minimamente aproveitados. Eu?

Bom, imediatamente, fui absorvida pela redação da TV. Os nossos telejornais brigam cotidianamente pra fazer um jornalismo diferenciado, público, transparente, sem tendência comercial que o determine. É uma briga boa. Eu gosto. Então tou aqui.

O critério usado para a escolha das matérias é muito "abstrato", para não dizer outra coisa. As reuniões de pauta costumam se estender e levantar discussões acaloradas. Mas, de grosso modo, a linha mestra é o interesse do cidadão. A gente tenta traduzir a realidade, as questões mais complicadas, os projetos inovadores, os acontecimentos políticos, econômicos, internacionais, culturais... pro nosso cliente maior, o povo.

Não é muito fácil tentar convencer quem se viciou com a linha Rede Globo, a fazer um jornal direcionado ao público, sem paixões políticas, sem tendências comerciais limitantes. Não é, não. Mas é uma de-lí-ci-a, preciso confessar.

Bom temos gente gabaritada trabalhando aqui: Tereza Cruvinel, Nereide Beirão, Tércio Luz, Lúcia Fernandes, Antonieta Goulart... muita gente profissonalmente muito bem preparada, com experiência de jornalismo inconteste.

É uma boa convivência, para mim, pessoal e profissionalmente. Confesso que me impressiono, ainda e sempre, com o modus operandi dessa gente. Não concebo a falta de delicadeza, de educação, de respeito, de reverência ao outro. E uma redação sabe ser tosca quando o incêndio pega!

Eu não me acostumo. Não adianta. Um dos meus deveres, eu entendo, é tentar manter a suavidade, a sanidade e o bom tom nesse ambiente... E tentar fazê-los ter menos medo e mais intimidade com a tecnologia - que ou vc usa a seu favor...Ou tá lascado, né?

Barra Grande
Foto: portaljericoacoara.com.br
Viajei com namorado e amigos para Barra Grande, uma cidadezinha linda no sul da Bahia. Fica na maravilhosa-de-cabo-a-rabo Península de Maraú. Foram 15 dias de descanso, amor, mar, som, sol, água de côco e saudade dos filhos, cla-ro. Mas voltei marrom-chicabom e de bateria recarregada pra tocar o ano.

Minha vida em Brasília é maravilhosa. Não posso reclamar. Moro pertíssimo do trabalho e da escola dos filhos. Meu apê tem um varandão e por ser no 1º andar, parece que estou numa casa, cercada de belas árvores e passarinhos. Tenho Gaia, minha cã-raposinha, e meu Sushi, meu gato vira-lata. Meus dois filhos são criaturas do bem e dulcíssimos - pelo que agradeço de joelhos!

Namorado é músico, violeiro de mão cheia. Meus pais moram pertinho, meus avós, tios e primos, sobrinhos e meu irmão. Só minha irmã foi pra longe, pero mo mucho. Mora no Rio pq a carreira de cantora não tem jeito aqui (depois dá uma olhadinha na moça linda que canta divinamente: Joana Duáh - olha o jabáááá´!).

Trabalho numa empresa que acredito (decididamente sou uma jornalista de jornalismo público). Minha relação com o poder é de trabalho. Não me encanto e não me seduz (muito pelo contrário). A cidade respira isso, embora eu viva à procura do Lado B.

Lago Paranoá, Brasília
Foto: Miguel Netto
Amo tudo que se relaciona com a cultura, com as manifestações espontâneas. Amo e presto uma atenção vital à natureza. Curto tudo que a cidade me proporciona, neste aspecto. Nado no Lago Paranoá, levo filhos e namorado pra remar, brincar de stand up ( uma prancha gigante que faz vc 'caminhar sobre as águas'!!!)... Sou absolutamente fascinada pelo céu, nossos sóis e luas.

Usufruo de uma vida de cidade grande, numa cidade relativamente pequena. Adoro a miscelânea de cores, sotaques e sabores. Vou à Feira do Guará, como comida nordestina, Na torre, tomo tacacá. Como um churrasco dos Pampas, tomo um café mineiro, danço um afoxé. Na vertente cidade grande, vou a Festas modernézimas de eletrônico, consumo as melhores iguarias do mundo: vinhos, suhis, bouefs bourguignones, ceviches, pizzas, feijoadas, dobradinhas, risotos, tabules, bifes à cavalo. Grandes livrarias, festivais de cinema, teatro e música. Grandes museus! Lojas do mundo todo! E em casa, o silêncio e a paz. Num posso querer mais.

Sempre que posso corro pra minha praia, a Chapada dos Veadeiros. Só indo lá pra ver... É indescritível a força que tem aquele lugar. É meu santuário, meu tempo, aonde me conecto com a espiritualidade, me humanizo, ma animalizo, me reconheço e volto pequenininha e humilde pra casa. Feliz da vida!

Chapada dos Veadeiros
Foto: vilaboadegoias.com.br
Tento fazer meus filhos compreenderem a importância do lugar que a gente vive. Tento desfazer as noções tolas e rasas que pregam sempre o negativo, como o senso comum costuma: ilha da fantasia, terra da corrupção... E por ai vai. Quero que eles saibam que vivem no lugar que concentra o poder público, politico e, por isso mesmo, é com eles que vai estar a bola, em breve. Eles tem que saber o que fazer com isso. E fazer melhor! Tem que saber reconhecer a luta que houve até a gente chegar aqui, democraticamente, com instituições plenas, com direito a voto, com voz. Eles não podem achar que isso veio de graça. Quero que eles saibam que cada um deles tem deveres sociais, que devem se esforçar pra ser bons cidadãos, atentos, cobradores, justos, leais ao país, que podem - porque são privilegiados - pensar nos que dependem do estado pra viver...que entendam a gravidade do desvio de verba pública... que deve ser crime hediondo, um dia... a necessidade da reforma política. Faço eles entenderem que a gente é 'representado' e aquilo lá nada mais é quem um microcosmo do nosso mundinho. E quem não tem conhece picareta, bandido, mau-caráter que levante a mão. Lá vai ter, como aqui tem. O que precisa e ter punição rigorosa, controle, transparência. E eu acredito que a gente tá no caminho.

Quero que eles entendam cada uma das nossas conquistas e tenham o peso certo do que precisa ser corrigido, transformado. Não quero playboizinhos alienados...e faço esse trabalho de base, com eles e com os amigos... sempre tem um pra trazer o tititi de Veja pra dentro de casa, né?

Vitória de Dilma Rousseff
Foto: blog.opovo.com.br
No dia da Vitória da Dilma, eu te mandei a mensagem por impulso, por achar que você também estaria feliz e emocionada como eu. Eu sou descendente de gente que perdeu tudo na política, que empobreceu, que foi cassada... eu sou de esquerda, de nascença. Não essa esquerda burra que aparece por ai... Mas a esquerda que pretende proporcionar uma vida plena aos nossos irmãos. E eu conhecia um tiquinho do seu coração, dos seus gostos, da sua inteligência. Você só podia estar felicíssima com a vitória da nossa presidentA!!!

HELLO, DOLLY. HAVAIANAS OU FRALDÃO

Por Dorothy Coutinho

Há muito tempo que não brinco carnaval. Já vivi meus momentos de foliona nos blocos, clubes e escolas de samba no Rio.

Não vou falar que o carnaval de antigamente era melhor. Hoje eu tenho que me recolher e ficar na minha.

Mas convenhamos: Roberto Carlos, como artista, pode cantar no Maracanã, no Anhembi, fazer especial de fim de ano, mas não chega aos chinelos de Nelson Cavaquinho, o eterno Nelson homenageado pela Mangueira nesse carnaval do Rio.

E a musculatura das mulheres nuas e pintadas de várias “escolas com samba”? As pernas são mais parrudas que as do jogador Adriano. Se uma mulher daquelas aplicar uma chave de perna num infeliz de trinta anos ele pode encomendar a alma ao diabo! Ouço os homens reclamarem da ausência das curvas mais suaves e das cinturas femininas.

Está havendo um exagero permanente dessas exposições durante todo o ano nesse país!

As fantasias de havaiana que as moças vestiam em outros carnavais, por exemplo, tinham um saiote esfiapado e as pernas aparecendo e, muitas vezes por baixo um short comprido, um corpete, fechado e um calçolão blindado! Exagero.

Por isso, alguns produtores de festas de embalo, e outros entusiastas do carnaval atual, estão querendo criar um bloco só de mulheres fantasiadas de havaiana, ou seja, de sandálias. Sem nada em cima, em baixo ou dos lados. Só sandálias! Vai ser a maior moleza, garantem! Vai dar até para cobrar taxa de inscrição, diz o outro.

Pelo visto eles querem afastar os preconceitos e dar o destino mais lucrativo possível a nossos recursos. E a mulher pelada nacional é um dos nossos recursos naturais, altamente renovável, e com desenvolvimento sustentável!

Depois de ler essas idéias lucrativas, vou propor aos carnavalescos aqui da cidade, a criação do Bloco do Fraldão. Como em qualquer outra cidade, depois da folia, a nossa  também fica fedorenta. Com a criação do Bloco, em vez de irmos ao banheiro, todo mundo se mija na fralda e continua brincando despreocupadamente. Com o patrocínio de um grande fabricante, poderemos até botar umas popozudas no bloco, sambando de fraldão, tudo junto e misturado! Vai ser um bloco muito tranqüilo.

No próximo carnaval poderemos escolher: Havaianas ou Fraldão.

quarta-feira, 23 de março de 2011

PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W. RECIFE

Por Telinha Cavalcanti


Foto: Google Images /
protopias.blogspot.com
Ai que saudade tenho do Recife
(Antonio Maria, Frevo no. 2)


Eu sou pernambuoca. Recife é minha cidade. O Rio de Janeiro é minha cidade. Mas o meu Recife, o meu, o do meu coração, para onde anseio voltar, não existe mais: é o de dez, quinze anos atrás.

Recife é uma cidade dividida pelo rio Capibaribe, com um pé em cada margem: metade tradicional, orgulhosa das origens, metade achando que o Capibaribe é Tâmisa, que a ilha é Manhattan. Se não amasse tanto minha terra, meu sotaque que já perco, diria que é uma terra meio esquizofrênica.

Um conhecido tinha uma banda de rock que só cantava em inglês. Vestia preto, ouvia bandas obscuras. Não deu certo e ele descambou pro extremo oposto: fez uma banda neo-pé-no-chão-old-maracatu. Passou a usar sandália de couro, a ouvir bandas de pífano e a frequentar rodas de ciranda.

O provincialismo da minha cidade só é visto de longe. O que está na cara é a decadência do centro da cidade, os ônibus nos corredores exclusivos, os casarões aos pedaços, os pedaços das livrarias, das escolas que viraram shoppings, dos cinemas que viraram igrejas evangélicas. O seu machismo inerente, o velho ditado que diz que pernambucano só conhece duas datas: quando nasce e quando se muda para São Paulo.

A oficina de Brennand, que eleva nosso olhar, tira nosso fôlego, enche nossa mente de deuses, deusas, ovos, mundos, a criação do mundo em fogo e sexo. 
Rio Capibaribe, que corta a cidade de Recife
Crédito: klickeducacao.com.br
A pracinha do Poço da Panela, quase nada, quase cidade do interior. 

O povo generoso, criativo, desenrolado. As tradições que seguem nos DNAs das famílias: "minha filha, quando a gente tem visita em casa, o melhor é para ela; a visita dorme na cama, a gente dorme no chão". O acolhimento. O sol do meio dia no caminho feito e refeito, tão mudado, eu, tão mudada também. 

Ao mesmo tempo em que a gente vai comer tapioca, pegar o barco para ver as esculturas no marco zero, ver as esculturas do Circuito da Poesia e tirar fotos com Antonio Maria, Clarice Lispector, Luiz Gonzaga, tem o pólo de informática que mais cresce no Brasil, tem restaurante chique, tem torres gêmeas na beira do rio e gerações que comem sarapatel e arrotam bagel.

O trânsito que é infernal, a violência que aumenta, o crack destruindo vidas, as mocinhas de família saindo nas colunas sociais, os casamentos cheios de pompa e circunstância nas igrejas centenárias, a miséria do lado do luxo: a ponte que une o Recife ao Rio, tão diferente daquela que eu queria que existisse para poder visitar minha mãe, pedir a bênção, ganhar um cafuné e voltar para casa, pro marido e pros gatos aqui na Tijuca.
Tapioca de queijo e coco
Crédito: streetsmartbrazil.com

Quanto tempo mais voltarei lá procurando os fantasmas de quem eu amei? Não tem mais Livro 7, tem Livraria Cultura, que é linda, imensa, caríssima e não é acolhedora como a velha loja do Tarcísio. O Croissant Dourado, perto de minha casa, fechou tem mais de dez anos e ninguém mais lembra que existiu. Você vai no Pina, e, em vez da Soparia de Roger, criadouro dos caranguejos do manguebit, tem a Pin´Up, lanchonete anos 50.

O maltado do Recife Antigo fechou. Quem tomou o leite com sorvete e malte, que vinha do tempo dos zepelins, tomou, quem não tomou não chora porque tem frozen yogurt no shopping. 

A cidade que eu amo é como aquela moça da música de Chico Buarque: quem não a conhece não pode mais ver prá crer, quem jamais esquece não pode reconhecer.