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quinta-feira, 24 de março de 2011

CORRESPONDÊNCIA URBANA. MEMÓRIAS DE UMA JORNALISTA BELA E JOVEM

Querida Bela,


Tudo bem?
Ainda lembro de quando eu ficava trabalhando até quase o amanhecer na edição de algum audiolivro para a plug-me e trocávamos uma palavra ou outra por meio do skype, enquanto você editava o último telejornal. Apesar de muita pauleira, tenho saudade desse tempo, Bela.

1) Hoje você faz o quê? Ainda edita o telejornal? Se sim, qual a sua função?
Lembro também quando a Dilma Rousseff ganhou, e você me mandou um sms dizendo "é nóis na fita, mano". Como é que você sabia que eu torcia pela Dilma se nunca comentei isso? E como choramos no telefonema que nos demos em seguida - emocionadas - pelo feito histórico da chegada da primeira mulher à Presidência da República.
2) Como é o seu trabalho de escolha de notícias, de edição mesmo? Quais os critérios usados?
3) Quando eu te mandei o primeiro e-mail, solicitando a entrevista, você estava viajando. Foi 
com os filhos? Como foi de férias?
4) Bela, como é que é a sua vida aí em Brasília? Você é daí mesmo?
5) Como é a sua convivência com o poder? Fale um pouco sobre a sua vida, a sua formação... e, claro, não esqueça de mencionar o seu nome completo.

Beijos,
Esther

Por Bela Braga


Vista noturna de Brasília
Foto: Google Images

Meu nome todo é Gabriela Braga Santos. Tenho 39 anos. Sou jornalista por desempenho da profissão. Cozinheira e mãe, por talento. Namorada, por amor. Amiga, pelo mesmo motivo. Produtora cultural, por teimosia. Brasiliense, de nascença. Brasileira sem salvação. Amém.


Também tenho saudade dos tempos que a gente podia se falar na madrugada, Esther querida.

Mas não tenho muita saudade de entrar a madrugada fazendo edição do Clipping. Era isso que eu fazia, o Clippin da Presidência. A equipe era enorme e os turnos se sucediam, no stop.

Bastante corrido e não me dava espaço pra criar. Com o tempo, vai ficando bem aborrecido, esse tipo de trabalho, né?

Hoje eu faço a produção de jornalismo da TV Brasil. Antes disso, há muito pouco tempo, tínhamos criado um núcleo maravilhoso, de expertise em Multimídia e Interatividade. Uma delícia. Gente nova, cheia de habilidades inacreditáveis, criativos. Mas a empresa não compreendeu o cotidiano de uma equipe multidisciplinar, embora premiada com Herzogs e que tais, que contava com jornalistas, técnicos altamente capacitados, designers, programadores, flasheiros. Na verdade, não deram conta de entender "como" as coisas aconteciam dentro dessa equipe. Não entendiam prazos de programação, pedidos de máquinas, de treinamento constante, o que diabos era renderizar (essas coisas técnicas que a gente traduz, mas o jornalismo tradicional tem uma dificuldade ENORME de entender). E acabaram com a equipe às vésperas das últimas Eleições... Veja bem...
Imagem: Google Images

Meu dream team foi pulverizado, caindo em áreas onde podiam ser minimamente aproveitados. Eu?

Bom, imediatamente, fui absorvida pela redação da TV. Os nossos telejornais brigam cotidianamente pra fazer um jornalismo diferenciado, público, transparente, sem tendência comercial que o determine. É uma briga boa. Eu gosto. Então tou aqui.

O critério usado para a escolha das matérias é muito "abstrato", para não dizer outra coisa. As reuniões de pauta costumam se estender e levantar discussões acaloradas. Mas, de grosso modo, a linha mestra é o interesse do cidadão. A gente tenta traduzir a realidade, as questões mais complicadas, os projetos inovadores, os acontecimentos políticos, econômicos, internacionais, culturais... pro nosso cliente maior, o povo.

Não é muito fácil tentar convencer quem se viciou com a linha Rede Globo, a fazer um jornal direcionado ao público, sem paixões políticas, sem tendências comerciais limitantes. Não é, não. Mas é uma de-lí-ci-a, preciso confessar.

Bom temos gente gabaritada trabalhando aqui: Tereza Cruvinel, Nereide Beirão, Tércio Luz, Lúcia Fernandes, Antonieta Goulart... muita gente profissonalmente muito bem preparada, com experiência de jornalismo inconteste.

É uma boa convivência, para mim, pessoal e profissionalmente. Confesso que me impressiono, ainda e sempre, com o modus operandi dessa gente. Não concebo a falta de delicadeza, de educação, de respeito, de reverência ao outro. E uma redação sabe ser tosca quando o incêndio pega!

Eu não me acostumo. Não adianta. Um dos meus deveres, eu entendo, é tentar manter a suavidade, a sanidade e o bom tom nesse ambiente... E tentar fazê-los ter menos medo e mais intimidade com a tecnologia - que ou vc usa a seu favor...Ou tá lascado, né?

Barra Grande
Foto: portaljericoacoara.com.br
Viajei com namorado e amigos para Barra Grande, uma cidadezinha linda no sul da Bahia. Fica na maravilhosa-de-cabo-a-rabo Península de Maraú. Foram 15 dias de descanso, amor, mar, som, sol, água de côco e saudade dos filhos, cla-ro. Mas voltei marrom-chicabom e de bateria recarregada pra tocar o ano.

Minha vida em Brasília é maravilhosa. Não posso reclamar. Moro pertíssimo do trabalho e da escola dos filhos. Meu apê tem um varandão e por ser no 1º andar, parece que estou numa casa, cercada de belas árvores e passarinhos. Tenho Gaia, minha cã-raposinha, e meu Sushi, meu gato vira-lata. Meus dois filhos são criaturas do bem e dulcíssimos - pelo que agradeço de joelhos!

Namorado é músico, violeiro de mão cheia. Meus pais moram pertinho, meus avós, tios e primos, sobrinhos e meu irmão. Só minha irmã foi pra longe, pero mo mucho. Mora no Rio pq a carreira de cantora não tem jeito aqui (depois dá uma olhadinha na moça linda que canta divinamente: Joana Duáh - olha o jabáááá´!).

Trabalho numa empresa que acredito (decididamente sou uma jornalista de jornalismo público). Minha relação com o poder é de trabalho. Não me encanto e não me seduz (muito pelo contrário). A cidade respira isso, embora eu viva à procura do Lado B.

Lago Paranoá, Brasília
Foto: Miguel Netto
Amo tudo que se relaciona com a cultura, com as manifestações espontâneas. Amo e presto uma atenção vital à natureza. Curto tudo que a cidade me proporciona, neste aspecto. Nado no Lago Paranoá, levo filhos e namorado pra remar, brincar de stand up ( uma prancha gigante que faz vc 'caminhar sobre as águas'!!!)... Sou absolutamente fascinada pelo céu, nossos sóis e luas.

Usufruo de uma vida de cidade grande, numa cidade relativamente pequena. Adoro a miscelânea de cores, sotaques e sabores. Vou à Feira do Guará, como comida nordestina, Na torre, tomo tacacá. Como um churrasco dos Pampas, tomo um café mineiro, danço um afoxé. Na vertente cidade grande, vou a Festas modernézimas de eletrônico, consumo as melhores iguarias do mundo: vinhos, suhis, bouefs bourguignones, ceviches, pizzas, feijoadas, dobradinhas, risotos, tabules, bifes à cavalo. Grandes livrarias, festivais de cinema, teatro e música. Grandes museus! Lojas do mundo todo! E em casa, o silêncio e a paz. Num posso querer mais.

Sempre que posso corro pra minha praia, a Chapada dos Veadeiros. Só indo lá pra ver... É indescritível a força que tem aquele lugar. É meu santuário, meu tempo, aonde me conecto com a espiritualidade, me humanizo, ma animalizo, me reconheço e volto pequenininha e humilde pra casa. Feliz da vida!

Chapada dos Veadeiros
Foto: vilaboadegoias.com.br
Tento fazer meus filhos compreenderem a importância do lugar que a gente vive. Tento desfazer as noções tolas e rasas que pregam sempre o negativo, como o senso comum costuma: ilha da fantasia, terra da corrupção... E por ai vai. Quero que eles saibam que vivem no lugar que concentra o poder público, politico e, por isso mesmo, é com eles que vai estar a bola, em breve. Eles tem que saber o que fazer com isso. E fazer melhor! Tem que saber reconhecer a luta que houve até a gente chegar aqui, democraticamente, com instituições plenas, com direito a voto, com voz. Eles não podem achar que isso veio de graça. Quero que eles saibam que cada um deles tem deveres sociais, que devem se esforçar pra ser bons cidadãos, atentos, cobradores, justos, leais ao país, que podem - porque são privilegiados - pensar nos que dependem do estado pra viver...que entendam a gravidade do desvio de verba pública... que deve ser crime hediondo, um dia... a necessidade da reforma política. Faço eles entenderem que a gente é 'representado' e aquilo lá nada mais é quem um microcosmo do nosso mundinho. E quem não tem conhece picareta, bandido, mau-caráter que levante a mão. Lá vai ter, como aqui tem. O que precisa e ter punição rigorosa, controle, transparência. E eu acredito que a gente tá no caminho.

Quero que eles entendam cada uma das nossas conquistas e tenham o peso certo do que precisa ser corrigido, transformado. Não quero playboizinhos alienados...e faço esse trabalho de base, com eles e com os amigos... sempre tem um pra trazer o tititi de Veja pra dentro de casa, né?

Vitória de Dilma Rousseff
Foto: blog.opovo.com.br
No dia da Vitória da Dilma, eu te mandei a mensagem por impulso, por achar que você também estaria feliz e emocionada como eu. Eu sou descendente de gente que perdeu tudo na política, que empobreceu, que foi cassada... eu sou de esquerda, de nascença. Não essa esquerda burra que aparece por ai... Mas a esquerda que pretende proporcionar uma vida plena aos nossos irmãos. E eu conhecia um tiquinho do seu coração, dos seus gostos, da sua inteligência. Você só podia estar felicíssima com a vitória da nossa presidentA!!!

sábado, 19 de março de 2011

NOTÍCIAS DE MODA E SOM NO ENCONTRO ENTRE DILMA ROUSSEFF E BARACK OBAMA

Por Esther Lucio Bittencourt
 

Brasília, 19 de março - Presidente Dilma Rousseff, Barack Obama e Michelle Obama posam para foto junto ao quadro Abaporu  Foto: Roberto Stucker/Divulgação
Presidenta Dilma Rousseff, Barack Obama e Michelle Obama
junto ao quadro "Abaporu", de Tarsila do Amaral
Foto: Roberto Stucker/Divulgação
Vamos aos Trajes. Obama e Michelle estavam bem vestidos. Com sobriedade. A chefe do cerimonial do Itamaraty, entretanto, usava um azul berrante de blazer mal costurado, com os botões desejando pular das casas. O sapato, de salto alto, negro, contrastando com a saia branca, completou a tragédia.

Os Dragões da Independência, com suas vestes parecendo surradas, desenhadas por Jean Baptiste Debret e Dom Pedro I, em memória das cores da França, precisam ter as cores suavizadas. Sei que tradição é tradição, mas estética também é estética. O azul das camisas poderia ser menos agressivo. O falso dourado precisa urgentemente receber o mesmo tratamento das camisas, e as calças excessivamente brancas, que ferem os olhos, quem sabe, ficariam melhor num suave tom de areia. Afinal, não estamos em batalhas sangrentas, em tese, onde baionetas faziam o sangue espirrar.

A impressão que me passa, ao vê-los com seu estandarte, e realmente não entendo porquê, é de que estou no Haiti. Pressinto tremular atrás de cada um as folhas da bananeira. Esta visão é facilitada pela vegetação pobre do cerrado que se vê lá longe em Brasília. Pude reparar bem isto na passagem da comitiva do Presidente dos Estados Unidos, além de rasgos vermelhos na terra causados pela erosão das chuvas.

A banda, uma tragédia de agudos exagerados e ruídos de pratos deveria ser reestruturada antes de tocar novamente hinos. É preciso que os sons não sejam belicosos, que os possamos ouvir docemente e, para isto, o grave, as pausas, e a delicadeza ao soprar os instrumentos são necessários. 

Brasília, 19 de março  - Presidente Dilma Rousseff encontra o presidente americano, Barack Obama, no Palácio do Planalto. Foto: Celso Júnior/Agência Estado
Dilma Rousseff e Barack Obama
Foto: Celso Júnior / Agência Estado
O céu armava chuva no horizonte, carregado com nuvens cinzas de cúmulus nimbus, enquanto Barack Obama subia a rampa do Palácio do Planalto. Ele pegara chuva em sua chegada à Brasília. Através das nuvens não havia a suavidade dos raios do sol outonal. Mas violentos claros que obrigavam ao Presidente dos Estados Unidos franzir os olhos e o cenho para se proteger da excessiva claridade.  

A Presidente, de vermelho, esperava na porta do Palácio. Trazia uma echarpe em tons de bege. O vestido poderia disfarçar a barriga de nossa Presidenta, bem avolumada, e é necessário descer um tantinho a bainha. O vermelho, cor que Dilma aprecia usar, pode e deve perder a uniformidade e receber mesclas discretas de bege. Afinal, nossa Presidenta não precisa estar sempre uniformizada.

O cabelo estava bem e realçava a beleza do rosto de Dilma Rousseff.

Os fotógrafos e cinegrafistas precisam aprender a não ficar na frente dos principais atores ocultando-os da visão da TV. Sabe-se que somente os paparazzi fazem assim e ali estavam funcionários do governo registrando o momento para a posteridade.

No mais, tenho a dizer, que lastimo ainda que o "Abaporu", de Tarsila do Amaral, esteja na Argentina e só possa vir ao Brasil por empréstimo. Esta falha precisa ser corrigida, com urgência.

Dragões da
Independência
A simpatia de todos, o ar à vontade dos envolvidos nesta cerimônia, no entanto, não foi suficiente para que  estas falhas passassem desapercebidas. Por fim, concordo com Michelle Obama quando diz “devemos aprender a falar borboleta em mais de dez idiomas”. 

Faltou apenas entre Obama e Dilma um abraço carinhoso, dada a receptividade do encontro. Neste caso, o protocolo deveria ser quebrado.

Mas, quem sabe, não sou eu a muito exigente? Vai ver! Mas juro que não gosto de morar no Haiti que me traz a lembrança das atrocidades dos ton ton macoutes, a guarda pessoal do Papa e do Baby Doc.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A MULHER E O NEGRO

Por Esther Lucio Bittencourt

O primeiro nasceu em Honolulu, no Havaí. A segunda em Belo Horizonte, com descendência búlgara, cuja cidade paterna, Gabrovo, festejou a sua vitória como presidenta do Brasil. Um traz no DNA o sentimento de ilha. A outra, das montanhas que se repetem em Minas Gerais. Portanto, são pessoas com tendência à introspecção, segundo as lendas. Um dia, quem diria, na terra do Ku-Klux-Klan (KKK), do Mississipi em Chamas, do preconceito racial, da guerra civil entre sul e norte, o negro Barack Obama se torna presidente.

É a ideia do impossível sendo realizada.

No Brasil, terra do coronelismo, do machismo, onde as mulheres conquistaram direito ao voto obrigatório apenas em 1947, uma mulher, Dilma Rousseff, é hoje a presidenta da República.

Se Flannery O’Connor, escritora norte-americana, transformasse essa história em conto, certamente a situaria no meio oeste americano, e usaria de sua ironia para narrar um desfecho trágico /cômico e precisaria pedir ajuda de Lewis Carroll, autor de situações inimagináveis, além de precisar de uma pitada  de Lima Barreto e Machado de Assis, para registrar o encontro do impensável: uma presidenta  mulher no Brasil e um presidente negro nos Estados Unidos.

Certamente caberia nessa história, o apóstolo João para narrar o início do apocalipse. E, para tanto, bastaria que um papa de origem árabe abençoasse a reunião. Seria o fim dos tempos!

Cara, você já sacou que vivemos num novo mundo? Onde as impossibilidades se tornam reais? Que nos ensina a cada dia que as palavras nunca e impossível foram riscadas de todos os dicionários? Brother, saca só, é um momento único na história do mundo por vários aspectos.

O primeiro já foi dito. O segundo é que não foi o presidente ou a presidenta eleita do Brasil que se dirigiu aos Estados Unidos como é de praxe. O trajeto foi inverso. É o presidente dos Estados Unidos  vem visitar a presidenta do Brasil, recém empossada.

Me conta, pessoa, estamos saindo da lista negra de países em desenvolvimento para sermos reconhecidos como potência emergente? Ou isso retrata apenas um momento de aberração? Um negro com o maior poder do mundo encontra a branca, em um país que melhora e cresce para todos nós brasileiros.

Vamos lá. Se Rita Lee estivesse presente na festa, cantaria Bwana, Bwana, aposto. Caso Paul Mccartney fosse convidado, a música seria Ebony and Ivory. E se  presente Cauby Peixoto  aposto que a música seria Conceição. E onde ficaria John Lennon nesta festa de arromba? Creio que cantaria Wooman.

No Brasil, as mulheres são preparadas para carregar lata d’água na cabeça, obedecer cegamente a seus amos e senhores que tinham abertas as senzalas para os negros.

E amanhã, a porta da senzala se abre, a senzala é derrubada definitivamente, porque na Casa Grande do Palácio do Planalto o negro Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, será recebido pela mulher  Dilma Rousseff, presidenta do Brasil. Sabe que eu ainda não caí nessa real? Ajude-me Gilberto Freire.







domingo, 20 de fevereiro de 2011

SENHORA DO TEMPO


Por Carlos Alberto Prais

A manhã de 7 de outubro de 1963 estava tão quente quanto todas as manhãs de todos os outubros na pequena Ipatinga. E o calor ainda se fazia mais forte pelas muitas pessoas que vociferavam à porta da usina siderúrgica que, recém-implantada, ainda engatinhava.

Distrito de Coronel Fabriciano, no Leste de Minas, aquele lugarejo encravado a meio caminho de Vitória, no Espírito Santo, fora o local escolhido pelo governo mineiro para plantar a Usiminas, com a sina de se tornar a grande concorrente da CSN, um outro monstro fazedor de aço, vindo à luz por obra e graça de Getulio Vargas, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro.

Tão logo se lançou a pedra fundamental, Ipatinga irradiou o perfume da riqueza por todos os lados e tornou-se o El Dorado em pleno sertão das Minas Gerais. Nessa época, os botocudos já haviam sido exterminados e, por ali, só restavam os mosquitos da febre amarela e os carvoeiros, que alimentavam os fornos da siderúrgica de João Monlevade, no caminho de Belo Horizonte.

Ipatinga, Complexo Viário, 2002 
Gentes de todas as cores, armados de mala e cuia, e mais cachorros, gatos, passarinhos, papagaios e uma fileira de filhos, ainda catarrentos, para ali se mudavam na esperança de novos dias. Bolívia, Peru, Chile, Japão, Piauí e Bahia estavam representados ali. Também cearenses, mato-grossenses, paulistas, cariocas e fluminenses, alagoanos, mineiros, capixabas e catarinenses. Tantas bandeiras, não livraram essa gente de ser identificada como baiano, no singular; plural: baianada.

O Juá, Centro de Ipatinga, 1960
A lua cheia da noite anterior, o 6 de outubro, presenciara mais uma cena que já se tornara corriqueira na saída dos operários da fábrica: a vigilância da empresa submetia os trabalhadores a cenas de humilhação e eles, via de regra, iam curtir a raiva no boteco mais próximo; ou no Juá, a zona boêmia que, a bem da verdade, era a única empresa que ali prosperava.


Naquela noite, porém, a coisa passou da conta: um dos operários recusou-se a entregar ao guarda uma sobra de leite que levava para casa. Ânimos exaltados, um manda o outro para aquele lugar, um diz que a mãe do outro é aquela; o fardado usou da sua autoridade, sacou o revólver e atirou na sacola de leite que, inocente, assistia a tudo na mão do rapaz. A portaria se fez praça de guerra.

Estação Pouso de Água Limpa, 1955
A noite não dormiu; a manhã não acordou.

Notícia ruim é cavalo sem freio, a baianada foi avisada. Meio milhar de indignados desceram dos alojamentos, tal e qual uma enxurrada, que ia levando e revirando, à sua passagem, tudo que havia pela frente: tampinhas de garrafas, latas de lixo, carros, caminhões, ônibus, cerca e muro.

Notícia ruim é cavalo sem rédea, a policia foi chamada. Meia dúzia de praças e um cabo, é sabença geral, não dão conta de uma empreitada dessas, e o destacamento de Governador Valadares, a uma hora e meia de caminhão, foi acionado.

Não vivesse ali, desde sempre, e o Retratista teria um futuro bem promissor em outros ares. Tinha o faro da notícia, das coisas pequenas que se tornam grandes. Lera, escutara, sabe-se lá aonde?! que, se um cachorro morde alguém, isso não é notícia; mas, se alguém morde um cachorro, aí, sim está a sua manchete.

Um dos hotéis da cidade, 2002
Desde a noite anterior, quando a história do tiro na sacola espalhou-se, que ele sentira o fedor da esparrela. Deixar bem cedinho a cama, já com a Rolei e o Camelo em ponto de bala e partir para a luta, que “debaixo daquele angu tinha caroço”.

Além de umas duas mudas de roupa, seu patrimônio não ia muito além da bicicleta Philips, aro 28 X 1 ½ e da máquina Rolleiflex. Todos os dois, conseguidos de segunda mão e em suaves prestações, das mãos do Abdalla, um turco que tinha no catálogo de vendas um leque de produtos que ia de fusquinhas a pomada para cravo e calos.

Apesar de madrugar, quando chegou à portaria do Escritório Central já lá estavam as personagens com os seus papéis distribuídos e ensaiados: de um lado, os baianos, cujas roupas coloridas acusavam sua ira; do outro, os meganhas, cujos uniformes cáqui confessavam sua indiferença..

O massacre
Aquele flagrante do praça empunhando a metralhadora seria, com certeza, apenas um dos grandes momentos que capturaria naquele teatro de guerra. Quem sabe, ali estava a sua redenção, a venda para um grande jornal da capital, um convite para ir dar com os costados em outras paragens?

Não teve muito tempo para comemorar, nem para outra foto: o soldado percebera a sua ação e retribuíra com a mesma presteza. Atirou nele e continuou atirando. Daí, foi gente correndo, tombando e gritando; gente, gritando, tombando e correndo. Daí, foi a lenda: morreram oito, mas ficaram oitenta viúvas. Afinal: oito ou oitenta?

Notícia ruim é cavalo sem rédea, é cavalo sem freio. Minas Gerais foi avisado, o Brasil foi alertado o governador perdeu a rosca, resolveu compensar a baianada: emancipou Ipatinga.

Rua São José, Novo Centro, 1960
Hoje, daquele tempo, ela só guarda o calor abrasador dos outubros que não invejam em nada os janeiros quentes de outros lugares desta terra do pau-brasil. É, hoje, uma cidade sem lembranças das construções de pau-a-pique do passado, da poeira do passado, da lama do passado, da baianada do passado.

Duvida? Vem cá pra ver: temos jornais diários, TV a cabo e satélite, shoppings, teatros, largas avenidas asfaltadas, ruas apinhadas de automóveis; integramos um colar metropolitano, exibimos empresas de transporte coletivo, Casas Bahia, agências de turismo e de câmbio, estádio de futebol e um time que já desfilou na elite do Brasileiro. Até uma Miss Brasil já tivemos. De JK para cá, não houve um só presidente que não desse uma mijadinha por aqui (exceção é a Dilma, que cá não veio nem pedir votos, mas ainda vem);  nossos jovens andam semi-nus e exibem indecifráveis tatuagens,  não temos inveja dos políticos ladrões e sem vergonhas de qualquer outro lugar. Nosso mercado de crack é deveras mui promissor, pari passu da prostituição infantil, roubos, assassinatos e quejandos, em profusão.
Centro de Ipatinga, 2002

Nossos livros de História ensinam que o governador Magalhães Pinto, para dar uma satisfação a Minas e ao Brasil, foi quem emancipou a cidade; para os que não são bestas, nem abestalhados, porém, na verdade, essa proeza foi fruto daquela foto, daquele tiro e daqueles oito mortos que deixaram oitenta viúvas.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

DILMA ROUSSEFF FAZ SEU PRIMEIRO PRONUNCIAMENTO COMO PRESIDENTE DO BRASIL

Por Ana Laura Diniz

Dilma se emociona ao falar de Lula
“Eu estou muito feliz, agradeço aos brasileiros e às brasileiras por esse momento e prometo honrar a confiança que depositaram em mim”, disse a presidente eleita, Dilma Rousseff, na saída de sua casa. Em seu primeiro discurso como presidente, Dilma convidou todas as correntes políticas a assumirem pelo futuro do País. Ela agradeceu o apoio do presidente Lula e se emocionou ao falar da despedida dele do governo. No discurso, destacou que era a primeira mulher a ocupar o cargo mais alto da República.

“Eu recebi de milhões de brasileiros e de brasileiras, talvez a missão mais importante da minha vida. E esse fato pr’além da minha pessoa é uma demonstração do avanço democrático do nosso país, que pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil.

(...) Já registro, portanto, o meu primeiro compromisso após eleição: honrar as mulheres brasileiras para que este fato que é hoje inédito se transforme num evento natural – e que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições  civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade. Registro aqui o compromisso com o meu país: valorizar a democracia em toda sua dimensão – desde o direito de comunicação e expressão até os direitos essenciais, básicos, da alimentação, do emprego, da renda, da moradia digna, a paz social.

Eu vou zelar pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa. Eu vou zelar pela mais ampla liberdade religiosa e de culto. Vou zelar pela observação criteriosa e permanente dos Direitos Humanos tão claramente e consagrados na nossa constituição.

(...) Quem como eu, lutou pela democracia, pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu, e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade.

Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à sua própria sorte, enquanto reinar o crack e as cracolândias. No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento, por isso se tornam mais importantes nossas próprias políticas; nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas – mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os desafios e os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções (...)”

Militantes com as bandeiras lotaram a Esplanada dos Ministérios e acompanharam a tudo pelo telão. Depois do pronunciamento, Dilma era aguardada pelo presidente Lula, no Palácio da Alvorada.