quinta-feira, 21 de junho de 2012

DIÁRIO DE UMA ADOLESCENTE. KRIPTONITA PRÓPRIA.

Por Bianca Monteiro

Com tudo na vida prosperando, é meio difícil não reparar nas arestas não aparadas, por mais que estas sejam mínimas. Até mesmo com a vida social estando impecável, assim como a amorosa, a interior (porque não consegui arranjar um nome melhor, mas ela existe), a profissional e a escolar (parcialmente), é incrível como há sempre algo para atrapalhar a nossa felicidade... O que importa é como escolhemos o que aquilo será pra nós ou não. Quer dizer, qualquer um pode tornar uma situação um bicho de sete cabeças ou algo simples. Depende diretamente de como você decide lidar com aquilo. O caminho que escolhe seguir.

Hoje em dia, nas circunstâncias supracitadas, pouca coisa realmente me afeta. Isso é evidente. Mas, infelizmente, como nada é incorruptível, há sempre aquela coisinha que te destrói com facilidade, como kriptonita. Que de apenas sentir sua presença perto de mim, é infalível. E é bem específica: estar decepcionando de fato pessoas que amo, ou somente sentir que estou. Acaba com a vontade de continuar qualquer coisa.

 O jeito que tenho achado pra combater esse sentimento é tentar me afastar menos, em vez de me aproximar mais e gerar o efeito contrário. Quer dizer, acho que esse tipo de coisa não se pergunta. Se for só noia, é bom pra servir como uma conscientização e evitar que seja verdade. Porque se for verdade mesmo, alguém sempre acaba falando. Combater um sentimento é uma coisa. Tentar mudar a realidade já é mais complexo... Nesse caso, o melhor a fazer é evitar. Evitar a dúvida, o ato em si. Lidar de forma errada com pessoas amadas, próximas, admiradas, amigas, importantes, e tudo mais, é perigoso sempre. E pode ser irreversível.

terça-feira, 19 de junho de 2012

RIO +20 : UM FUTURO ENVENENADO?





Por Claudia Lopes Borio 





 
Escavadeira na Praia de Macaé no Estado do rio de Janeiro (Google imagens)


No momento em que se realiza no Rio de Janeiro a gigantesca conferência sobre o meio ambiente, denominada “Rio + 20”, alguns ambientalistas conduzem visitantes por um “tur” pela capital e pela baía, mostrando os danos ambientais causados por alguns dos gigantescos empreendimentos, como os portos da LLX Logística – do megaempresário de mineração Eike Batista –, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e da TKCSA (ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico), na baía de Sepetiba; que sofre também com outros projetos; a Refinaria Duque de Caxias (Reduc), na cidade de mesmo nome; e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) que afeta as comunidades da cidade de Magé, na baía de Guanabara.

 
ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico(imagem Google)


Em uma triste história, os pescadores contam como tais empreendimentos foram acolhidos como salvação da lavoura, achando que criariam muitos empregos e ajudariam a dinamizar a economia local. No entanto, os portos apenas modificaram a paisagem, destruindo a mata, criando túneis e estradas, pontões e trapiches de cimento. A necessidade de dragagem constante mudou as praias, o fundo do mar e até as marés, fazendo com que em alguns lugares o mar se tornasse mais raso. Diversas espécies de peixes que eram comuns desapareceram, assim como siris e mariscos. A poluição é evidente a olhos nus, especialmente quando se carrega minérios. No entanto, os empregos gerados não beneficiaram a população local, pois necessitavam de pessoas com preparo específico e maior escolaridade. Ou seja, contrataram técnicos, engenheiros, pessoas de fora, e não da comunidade.

A população local, que vivia de farta produção de peixes e crustáceos, aos poucos viu a quantidade de peixes diminuir, até o ponto em que estão tendo dificuldades para sobreviver da pesca. Sem estudo nem preparo para exercer outras profissões, encontram também dificuldades em trabalhar. Alguns se tornam pedreiros, ajudantes de obras, empregadas domésticas ou vendedores ambulantes. Profissões mal remuneradas, que não exigem grandes estudos. Afinal, não sabem fazer outra coisa.


Alguns pescadores relatam que possuíam vários barcos, carros, e até caminhões na década de 70, mas que as mudanças na baía e no fundo do mar foram graduais, diminuindo o pescado até acabar com a fartura em que viviam. Os filhos já procuram outras profissões – ninguém mais quer ser pescador. Lá se foram carros, caminhões, até os barcos foram trocados por outros menores.


O próprio turismo sofreu, com a feiúra das construções de concreto, típicas dos portos, que invadem a paisagem. As instalações das empresas são fechadas por altas cercas. No mar, os atracadouros trazem placas: NÃO DESEMBARCAR. A própria polícia marítima trabalha a favor das grandes empresas, impedindo o acesso a docas ou trapiches.


A favor dos pescadores, ninguém se manifesta. Há inclusive boatos de milícias privadas que espancam e intimidam aqueles que tentam protestar contra a instalação dos grandes empreendimentos.


Pontal do Sul-(google imagens)

Aqui na Região Sul vimos assistindo a instalação de portos e empreendimentos semelhantes, como é o caso da modificação que ocorreu na praia da Barra do Saí (fronteiriça entre Paraná e Santa Catarina). Agora fala-se muito em instalação de um moderno porto em Pontal do Paraná. A conversa é sempre a mesma, promessa de melhorias e empregos para a população. Mas será verdade mesmo? E quais as alternativas de emprego que essa população teria, se não fosse o porto?


Interessante notar que Pontal do Paraná ainda reúne uma das áreas mais intocadas de restinga de todo o litoral brasileiro, apontada pelos botânicos como uma região rica, importante, que pode conter plantas valiosas e não estudadas. Só um exemplo, plantas que crescem na beira do mar podem ser utilizadas para plantio e alimentação do gado em regiões desérticas onde a terra tem um grau de salinidade muito alto. Nos Estados Unidos, conseguiu-se cultivar um capim que produz uma semente semelhante ao trigo, oriundo da restinga, em terras salgadas. Ali temos vários tesouros ainda desconhecidos, ameaçados a todo momento por nossa própria ignorância. Além disso, vale lembrar a beleza intocada das praias, com sua larga faixa de areia e mar agradável, menos perigoso ao banho do que nos balneários mais próximos de Caiobá.


Como garantir então a possibilidade de novos empregos para uma região que é praticamente “morta” fora das temporadas de verão? Basta atentar para a natureza ao redor e verificar que não seria difícil criar muitos empregos com a hotelaria sustentável, turismo de aventura, navegação turística, pesca esportiva, conserto e reforma de barcos, cultivo de orquídeas e bromélias, cultivo de palmito, arqueologia dos sambaquis ainda inexplorados e outras tantas coisas que geram muito mais empregos e que podem ser alcançadas com pouco treinamento.


A própria indústria náutica, construção, reparo, modificação e conservação de barcos a vela e a motor é apontada com um dos setores de maior futuro no Brasil, já que possuímos uma costa imensa e totalmente navegável. Fica o desafio para as gerações futuras.
Para quem quiser ler, o artigo sobre o “Tur Tóxico na Rio + 20” está  aqui.



QUITANDA DA VIDA 81

Telinha Cavalcanti

Faz um tempo, já, que eu queria postar esta receita, mas sempre esquecia. Chegou a hora!

Bolo de cenoura com calda de chocolate - feito no liquidificador!


Ingredientes:
1/2 xícara (chá) de óleo
3 cenouras médias raladas no ralo grosso (cerca de 250 g)
4 ovos
2 xícaras (chá) de açúcar
2 1/2 xícaras (chá) de farinha de trigo já peneirada
1 colher (sopa) de fermento em pó

Como fazer
Coloque no liquidificador a cenoura, o óleo (eu prefiro de canola) e os ovos. Bata bem e depois adicione o açúcar, batendo por mais uns 5 minutos
Despeje a massa em uma tigela e misture, delicadamente, a farinha de trigo. Depois que ela estiver bem incorporada, coloque o fermento
Asse em forno pré-aquecido em temperatura baixa (180 graus) por aproximadamente 40 minutos

Atenção: só faça a cobertura depois do bolo estar desenformado e morninho, senão não vai dar certo...

Cobertura:
1 colher (sopa) de manteiga
3 colheres (sopa) de chocolate em pó ou achocolatado
1 xícara (chá) de açúcar

Fora do fogo, misture os ingredientes em uma panelinha (se possível, de teflon). Assim que formar uma calda e cubra o bolo (você que escolhe se fica mais rala ou mais grossa - ou pode fazer um brigadeiro mole, também)

imagem: Bem Estar e Cia

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Originalidades de Dublin


Dade Amorim



Joyce, James. Dublinenses.Trad. Hamilton Trevisan. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012.

Tenho que confessar que ainda não tinha lido os Dublinenses, de Joyce. Em parte, traumatizada com o Retrato do artista quando jovem, que li ainda muito nova (e lá se vão tantos anos que nem vos conto), me pareceu um texto meio quebra-cabeça. Mas encontrei esse livrinho de bolso e resolvi encarar. Junto com ele, vem também o Retrato, e aproveitei para presentear o livro antigo. Pretendo reler esse romance agora, que já me acostumei com tanta coisa meio dissonante e ele nem me pareceu assim tanto. A gente tem umas impressões um pouco falsas das coisas a nossa volta, muitas vezes. Nada do que pensava há tantos anos sobre Joyce se confirma nesses contos. Interessantíssimos, por sinal.
Há autores que seguem uma tradição, outros ficam preocupados em contar histórias, coerentes ou não, enredadas em acontecimentos plausíveis. Joyce não tem a mínima preocupação com coerências e enredos. Os personagens são até bem reais, os diálogos têm sentido, tudo perfeitamente aceitável como acontecimento, mas não vi a mínima preocupação em convencer o leitor de alguma coisa e muito menos narrar acontecimentos aceitáveis do ponto de vista de enredo ou das surpresas com que tantos autores querem nos brindar.
Faz sentido. Joyce, que nasceu em 1882 – e portanto teria tudo para ser um autor tipo conservador e tradicionalista – é um cara desprendido dessas pretensões, como aliás se pode observar tanto em Ulysses como no Retrato. Nem posso falar de Finnegans Wake, que não li sequer nas traduçõe de Augusto de Campos e Donald Schüler – mas sei que é uma lenha. Agora, que gostei tanto dos contos, pretendo descolar Finnicius Revém, como ficou o nome da obra nas traduções.
Dublinenses é uma coleção de contos um pouco fora do comum. Para mim, o que sobressai nas histórias de Joyce, talvez de um modo geral, são os sentimentos, as características de cada personagem. Isso torna a leitura bem interessante, foge ao usual. Gostei mesmo.

domingo, 17 de junho de 2012

SENHORA DO TEMPO - OCASO DE CAXAMBU

       
Esther Lucio Bittencourt
                            




Na semana passada almocei no seu Pedro - Casebre- em Baependi, cidade vizinha de Caxambu.
É comida caseira e deliciosa.
Seu Pedro, que foi caminhoneiro gosta de contar suas histórias de viagem e fala como o povo de Baependi é bairrista, ama sua cidade e a defende de invasões do inimigo. E falou sobre Caxambu:

-A cidade não cresce, não é mesmo? Todas evoluem mas Caxambu fica na mesma. Olha Baependi, como está, cresce como nunca. Olha São Lourenço, inchada de tanto cresce, mas Caxambu, que está entre as duas, parou no tempo.

Ouvi seu Pedro e precisei concordar.
Lembrei que em maio de 2005, há sete anos, postei esta matéria no meu blog Poscas e Parafusos, parado há tanto tempo, mas que registrou o dia a dia meu e da cidade onde moro.

E foi assim que falei sobre o Ocaso de Caxambu, que segue em letras minúsculas pois, no meu blog,sempre escrevi assim.

  "Sem desenvolvimento econômico, somente a pobreza pode ser distribuída com justiça." Ana Laura Diniz, no Diário do Comércio 


dia estranho; almocei em são lourenço morta de desejo de comer um feijão com arroz digno e em seguida passei mal por ter saído da dieta. mas resolvi andar do restaurante até a livraria da sonia. apenas seis quarteirões me separavam do destino, mas levei três horas para percorrer a distância. no caminho encontro pessoas de caxambu que trabalham em são lourenço! 

pessoas com lojas aqui que abriram outras lá! até o paulo, filho do ex- prefeito, tem uma na cidade. 
o supermecado da família do antigo prefeito tem filial em são lourenço! e são lojas maiores, mais bem sortidas, em pontos nobres. 

são lourenço  cresce desarvoradamente. a livraria vende, a perfumista vende, o jornaleiro idem. o comércio funciona e o mais saboroso brioche é feito lá na padaria san remo que passou por reforma e foi aumentada. aqui em caxambu fechou a tradicional padaria da dona boneca. 

ontem um amigo me disse: "passei um mês em são paulo e algumas semanas em pouso alegre, cidade do sul de minas, e lá vendi meu trabalho. aqui em caxambu tudo é amarrado. senti enorme saudade, mas para viver aqui não dá. não tenho como sobreviver!" 

kátia e lima que me ajudaram a convencer a mudar de são lourenço para caxambu agora partem para pouso alegre. 
passo no restaurante deles, uma grande chácara com a casa ao lado e fico triste. comia-se moqueca de pernambuco longe do mar, feijão pernambucano ao som de histórias de catende e do gonzagão, desculpem-me mas também coelhos, cabritos, ovelha deliciosa, que quando soube que ela chorava ao morrer parei de comer; saladas de capuchinhos, tomates secos preparados pela kátia, além da boa comida mineira. 

ai meu deus... e a conversa correndo de mesa para mesa, um descobrimento de mundo, de outras lonjuras. a alegria do lima e a comida da kátia. a amizade fincou raízes e eles agora partem. 

" sobreviveremos como nesta cidade? pergunta kátia, que ficou para arrumar as malas. o lima já foi tem tempo. quem já está bem estabelecido, tem família e posses, ainda aguenta, mas e quem só tem seu comércio para tocar? a cidade está muito devagar, parada no tempo e espaço e os grande só pensam em si mesmos e nos amigos. este é um lugar para se queimar o karma." 

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letícia, passeia pelas ruas de são lourenço no horário do almoço, agora trabalha lá e aguarda o meio do ano para mudar de vez. a cidade de caxambu esvazia. os amigos partem. 
carlinhos já foi. agora toca o salão de belezas que o irmão tinha no leme." aqui, conta ele, era tudo pingado." a unanimidade diz estamos virando cidade fantasma. 

sinto um aperto no peito! 

eu não sou daqui mas vejo a cidade sem gente, sem calor e sem abrigo. lá se vão meus mais queridos amigos. olho as tralhas do lima e trago para casa o coração confrangido. 

É preciso resolver o esvaziamento e a deterioração do que poderia ser a mais rica cidade do mundo, e o é, em água mineral medicinal, se houvesse vontade em mudar, mas ficamos neste futuro condicional: poderia. 

restará na cidade uma elite que abrirá lojas em são lourenço, fará comércio por lá, e talvez, os plátanos do parque das águas porque estão plantados e não têm outra alternativa, com seus buracos de broca cobertos por barro, o barro vermelho desta terra. é triste ver o desaparecimento de um astro no horizonte. por mais belo que seja o ocaso ele carrega a angústia do rito de passagem do dia para noite . por mais que flameje ouro, o se pôr, como os céus daqui onde as tintas são fortes como as dos pintores impressionistas.






sábado, 16 de junho de 2012

SENHORA DO TEMPO- DIRCE MIGLIACCIO










Sonja Faria Rosa

Quando Dirce Migliaaccio faleceu , em  setembro de 2009, Sonja Faria Rosa,  em sua página no Blog do Nassiff  escreveu a seguinte história:


"Dirce Migliaccio que faria 76 anos no dia 30 foi uma pessoa que ficava séria e nos fazia rir. Eu a conheci quando ela, morando em Colchester veio com sua filha Rebecca comer uma bacalhoada conosco pelo Dia das Mães em 1987. O pessoal da casa estava animadíssimo dizendo a Emília do Sítio vem almoçar aqui mas eu não me liguei na coisa e quando ela chegou eu quase não acreditei no que tava vendo. Era só fechar os olhos e imaginar que estávamos escutando a Juju Cajazeira."

Ela foi uma grande atriz e acho que nao foi muito homenageada pela nossa querida imprensa que se esquece muito fácil das pessoas que fizeram parte nosso dia-a-dia não muito tempo atras. A Emília certamente viverá para sempre no imaginário das minhas filhas que acompanharam suas aventuras no Sítio do Picapau Amarelo.

Vai Dirce, os anjos estão precisando de rir um pouco e ninguém melhor do que você para faze-los sorrir.  

Hoje recordaremos  um pouco as atuações de Dirce Migliaccio  na novela da Globo, "O Bem Amado" e como Emília. no Sítio do Pica pau amarelo,        















elb

FREDZILA - TUDO IGUAL?

Carlos Frederico Abreu

Não entendo como as pessoas podem achar que os japoneses são todos iguais. Para mim existem diferenças, não gritantes, mas sutis.

É aceito hoje que os japoneses são uma mistura de 4 grupos raciais: dois grupos distintos de mongóis da Ásia central, um malaio do sul e os Ainus, caucasianos habitantes originais das ilhas mais ao norte.

O que causa este estereótipo é que, no geral, entre os japoneses não existem tantos extremos quanto encontramos no ocidente.

Mas basta olhar mais atentamente para perceber diferenças por regiões.
As pessoas das ilhas do norte e leste são mais 'bolachudas', com o rosto mais redondo.
Ao sul são mais angulosos, ocidentalizadas.
E não há como passar despercebida a beleza das mulheres de Quioto, pela delicadeza dos traços e proporções.

Além do mais, os padrões anteriores a 1950 estão desaparecendo.
Os jovens estão mais altos, e mais fortes que os pais, as mulheres mais voluptuosas e os homens mais musculosos.
Sem falar da obesidade que começa a aparecer.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

84, CHARING CROSS - NOSSOS ANCESTRAIS CONFLITOS

Elaine Pereira 



 

 Não sou judia nem muçulmana. Respeito as duas, sei um pouco mais da judaica, e acho que são histórias lindas. Um amigo (judeu) postou essa figura por aí esta semana e eu fiquei até emocionada, porque é o que sempre pensei resumido em poucas palavras.

O que vemos hoje e temos visto há tanto tempo, o conflito, a matança, o ódio, tudo em nome de Deus. As histórias e os ensinamentos de ambas são tão bonitos e tão semelhantes que teríamos obras-primas se todo mundo trocasse as armas pelos livros.

As guerras santas já começam a ser paradoxais na denominação. Nós vivemos em um país cheio de problemas e temos nossas guerras, mas curiosamente essa não é uma delas. Não seria hipócrita em dizer que não temos preconceito, mas creio que o Brasil é o único lugar do mundo onde os tradicionais inimigos não estão nem aí para a origem um do outro. Fazemos piadas que em outros lugares acabariam em tiros. Não acho um grande mérito, mas pelo menos nisso não erramos feio como em tantas outras coisas.

E é incrível como a briga toda está retratada aí, mas ninguém até hoje veio com uma explicação plausível. Tempos depois outros descendentes de Abrahão se juntaram à briga, acrescentando o terceiro inimigo, o cristão. Todo mundo quer a Terra Santa, a Faixa de Gaza, Jerusalém, a primazia de ser o Deus único, todo mundo está tão ocupado em querer se sobressair ao outro que até já esqueceu o básico. Os pobres Ismael e Isaac não entendem porque não podem brincar... “...but we are brothers...”.

Nem que não tivessem nascido do mesmo pai, haveria justificativa para tudo?

E judeus, católicos, budistas, muçulmanos, somos todos humanos e acabamos envolvidos em conflitos, não só religiosos, de repente odiamos todo mundo, criticamos, julgamos. O conflito é tão mais simples, tão mais envolvente.

Quando afinal vamos poder brincar?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

OS LIVROS E A VIDA LITERÁRIA NO RIO DE JANEIRO





Coordenado por Anibal Bragança, autor de Impresso no Brasil, prêmio Jabuti de 2011, com o tema Bibliofilia e Colecionismo, a Fundação Biblioteca Nacional promove o encontro sobre Os Livros e A vida Literária no Rio de Janeiro, dia 18 de junho, às 17:30 horas.



O palestrantes será Cláudio Murilo Leal, professor e poeta. Doutor em Letras e Mestre em Literatura Brasileira (UFRJ),ex-professor da Universidade de Essex (Inglaterra), da Universidade Toulouse-Le-Mirail (França); da Universidade de Brasília (1971/79); foi diretor do “Colegio Mayor Universitario” Casa do Brasil (Madrid) e presidente do PEN Club do Brasil. Autor de Caderno de Proust (Prêmio Nacional de Poesia do INL, 1981) e de outras obras de poesia. Tradutor da Antologia Poética, Carlos Drummond de Andrade, Espanha (1986); organizador de Toda a Poesia de Machado de Assis, Record (2008) Obras principais: Poemas; Novos Poemas; Fonte; Gesto Solidário; As Doze Horas; A Rosa Prática; A Musa Alienada; Poemas de Amor; Caderno de Proust (Prêmio Nacional de Poesia do Instituto Nacional do Livro, 1981); A Velhice de Ezra Pound; O Poeta Versus Maniqueu; Escrito en la Carne; Reflets; As Quatro Estações; Catarse; As Guerras Púnicas; Treze Bilhetes Suicidas; Módulos (antologia, Sette Letras); e Cinelândia. Tradutor da Antologia Poética, Carlos Drummond de Andrade, Espanha (1986); e organizador de Toda a Poesia de Machado de Assis, Record (2008).

O evento será transmitido ao vivo pela tvponto.com da Embratel.
                                              
Impresso no Brasil foi  coeditado pela editora Unesp e Fundação Biblioteca Nacional , trata da história do livro brasileiro por dois séculos e sua produção editorial.


DIÁRIO DE UMA ADOLESCENTE. DIA DOS NAMORADOS.

Por Bianca Monteiro
Mais uma data comercial como páscoa, natal, aniversários, dia das mães e etc, pra gente torrar muito dinheiro em compras e deixar os lojistas ricos. Tenho pavor dessas datas normalmente, pois sou péssima com presentes: morro de medo de errar. Sou indecisa, e detesto ter que escolher... Se já é difícil pra mim, imagina só pros outros? Dependendo da pessoa, é até fácil. E pra pessoa que eu mais amo? Mesmo sendo simples, ainda é difícil por causa disso.

Até que me adiantei, o que é raro. Infelizmente, não fez diferença: meus presentes não chegaram a tempo. Não me importei, afinal: pra quem ama, as intenções por trás da data não fazem a mínima diferença. É muito além do material. É um dia pra você dedicar inteiramente à pessoa amada, pra tentar demonstrar o tamanho do seu sentimento e provar o quanto aquela pessoa é especial pra você. Surpresas sentimentais impressionam muito mais pelo trabalho que temos pra fazê-las, e principalmente pelo significado interno que aquilo tem.

Nem mesmo pude passar um tempo considerável com ele, tive por volta de uma hora que surgiu de intervalo em nossa rotina agitada. Esses poucos minutos foram mágicos. Na falta dos presentes, tive que improvisar surpresas: mandei um telegrama gigante que me privou de sono na noite anterior, mas valeu a pena. Como nem tudo coube na folha, escrevi um outro texto gigante e fiz os cupcakes que ele tanto queria há tempos, com cobertura rosa (que era pra ser vemelha, mas o corante clareia, infelizmente) e vários coraçõezinhos de açúcar. No fim, além do meu presente material, ele também tinha uma surpresa: ganhei uma música descrevendo meu hábito nostálgico de anotar coisas no caderninho e tive que segurar muito pra não chorar.
Com meu dia sendo feliz, não tinha como não reparar que as outras pessoas não estavam passando pela mesma situação. Já na semana anterior, todos compartilhavam no Facebook imagens reclamando da solidão na data, se "alugando" pra mesma, fazendo apelos para arrumar alguém, ou até mesmo se orgulhando de estar sozinho falando mal da comemoração, do amor, etc. No dia, se agravou, como previsto... Ah, é completamente normal ficar desiludido com o amor. O que não pode é começar a dizer que não existe desmerecendo o dos outros. Sempre acaba naquela conversa de que o amor é cego, ou que nos cega, que nos tira a noção e total consciência das coisas, whatever. Eu não acho isso ruim, sinceramente. Acho que é uma cegueira natural. E amo tê-la, por isso gosto tanto de me manter apaixonada sempre. Enxergo a vida de outra forma (leia-se: não me sinto tão egoísta ou dominada inteiramente pela desesperança). Meio que o físico da pessoa passa a ser ignorado com o tempo, não por não ser agradável, mas sim porque o que ele é já não te importa mais. O que interessa passa a ser o que está além... Isso não é irracional de forma alguma. Isso é lindo. Pra mim, é a melhor forma de amor alcançável.

Mesmo que atrasado, feliz dia dos namorados!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

LANTERNA MÁGICA - MÍNIMOS ÓBVIOS

por Egídio La Pasta, Jr

 
Escrevo no Mínimos Óbvios desde fevereiro de 2007. É um espaço onde coloco os textos que escrevo à partir dos filmes que assisto. Em alguns casos a relação com a obra é de fácil identificação. Em outros é mais pessoal e mais subjetivo e já recebi advertências de alguns leitores no estilo 'mas onde está o filme tal dentro do teu texto'? Na verdade não parto dos filmes. Mas do que me interessa dentro do discurso, das ações, do que não é dito pelos personagens. O subtexto, as entrelinhas sempre me fascinaram. Hoje faço um resgate simbólico e lembro do primeiro texto que publiquei no blog. Era sobre o filme do Karim Ainouz, O Céu de Suely, que eu gosto muito. E ele fala justamente sobre esses mínimos que nos definem, que fazem a diferença nos dias, que muitas vezes deveriam ser obrigatórios por serem óbvios e quando ausentes, podem causar um efeito que descolore. Aquele 'bom dia', 'obrigado', 'por favor', 'com licença', ' me perdoe' que fariam a diferença caso nos percebêssemos com um pouco mais de atenção e carinho.

***

Parado. Na plataforma. Esperando o trem. Equilibrava-se entre a mochila, duas malas e uma garrafa de água, faz muito calor e é verão. Parado, buscava o equilíbrio entre os objetos. Buscava o equilíbrio, como qualquer um de nós. E driblava o excesso e a agitação da cidade, sabe-se lá com que humor, com quais sonhos. A pele branca queimada de sol – às vezes o céu abre e não é tão azul, mas ainda faz sol e é verão. Na nuca uma tatuagem pequena, discreta, algum símbolo que a minha ignorância não soube identificar. Aquela simplicidade masculina arrebatadora de jeans e camiseta. Branca. Os olhos castanhos e escuros, eu constatei quando ele constatou. E sorrimos. E percebi que ao sorrir, os músculos do rosto ao se contraírem, faziam com que a sua expressão modificasse radicalmente os traços.

- Quer ajuda?
- Se você puder...
- Eu posso.
- Eu quero.

Assim o diálogo inicial refletia em ambas as frases, o imperativo. Poder e querer são potências indiscutíveis entre dois espaços. E assim o imperativo acaso fez com que momento presente inaugurasse e iluminasse no encontro inédito da mesma cidade, os olhos de um. E de outro. Ajudei a carregar uma das malas quando o trem se aproximou. Ao entrar no vagão, por um momento, o braço dele inaugurou, por acidente e confusão, o toque no meu braço. E antes de poder concluir o pensamento de que aquela era a primeira vez, ele se adiantou em sorriso e falta de jeito:

- Me desculpa.
- Não foi nada.
- Estou atrapalhado.
- Eu concordo.

Seguimos por três estações em silêncio não combinado. A textura da pele, macia, eu arriscaria de tão próximo. E o perfume não era exatamente um perfume. Era bom. Bom, sem dúvida. Até que o trem parou dentro do túnel. E a voz do maquinista, tão treinada quanto segura, nos informou com desprezo de que permaneceríamos parados por mais alguns minutos. Através das janelas, a escuridão subterrânea de um túnel qualquer da cidade. Tentei disfarçar o meu nervoso, até que ele percebeu que eu percebi que ele tinha compreendido o meu nervosismo com fins claustrofóbicos e não era para menos, estar preso dentro de um trem fechado dentro de um túnel escuro dentro de uma estação fechada, abaixo da cidade em movimento.

- Você está bem?
- Não. Sim. Quero dizer, eu...
- Eu entendo. Quer um pouco de água?
- Por favor.

Alguns minutos depois o trem voltou a funcionar. Saímos do túnel. A cidade lá fora em movimento. A possibilidade do pânico diluiu-se no movimento da luz, das pessoas em ação, do diálogo tímido retornando. Pensei nos meus mínimos óbvios. Daquilo que não deve ser banalizado, não deve ser desperdiçado. Daqueles carinhos, de algumas palavras, alguns silêncios necessários. Pensei que às vezes a gente estaciona a vida por necessidade. Outras vezes sem perceber. Simplesmente por perder o ritmo. Pensei em algum filme, desses que me encantam e me ensinam e pensei também que a vida real me interessa muito mais que a fantasia, embora ambas me coloquem em movimento. Tive vontade de convidar o rapaz das malas para tomar uma cerveja. Tive o desejo de ser feliz, assim no repente, como num estalo, dentro do metrô. O desejo maior de ser sabe-se lá se feliz, acho que sim, essa é a palavra que mais se aproxima do que eu gostaria de dizer. De maneira intensa, eu senti. Tão forte. E tão definitivo quanto assustador. Até que ele me interrompeu:

- Eu fico aqui.
- Eu também. Você tá chegando?
- Eu tô indo embora.

Os olhos molhados, ele me disse sem desviar o olhar. Eu tô indo embora, ele me repetiu. Um momento de intimidade surgiu entre nós, sem que nada pudéssemos fazer. Ou dizer. Saímos do trem e a estação nos embaralhou os passos, aos poucos fomos nos perdendo, nos distanciando e nos misturando ao plural. Pensei que às vezes precisamos engolir o desejo. Querer ser nem sempre coincide com o cenário. Com a história. Ou os personagens. Mas é imperativo querer. Contido, rasgado, declarado ou tímido. Querer. Um dia eu acerto. Um dia eu me despeço. Agora digo adeus ao tal homem que eu não sei o nome e que me deixou aceso. Em plena noite carioca. Pensando nos meus ais. Sem som. Óbvio.

BEETHOVEN E A VIDA DE ASSALARIADO


Elb



Beethoven regendo a Nona Sinfonia(google imagens)


Por incrível que pareça Ludwig van Beethoven também se queixava , nos idos de 1823, de baixo salário e falta de dinheiro, como qualquer trabalhador comum, menos os pedreiros, pintores de parede, eletricistas, bombeiros hidráulicos, jogadores de futebol e cantores de sucesso.

Se Beethoven tivesse nascido nos idos de hoje, 2012, a profissão de pedreiro estaria em alta e ele, certamente, ganharia muito bem. Mas era cego, apesar de termos certeza de que não perderia  prumo ou esquadro.


Em carta com seis páginas divulgada pelo Instituto Brahms de Lubeck, na Alemanha, datada de julho de 1823, quatro anos antes de sua morte, o compositor da Nona Sinfonia contava ao outro compositor e harpista Franz Anton Stockhausen, que estava passando por necessidade e pedia que este lhe conseguisse comprador para a Missa Solene cuja partitura acabara de concluir.

                                   

Nesta mesma carta ele se queixava dos olhos, de sua doença, a cegueira.

A carta faz parte da coleção de pedagogia musical de Renate Wirth,(1920/2011) bisneta de Beethoven. Stefan Weymar, do Instituto Brahns informou que Beethoven não tinha caligrafia bonita e rasurava as cartas que escrevia sem preocupação de passá-las a limpo. O mesmo fazia com as partituras, obras de mestre.



Do filme Minha Amada Imortal, sobre a vida de Beethoven, um trecho da nona sinfonia.

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Emil de Cou enquanto regia a Orquestra Sinfonica Nacional dos Estados Unidos postava no twitter sobre os movimentos da Sexta Sinfonia, a Pastoral:  "A música evoca os pássaros cantando, o som de um rio e de rodas que correm. Enfim as notas se aceleram e o rio corre mais rápido. Beethoven explicou que quando as notas ficam ralentadas significa que as águas estão mais profundas."

Então , hoje, além da possibilidade de ser pedreiro, jogador de futebol, Beethoven, certamente, poderia  usar do twitter para escrever também pequenas missivas.

O que os puristas opinaram sobre a atitude do maestro? Ficaram fulos da vida.



HELLO, DOLLY! - ARQUIVOS ABERTOS





Dorothy Coutinho



Latuff-Google



A Comissão da Verdade instalada recentemente tem como objetivo principal ter acesso aos arquivos do porão da ditadura. Mas cuidado gente: abram os arquivos que quiserem, mas é bom certificar-se se eles não foram esvaziados um pouco antes.

Que prevaleça a Verdade:

 - para que nunca mais coloquem uma grávida nua sobre um tijolo, atingida por jatos d’água; - para que senhoras que fazem seu honrado trabalho não sejam despedaçadas por cartas-bombas;

 - para que um covarde que bote a boca de um homem torturado no escapamento de uma viatura militar não passe por “homem de bem” onde mora;

 - para que políticos reacionários não babem sua raiva na internet com frases amedrontadoras: “Nosso erro foi torturar demais e matar de menos”;

 - para que nunca mais teatros e livrarias sejam vandalizados e queimados;

 - para que um estudante de psiquiatria não seja obrigado a passar por sentinelas de baioneta calada para ouvir um coronel médico dizer: “histeria é preguiça”;

 - para que nossa Força Aérea que nos deu tanto orgulho na Itália, com seus valentes pilotos de caça, não atire pessoas, como se fossem sacos de lixo, no mar;

 - para que um pai, ao se recusar a cumprir a ordem de manter o caixão lacrado, não se depare com o corpo destruído do filho, jogado lá dentro feito um animal;

 - para que militares honrados não sintam nenhum “constrangimento” na busca da Justiça; - para que cavalos não pisoteiem um garoto com a camisa pegando fogo por estilhaço de bomba, na Lapa;

 - para que torturadores não recebam como “prêmio” cargos em embaixadas no exterior;

- para que uma estudante não desmaie num consultório médico ao falar sobre as queimaduras do pai, feitas com tocha de acetileno;

 - para que esquartejadores não substituam Tiradentes por Silvério dos Reis;

 - para que nunca mais a vida de uma jovem idealista – queixo firme, olhos faiscantes de revolta – seja ceifada por encapuzados.

Para que então, nós brasileiros, possamos homenagear um autêntico herói nacional.


terça-feira, 12 de junho de 2012

QUITANDA DA VIDA 80

Telinha Cavalcanti

Mais receitas do caderno da família: pão de ló!
Gente, pão de ló chega a ser um bolo vintage. Não sei há quanto tempo eu não ouço falar - e nem como - um pão de ló feito como se deve.
Então, minha amiga dona de casa, vista um vestido rodado, coloque um lindo avental e ouça Nat King Cole, pois esta receita vem direto do túnel do tempo!

Pão de Ló

Ingredientes
5 ovos, separando claras e gemas
1 pitada de sal
5 colheres de sopa de açúcar
5 colheres de sopa de maizena peneirada

Como fazer

Bata as claras, com o sal, em ponto de neve firme. Adicione as gemas e bata até ficar esbranquiçado. Acrescente o açúcar aos poucos, batendo até a massa ficar brilhante e com bolhas.
Junte a maizena delicadamente e despeje em uma forma untada. Leve ao forno médio

imagem: Alimentação Saudável

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Sutilezas

Dade Amorim
 
 
Não há como fugir: os dias são diferentes, mas iguais no que se sucede – manhãs tardes noites madrugadas horas batendo martelo nos segundos. Os dias são como um leilão do que você quer mas só vai levar se perceber a música do martelo.
As cores mudam, porém, tanto as do céu como as do coração, e os tons são inacreditáveis, de uma pessoa para outra e até para a mesma. As diferenças na mesma pessoa são mais claro-escuro, ton-sur-ton, porque o fundo é meio repetitivo mesmo, fazer o quê? Cada um se faz repetitivamente recaindo no refazer do que mais procura evitar. E quando o sol aparece, por causa desse estado de mesmice aparente, pode dar a sensação de que tudo está igual. Mas até o sol tem matizes e variações, é só prestar atenção para ver: o sol não mostra sempre a mesma face, e às vezes está furioso e queima com raiva, mas às vezes acaricia a pele que nem homem enamorado.
As diferenças de uma mesma pessoa se devem a que os poros deixam entrar sempre o que lhes interessa mais. Além disso, o nunca tem muitas frestas. Se digo “nunca”, na mesma hora meus poros se abrem. Daí advém toda contradição do ser humano, e também suas repetições inesgotáveis e seus melhores prazeres.
Os dias podem parecer iguais naquilo que os outros exigem da gente.
A coisa acontece assim: a gente se repete e recai e refaz o que já andou fazendo a vida toda. Quem vive a nosso lado também recai e repete. Quando alguém refaz seu refazer e ressoa em nossa alma como repetição, é a rotina. A rotina não é o que eu faço, mas o que os outros querem que eu faça, e eu faço, repetindo – não o que eu quero e repito por minha própria conta, porque é meu e é como eu sou, mas o que os outros querem que eu refaça por eles. Nisso consiste o poder de uma pessoa sobre a outra: ser capaz de ressoar sua própria repetição no outro. E quanto maior o poder, maior o número de pessoas a refazer a repetição do poderoso. O que obviamente não é justo nem salutar para ninguém.
Quem apenas ressoa o que o outro repete e o refaz sem conseguir deixar de refazer é um candidato a passa humana. Quem não se libera da gaiola da repetição do outro, é pássaro morto dentro da gaiola sem ninguém para chorar por ele. Quem não olha em volta e procura sintonia para ouvir melhor a música do outro, chama-se submisso e nem merece muito que se chore por ele.
 
Imagem de Henri Matisse.

domingo, 10 de junho de 2012

SENHORA DO TEMPO- NAMORO AO SOM DE STRAUSS

Por Esther Lucio Bittencourt


Era uma vez, num tempo quase centenário, em que uma senhora bonita e seu marido, alto, magro, de olhos verdes, dançavam a Valsa do Imperador, de Johann Strauss Filho, pela sala de sua casa.


O disco de vinil rodava numa vitrola semelhante a esta aí embaixo.


Antigos, bem antigos, a vitrola, a cena, o disco de vinil e o casal que rodopiava na sala de sua casa, olhos nos olhos, sorriso terno nos lábios, tão antigos que parecem que nunca existiram.

Os filhos, sim, o casal tivera filhos, assistiam inebriados até que eram convidados pelos pais a participarem do baile. Ao som da música o casal restabelecia os desejos de amor eterno, e as crianças felizes e seguras na confiança que a estabilidade oferece cresceram, dançaram suas músicas de outros tempos, talvez Ray Conniff e Waldir Calmon umas e outras disko, funk, sambas, e emboladas.



 


Assim a vida passou. As crianças cresceram, casaram, seus filhos nasceram, cresceram e filhos tiveram . A senhora bonita e o homem de olhos verdes foram embora carregados pela indesejada das gentes.


Os pais e alguns destes filhos viveram a desagradável experiência da segunda guerra mundial, viram o vinil transformar-se em cd, a valsa do imperador cair no esquecimento e outros hits de sucesso povoarem as danças e a morte dos salões de baile.



Quando esta foto foi clicada por meu pai, Tonio, como era chamado pela família, de minha mãe Sara e de mim e Vera, bem bebê, de chuca chuca, ainda corria a guerra. As casas antigas da Rua Mario Viana , em Santa Rosa, Niterói, formam o cenário desta cena flagrada no jardim da casa de minha avó paterna, Martha.


Lá está a casa de dona Marieta, do Jacinto e sua mulher e, escondida dos olhos, algumas casa depois , à esquerda de quem está de frente para a foto, a casa de minha avó América, nome recebido em agradecimento por ter conseguido aportar no novo mundo.
Morávamos todos na mesma rua, uns protegendo o outro de apedrejamentos de casa, -por saberem que ali morava gente de origem alemã- da falta de ticket  para a compra de alimentos e do leite, essencial para as crianças.


A máquina não era digital, devia ser uma Leika bem antiga de filme em rolo que precisava ser revelado, o que era um processo demorado. À época nem sei como isto era feito, mas papai, cuidadoso, escrevia atrás de cada foto capturada o nome das pessoas fixadas na imagem, dia , ano , hora e local do acontecimento.


O sapato de verniz com presilhas na frente, usado por minha mãe Sara, era a característica da família, todas as mulheres o usavam, geralmente presenteadas por vovó Martha.


Eu era a de cabelo escuro, na foro parecem negros, mas eram cor do mel e variavam a tonalidade como meus olhos, caso pegassem sol. Vera era absolutamente loura de olhos azuis.
Hoje, meus cabelos embranqueceram, ficaram cinza, e ouço, enquanto posto este flerte com o passado, a Valsa do Imperador.
Fui remetida para nossa sala, meus pais dançam, sorriam e nos convidam a valsar também.
Participamos assim de um namoro que nos acalentou pela vida e nos faz sentir saudades do antigo lar. Eu sinto.


Hoje sei que os namoros não são como os de antigamente quando os romancistas contavam do frisson que os homens sentiam ao adivinhar num balanço de saias a possibilidade de vislumbrar os tornozelos de alguma mulher que povoava seus sonhos.


O mundo evoluiu.
Evoluiu... Evoluiu? 
Ou foi desvendado que o sentimento precisou fazer guerra também para se adequar aos tempos modernos? Sei,lá....


Saudades da minha rua, das casas amigas, dos braços de meus pais e do casal que, com um olhar, dizia o mundo.
Hoje todas as ruas são nossas, do povo todas as praças; todos os amores são possíveis e o dinheiro compra o afeto.


Mas antes, também eram nossas as ruas, no entanto, diferente este possuir que na realidade era ser e estar. 
Antes... ah, deixa disto, Esther, ficar no passado é coisa de pessoa velha!


Mas, até Ray Conniff envelheceu e frequenta o Youtube, nem mais vinil tem, é blue ray! 
Enfin, tout passe ,tout casse, tout lasse.


 



SENHORA DO TEMPO- A HISTÓRIA DE MR. GLOVER E TSURU

Telinha Cavalcanti

Mr Glover era um navegante e comerciante escocês. Tsuru, uma mocinha japonesa. Ele vivia dos mares, dos negócios, dos países que visitava. Ela vivia sua vidinha em casa, entre kimonos, cerejeiras, cerimônias do chá. Isso faz muito, muito tempo. Lá pelos anos mil e oitocentos...

mr. Glover


Mr Glover fazia negócios com o Japão. Tinha uma casa no estilo ocidental. Também tinha outra casa lá do outro lado do mundo, na Escócia. Tsuru seguia vivendo a vidinha dela. Até que.

Pois é, quianças, Mr Glover conheceu a nossa heroína, casou com ela e transformou a mocinha japonesa numa esposa quase ocidental. Tsuru saiu do aperto da faixa do kimono - o obi - para o aperto do espartilho dos longos vestidos cheios de anáguas. Saiu do gohan para o pernil, do saquê para o uísque. Teve que aprender novos códigos, novas regras: como viver entre dois mundos em plena Nagasaki, quase dois séculos atrás.

Tsuru

Mr. Glover era Thomas Blake Glover, um ocidental que desempenhou papel importante na modernização do Japão, durante a Restauração Meiji. Ele fundou a primeira mineração de carvão no país - e, tão importante quanto, ajudou a fundar a cervejaria que mais tarde se tornou a empresa  de bebidas Kirin (cerveja, saquê e outros líquidos fundamentais para a vida humana neste planeta.)

 Mr. Glover com o neto no colo, rodeado pelos filhos, nora e Tsuru

E Tsuru, no meio disso tudo? Teve uma filha, Hana (mr Glover teve um filho, Tomisaburo, com outra mulher). A família morava na embaixada extra-oficial do ocidente no Japão: a Mansão Glover (que compreende duas casas: uma em estilo japonês, outra em estilo ocidental), com o mais belo jardim de Nagasaki, uma vista cinematográfica do porto da cidade, cerejeiras, fontes e uma lenda - aliás, duas lendas.

casa oriental

casa ocidental

Dizem que a sua vida inspirou a ópera Madame Butterfly, de Puccini. Há, em seus jardins, duas estátuas: uma, da  Madame Butterfly com seu filho, e outra de Puccini, apreciando a sua heroína.

Madame Butterfly, apontando para o porto de Nagasaki

A segunda lenda diz que há, no calçamento do jardim, duas pedras em forma de coração. Quem as encontrar, terá felicidade no amor e as bênçãos da antiga moradora da casa. Para aqueles que não acharem as pedras, há uma alternativa: é só comprar na lojinha - a Mansão Glover agora é um museu - um coração de madrepérola, escrever o nome da pessoa amada e pendurar nas árvores do lugar.

sábado, 9 de junho de 2012

FREDZILA - XOGUN

Carlos Frederico Abreu

Cabe aqui uma pequena explicação sobre o termo Xogun, para podermos entender melhor este mundo de palácios e castelos.
A história antiga do Japão, anterior ao ano 500 é repleta de contradições e 'versões', pois não havia ainda um registro escrito, ou não foi preservado.
De maneira que, muito do que se sabe é através de relatos (estes sim documentados) de viagens de comerciantes chineses pelo Japão daquela época.
Até por volta do ano 1100, a pobreza e a miséria estavam espalhadas pelas províncias e a busca pelo poder dividia as famílias mais ricas.
No Japão sempre houve, como existe ainda hoje, uma divisão entre o poder militar-econômico e o poder divino. O primeiro era ocupado pelo Xogun (um general), o segundo pelo Imperador (uma figura considerada divina e apenas representativa, sem poderes).
Por vezes acontecia do Xogun tomar o lugar do Imperador, assumindo o papel de único governante.
Foram vários xogunatos (governo pelo Xogun), de 1192 a 1868, quando então se iniciou a era chamada Meiji, ou a era moderna.

Minamoto Yoritamo, o primeiro xogun

sexta-feira, 8 de junho de 2012

84, CHARING CROSS - ALICE E OS DRAGÕES

Elaine Pereira



 Ontem assisti ao finalzinho da Alice do Tim Burton, do momento da decisão de se engalfinhar com o dragão até o final.

Quando vi pela primeira vez achei tudo lindo em 3D e não estava em um momento de vontade de pensar a respeito, então engoli os efeitos especiais e pronto. Queria fazer isso com o resto todo da minha vida, mas em algumas áreas infelizmente não funciona.

Mas ontem vi esse pedaço por acaso, porque minha filha estava assistindo para depois fazer uma entrevista na escola sobre o filme, e, excetuando as maneiras da Rainha Branca que é monótona demais, quase tudo me fascinou. A coisa deve ser boa mesmo, porque fascínio está muito ligado à surpresa, é difícil fascinar-se duas vezes com a mesma coisa com a mesma intensidade (a gente acha que tem coisas que são permanentemente fascinantes, mas não são não, é só olhar bem de perto).

A decisão de ir lá matar o dragão ou não na verdade não era opcional, toda aquela pressão, todo mundo esperando que ela fosse lá e dizendo, mas claro, a decisão é sua, blá, blá, blá. É o nosso dia a dia não é? Faça o que você quiser. Por trás disso leia-se: “contanto que...” “só que não...”, “menos...”, “mas não vá...”, etc. etc. A verdade é que a Rainha Branca, creio eu, na única vez que ela abre a boca no filme todo sem fazer muxoxo, é a que diz o fundamental. Na hora que você estiver lá frente a frente com o dragão, você vai estar sozinha.

Nós todos estamos sozinhos frente a frente com os nossos dragões todos os dias. O dela era o Jabberwocky. Qual é o seu? Por mais que nos cerquemos de família, amigos, trabalho, por mais que coloquemos nossas máscaras todas as manhãs e vamos cumprindo o script de viver na ilusão de que não estamos sozinhos; na hora de lutar contra o dragão estamos sozinhos, sim.


Alice obviamente é muito corajosa e valente, tanto que depois vira mulher de negócios e não princesa ou dondoca como se esperava dela (discutível, hoje em dia ser dondoca dá muito pouco trabalho, é tentador), e vai lutar com o dragão dela. Eu obviamente só sei quem é o meu dragão, assim como a Alice sabia quem era o dela, e cada um de nós conhece o seu e que mundo vai salvar matando-o, se o País das Maravilhas ou a sanidade mental mesmo. Ou o excesso dela.


De qualquer maneira outra coisa que eu tinha deixado passar é que Alice bebe o sangue do dragão para voltar para “casa”. Lindo isso, não é? Matamos nosso dragão, mas o incorporamos a nós bebendo de seu sangue para poder continuar, voltar para casa. E cada um sabe onde é sua casa. E que gosto tem o sangue do seu dragão.

Agora vou ali matar o meu dragão do dia, porque a semana vai ser punk, como dizem as jovens e saltitantes Alices.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

SUPOSTAMENTE FRITOS

Dorothy Coutinho 






 A manhã outonal estava linda hoje. “Aaaaah...” Pensei: vida boa.
- Está bem, não tão boa.
Basta ligar a TV para ver as notícias pautadas: Há gente morrendo de fome em várias partes do mundo, inclusive na minha vizinhança. Tem gente se matando, tem a expectativa das previsões do Calendário Maia de termos um dos verões mais quentes da história nos Hemisférios Norte e Sul, tem o Banco Central comprando dólares para conter a alta da moeda americana, e quando o dólar baixa o BC vende dólares para conter a alta, afinal, é prá baixar ou pra subir? E ainda temos que lidar diariamente, com notícias da suposta verdade oficial sobre a corrupção sempre difícil de entender com escândalo compondo escândalo. Por exemplo: tem o suposto encontro do ex-presidente com um ministro, a suposta conversa entre eles, o suposto adiamento do julgamento da turma do mensalão, a suposta blindagem de partidos envolvidos com o Cachoeira, a suposta viagem do ministro custeada por um contraventor, e tudo, rapidinho, supostamente desmentido. Então, manda a prudência supor tudo, porque nada foi provado e pode ser que continuemos supondo pelo resto de nossas vidas.

O tempo é mesmo o senhor da verdade e que com o passar dos anos ela aparece? Fico na dúvida. Até Tiradentes, um homem que viveu no século XVIII, faz um bom tempo, está sendo esculachado na internet, denunciado como um suposto impostor. Dizem que outro homem, supostamente sem querer, teria ouvido conversas subversivas e por isso teria sido enforcado no lugar de Tiradentes que teria ido morar em Paris. Até Tiradentes levar um cacete desses sinceramente, eu não esperava. Nem supostamente falando. Mas diferente de Tiradentes, não arriscamos nada, e vamos pagando sem chiar ou chiando pouco. Tiradentes arriscou a própria vida porque o governo metia a mão no “quinto” da arrecadação, imposto que pelo próprio nome, devia ser bem menor do que o que pagamos hoje, do qual, na sua enorme e devida proporção vai para o bolso de ladrões e aproveitadores, ou desce pelo ralo da incompetência.

E a verdade “pública” entre nós varia bastante, porque conta com duas contribuições de peso: estatísticas fajutas, que com a maior cara de pau apresentam fatos com percentuais e gráficos maquiados ou fazendo afirmações hilárias do tipo “cem por cento das pessoas que morreram de câncer no ano passado beberam água” e as “conclusões científicas”, baseadas numa ciência tão multifacetada que se desdiz ou contradiz a cada instante. É. A vida não está tão boa! E ainda tem um sentimento que se generaliza entre nós de que algo está fora dos eixos no nosso velho e querido planeta, e que supostamente, estaremos fritos.