sábado, 5 de março de 2011

84, CHARING CROSS. LONDRES

Por Sonja Faria Rosa

Big Ben
Quando Vim Morar em Londres... no ano de 1987, perguntaram-me se no Brasil não era preciso comprar frutas, uma vez que elas estariam por todo lado, questão de apenas esticar o braço e pegá-las. Também perguntaram se haviam cobras nas ruas, se comíamos com garfos e se o Brasil era uma enorme floresta. Parece irreal, mas a maioria dos ingleses ainda acha que o Império Britânico ainda impera no País.

O que fazer ao chegar aqui para ganhar dinheiro?

E o dinheiro era bom. Fui trabalhar na casa de uma família judia, rica até não mais poder. A mulher, calada, não dizia nada. O marido, autoritário, explicava o que devia ser feito. 

- Ao trocar a roupa de cama, preste bem atenção: fronhas quadradas para os travesseiros quadrados e fronhas retangulares para os travesseiros retangulares.

- Really?, perguntei. Logicamente: se viemos para trabalhar para eles, analfabetas devíamos ser.

Eles que se acham de primeiríssimo mundo têm hábitos que no Brasil seriam considerados de 4º mundo. Duvida? Eles não tomam banho todo dia (e põe 3 dias nisso...), arrotam na sua cara e pedem desculpas em seguida (isso quando não fazem pior, sempre com a desculpa pronta na ponta da língua) e nos banheiros públicos há placas ensinando como se deve lavar as mãos.

- Faxina.

British Museum
(Foto: Wikipedia)
O que sabem do Brasil? Que tem a Floresta Amazônica, e claro, que está sendo desmatada. Que tem o melhor futebol do mundo, já não tão melhor assim. Acham a comida estranha e não sabem quase nada da música brasileira, ao contrário dos franceses, que adoram. Mas isto já vem mudando porque cada vez mais muitos artistas brasileiros vêm fazer concertos por aqui.

Existem também várias revistas feitas para os brasileiros expatriados aqui. É, a colônia brasileira cresceu muito, e embora eu não tenha tido contato com os brasileiros, sei que são muito desunidos e invejosos. Sei de brasileiros que denunciam brasileiros com visto vencido e estes, obviamente, são deportados — e de igrejas evangélicas, que proliferam igual mato, que não praticam o que ensinam. Outro dia, enquanto esperava um ônibus, dois brasileiros comentavam como os pastores não os ajudavam.  Se estes contribuíssem para outra igreja senão a deles, aí era esquecer mesmo.

Aproveitando a temperatura de 17 ºC, uma criança
 se distrai no Parque de St. James, em Londres. 

(Dan Kitwood/Getty Images)
Os ingleses, ao contrário, são o povo mais solidário do mundo. Não há duvidas. Ah, e Londres é linda! Na primavera os jardins ficam tão repletos de flores que chegam a parecer pintura. E são flores maravilhosas que raramente existem nos trópicos como tulipas, clematis e cerejeiras. E tudo aquilo que a gente aprendia nos livros de ginásio sobre história antiga está aqui. Eles têm memória. E que memória! Tudo é guardado e conservado. Há sociedades para apreciação do que puder imaginar. E eles apreciam mesmo.

A flor de cerejeira nasceu como representante da
aristocracia japonesa. Sua missão sempre foi ser bonita. 
Os museus, quase todos de entrada franca, são indescritíveis. Além disso, muitos recitais de música clássica ou de jazz, no foyer das casas de espetáculos são também de graça no horário do almoço. E muita gente boa tocando... A cultura que existe aqui é para todo lado, real, fácil e acessível para quem quiser usufruir. E isso compensa tudo.

sexta-feira, 4 de março de 2011

NOBRES DO SERTÃO

Por Ana Laura Diniz

Tudo é sertão, tudo é paixão
Se um violeiro toca
A viola e o violeiro
E o amor se tocam


(Almir Sater/Renato Teixeira)


Vou logo dizendo que embora não seja expert em música, e isso vocês já devem ter notado, sou muito sensível a ela de maneira bem eclética. Não entendo vida sem escala, melodia, cadência, ritmo, pausa. E pensar que a pausa, muitas vezes, é o que faz uma canção ganhar mais significado. Tendo letra ou não. O silêncio quase imperceptível entre uma nota e outra, um semi-tom. Tudo isso me fascina. E seguindo a toada da semana passada, falo um pouco mais do sertão – e devo parar com esse estilo por aqui – no meio dos seus nobres, aqueles que nunca esqueceram a sua origem. 
Já perceberam? Os nobres do sertão carregam na aparência o aspecto desidratado de eucalipto. Suas influências variadas vão do romanceiro medieval, que culminou diga-se passagem na época de Elizabeth, da Inglaterra, ao cancioneiro do nordeste brasileiro, com cordéis e toadas. São compositores, poetas, cantador-cantor, violeiro-violonista que percorrem Brasil afora para manter acesa a tradição da música tropeira, mais conhecida como caipira.


Engraçado é que moro no interior de minas e, ao contrário dos que muitos imaginam, aqui no Sul de Minas as rádios não dão vez para esses artistas.
Grandes nomes como Teddy Vieira e Lourival dos Santos, João Pacífico e Raul Torres, Cascatinha e Inhana (puxa, como já cantei “Índia” sentada na varanda com meus pais e irmãos, em noites de lua cheia. Também é muito bonita a versão mais moderna de Eduardo Dusek), Alvarenga e Ranchinho (e suas inesquecíveis caveiras que se amavam. Também adoro as versões modernas de Tangos e Tragédias; e mais ainda a de Sérvio Túlio), Pedro Bento e Zé da Estrada foram tenebrosamente massacrados pelo capitalismo, pela cultura de massa, acompanhados pela industrialização e pela urbanização da sociedade brasileira, especialmente ao longo do século 20, época de rompimento do “equilíbrio ecológico e social” desse modus vivente.
Mas, apesar da sua desintegração, aspectos dessa cultura ainda sobrevivem na memória de boa parcela da população brasileira. Prova disso são nomes como Tonico e Tinoco, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Tião Carreiro, Zé Mulato e Cassiano, Almir Sater, que ainda bem sobrevivem.


Pseudotropeiros como os famosos Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano, Gian e Giovanni, e derivados, embora insistam em dizer sobre suas raízes, essas duplas se enquadram em um novo estilo de música que se consolidou a partir da década de 80, mais fortemente no início dos idos de 90: o chamado “sertanejo romântico”, o “neo-sertanejo” ou o “sertanejo pop”, que perdoe aos menos uma de minhas irmãs, não gosto. A viola foi substituída pela guitarra, o contra-baixo elétrico, o teclado, a bateria e, às vezes, por instrumentos de percussão. Da música caipira de fato resta a voz aguda, e nem sempre afinada, de algum cantor.


Mas os tropeiros são muitos, ainda que os nomes que rompam a fronteira do mercado sejam poucos. O que vale em geral é a “lei do cão”: o ostracismo implacável a quem não aparece nas ondas do rádio ou da televisão. Dificuldade que nem o programa “Viola, minha viola”, apresentado pela também memorável Inezita Barroso, consegue evitar.

Se há alguma sorte nessa roda de tropeiros – e existe - é só para dizer que toda regra há pelo menos uma exceção. Porque seria impossível não mencionar um artista que se mantém no auge, ainda que totalmente desconhecido pela grande massa.

Vou cantar no cantori primero
as coisa lá da minha mudernage
que me fizero errante violêro
eu falo sério num é vadiage
e pra você que agora está mi ovino
juro inté pelo Santo Minino
Vige Maria que ôvi o qui eu digo
si fô mintira mi manda um castigo
Apois, pro cantadô e violêro
só hai treis coisa nesse mundo vão
amô, furria, viola, nunca dinhêro
viola, furria, amor, dinhêro não.


Já sabem de quem se trata? Elomar, e seu “Violeiro”.



É verdade. O homí, arre égua!, é um dos maiores referenciais da produção cultural popular, mais especificamente nordestina, extremamente apreciado no meio musical e intelectual. Seu repertório é embasado na vida sofrida de povoados castigados pela seca, e a sua técnica e qualidade sonora são de alto nível, a ponto de poderem ser tranqüilamente apresentadas e ovacionadas nos mais refinados conservatórios de música erudita.



Tudo isso pra dizer que o que caracteriza esses nômades artistas, de alma livre e tementes ao “Pai Todo Poderoso", é a força da tradição oral. Afinal, assim como os cancioneiros que vagavam de “reinos a reinos”, os tropeiros carregam mais que a arte: o papel de repórter que informa os causos das outras bandas.

E se analisarmos a história da música popular brasileira, incluindo a comercial voltada ao mercado fonográfico, é fácil traçar que em diferentes momentos houveram retomadas para esse tipo de música caipira de raiz. Até a amada e sempre atual Elis Regina interpretou uma canção que se tornaria um dos maiores clássicos de Renato Teixeira, “Romaria”, evidenciando que o bom da música brasileira não está apenas na mistura das tendências, mas principalmente no que diz respeito às origens do seu povo.




Cascatinha e Inhana: "Índia"


Elomar: "O Violeiro"






Sérvio Túlio: "Romance de uma caveira"

quinta-feira, 3 de março de 2011

SANDRO

Por Fal Azevedo



Ele odeia a mãe dele. 
Odeia. 
Descobriu isso há muito tempo e, claro, não contou a ninguém. 
A velhinha cheira a pomada e a malhas de lã – sim, malhas de lã têm um cheiro. 
Ele odeia a velha, seu sotaque e seu cabelo amarelado. 
Pensando bem, do cabelo amarelado ele tem nojo. 
Odeia suas certezas, sua fragilidade. 
Ele odeia cada centímetro quadrado daquele maldita velha. 
A velha não mora com ele, graças a Deus, a velha tem a sua própria casa. 
Uma vez por mês, Sandro a leva ao mercado e empurra seu carrinho, aguenta seus comentários imbecis – a velha tem opinião sobre tudo – e paga suas compras. 
A velha compra coisas que os velhos adoram comprar, aveia, ameixa, alface americana e geléia real, e fala sozinha com os pacotes na mão. Sandro tem fantasias de acertar a cabeça dela com latas de ervilhas. 
No final, ele embala e paga as compras, bota tudo no carro, leva a velha para casa. 
Descarrega as compras, mas não a ajuda a guardá-las, a velha não gosta porque a velha tem um “método” – a velha tem muitos “métodos” e Sandro odeia cada um deles tanto quanto odeia a velha. 
Depois da visita mensal à velha, Sandro quase se esquece dela, quase esquece seu ódio e seu mal-estar, quase, porque eles estão ali em algum lugar. 
E, mês que vem, ele vai precisar deles.

BLÉ BLÉ BLÉ

Por Fal Azevedo

Meu filho, meus parachoques se você é bem resolvido, magro, in, não fumante, politicamente corretíssimo, tem os dentes brancos, ganha um monte de grana, medita, tem barriga de tanquinho, liga pra sua mãe 20 vezes por semana, descobriu uma tintura/manicure/guru/dieta que mudou sua vida, se você discute relação até com o porteiro, se você só dirige com cinto de segurança. Que Deus te abençoe.

Só deixa eu te dizer uma coisinha: nada, nada, nada, nem esse estado de iluminação astral, de perfeição purificada no qual você e outros deuses do Olimpo se encontram, permite que você fale sem ser perguntado, entre na vida alheia e cutuque.

E nem venha com essa conversinha que você “só quer ajudar”. Os colarinho que você só quer ajudar.

Um ser iluminado, leitor de Pablo Conerrrrrrro, louro-de-olhos-azuis, comedor de tofu, como você, sabe muito bem que o outro sabe das delícias e dos pavores de ser burro, pobre, desorganizado, alienado, gordo, ateu, desorientado, desmemoriado e desdentado.
 
O que você quer, de verdade, é se meter. 
E bancar o gostosão. 
Back off. 
E milhões de bléssss pra você.

A QUEDA

Por Fal Azevedo

Caos humano - bico de pena sobre papel, de Guilherme Kramer

O Sistema Caiu
Parece nome de livro de economista.
Que sistema?
Como assim "o sistema"? 
Quem é "o sistema". 
É Sistema, sistema?
É o sistema solar?
É o sistema Anhangüera-Bandeirantes? 
É um sistema operacional?
É um sistema que adota políticas descentralizadoras?
É um sistema que auxilia a preparação e a composição de alternativas às soluções ortodoxas? 
O sistema que oprime?
O sistema militar? 
É o Sistema Único de Saúde?
Ou é "Senhor Sistema para você – sabe com qual Sistema tá falando?"
Cai-cai-cai-cai, que eu não vou te levantar.
The Sistema left the biulding.
O sistema subiu no telhado. 
O sistema já foi tarde.
O sistema era tão moço, tão bom filho.
Se o sistema caiu, ele que aprenda a levantar.
"Ama, com fé e orgulho a conectividade em que nasceste! Criança! Não verás
nenhum sistema como este! Olha que servidores! Que aplicativos! Que bancos de dados! Que links!" 
O sistema caiu.
Machucou?
Fez dodói?
Quando o sistema casar, sara.
Quebrou algum osso?
Alguém acudiu?
O sistema caiu de maduro.
O sistema descansou.
O sistema foi em paz.
O sistema parecia tão sereno, parecia estar dormindo. 
Cai, cai, sistema, cai, cai sistema, aqui na minha mão.
O sistema é solar?
É neurológico?
É nervoso, coitado?
Cai onde, como foi? 
Escorregou no xixi do gato, caiu, bateu a cabeça?
Torceu o pé no estacionamento do Carrefour e ficou engessado 50 dias ? 
Foi mordido por um cachorro furioso, caiu e teve que reconstituir o tendão? 
Se estabacou no banheiro, entalou no box, tiveram que chamar a vizinha do 403 pra levar o sistema ao pronto socorro?
O Sistema caiu, quebrou os dentinhos da frente, mas tudo bem, eram dentes de leite? 
O Sistema caiu lamentavelmente nas mais recentes avaliações do pessoal?
Despencou do oitavo andar?
Caiu na rede? É peixe?
Caiu no meu conceito?
Caiu em si?
Caiu em desgraça?
Caiu na boca do povo?
Caiu no crime?
Caiu como uma luva?
Caiu na gandaia?
Caiu na real?
Caiu na malha fina do imposto de renda?
Ele que levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima.

quarta-feira, 2 de março de 2011

ENTREVISTA COM O POETA RICARDO AUGUSTO DOS ANJOS


Por Ana Laura Diniz

Ricardo Augusto dos Anjos morava lá na Ponta D’areia, em Niterói-RJ, na década de 60. Lugar bonito onde tinha o solar da condessa Pereira Carneiro, dona do Jornal do Brasil. Isso no tempo em que o Jornal do Brasil ainda era um jornal. Mudou, casou, descasou, casou, mudou, e mudou novamente. Angústias de poeta. Sina de buscar cais.

Apresentado a mim via MSN pela jornalista, poeta e parceira Esther Lúcio Bittencourt há quase seis anos, o encontro real ainda é promessa. Embora verdadeiro seja o sentimento de amizade e admiração que sinta por ele. Muitas conversas a perder horas, a emendar dias. Silêncio mútuo em algumas temporadas. Em Teresópolis, onde mora, o poeta se renova a cada “oi”, indagação, suspiro.

Puro deleite. Honradíssima, caros leitores, o poeta.

Primeira Fonte (Pêéfe) – Como define a poesia?
Ricardo Augusto dos Anjos - Expressão verbal e artística da loucura de um poeta.

Pêéfe – Quais os seus escritores e poetas prediletos? Que qualidades eles têm que despertam o teu interesse?
Não tenho predileções. Todos os peixes que caem (ou caíram) na minha rede de leitura eu provo. Aí então eu engulo ou cuspo fora.

Pêéfe – Quais foram as suas influências?
Li muito Fernando Pessoa, Augusto Frederico Schmidt, Vinícius, Traduções de Walt Whitman, e poetas “femininos” como Hilda Hilst, Marly de Oliveira e Cecília Meireles. E me tornei poeta lírico. Mais tarde, curti os poetas neoconcretos do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB), tendo ensaiado alguns poemas do gênero, procurando uma contenção verbal. Logo após voltei ao discursivo, mas despojado.

Pêéfe – Se comparasse a produção poética das décadas de 60 e 70 com a atual, o que diria sobre poesia e o fazer poesia?
Uma geléia geral, um caldeirão de cultura, manifestações ousadas de música, artes plásticas, e a poesia aí, borbulhando, em retaguarda (volta aos anos 50, no agon, na solidificação do modernismo de 22) e na vanguarda anárquica do happening paralela ao rigor do concretismo e neoconcretismo (sem a tecnologia de ponta de hoje); poesia panfletária, revolucionária, de resistência política e editorial. Hoje é uma linha auxiliar disso tudo, com revisões conceituais na ânsia do novo a começar do zero, na utopia de um big-bang literário, gênese criativa, enfim, poiesis (criação, ação, fabricação), o desejo de criar a partir do incriado, numa ação demiúrgica.

Pêéfe – Qual o papel que a poesia teve nesse passado pouco distante e qual o papel que exerce atualmente? Existe algum poeta ou produção poética que mereça destaque nos dias de hoje? De quem ou qual?
A primeira parte respondi acima. Quanto a autor, voto no meu amigo Marcus Accioly, pernambucano, de quem João Cabral de Mello Neto disse ser “um poeta de primeira categoria”. Drummond também reconheceu em Marcus “uma poesia tão rica e universal”. Suas obras “Nordestinados” e “Sísifo” fazem dele um dos mais criativos e fascinantes poetas brasileiros da atualidade.

Pêéfe – Poesia é algo necessariamente atrelado à emoção ou pode ser estritamente racional? É possível "poetar" sem se sensibilizar? Qual é a "liga" de uma poesia?
Algo atrelado (aliás, poesia é algo) mais aos sentimentos que geram emoção. O racional vem depois, na "construção" das palavras com sua carga de emoção. Isso é a “liga”.

Pêéfe – Como se dá o seu processo de criação? Você tem alguma rotina? Como é a construção, a palavra, o verbo?
Não sou poeta profissional. Confio muito na inspiração. Alguma transpiração. Sou um poeta passional. Logo, mais retina interior que rotina exterior. Construção? Trabalho com ruínas emocionais, parto da desconstrução para a construção, que posso chamar de discurso analítico. Sem sigilo, pois a vida não é um crime perfeito.

Pêéfe – Você acredita em novas formas de se fazer poesia ou acha que já foi tudo feito?
É um círculo. Tudo foi feito e não foi feito. O fazer (fabro) é contínuo até fechar o círculo que nunca se fecha. Quem ganha com esse moto-perpétuo é o mercado editorial.

Pêéfe – Você se preocupa com o caráter efêmero ou perene do seu trabalho?
Essa preocupação quem deve ter é o leitor que porventura me conheça. Sou mais inédito que édito. Com apenas duas pequenas publicações que já se perderam no tempo, sem repercussão após os lançamentos.

Pêéfe – O fato de ser neto do poeta Augusto dos Anjos, famoso pela originalidade temática e vocabular, já o ajudou ou atrapalhou em algum momento? Por quê? Poderia de alguma forma avaliar a obra do seu avô?
Sou mais conhecido como neto de Augusto, sobre quem já fiz cinco palestras em espaços culturais do Rio, Niterói e Teresópolis, onde estou radicado há quatro anos.

Sobre a relação da poesia dele com a minha, o olhar é de Nelly Novaes Coelho, mestre em literatura, e editora de meu livro Agrolírica (1974): “Ricardo dos Anjos situa-se em pólo oposto ao da tragicidade letal que singularizou o pensamento de seu avô. Energia vital, solaridade, lucidez ante a dramática/luminosa condição humana e a nova linguagem que deve expressá-la: é o que define esta Agrolírica, que nos coloca diante dos fenômenos mais típicos da poesia atual: o rigor construtivista da palavra fundido com um erotismo radical e telúrico, evidenciado na identificação Mulher/Terra, verdadeira ponte vivencial entre o Homem e seu Encontro com uma nova práxis e uma nova consciência ontológica”.

Agora, quanto a Augusto dos Anjos, sua única obra – EU –, plena de expressivos e impactantes poemas, dá a medida exata e antecipada (desde a sua época, e hoje confirmada) da modernidade, da vanguarda, ou pré-vanguarda do autor.

Como assinalo em minhas palestras, Augusto é poeta de e para todas as gerações ou exagerações ou degenerações, sobretudo em tempo de crises. Crises pessoais e coletivas, sociais – via opressão econômica e/ou brutalidade física. E também crises espirituais, que estão sempre acopladas, interligadas às demais crises, ou surgem destas.

O que mais impressiona é a sua contextualidade através dos tempos. Nesse sentido, o EU sempre foi e ainda é bem atual, ou melhor, contextual, exprimindo e espremendo, por exemplo, a amarga realidade brasileira. Um grito de revolta contra as injustiças, sejam elas individuais ou sociais ou até tecnológicas; contra a opressão exercida sobre os excluídos. Enfim, Augusto dos Anjos e sua poesia é crítica e autocrítica do homem violento e violentado. Poeta das gerações em revolta, da margem, do homem doente de si mesmo, poeta da morte. Daí a sua popularidade, mediante a identificação com todos os EUS, todos os EGOS, apesar da linguagem que emprega, tida como “difícil”, hermética.

Aliás, a linguagem cientificista e erudita, mixada à linguagem mais acessível, mais prosaica do cotidiano, é outro aspecto que mostra ainda Augusto dos Anjos crítico social, preocupado e revoltado com a devastação ecológica e das comunidades indígenas, as exacerbações morais, a corrupção, a prostituição, além de cantar a decomposição do ser, e o amor sem amor que a humanidade inspira.

Pêéfe – Que dica você daria para essa juventude que sonha em ser escritor, poeta?
Leia bastante e escreva. Cuide do léxico e de suas “licenças”. Escreva e rasgue se não achar que ficou bom. E volte a escrever. O primeiro leitor e crítico deve ser você mesmo. Satisfaça-se. Não aprisione sua expressão.

                                             ***

Antecâmara do Espanto
Ricardo Augusto dos Anjos


1.
Não sei o que primeiro
-- pranto ou espanto –
estalou na alma
como um ovo oco

Só sei que habitamos
um teto de aranhas
a tecer negras nuvens
em torno do sonho

O verso nos sustém
a forma e o susto
porém nos liquefaz
se continuamos surdos

Não é bem o espanto
que nos causa medo
e sim o próprio pranto
no travesseiro

Pior, antes do pranto,
o gesto da direita
apalpando a ausência
da companheira

2.

O passado é um olho podre
que permanece atento

3.

Se estamos, é porque existe espelho
e nós, hirsutos, frente a frente a ele
curtindo o que de nós ao rosto aflora
com a mão na madrepérola da navalha

aguardando a hora e o grito antecipado
para sangrar bem o túnel dos olhos
e fazer do sangue espesso rio vivo
distribuindo o espanto pelos fios

HELLO, DOLLY! EU SOU VINTAGE!

Por Dorothy Coutinho

Se me sinto rígida feito um membro da guarda real, levanto a bunda da cadeira, ocupo a sala, aumento o som, esqueço os vizinhos, e por meia hora, sob o olhar curioso, às vezes de protesto, do meu cão Farofa, libero os meus movimentos e me entrego ao embalo da dança. Esse tem sido um dos meus momentos para ficar feliz.

No entanto, ser ou estar feliz, no contexto que conheço significa o cumprimento das metas tradicionais: bom emprego, ganhar algum dinheiro, casar e ter filhos. Conseguir se enquadrar como o esperado. A vida tal qual manda o figurino. Feijão com arroz.

Mas, o que fazer com minhas outras ambições e com o meu lado transgressor? Ser feliz é tão importante que passei a entender que mais vale uma vida sem fricote. E se o meu apocalipse cair numa sexta-feira, só pra me esculachar, ainda haverá tempo para eu dizer coisas como: esperei aí! E o dinheiro da Loteria vai ficar com quem?

Já troquei de cidade, investi em projetos sem garantia, interessei-me por gente desinteressante, aceitei estranhos convites, mudei a minha cor preferida, troquei meu prato predileto, comecei do zero, não me assustei com a passagem do tempo, tosei o cabelo, fiz loucuras por amor, e continuo subindo no palco com a minha passagem só de ida.

Inconseqüente? Não. Não precisamos perder nada disso com a passagem do tempo. Quero que o fato de ter uma vida simples e prática não me roube o direito ao desatino e que eu nunca aceite a idéia de que a maturidade exige um certo conformismo. A vida interessante não é prerrogativa de nenhuma classe. Ela é acessível a todos que assimilam bem as regras do jogo – trabalhar, casar, ter filhos, morrer e ir pro céu.

E vai estar tudo lá: o suicídio do Titanic, o naufrágio do Getúlio, a história do terrorista Bin Laden, o Nem do Paquistão, Homero, Sarney - o 4º escritor mais velho do mundo, cuja idade ninguém sabe por que ele tinge o bigode, e muito mais.

Mesmo com a urucubaca da idade, eu não sou velha: eu sou vintage!

terça-feira, 1 de março de 2011

PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W. O NOME DA CIDADE

Por Esther Lucio Bittencourt


Chegada de avião ao Rio, que completa hoje, 446 anos

No início da década de 80, quando morava em Belo Horizonte, todos os meses ia ao Rio de Janeiro. Quando a asa do avião que eu via da janela contrastava com o azul do mar, inevitavelmente, sempre, cantarolava de Tom Jobim “minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudade...”

Há 17 anos eu moro em Caxambu, Minas Gerais, onde tem aeroporto mas nenhum avião comercial. Então vou de carro para o Rio. Desço a Serra das Araras e logo depois entro na Baixada Fluminense para pegar a Linha Vermelha. Pego, aliás, antes, um congestionamento infernal de uma obra eterna que ocorre na altura da Baixada; depois, na Linha Vermelha, recebo todo mau odor dos dejetos jogados naquele fim de praia. Vou até Copacabana onde as ruas cheiram a urina até conseguir respirar ares mais sociáveis em Ipanema, Barra (da Tijuca) e Recreio.

O Rio do qual eu sentia saudade não existe mais para mim.

O perfume, o cheiro da maresia, do sal secando na roupa, o corpo agradavelmente ardido, um mar sem água viva morta, sem algas despedaças, sem detritos boiando, este mar reside na minha lembrança na música de Tom Jobim.

Hoje quando eu estou no Rio, sinto saudades de um trecho da estrada que liga Caxambu a Aiuruoca (MG), onde há uma seta apontando em direção a um local onde nunca estive, e certamente nunca irei, porque quero guardar a impressão de quando chegar lá encontrarei tia Zulmira e o primo Altamirando, personagens criados por Stanislaw Ponte Preta.

Hoje o Rio faz 446 anos, e a síntese da cidade para mim é essa música de Caetano veloso – O nome da cidade – assim como a memória da cidade para mim se reduz na Boca do Mato entre Caxambu e Aiuruoca, onde pressinto que também está o mar da minha saudade.  

HELLO, DOLLY. A GAGUEIRA E A VOZ!

Por Dorothy Coutinho

Levando em consideração que o modelito da minha roupa colocaria em evidência meus defeitos visuais, declinei do convite para acompanhar e assistir diretamente do exíguo estúdio da emissora brasileira, a transmissão de entrega do Oscar. O convite partiu do Zé, grande ator brasileiro, que no sublime ridículo anual, vestia um smoking para transmitir o mais longo espetáculo do mundo. Fala sério!

Sou atraída pelo som de uma voz: seja a do amor, da ternura, do espanto ou da dúvida, a do lamento, da dor, da loucura ou da raiva. Grave ou aguda, rouca ou rascante. E imagino a dificuldade de uma pessoa que na tentativa de falar só consegue repetir sílabas. Santo Deus!
Para os hindus, tudo começou com a sílaba OM, até hoje pronunciada para estabelecer o contato com as origens.

Aristóteles definiu o ser humano como um animal racional, mas poderia ser “um animal falante”.
Quem fala define a sua personalidade e a voz passa a ser a porta de entrada para a realização pessoal. Uns acertam o tom, outros nem tanto, e alguns até se atrapalham, como no caso da peleja do rei que era gago, para domar sua disfemia exibida no filme vencedor do Oscar.

Para o entendimento subjetivo da importância da voz, podemos lembrar que Mozart só mostrou sua voz aos 21 anos quando compôs o seu 1º concerto para piano. A partir dali o grande Mozart estava vivo.

O mesmo aconteceu com Beethoven e sua sinfonia “Heróica”.

Machado de Assis só descobriu a sua voz quando escreveu as Póstumas do Brás Cubas. Para ele gago e epilético, foi libertação.
Hitler, no virtuosismo verbal, encobria uma mente assassina.
Churchill, que sabia falar, disse ao povo do alto de sua missão e com seu vozeirão: “só posso oferecer-lhes sangue, suor e lágrimas”.

A voz – em forma de discurso – também é parte inseparável da atuação política no Brasil. Sua referência histórica é Getúlio Vargas que num tom meio solene, meio República Velha, sabia falar aos “trabalhadores do Brasil”.

Juscelino também tinha um discurso, mineiro e arrojado, que conseguiu criar a sensação de que o Brasil podia dar certo.

Fernando Henrique com talento e substância, comportou-se como um professor, sem falar e explicar melhor ao povo o que era o Plano Real.

O Lula deitou, rolou e reinou durante oito anos.

“Nunca antes na história desse país”, um presidente havia conseguido dar a sensação ao povo de que ele ouvia a si mesmo. Daí o seu sucesso incomparável.

Mas, e a presidente Dilma, hein? Tão sóbria e tão digna! Assim como o sofrido rei e gago Jorge VI, ainda não descobriu a sua própria voz.

Saudades da voz de Nelson Gonçalves, o melhor cantor – e gago do Brasil!

QUITANDA DA VIDA XVI

Por Telinha Cavalcanti

Amor Genérico

Este ano eu completo 12 anos de casada com Amado Marido. E sempre teve uma sobremesa especial nas nossas comemorações de aniversário: o bolo com sorvete crocante da Amor aos Pedaços.
Só que nos últimos anos a coisa mudou: não tem mais Amor aos Pedaços no Rio de Janeiro... O jeito foi fazer o Amor Genérico :)


Amor Genérico

Fatias de bolo branco (aquele bolo de baunilha, simplinho e honesto, que você faz desde sempre. Use metade da receita, se quiser ser virtuosa e fugir do pecado da gula. Eu, pecadora, confesso a Deus Pai e a vós, irmãos, que desse pecado eu não fujo, e sempre sobra bolo para comer depois)

Sorvete de creme

Brigadeiro em ponto mole (no sorvete original, essa cobertura é de caramelo)

Crocante de caju (você compra nas boas lojas de confeitaria. ou deixa sem. é mais figuração, mesmo)

Então, seu Amor Genérico vai começar assim:

Em um pirex fundo, coloque uma camada grossa de sorvete de creme. Sobre ela, fatias do bolo, bem arrumadinhas. Mais uma camada de sorvete. Coroando isso tudo, o brigadeiro molinho - e, criança do meu coração, não cubra com brigadeiro quente senão, né? o sorvete derrete. Se você comprou o crocante, jogue por cima. Leve ao congelador e deixe umas horas antes de servir.