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sábado, 28 de maio de 2011

84, CHARING CROSS. O MUSEU DO PRADO - PARTE I

Por Ana Paula Medeiros



Ah, o Museu do Prado, na Espanha. Fui numa quinta-feira. Cheguei lá pouco depois da hora que abriu, emocionadinha. Rolava uma exposição paralela, só de Francis Bacon, numa ala separada, mas era um ingresso pago à parte. Juntando isso com o fato de que eu só teria aquele dia para visitar o Prado, achei melhor priorizar a coleção permanente, e o Bacon ficou pra outra vez. Não podia fotografar nem sem flash, e dada a quantidade de câmeras e guardinhas em cada sala, eu imaginei que era melhor não arriscar. De mais a mais, pra quê? A maior parte dos quadros está na internet, nos livros de história da arte, até em postais e catálogos vendidos na lojinha, com uma qualidade muito melhor do que eu conseguiria sem flash, escondido e driblando todos os turistas na minha frente.

Antes de começar o tour, devo contar duas coisas que me chamaram a atenção. Uma foi que em praticamente todas as salas havia uma reprodução, em curso, de uma das obras-primas expostas. Explico: acho que eram estudantes de arte, de pintura, alguma coisa assim, e estavam lá, de cavalete montado, um professor rondando e dando pequenas instruções, e o cara ali, tentando reproduzir um daqueles quadros. Achei muito legal. Ajuda a gente a se dar conta (como se precisasse) da dificuldade que é achar aquele tom de pele, fazer brilhar aquele reflexo num cabelo ou num olho, mostrar aquela sombra na dobra da roupa. E olha que o aluno nem tem que se preocupar com o tema ou a composição, que já estão dadas.

A outra coisa que me encantou foi ver, ao longo de todo o dia, várias excursões de alunos ao museu. E não eram alunos adolescentes, nem sequer crianças, eram praticamente bebês. Turminhas de 3, 4 anos, que não sabiam ler ainda, passeando em filas, mãozinha no ombro do colega da frente, com as professoras mostrando a eles as coisas. E o mais legal, é que não era uma explicação inútil sobre o autor da obra ou a simbologia do quadro, ou sequer sobre os personagens retratados, que não faria nenhum sentido para eles. Era só uma coisa de percepção de cores e formas gerais, e sobre as impressões espontâneas deles, o que era bonito, ou feio ou assustador. Eu achei genial. Você vai impregnando as criancinhas com arte desde cedo, de forma que passe a ser quase natural para elas estar dentro de um museu, apreciar uma obra de arte, se familiarizar com artistas, pinturas, esculturas, com todo aquele ambiente. E eu vou te dizer, as criancinhas pareciam estar gostando daquilo.

Ainda antes de falar dos quadros, uma outra coisa que eu fiquei estatelada de ver foram as mesas com mosaicos de pedra, quase todas com etiquetas que contavam que tinham sido presente de algum nobre a um chefe de estado ou eclesiástico e vice-versa. Os trabalhos mais fantásticos, com flores e animais luxuriantes, retratados em pedras cortadas com perfeição e montadas em tampos que encimavam mesas espetaculares, de madeiras nobres, pés trabalhadíssimos, eu fiquei completamente uau.

Agora vamos nós. Eu peguei um mapinha e tentei ir acompanhando sala a sala, na ordem. As primeiras coisas que vi foram os Tintorettos. A luz explode, as cores são claras e lindas. Do Veronês, eu gostei especialmente de Susana y los viejos. Deus, o que é aquele brocado? Parece cintilar ali, na sua frente, a gente sente a textura do tecido, da pele da Susana.


Depois, acho que vi Goya. As pinturas negras têm caras aterradoras. O sujeito sabia compor um clima nos seus quadros. Saturno, que é uma das mais conhecidas, é terrível, chega a dar um arrepio na gente, ver a representação que ele cria do deus que comia os próprios filhos. Os velhos são descarnados, cadavéricos, de órbitas quase vazias. Eu me encantei com Perro semihundido. É uma tela quase vazia, os tons de fogo e terra, e só um focinho canino aparecendo, muito assustado, mirando o vazio, sem entender coisa alguma. O cãozinho é a própria expressão do abandono diante do Nada, dá vontade de pegar o bichinho e trazer pra casa e garantir que nada, nunca mais, vai ameaçá-lo.



Mais pinturas. As do Renascimento têm cores vivas, brilhosas, a composição é rigorosamente geométrica, dá pra decupar as imagens em figuras como triângulos e losangos. Tudo é bacana, mas os tecidos me deixaram fascinada: brocados, cetins, véus transparentes, veludos, dobras. As cores, texturas, bordados, rendas, brilhos, tudo com absurda nitidez.

E quantos homens imponentes retratados, sisudos, arrogantes, cheios de soberba em suas capas, chapéus, espadas, poses. Deus me perdoe a impertinência, mas eu juro que eu ficava olhando aquelas figuras e imaginando como devia ser amá-los. E me dava um asco imediato. Eu não devo regular bem da cabeça.

Nas composições religiosas, muuuuito frequentes, diga-se, eu achava engraçado perceber que o menino jesus quase sempre apresentava uma proporção errada da cabeça com o corpo. A cabeça parecia menor do que devia ser pra um bebê daquela idade, quase como se ele fosse um mini-adulto. Procede isso? E que enorme quantidade de Sagradas Famílias. Um monte delas de Rafael. Mas eu fiquei com a impressão de que em todas elas, Maria era muito parecida, ainda que os outros personagens variassem (São José cada hora tinha uma cara diferente, ou Santa Ana, ou os bebês Jesus e João Batista, mas as feições de Maria eram sempre as mesmas). Pode ser que ele tenha usado a mesma modelo para o papel?

Por falar em Rafael, o que é aquele Cardeal? O cara salta pra fora da tela! O braço está nitidamente à frente do resto do corpo, parece que vai sair da moldura, é tridimensional aquilo. Tinha um desses alunos tentando fazer uma reprodução do cardeal, e eu via que o menino suava pra tentar dar vida ao rosto do eclesiástico, sem o menor sucesso. Aí a professora se aproximou e chamou a atenção para o detalhe da luz na ponta do nariz. Eu olhei, e não é que é mesmo? Nossa, dava pra escrever um texto inteiro só sobre esse quadro. Eu nem vou falar sobre o fato de ele apresentar a mesma composição da Mona Lisa, porque isso eu tinha lido antes, então não foi nenhuma sacação minha. Mas não é que é mesmo?


A Anunciação, de Fra Angelico. Eu AMO aqueles dourados meio bizantinos (é folhação a ouro mesmo!), a perspectiva ainda incipiente. Aliás, todas essas pinturas do século XIV, trípticos, retábulos, tudo monumental e dourado, eu acho lindo. Ainda apresentam os arcos orientais, bizantinos, e não os arcos plenos que voltarão hegemônicos com o Renascimento. Há uma espiritualidade, um misticismo nessas pinturas que eu acho que se retrai muito com toda a racionalidade renascentista. Deixei-me ficar um tempão respirando esse momento, até me dar conta que eu ainda tava no primeiro andar e era quase hora do almoço!

A seguir, vieram os flamencos. É outro traço, né? E fiquei reparando, são outros rostos, outras mãos e pés e olhos. Outras cores também. E montes de detalhinhos minúsculos, uma profusão de pequenos objetos e seres e elementos. Essa coisa da cor, eu fiquei pensando. Estamos no século XVI, XVII. Não dá pra ir ali na papelaria da esquina e comprar tubos de tintas de tudo que é cor, e pincéis de cerdas disso e daquilo, numerados por tamanho, e telas padronizadas. Devia haver poucos pigmentos, e dependendo do fornecedor, da escassez da matéria-prima, de um monte de fatores que eu nem sei enumerar, cada pintor devia conseguir fazer um azul, um vermelho diferente. Daí que, em regiões distintas, as cores predominantes nas telas também serão distintas. E vai da maestria do artista saber se virar com aqueles tons e tirar dele todas as nuances de cor e luminosidade.

O Triunfo da Morte, de Brueghel, é de cortar a respiração, doer as juntas dos dedos, e arrepiar os cabelinhos. Se a gente fica olhando muito praquilo, reparando nos detalhes de horror, perde até a fome, porque o sorriso já terá sido apagado há muito tempo. A Rowling deve ter posto uma imagem desse quadro na frente quando bolou os dementadores.




Já o Jardim das Delícias, de El Bosco, é como se fosse o reverso da mesma medalha. Mas você já escreveu muito melhor sobre esse quadro, lá na apostila de história da arte, do que eu poderia sonhar em fazer.

Nesse ponto, na minha caderneta, há uma anotação que eu já não sei se diz respeito a outros quadros do El Bosco, ou a outros quadros em geral que eu tava vendo nessa hora. Acho mais provável a segunda opção. A anotação diz que a Virgem está quase sempre de olhos baixos, recatados, raramente ela olha para a pessoa que está ali, vendo a imagem, isso me causou uma impressão.


... Vencida a primeira parte, semana que vem mostrarei o segundo andar do museu... seguimos juntos, sim? Até lá!

sábado, 21 de maio de 2011

84, CHARING CROSS

Aspecto geral do Centro de Madri


No sábado, 7 de maio de deste ano, publicamos nessa coluna o início do relato de Ana Paula Medeiros sobre sua viagem a Madri que culmina com descrições sobre o Museu do Prado. Entre uma interrupção e outra, tivemos Alline, a titular da coluna, escrevendo sobre sua viagem maravilhosa ao dar à luz Norah.
É impressionante o sentimento de união de todos os que cobriram e ainda cobrem a licença maternidade de Alline nesta empresa onde a moeda de troca é o amor, a amizade, a admiração e o respeito que sentimos umas pelas outras. Hoje, retornamos com o fim do relato de Ana Paula sobre sua viagem à cidade espanhola.
Todas as fotos postadas fopram feitas pela autora do artigo. (quem desejar ler o início do artigo é só colocar o nome da autora do mesmo na caixa de pesquisa do Primeira Fonte)
No último artigo ela havia terminado assim:

"DIA 2, segunda-feira

...............................................................


Amanhã, a outra rota do madrid-visión (eu comprei ticket válido para dois dias), com Puerta del Sol, Plaza Mayor e Palácio Real. Se der tempo, visito um dos museus da minha listinha, provavelmente o Reina Sofia, que é aqui do lado e que tem um anexo moderno que eu achei um show de arquitetura."



UM ANO QUAlQUER EM MADRID

precisamente em 2009

Por Ana Paula Medeiros

DIAS 3 e 4, terça e quarta-feira

Bom, da última vez que contei pra vocês da viagem, o D. estava gripado. No dia seguinte, terça-feira, que foi o dia 3 da viagem, ele amanheceu ótimo, e eu acordei muito pior. Nariz entupido, dor de garganta. E chovia, o dia todo, aquela chuvinha muito fina que não chega a impedir o passeio, mas também não justifica abrir o guarda-chuva. E esfriou. O dia todo eu andei pela cidade com temperaturas entre 4 e 7 graus. Mas andei. Foi o dia de ver a parte mais antiga.

Primeiro, eu fui ver a Plaza de Toros. Odeio touradas com toda força, quero mais que o touro mate todos os toureiros. Mas fui ver o lugar assim mesmo. É uma espécie de estádio, construído agora na década de 20, em estilo eclético de inspiração mourisca. Bem interessante, como arquitetura. Tirei fotos, tomei meu café com leite quentinho num boteco e peguei o metrô de volta.

Aliás, parênteses. Não tem nada pior que pegar o metrô cheio, com a calefação quase cremando os cidadãos, num dia tão frio. Ou você fica numa trabalheira de tira casaco, bota casaco, ou aguenta o calorão com cheiro de suor dentro do vagão, e toma o ar gelado na cara quando sai. Either way, não tem garganta que resista.

Eu ainda tinha um dia válido do meu ticket do ônibus de turismo, o Madrid Visión, e fui fazer o circuito 2, histórico. Foi um dia de fotografar menos e sorver mais a cidade. A língua também destravou de vez e eu fiquei soltinha, soltinha pelo espanhol. Pra dar uma idéia, eu botei os fonezinhos de ouvido no ônibus, pra acompanhar as explicações, e nem me dei conta de que estava ouvindo em espanhol.

Apesar da chuva, andei toda a Gran Via a pé, como me recomendou a Fal. Comprei bobagens, depois tomei o ônibus de novo, que dá a volta lá pros lados do Palácio Real. Vi um templo egício. Comassim, bial? É que no século XIX, arqueólogos espanhóis ajudaram numas escavações no Egito, e em reconhecimento e agradecimento, o governo egípcio DOOU para a Espanha um templo inteirinho, ou pelo menos o que sobrou dele. Não sei como foi transportado, mas tá lá, Templo de Debod. Na verdade, uma capela, pequeno mesmo para os padrões de templo que se faziam no Egito. Independente de achar esquisito esse negócio de desenraizar uma coisa que só faz sentido no seu lugar de origem e reconstruí-la não mais como arquitetura, mas como cenário em outro lugar, achei que a intervenção atual (essas coisas que se fazem para dar conforto e segurança, portas de vidro, climatização, câmeras, comunicação visual) foi muito cuidadosa, com a estrutura metálica independente e discreta, nem tocando a pedra. Pelo menos isso.

Templo de Debod

O conjunto Palácio Real, Jardins de Sabatini (vou procurar mais sobre esse arquiteto e paisagista barroco, achei um trabalho muito bonito. Padrãzinho bem francês de jardinagem, mas sem a escala excessivamente grandiosa dos franceses, uma delícia) e praças ao redor é fantástico, e eu fiquei encantada.
Chutei o pau da barraca e paguei o ingresso pra visitar o palácio todo, com direito a souvenir na lodjinha. Fal, a Catedral de Almudena tava em obras, mal deu pra ver. Mas eu fiz tudo que tava no roteirinho que você me mandou, tá?

Voltei cedo pro hotel e deixei pra bater perna na Plaza Mayor no dia seguinte, porque a gripe apertou e eu cheguei no quarto com febre e dor no corpo todo. Foi uma noite complicada.

Paseo de La Castela com Torres de Kio ao fundo

Ainda dá pra mais um dia?

No dia 4, já sem poder andar de grátis no onibusinho de turismo, e me sentindo melhor depois de deixar o própolis pra lá e encarar o cataflam pra poder dormir, peguei o metrô e saltei na Puerta del Sol, centrão mesmo. Pirei por duas ou três horas dentro do El Corte Inglês. a Naty é que sabe, eu fiquei mandando sms pra ela de lá. Comprei o trench coat mais viado pra Emma, cereja, com capuz e cintinho. Acho que ela só vai usar quando tiver com quase 1 aninho, mas eu não resisti. Ainda mais que, da mesma forma que com os casacões das vitrines daqui, aos 42 graus na Tijuca, lá também está nas lojas a coleção primavera-verão, vestidinhos vaporosos e camisetinhas regata, enquanto lá fora o têrmometro marca 10 graus e o povo anda de sobretudo pesado, cachecol de lã e luvas. Logo, o que sobra de roupas de inverno está em liquidação, e o trench coat da Emma foi uma pechincha (ai, não é de bom tom ficar dizendo pro presenteado quanto a gente pagou pelo presente, muito menos admitir que comprou no saldão e pagou barato. Putz, Naty, foi mal...).

Comprei batonzinho bourjois, creminho pras mãos e uma meia calça pra minha irmã, que tinha pedido. O resto foi só olhar mesmo. Mas foi bão! Depois, andei a esmo pelo centro, entrando e saindo de ruelas, batendo fotos e curtindo as várias portas de entrada da Plaza Mayor.

Plaza Mayor , vazia em dias de inverno

Depois do almoço, fui ver o Museu Reina Sofia, de arte mais contemporânea.
Fal, eu olhei com imenso carinho e interesse os Juan Gris e os George Braque, gostei desses caras. Depois, tinha umas pinturas de uma mulher, Maria Blanchard, que também me impressionaram bastante, especialmente "Mujer con abanico". E teve a Guernica, né? Como eu te disse, a gente nunca está suficientemente preparado para a Guernica. Eu entrei e saí da sala várias vezes, aproveitando que, surpreendentemente, não estava lotada de turistas. Eu olhava de soslaio, espiava as bordas da pintura, olhava as outras obras do Picasso (adorei as gravuras), dava uma volta, depois ia lá de novo. Quase saí correndo com o filhinho de uma turista alemã pra bem longe dali. A guerra civil realmente é um trauma pra eles. Várias fotos, recortes de jornais, manifestos, e não foi só ali naquele museu que eu vi isso, mas
praticamente em todos os lugares que eu visitei. Sempre havia uma maneira de fazer menção ao ocorrido, mostrar o que foi destruído, falar dos que lutaram, dos que morreram. A esse respeito, tinha uns desenhos, acho que umas águas-fortes (técnica que eu adoro) de Horacio Ferrer (que eu não conhecia), espetaculares.

Mas de tudo, o que mais me tocou, no sentido de capturar a alma, emocionar e paralisar foi mesmo a Menina na janela, do Salvador Dali. Um quadro que ele pintou em 1925, aos 20 anos, ainda não surrealista, supostamente retratando a irmã dele. A luz, os azuis, o diáfano da cortina, dos tecidos, a sensualidade despojada dos quadris da moça, os tons ocres do quarto fazendo moldura pra paisagem luminosa da janela, tudo ali me encantou. Engraçado como essas coisas acontecem e a gente não sabe explicar bem o por quê.

Finzinho de tarde, mas ainda claro. Saí do museu, que era do ladinho, colado ao hotel, e fui encontrar meu maridinho, pra modi a gente passear juntinho também. Fomos ao Parque do Retiro, coisa mais deliciosa.

DIAS 5, 6 e 7, quinta, sexta e sábado

Na quinta-feira, o D. combinou que a gente ia jantar na casa de um amigo dele, na verdade, um parceiro de trabalho, o cara pra quem ele trabalhava no começo, antes de ter a própria empresa, e que ainda hoje desenvolve umas coisas junto com o Décio e os sócios. Ele é finlandês, muito gente boa, e casou-se há poucos anos com uma espanhola, da Galícia, com quem tem um filhinho de 1 ano e 3 meses, a coisa mais fofa. Moraram um tempo em Barcelona e recém se instalaram em Madri.

Mas antes disso, o Prado. Tirei o dia todo pra me internar no Museu do Prado, cheguei lá quando estava abrindo, às 9, e só saí às 5 da tarde, pra ir pra casa do cara. Não há fotos, porque é proibido fotografar dentro do museu, mesmo sem flash. Eu levei um caderninho e escrevi páginas e páginas (a Fal pediu relato completo, eu fiz. Depois faço um adendo com essas observações).

Sobre a visita, observei umas coisas interessantes. Primeiro, o cara mora num lugar ótimo, bem perto da área central, metrô na porta, e numa avenida que é um calçadão, na verdade, sem trânsito de veículos. Gostei imensamente do tratamento urbanístico da praça, limpo, moderno, lúdico. Há umas placas no piso, de bronze, esculpidas em alto-relevo, geniais, salpicadas no meio das placas de cimento que conformam o piso da praça. E frisos fininhos em vidro, com luminárias embutidas, também no piso, que à noite são acesas, causando um efeito inusitado e interessante. Nas fotos dá pra vcs terem uma idéia melhor. Eu adorei.

A outra observação foi sobre a vida e a casa dos nossos anfitriões. Refleti sobre umas coisas ali. Eles são um casal jovem, ambos na faixa dos 35 anos, ambos trabalham, e eu sei que ganham bastante bem. No Brasil, com nossa estrutura patriarcal, provavelmente, na faixa de renda deles, morariam num apartamento amplo, teriam carro, empregada e babá. Lá, usam transporte público, moram num apartamento extremamente bem localizado, mas pequeno, e fora a creche, onde o menino fica alguns dias e horários da semana (tá pensando que é tempo integral? nananina) para que eles trabalhem, não há ninguém para fazer os afazeres domésticos, que eles mesmos têm que realizar.

Reflexão 1: em condições assim, não há espaço para desperdícios, 35 pares de sapato, acúmulo de quinquilharias, bibelôs, móveis e eletrodomésticos. É tudo compacto e low profile. De fato, eu senti, na Europa, não apenas desta vez, mas de outras também, um ritmo de consumo menos desenfreado que o nosso, o que eu acho tão bom e tão calmante. Acho que nós nos americanizamos demais, e conjugamos isso com a herança burguesa-colonial portuguesa no que ela teve de pior, shame on us.

Reflexão 2: em condições assim, a única maneira de se estruturar o dia-a-dia é com uma partilha maior de tarefas entre homem e mulher. E de fato, a impressão que eu tive é que os dois ali têm que se dividir, nos horários e formas que cada um pode, com os cuidados da casa e do filho, e assim é feito. O T. trabalha num esquema parecido com o do D., portanto às vezes passa muitos dias em casa, quando não está dando curso, como foi o caso desta semana. Então, ele tinha buscado o menino na creche, dado banho, e ele que fez a janta. A mulher chegou,nós saímos pra um passeio e um café, e voltamos para jantar. Fiquei muito à vontade no esquema aconchegantemente familiar com que nos receberam. Ah, sim, bebemos umas 4 garrafas de vinho no total. Um tinto enquanto comíamos uns aperitivos, outro branco, durante a sopa e os camarões, mais um tinto acompanhando a carne e purê de castanhas, e depois uma seleção de vinhos (um espumante espanhol, um porto e um branco quase docinho) para a sobremesa, com doce de marmelo e queijos. Tava uma delícia.

Monumento nos Jardins Del Retiro

Na sexta-feira, dia 6 da viagem, eu fui a Segóvia, que fica pro noroeste de Madri. Cidadezinha bem antiga, com restos da ocupação romana (um aqueduto do século I d.C. ainda de pé, bem na entrada da cidade) e as muralhas medievais bem marcados na paisagem e na identidade urbana. Amei de paixão, nem a chuvinha fina atrapalhou. Igrejas e praças dos séculos XII, XIII, XIV, pra todo lado. Vestígios palpáveis da presença dos mouros nas fachadas, nos azulejos, nos arcos e cores da cidade. O mais impressionante foi a visita ao Alcázar, que é um palácio cuja existência remonta ao século XII, e que neste meio tempo foi sucessivamente sede de governo, fortaleza militar, prisão e palácio residencial de diversas famílias reinantes. O termo Alcázar é de origem árabe e designa exatamente isso: sede de governo. Pra vocês terem idéia da importância do negócio, durante toda a idade média, ele foi uma fortaleza chave para o domínio dos reis de Castela, e foi de lá que a Isabel católica (aquela mesma que casou com o Fernando de Aragão e financiaram a viagem do Colombo) saiu em 13 de dezembro de 1474 para ser proclamada Rainha de Castela na Plaza Mayor de Segovia! Tem uma pintura mural muito bacana dentro deste palácio celebrando esse momento. O alcázar fica no alto de uma colina, numa das pontas do recinto amuralhado da cidade antiga, e de lá se descortina uma vista impressionante. Hoje ele é um museu lindíssimo, que apresenta as várias reformas e acréscimos que foram sendo agregados pelos sucessivos reis da Espanha. Observem nas fotos a riqueza estonteante de detalhes dos tetos, com
trabalhos de entalhe em madeira e folhação a ouro de fazerem cair o queixo.

No dia seguinte, sábado, finalmente, eu pude fazer um passeio de dia inteiro com o D.. A pedido dele mesmo, fomos a Toledo. As fotos falam por si. Cidade medieval também, foi capital do reino de Castela durante séculos, antes disso foi sede de um importante califado. Até o século XV ou XVI era uma cidade muito mais rica, estratégica e importante do que Madri, no panorama político espanhol. O testemunho da convivência entre mouros, judeus e cristãos, sob o califado, é fascinante. O domínio cristão não foi tão condescendente, e me irrita sempre ver as sinagogas e mesquitas das cidades que os católicos dominaram todas transformadas/mutiladas/descaracterizadas/profanadas em igrejas. Com muita sorte, hoje elas não são mais igrejas e funcionam como museus. Em Toledo, por exemplo, a Sinagoga del Trânsito hoje é o Museu Sefardi, que guarda a memória dos judeus espanhóis, seus costumes, suas tradições. Acontece o mesmo com os templos pagãos romanos e gregos em todo lugar. Ódio, viu?

A casa do El Greco tava em obras de restauro e eu não pude entrar. Comi os tais mazapanes, que são doces divinos que se desmancham na boca, feitos de farinha e amêndoas e ovos. Nham nham.

Ambas as viagens - Segóvia e Toledo - foram feitas a bordo de um trem de alta velocidade, que levou cerca de meia hora pra vencer a distância à capital e eu fiquei impressionada com a eficiência da rede de transportes. Igualzinho aqui, ai, ai...

É isso. Domingo de manhã cedinho estávamos a caminho do aeroporto para a viagem de volta (no caso, eu de volta pro Rio e ele pra Bogotá). Foi bom demais da conta e deu um gás que eu tava precisando pra começar o ano de verdade. Desculpem ter me alongado tanto, mas adorei ter deixado registradas essas lembranças, a que vou poder sempre recorrer quando tiver saudades.

Puerta de Alcalá

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

CORRESPONDÊNCIA URBANA. A CIDADE EM CONSTRUÇÃO

Querida Ana Paula,

China Moderna: projeto
urbano inspirado
no "Sim City"
Vi recentemente um documentário sobre Juscelino, Niemeyer e a Pampulha. Fiquei sabendo que a Pampulha foi a primeira obra arquitetônica dele, que sempre privilegiou as curvas - sei lá se baseado no contorno do corpo feminino ou na curvatura do planeta.

O documentário falava sobre a alteração que Juscelino provocou em nossos corações e mentes ao ousar propostas de cultura - seja antiga ou moderna - assim, ampliando o conhecimento do povo em geral.

Estou ditando essa carta para Ana Laura (pois permaneço com três cervicais achatadas), sentada numa cadeira de traços retilíneos baseada no banco caipira mineiro feita pelo Carlos Simas, que é de um conforto atroz. Reporto-me a essa cadeira porque penso se as cidades não deveriam nos oferecer tal comodidade e prazer como ela me oferece. No entanto, vemos poluição, engarrafamentos, sujeiras, odores desagradáveis, etc.

Minha amiga, o que seria para você a cidade ideal? Como deveria ser desenhada?

Beijos, Esther



São Paulo
Ana Paula Medeiros
Professora substituta de História da Cidade e do Urbanismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e doutoranda em Urbanismo, também na FAU-UFRJ, na linha de pesquisa Estrutura, Morfologia e Projeto do Espaço Urbano.

Olha, Esther,

Como esse tema me é muito caro, eu vou usar um subterfúgio meio desleal pra agilizar a resposta: vou recorrer a um dos meus primeiros posts, lá no Urbanamente, em que eu tratei disso, e retomá-lo com algumas intervenções. Aliás, até hoje, é a questão que mais leva gente ao blog. O conceito de cidade em si, e de cidade ideal. 

Vou começar dizendo, meio teimosamente, que tenho grande implicância com a expressão "cidade ideal". Não a uso. Acho mesmo que não creio nela. Mas sinto falta da discussão e das propostas que animaram tantas buscas por este ideal. Pra me explicar, vou ter que voltar lá atrás um tiquinho, posso? Se você achar que ficou muito comprido, pode desmembrar, como achar melhor.

Londres
No princípio, era a barbárie. A selva, a lei do mais forte, o comer o que tinha, o dormir onde dava, o ser sem saber que era. Depois vieram a consciência, a reflexão, o trabalho, o querer mais, o querer melhor, o querer diferente, a civilização, a história. A cidade. Ao preço de reprimir os instintos, criar a lei, identificar o certo, punir o errado, sublimar desejos. Ao preço de se tornar homem. Segundo Freud, ao preço de um tremendo e eterno mal-estar, que ao mesmo tempo nos incomoda, nos confronta com sombras e heranças escondidas, e nos impulsiona, nos possibilita o convívio e a experiência urbana, nos põe em movimento.
Nova Iorque

A cidade é, assim, o lugar que resultou desse salto, o habitat do homo urbes. A cidade – e tudo o que ela significa, em cada uma de suas faces – é o lugar, por excelência, onde se manifestam e resolvem os conflitos, se criam e dissolvem as tensões, onde se encontra e se desencontra todo tipo de gente, de jeito e de atuação. É o lugar da diferença, e por conseguinte, da negociação constante, muda ou deflagrada, cordial ou belicosa.

O bárbaro ainda está aí, à espreita, e quanto mais esgarçados os laços que nos fizeram urbanos, que nos fizeram cidade; quanto mais fragmentados nossos vínculos de urbanidade e solidariedade, mais frágeis nos tornamos, mais vulneráveis ao retorno à selva, à violência. Por baixo da pele de cidadãos, ainda habita um homem cheio de potência e contradição.
Roma

A questão é que não há e nem haverá mais inocência. Mesmo o selvagem que
 irrompe aqui e ali tem alguma reflexão sobre seus atos, alguma idéia, por absurda ou desprezível que possa parecer a outrem. Há valores em jogo, todo o tempo. Vários, distintos. Valores irrefletidos e repetidos em coro, decalcados de representações alheias. E valores bem pensados, frutos de uma lucidez aguda e pungente, ou pelo menos de uma busca genuína dessa auto-avaliação. Mas desde que se fundou a primeira cidade da história, se fundou também a ideia e a prática do palco. Somos atores e platéia, críticos, diretores, produtores, figurinistas, bilheteiros, lanterninhas, de um grande e ininterrupto espetáculo coletivo. Olhamos e somos olhados. A cidade é um conjunto das representações que fazemos dela. E nela. É um mosaico em movimento, um caleidoscópio.
China

A cidade é um lugar de encontro. É pública (em que pesem os empreendimentos que vendem cada vez mais a ilusão de uma cidade "privada", onde tudo funciona lindamente e você pode morar com segurança, comodidade, bem-estar imorredouros).

A cidade é um lugar de múltiplas funções. Há uma dimensão física na condição humana, a necessidade da sobrevivência, do abrigo, da comida, da vestimenta, ainda que mesmo esta dimensão já esteja irremediavelmente associada aos valores culturais e estéticos de que lhe impregnamos e com os quais lhe vivemos a experiência. Há a arte, o desejo, o prazer, o imponderável, que remete à dimensão espiritual e transcendente da vida, alimento igualmente fundamental à sobrevivência e à experiência urbana. Há vários tempos na cidade, camadas, reinvenções, reconstruções, sedimentos, fissuras, o ontem, o hoje, a memória, a tecnologia, tudo junto misturado agora. Há vida impregnada nos pequenos objetos de todos os dias, no afeto emprestado aos artefatos.
Amsterdã

É um lugar de diversidade, com "tribos" diferentes, frequentando e produzindo
 continuamente seus espaços, e, sobretudo, colaborando para que a cidade exista. Gente de tipos variados, jovens e velhos, mais conservadores ou mais descolados, classes sociais diferentes, ideologias, gostos, opiniões, experiências, limitações e contribuições. 

É um lugar onde pulsa o movimento. Onde há fluxos, de informação, de gente, de bens. Onde há produção, consumo, criação. Num mesmo espaço físico, a cada dia transitam vidas diferentes, que configuram paisagens diferentes. E mesmo os espaços físicos muda. Acompanha uma moda, uma necessidade de reciclagem, de manutenção. Tudo fala de efemeridade, de transitoriedade. De movimento.

Cidade para mim, é isto. Uma rede de interações e representações, que pulsa, que se transforma o tempo inteiro. Cidade é processo. É evidente que, a esta altura, assumo a noção de que cada cidade são várias e que, para cada um de nós, cada imagem da cidade é mediada por suas experiências, sonhos, expectativas, desejos e frustrações.

Aqui entra a minha dificuldade com o conceito de cidade ideal. 
Mikonos (Grécia)

É que, historicamente, esse conceito sempre esteve associado a algo estático. A um estado a que se almeja chegar, e no qual, quando alcançado, todos os problemas estarão resolvidos. Idealizamos, fantasiamos, projetamos, isso não é ruim, pelo contrário. Se serve de motor, é ótimo. Se serve de meta, de destino final, aí está o problema. Idealizamos o passado, nossa memória é uma narrativa para sempre ficcional, subjetiva. Idealizamos a cidade, talvez desde sempre. Os poetas gregos já cantavam suas cidades, as virtudes de seus cidadãos, a glória de suas conquistas. E de longe parece tudo tão mais lindo, os dias são ensolarados, as águas são azuis, os jardins são floridos, as casas são amplas, os heróis são virtuosos. De perto, há barulho, sujeira nas calçadas, a chuva faz transbordar os bueiros, os ônibus buzinam e param em fila dupla, meninos pedem esmola nos sinais e cheiram cola sob a marquise.

Sonhar uma cidade melhor (eu disse melhor, não disse perfeita) é importante, sim. Mas não pode obliterar nossa visão, nos impedir de enxergar as mazelas de todo dia. Nem deve nos fazer desistir.

Foi ali pelo Renascimento que surgiu com força essa coisa de pensar e propor a Cidade Ideal. Quantidades de arquitetos escreveram tratados e propuseram planos, descrevendo como seria essa cidade. Como a onda era o racionalismo, o humanismo e tal, esses desenhos de cidades eram quase sempre figuras geométricas regulares: cidades circulares, octogonais, em forma de estrela, quando muito quadradas. Sempre figuras que se podia inscrever no círculo, a mais perfeita das formas. O eixo principal dessa perfeição e idealização da cidade era a estética. A cidade ideal devia ser bela. Ninguém ainda se preocupava com os aspectos sociais ou funcionais da cidade. Isso só veio com a Revolução Industrial e suas mazelas.
O renascimento surge com a utilidade do
octógono, não só de um ponto de vista
 simbólico mas também construtivo.
É de base octogonal a cúpula de Santa
Maria del Fiore em Florença,
obra-prima do Brunelleschi.
Só que ficou, pra nós, uma expectativa meio mecânica de que uma cidade bem planejada é uma cidade sem problemas, que funcionaria como um relojinho, cada coisa no seu lugar. Como se a cidade fosse um objeto inerte que, uma vez organizado, limpo e “consertado”, assim permaneceria. E mais, ficou uma certa impressão de que cabe ao Estado elaborar, executar e fiscalizar um plano de intervenção que acabaria com os problemas da cidade. Nós estamos no século XXI, lidamos com realidades virtuais, desterritorialização do trabalho e da economia, multiplicidade das possibilidades de comunicação e relacionamento, mas ainda pensamos a cidade bem parecidinho com o que faziam os caras lááááá no século XVI ou XVII.

No livro “O que é cidade” (Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense), Raquel Rolnik lista quatro temas recorrentes das idealizações renascentistas que ainda permeiam nossas concepções de cidade:

1) A tendência a fazermos uma leitura mecânica da cidade, como se ela se reduzisse a uma circulação de fluxos – de pedestres, de veículos, de cargas, de dinheiro, de ventos ou águas;

2) A ideia de ordenação matemática (regularidade, repetição) como base da racionalização na produção do espaço;

3) A suposição de que uma cidade planejada é uma cidade sem males (muita gente boa no planejamento urbano, lá no fundo, ainda trabalha com essa hipótese)

4) A crença na capacidade do Estado de controlar a cidade, através das normas, da legislação, da fiscalização e, em última instância, da polícia.
Eu só tenho uma coisa a dizer: esquece. Essa cidade dócil e arrumada não existe, nunca existiu e não existirá (amém). A gente precisa, cada vez com mais urgência, pensar a cidade como processo, como algo em constante mutação e construção, e principalmente como uma construção coletiva, o que significa que é muito provável que os rumos tomados a cada instante não sejam sempre aqueles que euzinha desejaria ou consideraria melhores. A cidade não pertence ao Estado, ela pertence a todos nós e especialmente a quem dela participa (vocês já pararam pra pensar na proximidade semântica das palavras POLIS – que designa as cidades-estado gregas e POLÍTICA?). Aos que se omitem, restam a reclamação vazia, o nariz torcido e a desesperança.
Françoise Choay

Há uma autora ótima que trabalha muito com esse tema, chama-se Françoise Choay. Há dois livros em especial, em que ela se debruça sobre essa questão, da elaboração histórica das propostas sobre cidades ideais. Um deles se chama O Urbanismo, e nele ela examina especialmente os pensadores dos séculos XVIII e XIX e suas crenças sobre as causas dos problemas das cidades, bem como as soluções que eles apresentavam. O outro livro, mais erudito um pouco, mas fantástico, chama-se A Regra e o Modelo, e nele Choay desenvolve o tema da cidade ideal a partir da pesquisa sobre os tratadistas do Renascimento, começando com Leon Batista Alberti e sua releitura do tratado de Vitruvius, do século I d.C., e seguindo por muitos outros, da Itália, da França e da Inglaterra, que perseguem essa miragem, com destaque para a Utopia de Thomas Morus. 

Eu digo miragem mas longe de mim retirar o valor fantástico dessas proposições, que hoje, em nosso mundo tão pragmático, nos fazem imensa falta. Podemos falar mais disso depois, a importância de voar no sonho da cidade, para poder construí-la no aqui e agora com realidade, mas também com poesia.

Beijos,
Ana Paula