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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W

Por Eva Miranda

Teatro Amazonas, o teatro mais lindo do (meu) mundo.

(Reparem no ícone do Teatro.)
Lembro que à época da Guerra do Iraque, quando vi na televisão as notícias sobre os bombardeios em Bagdá, os prédios seculares virando ruínas, eu tinha catorze, quinze, dezesseis ou dezessete anos. E, tola como toda adolescente tem o direito de ser, eu bradava nas minhas rodinhas de amigos: “Imagina a dor desse povo! Se viessem fazer isso aqui, e jogassem uma bomba no Teatro Amazonas, eu ia pra lá, cair junto com ele!”

A cúpula, onipresente.
Claro que hoje, menos tola, eu não diria a mesma frase de efeito, nem arriscaria minha vida por um prédio. Mas caso algo acontecesse com o Teatro Amazonas, uma parte muito importante de mim tornar-se-ia baça.

O Teatro Amazonas é, antes de mais nada, muito bonito. Muito bonito. Fica no Centro e, de certa forma, ele também é o centro. Os turistas circulam ao redor dele. Os moradores, também. É o ponto de referência por excelência, com a linda cúpula servindo como marco. “Vamos nos encontrar na frente do Teatro?” “O cartório fica na mesma rua do Teatro.” “A gente vai por essa rua, atravessa pela escada do Teatro e chega na parada do ônibus.” 
Vista do apartamento de um professor querido da Faculdade
de Administração. Julho de 2007
Manaus começa, turisticamente e emocionalmente, ali. É de lá que tudo parte. O Teatro é um símbolo, e se eu entendesse mais de semiótica eu poderia falar sobre isso, mas eu não sei. Ele surgiu no final do século XIX, para provar que Manaus tinha dinheiro, muito dinheiro, por causa da borracha. Foi idealizado como um irmão caçula do Teatro de São Luís do Maranhão e do Teatro da Paz, em Belém. Só sei que ele é lindo, e eu o amo. Ah, eu o amo.

Já falei uma vez que se o Teatro Amazonas fosse gente, ele seria mulher. Uma mulher bastante chegada em bijuterias vistosas. Uma mulher que faz todo mundo virar a cabeça para ver melhor. Uma gostosa. Ele tem lustres de bronze francês e vidro de murano, espelhos de quartzo e colunas coríntias, escadas de madeira de lei e cadeiras com respaldar de veludo vermelho, pinturas de florais rococó nas paredes (muito antes de inventarem a tal tatuagem de parede!).

Esta que vos escreve em frente
a uma penteadeira secular,
que faz parte do acervo do
Teatro Amazonas. Julho de 2007.
Bustos de governadores, nomes de dramaturgos e compositores colocados em destaque, dois camarotes DENTRO do palco e histórias de fantasmas vagando e cantando ópera. Para completar, foi construído sobre uma elevação de terreno que o coloca, muito imponente, acima da cidade... de salto alto.

Mas devo deixar os comentários arquitetônicos para quem entenda do riscado. Eu só entendo de amor. Lembro meu pai e minha mãe comprando ingressos para eu assistir ao Ballet Bolshoi. Meu pai disse, muito sério, que era um investimento na minha cultura, que era o tipo de coisa que se faz pelos filhos. Devia ser muito caro. Eu não lembro, tinha seis anos. E foi a primeira vez que eu entrei no Teatro. Já havia assistido outros espetáculos, mas não n´O Teatro.

Eu e mamãe sentamos em um camarote junto com um rapazinho muito paciente e simpático que sabia simplesmente TUDO de balé. Ele explicou para mim e minha mãe o que significava o gesto da Rainha Cisne, que apontava para o dedo anular da mãe esquerda. Eu lembro pouco do espetáculo – bailarinas de coxas grandes e colo ossudo, saias de tule e coroas nas cabeças, e um teto cheio de pinturas. Minha mãe explicou que os lugares do último andar chamam-se “Paraíso”, e me pareceu bastante coerente.
O teto do Teatro, com o lustre que desce
 até o nível da plateia para ser limpo. 
Setembro de 2006.
Quando eu era criança, o calçadão do Teatro Amazonas era perigoso. Local de prostituição e assaltos, escuro e fedorento. Durante o dia, estudantes namoravam nas escadarias. A Praça São Sebastião, em frente ao Teatro, eu, criança, apelidei de Praça dos Pombinhos – por causa dos pássaros, não dos namorados... Lembro de ouvir boatos falando sobre jogos de futsal no palco, orgias no porão e bebedeiras na cúpula. Acredito em todos.




O Teatro no qual eu vi o Ballet Bolshoi era cinzento, e tenho um cartão postal dele assim. O historiador Mário Ypiranga Monteiro afirma que ser essa a cor original dele, mas eu prefiro do jeito que está hoje, na cor rosa imperial. (Sim, esse é MESMO o nome da cor.)

Na foto noturna, D. Mamãe e Dr. Irmão, setembro de 2007.
Na foto diurna, D. Mamãe e minha prima Dany, abril de 2007
Quando eu completei treze anos, comecei a frequentar as atividades culturais da cidade. Começou o flerte com o Teatro. Eu ia aos shows de músicas das Segundas No Palco, ao Festival de Ópera,  concertos, e sempre que o show acabava, tentava entrar nos bastidores, conhecer os camarins. E subir no palco, o objetivo maior e mais difícil. Eu cheguei até mesmo a sonhar que o visitava, subindo até a cúpula. No meu sonho, tinha um elevador que levava as pessoas pra lá. Escrevi esse sonho no meu diário, um daqueles de cadeadinho. Por isso, não esqueci.
 
Fui com um ex-namorado fazer a visita guiada, que contava com atores vestidos de roupas de época.  (Nossa, acabei de perceber que faz muito tempo: custou apenas cinco reais!) Quando eles terminaram o tour, fiquei decepcionadíssima: a cúpula não está incluída na visitação, nem mesmo é aberta ao público.

Fachada enfeitada para o II Festival Amazonas Jazz. Julho de 2007
Aos catorze anos, comecei a fazer teatro. Mas foi só com vinte anos que estreei no Teatro Amazonas – e todo ator manauara quer se apresentar no Teatro Amazonas. É o melhor (e acho que maior) palco da cidade, com os melhores recursos de luz, acústica excelente, melhores bastidores, melhor camarim. E tem os melhores fantasmas. É o nosso cartão postal vivo, cumprindo a função para a qual foi construído, recebendo público e artistas.
 
Recepção do Teatro Amazonas. Festival de Teatro do Amazonas, outubro de 2006
Para quem fica na plateia, não é lá muito bom: a sala de espetáculos em forma de lira faz com que a visão do que acontece no palco seja prejudicada, (creio que dos setecentos lugares, cerca de trezentos proporcionem bom panorama) e causa torcicolos. Fazer o quê? O Teatro é fruto de uma época na qual ia-se ao teatro menos para ver, mais para ser visto.


Estreei em uma terça-feira, com a casa vaziiiiiia, apenas vinte pessoas! Eu era a madrasta da Cinderela, a gente se apresentou às seis da tarde, pelo projeto Terças no Palco – Teatro.

Pessoas que viram o show da Leila Pinheiro e depois sofreram de torcicolo. Julho de 2007

Da esquerda para a direita: Joyce Meira, Lyvia Lyra, Naimê Sahdo e Eva Miranda. Cinderela às Avessas, Teatro Amazonas, 21 de novembro de 2006. Foto de Ives Montefusco.

Mas ah, foi uma tarde e tanto, acertando a luz e o som, ensaiando naquele palco imenso, brincando de manja - esconde na parte técnica – e achando o caminho que leva até a cúpula!

Uma escada matadora que leva exatamente aonde você está pensando.
Sim, eu fui até a cúpula. Não sigam meu mau exemplo. Julho de 2007

Já entrei no Teatro outras vezes para me apresentar – inclusive em uma noite de casa cheia, os aplausos vindo dos três pavimentos. Já assisti apresentação de artistas formidáveis, amazonenses ou não. Posso citar Eliana Printes, Márcia Siqueira (numa apresentação fantástica no I Festival Amazonas Jazz), Hermeto Pascoal (gênio), o pianista Marcelo Bratzke. Mas a noite mais sagrada de todas foi quando entrei, de mãos dadas com a minha mãe, para ver Bibi Ferreira cantando Edith Piaf. Foi o encontro da Deusa com o Templo. E, por certos acasos da tecnologia, perdi a foto que bati naquela noite.

O Teatro é o passeio que eu faço quando recebo alguém que não é de Manaus. É o must see.
O Teatro é o passeio que eu faço quando tenho uma tarde à-toa e estou no Centro.

Largo de São Sebastião, abril de 2007

O Teatro é onde eu vou quando quero uma sexta-feira divertida. Ou um final de domingo com algum programinha bom e GRATUITO! (A programação gratuita do Teatro é farta).


O Teatro já me viu entrar e sair de braço dado com rapazes vários. Mas ele não precisa sentir ciúmes. Toda vez que eu passo por ele, eu paro e olho, detalhadamente. Sempre suspiro, apaixonada.

Eu no palco do Teatro Amazonas, horas antes de estrear. Novembro de 2006

Eu sei muito mais sobre o Teatro Amazonas. Mas esse texto é só uma carta de amor.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W

Esta seção fará uma viagem pelo Brasil através dos olhos de seus habitantes... Caminhar pelas estradas, vicinais, atravessar pinguelas, mataburros, entrar nas cidades, conhecer suas intimidades e delas partilhar. Quem sabe, ousar em sugerir que, ao ler as descrições cada um possa sentir sabores e perfumes de Pindorama, esta terra extensa e larga onde todos são donos, mas ninguém assume responsabilidades.

Seguiremos hoje os passos de “Eva Miranda, que é mais amazonense do que brasileira, administradora e funcionária pública federal. Tem vinte e cinco anos de sonho, de sangue e de América do Sul. Além disso, todas as tardes ela estuda Teatro na Universidade do Estado do Amazonas, enquanto sonha com dias de 50 horas”.

Conheceremos seu cotidiano, e deitaremos na rede que ela nos oferece.
Boa viagem, nesta BR.
Hoje, MANAUS.
(ELB)
UM DIA PERFEITO EM MANAUS

Por Eva Miranda

Do alto, da janela do avião, visão do nascer
do sol, tendo como palco o Rio Amazonas.

Crédito: Lucia Barreiros da Silva.
Para se ter um dia perfeito em Manaus, você precisa começar pelo início: o nascer do sol. Assistir ao sol nascendo numa latitude tão baixa requer algum sacrifício: o sol normalmente aparece no horizonte às 05h30, ou antes.

Você precisa torcer para que não amanheça chovendo. Porque em Manaus, especialmente de novembro a março, todo dia é dia de chuva. E a chuva cai (ou melhor, despenca) às quatro da madrugada, à uma da tarde e, dependendo do dia, às sete e meia da noite. Mas também há os dias em que amanhece e anoitece chovendo, aquela chuva ininterrupta, céu branco, e os amazonenses tiram dos armários as blusas de manga comprida e se orgulham de tiritar de "frio". Eu, boa amazonense que sou, quando o termômetro marca 26 graus, estou a um passo hipotermia. Juro.

Mas caso não amanheça chovendo, estamos próximos de um dia perfeito em Manaus. O céu amanhecerá azul com bolinhas brancas. Ou, sendo mais justa, o céu estará gloriosamente azul rebordado de nuvens brancas, enquanto um sol de ouro inunda a cidade de luz.

Às sete da manhã (quando é mais fresquinho), você estará suando e sofrendo com uma temperatura de 29 graus. Excelente momento pra tomar um café regional.

Curiosamente, não se usa muito o termo culinária amazonense; o usual é culinária REGIONAL mesmo. Provavelmente, o amazonense se reconhece como parte de uma identidade amazônica, compartilhada generosamente com os outros Estados do Norte. São sete estados diferentes, mas com tempero semelhante.

Café Regional significa:

a)                  o desjejum com elementos da culinária local;

b)                  o lugar que oferece este tipo de refeição. Em Manaus, tomar café na rua, na calçada, é muito usual. Minhas colegas de trabalho chegam às oito da manhã, carregando dentro de saquinhos plásticos uma tapioquinha na mão direita, e um suco ou café com leite na mão esquerda. Fumegando, comprados na banquinha em frente à repartição.

Há também o hábito de tomar "café regional na estrada". A família acorda às sete da manhã, permanece em jejum, entra no carro, pega a estrada, e após uma hora na BR - 174, quase chegando em Presidente Figueiredo, chega a um Café Regional. Não sei qual o milagre que permite que ninguém desfaleça de fome no caminho, mas provavelmente os deuses da floresta amparam os gulosos. Aos domingos, é usual ver os estabelecimentos lotados - e há Cafés Regionais para todos os bolsos e exigências de higiene.

Um bom café regional vai te oferecer sucos deliciosos e (Deus existe!) gelados. Pode contar com a presença de sucos de cupuaçu, goiaba, maracujá, e, se o café for de responsa, graviola e caju. Também deve haver o indispensável café com leite.

X-Caboquinho: o sanduíche regional
Comece com um x-caboquinho: pão francês na chapa com queijo coalho e lascas de tucumã, uma fruta laranja, salobra e gordurosa, que, acreditem ou não no que eu digo, é boa. Depois do sanduíche, coma tapioquinha. Com tucumã, sem tucumã, com queijo coalho, com queijo normal, com castanha, com leite condensado, com margarina, derretendo, saindo fumaça, o amido levado às últimas consequências.

Ah, e frutas. Você certamente terá abacaxi gelado (e o abacaxi do Norte é doce, amarelinho, não é aquela coisa branca e corrosiva do Sul e Sudeste), melão regional gelado (e o melão daqui é rosado e doce, não é aquela coisa verdolenga e salobra do Sudeste), melancia gelada, manga gelada, pois realmente Deus existe e o ser humano inventou a geladeira.

Banana verde frita
Mas cuidado ao fartar-se de frutas, porque você deve reservar um lugarzinho para comer banana frita. E em Manaus, a banana frita atingiu seu nível de excelência, meus queridos. Você pode decidir entre a banana frita doce com calda, doce sem calda, salgada macia, salgada crocante (que a Elma Chips ainda não descobriu), bolinho de banana verde frita. Dizem que os esquimós têm onze palavras para neve; não entendo como o amazonense ainda não criou termos específicos para as inúmeras variedades de preparo da banana frita. Você ainda não teve uma congestão? Vai um bolo de macaxeira com erva-doce, ou um bolo de tapioca? Mingau de banana, de tapioca ou de milho branco - que você chamará de mungunzá?

Para fazer a digestão dessas delícias todas, bom mesmo era deitar numa rede, mas vamos fazer uma caminhada. Venha comigo, eu te levo pela mão. Em outro dia eu te mostro a cidade.

Eva contra onça