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domingo, 4 de março de 2012

SENHORA DO TEMPO. O GIRA-GIRA LÁ DE CASA

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Por Ana Laura Diniz

“Vai, roda mais rápido! Mais rápido!!!”. Das recordações que tenho dos meus parcos dois anos de idade, uma delas era a alegria de rodar no gira-gira e impulsionar no balanço que ficava no quintal lá de casa. Lembro até hoje a sensação do vento na barriga... quanto maior era a velocidade nos brinquedos, mais eu amava.

Nessa época eu morava na rua Linda Ferreira da Rosa, no bairro de Perdizes, em São Paulo. Assim como a casa, nasci em um lugar que faz tempo não mais existe: Hospital Matarazzo, mais propriamente na Maternidade Condessa Filomena Matarazzo. E até vivenciar a minha primeira mudança de casa e cidade, aos seis anos, lembro do universo criado naquele quintal... que naturalmente se estendia ao quintal do vizinho... e do terreno baldio que também tinha ao lado da casa, onde com irmãos e amigos passei tardes inesquecíveis.

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Brincávamos de tudo: pique-pega, esconde-esconde, ciranda, ou simplesmente corríamos de um lado pro outro sonhando ser heróis ou atores de algum filme de faroeste. E como aprontávamos!

De quando em quando, ligávamos para o trabalho do meu pai para dizer que um dos tios havia chegado de surpresa de Belo Horizonte. Ele saía mais cedo do trabalho e cadê o irmão dele?!  “Surpresaaaa!!!!”...  não tinha ninguém além da gente mesmo: ele sempre trabalhou muito mais do que o expediente exigia (trabalha até hoje), e sempre arquitetávamos planos de trazê-lo pra casa mais cedo.

Minha mãe, claro, nem sempre sabia o que a gente aprontava. E raramente estressava. Quando calhava de os cinco filhos brigarem, coisa rara – era um “pega pra capá” – e ela simplesmente abria a porta de um quarto e dizia: “meninos, todos pra cá”. Nós obedecíamos, e ela completava calmamente: “É o seguinte, vou fechar a porta e vocês continuem brigando. O que sobreviver, vai lá na sala e me chama”, e saía tranquilamente.

Nem preciso dizer que a discussão acabava imediatamente. E como não queríamos ficar confinados olhando um pra cara do outro, rapidamente saía um para dizer que tínhamos feito as pazes. Ela ouvia e falava: “ah, é? Que bom!”. E ao chegar no quarto, completava: “Que bom que fizeram as pazes, vocês são muitos e precisam ser amigos uns dos outros. Está mesmo tudo bem?”. Nem sempre estava, mas mentíamos: “Sim, mãe, está”. E ela então arrematava: “Ótimo, então abracem uns aos outros”... e abraçávamos...

Já experimentou abraçar alguém que você tem ou está com raiva? Quando criança, afirmo de carteirinha, é mágico: se há alguma raiva ou mágoa restante, ela vai embora no momento em que se abraça, puft! E já saíamos brincando novamente. O meu pai fazia o mesmo.

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E era uma festa. Com duas empregadas pelo menos, pra dar conta da casa e da gente, mamãe fazia “vista grossa” pra muita coisa. Tinha uma empregada, por exemplo, que varria a sujeira pra debaixo do tapete pra acabar mais rápido a limpeza e ficar brincando com a gente. Tudo muito inesquecível. Principalmente porque era um gesto tão puro, tão sem maldade, que realmente mamãe não incomodava – e, claro, pedia para a outra empregada limpar. Ninguém era de fato prejudicado, e a vida corria solta. E aos giros. Ao menos, aos olhos... e no quintal daquela casa, que mesmo tendo sido transformada em prédio, existe perfeitamente na memória da gente.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W , OS CHEIROS DAS ESTRADAS DE MINAS E SÃO PAULO

Por Esther Lucio Bittencourt


Vamos todos os fins de semana para São Paulo, pela Fernão Dias. Há doença na família e a presença é fundamental.

Saímos de Caxambu, precisamente do Vale das Colinas, onde é nossa casa, passamos por Contendas e Conceição do Rio Verde, - onde sempre havia uma plantação de girassóis, utilizados para biodisel, e que este ano não deu o ar da graça - pegamos Lambari, Heliodora e saímos na Br 381, a Fernão Dias. Levamos sempre outra passageira; a Fernanda, um Tomtom (GPS) de ajuda inestimável e que se perde ao chegar em Lambari e somente se encontra na Fernão. E a música: neste final de semana foram conosco a Ceumar e Dame Kiri te Knawa, que cantou músicas de Jerome Kern .





É época da colheita de café, ou melhor, da secagem dos grãos e dos Ipês floridos que salpicam o azul do céu de amarelo.

O que mais me impressiona neste caminho, no entanto, são os cheiros.

As casas que desfilam na estrada são singelas. Raro se vê um casarão, as sedes das fazendas. São pequenos agricultores, na maior parte das vezes, que em seus terreiros cimentados deixam secar os grãos do café. Das chaminés das casas a fumaça branca denuncia o cheiro do café torrado, moído e coado. Como sinto vontade de dizer: “dias, vizinha, vim provar do seu café!”. Mas os terreiros se sucedem às plantações de café e o pasto seco muitas vezes queimado por alguma binga de cigarro jogada irresponsavelmente pela janela dos carros. Vacas magras pastam preguiçosamente antes do sol queimar, pois as gotas de orvalho amaciam até o capim seco.

Não sei se nossos olhos perseguem a estrada que exibe seus alpendres anchos de moça vaidosa, uma casa em construção, um lago que brilha na paisagem, ou o asfalto segue o carro com seu piche bem espalhado, negro querendo ser azul. Vez em quando um canto de passarinho, na gaiola, ficou lá atrás mas ainda ressoa nos ouvidos.

Aqui no Sul de Minas, vivemos um clima de deserto: manhãs e noites frias para onze horas de sol ardido e quente até às 16h. Virou até moda perguntar um para outro, aqui virou deserto? Mas é muita água esparramada no chão a contestar esta dúvida.

Em Extrema, última cidade mineira, deixamos para trás as serras azuis da Mantiqueira. Espere, ainda não. Em Bragança Paulista elas ainda estão fechando o horizonte. E outras cidades se aventuram nestas estradas, até que avistarmos de longe a fímbria poluída onde termina o céu de São Paulo.

Já neste caminho o cheiro é de morangos. Tempo deles e, durante toda a estrada estão exibidos em estantes e pode se ver, lá longe, as plantações cobertas de plástico, protegida das chuvas e geadas.

O Brasil é de uma dicotomia de cores, cheiros e prazeres impressionante. Da vaca pastando e do odor do café, passando pelo perfume do morango chagamos ao dióxido de carbono do trânsito da maior cidade do Brasil em agitação: São Paulo, a que nunca respira, esta é a minha impressão. Onde o sangue que corre nas veias dos habitantes tem fuligem e o cheiro pegajoso dos caminhões fumacentos que peidam na estrada seu diesel queimado.

Após passar o Município de Monte Verde e Atibaia, com chácaras grandes e casas trabalhadas, após a Apa da Serra da Cantareira, o verde some de nossos olhos. São carros e prédios a desenhar outra estética, a urbana; de pressa, aflição e estresse.

Até a volta para Caxambu quando a paisagem se repete e o retorno, de novo, para São Paulo, onde os olhos acostumados com o enredo já sabem em que ponto da estrada repousar.

Ipê no Cafezal

Lago e montanhas












     

Mais um lago



Casa na estrada

 Plantação de morangos, lá longe
 Céu de Sampa
                                                                                                  

quinta-feira, 23 de junho de 2011

GENTE HUMILDE. JOÃO QUALQUER

Por Ana Laura Diniz

Moradores de rua no Centro de São Paulo
Foto: Google Images
O nome de cartório é João Bastos da Silva, “mas pouco importa”. Ele se denomina João Qualquer. Apesar da pinga diária, seus 57 anos parecem 45. “É a cor que ajuda, dona. Não dizem que nêgo quando tinta (o cabelo) tem 130? Mas pouco importa”.

Sim, para João Qualquer pouco importa se faz sol ou chuva, frio ou calor. “Sou um homem livre, e só isso importa.”

Há oito anos é “morador de rua, porque mendigo é outra coisa”. Conversador, ninguém acreditaria em tanto verbo um dia antes. Esticado no chão, João era observado por um varredor de rua. “Sempre olho pra ver se o sujeito tá vivo ou morto. Pior que às vezes vomita enquanto dorme e morre até engasgado”, disse Tobias, enquanto varria a calçada ocupada por João.

Pelos olhos e a fala arrastada, notava-se que Tobias também bebera. Talvez no mesmo bar de João, talvez em outro qualquer.

Negou-se a tirar foto porque garantiu que não tinha o melhor ângulo. “Vivo de costas para o mundo e para a vida, que é legal mesmo sendo um tormento”. Bebe até cair, porque aprendeu dessa forma espantar a dor. “Enquanto bebo, penso. Mas quando desmaio, nada mais incomoda, tudo se apaga e eu tenho momentos de paz”.

Ainda sóbrio e enrolado no cobertor que guarda durante o dia em bocas de lobo (bueiro), seu hálito à álcool pode ser sentido à distância, como que impregnado à pele. Tem sete dentes e a nicotina dança entre visíveis cáries. O cheiro de urina e de fezes denuncia dias e dias sem banho. Explica-se: a falta de banho é conduta normal na maioria das pessoas que vivem na rua por uma lógica simples — quanto maior a sujeira, menor o risco de abuso sexual.

Animado, João diz que gosta de ser brasileiro. “A gente apanha, mas pouco importa, a gente vai levando. Duro é passar fome. Pior ainda é se a pinga falta.” Durante o dia, pede esmola ou descola algum bico com os camelôs da Praça da Sé ou nos arredores do centro de São Paulo. É um homem sem RG, sem CPF, sem amor. Dinheiro não tem, embora registro na polícia colecione de montão. “Os caras fazem blitz e mandam todo mundo pro xilindró ou pro albergue, que dá no mesmo, porque só tem marginal”.

Seu português sofre com a falta de concordância, mas não falha ao dizer que “o Brasil é o país dos desesperados”. E não troca “problema” por “poblema”, “plobema”, “plobrema”, “pobrema” ou coisa parecida. “O problema está na falta de vontade das pessoa, dos governante. Que adianta mandar a gente pra onde não tem nada?”

João conta que invadira um prédio desativado no bairro da Vila Mariana, zona Sul, com mais oito famílias. Eram 45 pessoas distribuídas em cinco cômodos. O buraco do elevador transformaram em depósito de lixo, onde também aproveitavam para fazer suas necessidades. Conclusão: depois de três meses a vizinhança conseguiu que a prefeitura tomasse alguma providência. Todos foram desalojados e deslocados para “depois da Freguesia do Ó”, na zona Norte da cidade. “Saímos nós e os ratos”. O caso ficou famoso no bairro. Os funcionários precisaram usar máscaras especiais porque o lixo tomara até o quarto andar do prédio.

Há dois anos no centro, ele se diz feliz. “Aqui tenho a liberdade de ir e vir. Se caio hoje, levanto amanhã. E se cair e não levantar... o único problema é que não terei mais pinga pra tomar... mas aí... ah, já pouco importa”.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W. SÃO PAULO É UM PAÍS

Por Juliana Salles D'Alcantara

Avenida Paulista iluminada por faróis de carros, durante apagão
Foto: Google Images
Conversar com a Ana Laura, é sempre um prazer. Ao vivo, ao telefone, por email, por msn. Faz tempo que não faço tudo isso, mas mesmo que por poucos minutos, é sempre um enorme prazer pra mim. E uma honra.

E aí, que ela vem e me convida para escrever sobre São Paulo. Sobre a MINHA São Paulo. Não tem como recusar!

São Paulo é onde eu nasci e cresci. E onde eu quero morrer. Isso se eu morrer, porque na verdade, não quero não .
Estudo fotográfico dos alunos do Centro Universitário
de Araraquara – Uniara.Trânsito de São Paulo
Foto: Google Images


Mas São Paulo inspira essa coisa de amor e ódio. Porque São Paulo é essa massa cinza, essa confusão, essa bagunça deliciosa. Acho que não existiria se não fosse isso.

É o trânsito, a falta de educação, a sujeira, a poluição, o ar seco.

Congestionamento em São Paulo
Foto: Google Images
Mas é também uma avenida Paulista iluminada, é um metrô novo e chique (as linhas novas, por supuesto), são prédios antigos sendo restaurados, é a um dos maiores (e melhores) pólos gastronômicos do mundo.

É atendimento de primeira linha, é supermercado 24 horas, é música, é poesia, é amor.

São Paulo é diversidade, é aceitação, é acolhimento, é trabalho, é competência.

São Paulo é gigantismo, São Paulo é um país, São Paulo é grana, São Paulo é poder.

Prédio do Centro Histórico 
de São Paulo
Foto: Google Images
Mas o que eu mais gosto de São Paulo, são os 'mocós'. Explico: sempre tem o melhor pão da Móoca, o melhor pastel da feira, o macarrão mágico da Liberdade, a festa da Achiropita, o sanduba do Estadão, o chorinho da Contemporânea, o jazz nos fundos de um estacionamento.

Edifício do Centro de São Paulo
Foto: Google Images
São coisas muito simples, populares, e que alguém te conta esse "segredo" mágico e você descobre essas delícias, escondidas em algum cantinho de São Paulo.

Eu sou filha de mineiro com carioca, e nasci em São Paulo. Como eu costumo dizer por aí: "Uma mistureba danada". Mas acredito que cada paulistano seja um pouco isso também. E é por isso que São Paulo é essa loucura deliciosa, que eu não troco por lugar nenhum do mundo!









Bar na Mooca que sertá inaugurado dia 13 deste mês,
servirá Despacho (frango assado em "televisão de cachorro"),
o Inferno (linguiça de pernil) e o X-macumba
(cheesebúrguer de carneiro com molho de hortelã).

(Foto: Folha de S.Paulo/Google)







"Teaser" do projeto de relançamento do filme "São Paulo, A Sinfonia da Metrópole", um clássico do cinema mudo brasileiro. O projeto prevê a gravação de uma trilha musical orquestral para o filme, para que o mesmo possa ser exibido em cinema, TV e DVD sem necessidade de música executada ao vivo.

Produzido em 1929 por Rodolfo Lustig e Adalberto Kemeni, o filme "São Paulo, A Sinfonia da Metrópole" documentou a cidade num momento de transição, quando ela deixava de ser apenas um entreposto comercial (ex. café), e se tornava o maior centro industrial e financeiro do pais.

Neste "teaser", está sendo usada a abertura instrumental da canção "Correnteza" (Jobim, Bonfá), executada pela Orquestra Popular de Câmara. "

sexta-feira, 1 de abril de 2011

84 CHARING CROSS, DIÁRIO DE BORDO

Por Ana Laura Diniz


Fonte do Castelo Sforzesco, em Milão
Enquanto Alline se prepara para a chegada de Norah, invado o espaço para falar da minha Itália. Sentiram a possessão? Minha. É que ao contrário da Alline, não moro lá. Então, olhos de turistas, sabem como é? Revelo a partir de hoje, enquanto Norah não vem... o meu diário de bordo. Apertem os cintos, e boa viagem. Espero que o voo seja tranquilo, sem turbulências, e que apreciem a paisagem.

Faz um ano que fui para a Itália, mas parece que foi ontem. Fui de “carona” com o meu pai, Mário Lúcio, a minha mãe, Neyde, e uma das minhas irmãs, a Crica, Ana Cristina na verdade (lá em casa, somos “Anas”; e também tem os “Luíses”).

Saímos pela manhã, Crica e eu, de São Paulo rumo à Brasília, no exato 02/04/2010, uma sexta-feira. Chegamos às 12h20, onde encontramos papai e mamãe, que haviam saído de Barro Alto, Goiás, às 09h17, no taxi “do Wilson”, em direção ao Aeroporto de Brasília, onde chegaram às 11h45. Ou seja, estavam lá eles ansiosos e felizes quando desembarcamos.

Almoçamos no Aeroporto e, logo após, fizemos o check-in. Embarcamos no horário previsto, e decolamos às 17h22 para Lisboa, à bordo de um Airbus 320 da TAP.

Fizemos uma viagem super tranquila, desembarcando em Lisboa às 06h24. Passamos pela alfândega portuguesa e reembarcamos às 07h38 para Milão, onde desembarcamos às 11h32.

Chegada ao Aeroporto de Milão
Localizamos a agência HERTZ, onde buscamos o carro já previamente alugado. Tivemos despesas extras com a locação do GPS: 17 euros por dia mais 50 euros de taxa pela devolução do veículo em Roma, cidade que seria feita a nossa última parada na Itália. Papai fez o meu credenciamento para que eu pudesse dirigir, pagando mais uma taxa extra de 7 euros por dia. Ele já havia feito no Brasil, a expedição internacional de carteira de motorista para ele.

Catedral Duomo de Milão. No detalhe à direita,
uma das muitas esculturas em mármore do local
Quando cheguei em Milão, Alline estava no sul da França com o marido, então acabamos por não nos encontrar.

Ficamos hospedados no Grand Hotel Puccini – Corso Buenos Aires, 33. Às 14h, descarregamos as malas e deixamos o carro no estacionamento próximo ao hotel.

Saímos então para passear. Fomos até a estação do metrô mais próxima e descemos na Piazza Del Duomo, onde está a Catedral (Duomo) de Milão – um monumento simplesmente indescritível por sua beleza arquitetônica, suas pinturas e esculturas.

Como estava chovendo, visitamos a Catedral por dentro, deixando a parte externa para depois. Em seguida, visitamos o Palazzo Reale e a Galeria Vittorio Emanuelle II.

O incrível na Itália é que para onde os olhos apontam se surpreendem. E passo a passo fica cada vez mais difícil saber o que mais admira, o que mais encanta, o que mais é o quê. Talvez por isso, não seja exagero dizer que trago a eterna sensação de ter voltado ainda ontem. A Itália está ainda em mim. Cada canto passado, cada canto sonhado, o por vir.

Continuando nosso passeio, chegamos à Piazza D’Scala e vimos o tão famoso Teatro Scala. Mas infelizmente estava fechado, e não pudemos entrar. Contentamos então em tirar várias fotos externas, do Teatro e da Piazza, e retornamos à Catedral Duomo, pois a chuva dera uma trégua.

Castelo Sforzesco
Usamos o elevador para irmos até o alto do monumento, onde, além de seus vários corredores e escadarias, apreciamos uma centena de esculturas em mármore e uma vista estupendamente maravilhosa de Milão.

O vento tocava levemente o rosto, com ares de final de inverno. Cerca de 3º ou 4º graus, coisa assim.

Voltamos novamente ao metrô, e fomos até a Piazza Castello, onde conhecemos o Castelo Sforzesco, seus jardins e a sua sensacional fonte.

A pizza "individual" do Sabatini
Retornamos de metrô ao hotel, onde chegamos às 19h45. Estávamos cansados ainda da longa viagem. Jantamos na Pizzaria Sabatini, onde apreciamos as melhores pizzas que já tivemos oportunidade de saborear, regadas a vários “Lambrusco”.

Voltamos então para o hotel. Era necessário descansarmos para prepararmos para o dia seguinte. Que é claro, conto para vocês na semana que vem.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

CORRESPONDÊNCIA URBANA. A CIDADE EM CONSTRUÇÃO

Querida Ana Paula,

China Moderna: projeto
urbano inspirado
no "Sim City"
Vi recentemente um documentário sobre Juscelino, Niemeyer e a Pampulha. Fiquei sabendo que a Pampulha foi a primeira obra arquitetônica dele, que sempre privilegiou as curvas - sei lá se baseado no contorno do corpo feminino ou na curvatura do planeta.

O documentário falava sobre a alteração que Juscelino provocou em nossos corações e mentes ao ousar propostas de cultura - seja antiga ou moderna - assim, ampliando o conhecimento do povo em geral.

Estou ditando essa carta para Ana Laura (pois permaneço com três cervicais achatadas), sentada numa cadeira de traços retilíneos baseada no banco caipira mineiro feita pelo Carlos Simas, que é de um conforto atroz. Reporto-me a essa cadeira porque penso se as cidades não deveriam nos oferecer tal comodidade e prazer como ela me oferece. No entanto, vemos poluição, engarrafamentos, sujeiras, odores desagradáveis, etc.

Minha amiga, o que seria para você a cidade ideal? Como deveria ser desenhada?

Beijos, Esther



São Paulo
Ana Paula Medeiros
Professora substituta de História da Cidade e do Urbanismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e doutoranda em Urbanismo, também na FAU-UFRJ, na linha de pesquisa Estrutura, Morfologia e Projeto do Espaço Urbano.

Olha, Esther,

Como esse tema me é muito caro, eu vou usar um subterfúgio meio desleal pra agilizar a resposta: vou recorrer a um dos meus primeiros posts, lá no Urbanamente, em que eu tratei disso, e retomá-lo com algumas intervenções. Aliás, até hoje, é a questão que mais leva gente ao blog. O conceito de cidade em si, e de cidade ideal. 

Vou começar dizendo, meio teimosamente, que tenho grande implicância com a expressão "cidade ideal". Não a uso. Acho mesmo que não creio nela. Mas sinto falta da discussão e das propostas que animaram tantas buscas por este ideal. Pra me explicar, vou ter que voltar lá atrás um tiquinho, posso? Se você achar que ficou muito comprido, pode desmembrar, como achar melhor.

Londres
No princípio, era a barbárie. A selva, a lei do mais forte, o comer o que tinha, o dormir onde dava, o ser sem saber que era. Depois vieram a consciência, a reflexão, o trabalho, o querer mais, o querer melhor, o querer diferente, a civilização, a história. A cidade. Ao preço de reprimir os instintos, criar a lei, identificar o certo, punir o errado, sublimar desejos. Ao preço de se tornar homem. Segundo Freud, ao preço de um tremendo e eterno mal-estar, que ao mesmo tempo nos incomoda, nos confronta com sombras e heranças escondidas, e nos impulsiona, nos possibilita o convívio e a experiência urbana, nos põe em movimento.
Nova Iorque

A cidade é, assim, o lugar que resultou desse salto, o habitat do homo urbes. A cidade – e tudo o que ela significa, em cada uma de suas faces – é o lugar, por excelência, onde se manifestam e resolvem os conflitos, se criam e dissolvem as tensões, onde se encontra e se desencontra todo tipo de gente, de jeito e de atuação. É o lugar da diferença, e por conseguinte, da negociação constante, muda ou deflagrada, cordial ou belicosa.

O bárbaro ainda está aí, à espreita, e quanto mais esgarçados os laços que nos fizeram urbanos, que nos fizeram cidade; quanto mais fragmentados nossos vínculos de urbanidade e solidariedade, mais frágeis nos tornamos, mais vulneráveis ao retorno à selva, à violência. Por baixo da pele de cidadãos, ainda habita um homem cheio de potência e contradição.
Roma

A questão é que não há e nem haverá mais inocência. Mesmo o selvagem que
 irrompe aqui e ali tem alguma reflexão sobre seus atos, alguma idéia, por absurda ou desprezível que possa parecer a outrem. Há valores em jogo, todo o tempo. Vários, distintos. Valores irrefletidos e repetidos em coro, decalcados de representações alheias. E valores bem pensados, frutos de uma lucidez aguda e pungente, ou pelo menos de uma busca genuína dessa auto-avaliação. Mas desde que se fundou a primeira cidade da história, se fundou também a ideia e a prática do palco. Somos atores e platéia, críticos, diretores, produtores, figurinistas, bilheteiros, lanterninhas, de um grande e ininterrupto espetáculo coletivo. Olhamos e somos olhados. A cidade é um conjunto das representações que fazemos dela. E nela. É um mosaico em movimento, um caleidoscópio.
China

A cidade é um lugar de encontro. É pública (em que pesem os empreendimentos que vendem cada vez mais a ilusão de uma cidade "privada", onde tudo funciona lindamente e você pode morar com segurança, comodidade, bem-estar imorredouros).

A cidade é um lugar de múltiplas funções. Há uma dimensão física na condição humana, a necessidade da sobrevivência, do abrigo, da comida, da vestimenta, ainda que mesmo esta dimensão já esteja irremediavelmente associada aos valores culturais e estéticos de que lhe impregnamos e com os quais lhe vivemos a experiência. Há a arte, o desejo, o prazer, o imponderável, que remete à dimensão espiritual e transcendente da vida, alimento igualmente fundamental à sobrevivência e à experiência urbana. Há vários tempos na cidade, camadas, reinvenções, reconstruções, sedimentos, fissuras, o ontem, o hoje, a memória, a tecnologia, tudo junto misturado agora. Há vida impregnada nos pequenos objetos de todos os dias, no afeto emprestado aos artefatos.
Amsterdã

É um lugar de diversidade, com "tribos" diferentes, frequentando e produzindo
 continuamente seus espaços, e, sobretudo, colaborando para que a cidade exista. Gente de tipos variados, jovens e velhos, mais conservadores ou mais descolados, classes sociais diferentes, ideologias, gostos, opiniões, experiências, limitações e contribuições. 

É um lugar onde pulsa o movimento. Onde há fluxos, de informação, de gente, de bens. Onde há produção, consumo, criação. Num mesmo espaço físico, a cada dia transitam vidas diferentes, que configuram paisagens diferentes. E mesmo os espaços físicos muda. Acompanha uma moda, uma necessidade de reciclagem, de manutenção. Tudo fala de efemeridade, de transitoriedade. De movimento.

Cidade para mim, é isto. Uma rede de interações e representações, que pulsa, que se transforma o tempo inteiro. Cidade é processo. É evidente que, a esta altura, assumo a noção de que cada cidade são várias e que, para cada um de nós, cada imagem da cidade é mediada por suas experiências, sonhos, expectativas, desejos e frustrações.

Aqui entra a minha dificuldade com o conceito de cidade ideal. 
Mikonos (Grécia)

É que, historicamente, esse conceito sempre esteve associado a algo estático. A um estado a que se almeja chegar, e no qual, quando alcançado, todos os problemas estarão resolvidos. Idealizamos, fantasiamos, projetamos, isso não é ruim, pelo contrário. Se serve de motor, é ótimo. Se serve de meta, de destino final, aí está o problema. Idealizamos o passado, nossa memória é uma narrativa para sempre ficcional, subjetiva. Idealizamos a cidade, talvez desde sempre. Os poetas gregos já cantavam suas cidades, as virtudes de seus cidadãos, a glória de suas conquistas. E de longe parece tudo tão mais lindo, os dias são ensolarados, as águas são azuis, os jardins são floridos, as casas são amplas, os heróis são virtuosos. De perto, há barulho, sujeira nas calçadas, a chuva faz transbordar os bueiros, os ônibus buzinam e param em fila dupla, meninos pedem esmola nos sinais e cheiram cola sob a marquise.

Sonhar uma cidade melhor (eu disse melhor, não disse perfeita) é importante, sim. Mas não pode obliterar nossa visão, nos impedir de enxergar as mazelas de todo dia. Nem deve nos fazer desistir.

Foi ali pelo Renascimento que surgiu com força essa coisa de pensar e propor a Cidade Ideal. Quantidades de arquitetos escreveram tratados e propuseram planos, descrevendo como seria essa cidade. Como a onda era o racionalismo, o humanismo e tal, esses desenhos de cidades eram quase sempre figuras geométricas regulares: cidades circulares, octogonais, em forma de estrela, quando muito quadradas. Sempre figuras que se podia inscrever no círculo, a mais perfeita das formas. O eixo principal dessa perfeição e idealização da cidade era a estética. A cidade ideal devia ser bela. Ninguém ainda se preocupava com os aspectos sociais ou funcionais da cidade. Isso só veio com a Revolução Industrial e suas mazelas.
O renascimento surge com a utilidade do
octógono, não só de um ponto de vista
 simbólico mas também construtivo.
É de base octogonal a cúpula de Santa
Maria del Fiore em Florença,
obra-prima do Brunelleschi.
Só que ficou, pra nós, uma expectativa meio mecânica de que uma cidade bem planejada é uma cidade sem problemas, que funcionaria como um relojinho, cada coisa no seu lugar. Como se a cidade fosse um objeto inerte que, uma vez organizado, limpo e “consertado”, assim permaneceria. E mais, ficou uma certa impressão de que cabe ao Estado elaborar, executar e fiscalizar um plano de intervenção que acabaria com os problemas da cidade. Nós estamos no século XXI, lidamos com realidades virtuais, desterritorialização do trabalho e da economia, multiplicidade das possibilidades de comunicação e relacionamento, mas ainda pensamos a cidade bem parecidinho com o que faziam os caras lááááá no século XVI ou XVII.

No livro “O que é cidade” (Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense), Raquel Rolnik lista quatro temas recorrentes das idealizações renascentistas que ainda permeiam nossas concepções de cidade:

1) A tendência a fazermos uma leitura mecânica da cidade, como se ela se reduzisse a uma circulação de fluxos – de pedestres, de veículos, de cargas, de dinheiro, de ventos ou águas;

2) A ideia de ordenação matemática (regularidade, repetição) como base da racionalização na produção do espaço;

3) A suposição de que uma cidade planejada é uma cidade sem males (muita gente boa no planejamento urbano, lá no fundo, ainda trabalha com essa hipótese)

4) A crença na capacidade do Estado de controlar a cidade, através das normas, da legislação, da fiscalização e, em última instância, da polícia.
Eu só tenho uma coisa a dizer: esquece. Essa cidade dócil e arrumada não existe, nunca existiu e não existirá (amém). A gente precisa, cada vez com mais urgência, pensar a cidade como processo, como algo em constante mutação e construção, e principalmente como uma construção coletiva, o que significa que é muito provável que os rumos tomados a cada instante não sejam sempre aqueles que euzinha desejaria ou consideraria melhores. A cidade não pertence ao Estado, ela pertence a todos nós e especialmente a quem dela participa (vocês já pararam pra pensar na proximidade semântica das palavras POLIS – que designa as cidades-estado gregas e POLÍTICA?). Aos que se omitem, restam a reclamação vazia, o nariz torcido e a desesperança.
Françoise Choay

Há uma autora ótima que trabalha muito com esse tema, chama-se Françoise Choay. Há dois livros em especial, em que ela se debruça sobre essa questão, da elaboração histórica das propostas sobre cidades ideais. Um deles se chama O Urbanismo, e nele ela examina especialmente os pensadores dos séculos XVIII e XIX e suas crenças sobre as causas dos problemas das cidades, bem como as soluções que eles apresentavam. O outro livro, mais erudito um pouco, mas fantástico, chama-se A Regra e o Modelo, e nele Choay desenvolve o tema da cidade ideal a partir da pesquisa sobre os tratadistas do Renascimento, começando com Leon Batista Alberti e sua releitura do tratado de Vitruvius, do século I d.C., e seguindo por muitos outros, da Itália, da França e da Inglaterra, que perseguem essa miragem, com destaque para a Utopia de Thomas Morus. 

Eu digo miragem mas longe de mim retirar o valor fantástico dessas proposições, que hoje, em nosso mundo tão pragmático, nos fazem imensa falta. Podemos falar mais disso depois, a importância de voar no sonho da cidade, para poder construí-la no aqui e agora com realidade, mas também com poesia.

Beijos,
Ana Paula