Mostrando postagens com marcador Senhora do Tempo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Senhora do Tempo. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de março de 2012

SENHORA DO TEMPO. GUARDIÕES DA MEMÓRIA

Por Vera Guimarães

Hoje esta senhora do tempo destaca alguns de seus parentes que muito fizeram e fazem pela preservação da história da família. Há os que contam casos, os que fazem festas e reuniões, aqueles que emprestam seus sítios, os que convidam para suas casas, os que fazem rir com casos saborosos envolvendo antepassados, os que transmitem receitas culinárias, os que transportam parentes em visita a outros, os que enviam cartões em datas importantes, os que guardam na memória o dia do aniversário de muitos, os que se esforçam para destrinchar a genealogia, os que sabem o nome de todos, os que rezam pelos outros, os que proveem recursos materiais aos que precisam.

Uma dessas pessoas foi nossa irmã Zila, que já se foi deste mundo, autora do livro PROSA NA VARANDA, (fig. 1) registro de conversas dela com nossa mãe e nosso pai e muitas outras pessoas da família, do que resultou valioso patrimônio imaterial, que mostra como se vivia, quem éramos, o que pensavam e como agiam nossos antepassados e seus contemporâneos.

Aqui ela reproduz relato de nossa mãe sobre bodas de ouro de um casal de tios, festa que aconteceu em fazenda-cenário de toda nossa vida.

“Agora vamos às Bodas de Ouro do casal, que na época morava na Vargem Alegre. Mas a festança foi no Olhos d´Água, onde morava a filha deles, Sá Mariquinha, que era casada com Sô Gandini, italiano que veio fazer a ponte antiga sobre o Rio das Velhas, em Traíras. Por ali ficou, casou e tiveram muitos filhos, Como no sobrado deles tinha luz elétrica, mais conforto, salão de festas, de refeição, com mesa e bancos enormes, terreiro na frente e nos fundos, ficou acertada a festa. Tudo foi muito bonito, foram pessoas de vários lugares, inclusive o fotógrafo de Belo Horizonte, o Higino Bonfiglioli, que tirou muitos retratos der famílias dali, inclusive da nossa. A capela não cabia o povo todo, mas as casuarinas davam sombra, como as outras árvores que enfeitavam a frente do sobrado. O celebrante foi Padre Castanheira, de Portugal, que foi para Traíras e assistia toda a região. De sábado para domingo, teve um baile de arromba no salão de cima, coisa chique, e no outro dia teve festa o dia todo, comida, mesa de doces, mesa de café, leite e quitandas, o que deve ter gasto muita gente ali fazendo. E os preparos das carnes, que não arrumaram num dia só? A vaca que mataram chamava Espanhola. Ela foi para o Riachão, para engordar, e voltou de lá roliça. Fez um farturão. Não sei se teve batuque, mas deve ter tido, pois todo mundo por ali gostava. Tiraram um retrato que é uma beleza, de um tanto de cavaleiros encarrilhados, no terreiro da frente. Quase ninguém tinha outra condução a não ser cavalo ou carro de boi. Lembro que chegaram na Vargem Nova todos da  família de Nhô Luis e Lendá, muitas filhas deles. Lembro delas sentadas no caixão da cozinha, aqueles altos, de madeira, com tampas de suspender e que eram para guardar mantimentos ou roupas de cama. Uns falavam tulha e hoje é arca. Aí eu era moça de namorar. Acho que elas ficavam ali esperando o almoço. Usava jantar todos na cozinha e conversar ali, à vontade.”

Pois, então, este foi um dos muitos enredos descritos no livro PROSA NA VARANDA, de nossa irmã Zila, que, assim, garantiu parte da preservação do patrimônio imaterial da família.   

O cenário de tantos eventos significativos de nossa família foi esse casarão. Nele aconteceu a festa de bodas de ouro descrita acima e muitos outros encontros.

Durante muito tempo, desde que me lembro, frequentei essa fazenda, que, na minha infância, pertencia à família de querida prima, que nos acolhia com carinho, quitandas e jabuticabas sem fim.

A fazenda com suas jabuticabas sem fim                        Hoje, o casarão em reforma

Hoje, adquirida e preservada por um sobrinho, se firma como mais um marco concreto de nossas lembranças. A todos esses parentes que conservam suas casas, esse patrimônio material da família, nosso reconhecimento e nossa homenagem.

domingo, 4 de março de 2012

SENHORA DO TEMPO. O GIRA-GIRA LÁ DE CASA

Google Images

Por Ana Laura Diniz

“Vai, roda mais rápido! Mais rápido!!!”. Das recordações que tenho dos meus parcos dois anos de idade, uma delas era a alegria de rodar no gira-gira e impulsionar no balanço que ficava no quintal lá de casa. Lembro até hoje a sensação do vento na barriga... quanto maior era a velocidade nos brinquedos, mais eu amava.

Nessa época eu morava na rua Linda Ferreira da Rosa, no bairro de Perdizes, em São Paulo. Assim como a casa, nasci em um lugar que faz tempo não mais existe: Hospital Matarazzo, mais propriamente na Maternidade Condessa Filomena Matarazzo. E até vivenciar a minha primeira mudança de casa e cidade, aos seis anos, lembro do universo criado naquele quintal... que naturalmente se estendia ao quintal do vizinho... e do terreno baldio que também tinha ao lado da casa, onde com irmãos e amigos passei tardes inesquecíveis.

Google Images
Brincávamos de tudo: pique-pega, esconde-esconde, ciranda, ou simplesmente corríamos de um lado pro outro sonhando ser heróis ou atores de algum filme de faroeste. E como aprontávamos!

De quando em quando, ligávamos para o trabalho do meu pai para dizer que um dos tios havia chegado de surpresa de Belo Horizonte. Ele saía mais cedo do trabalho e cadê o irmão dele?!  “Surpresaaaa!!!!”...  não tinha ninguém além da gente mesmo: ele sempre trabalhou muito mais do que o expediente exigia (trabalha até hoje), e sempre arquitetávamos planos de trazê-lo pra casa mais cedo.

Minha mãe, claro, nem sempre sabia o que a gente aprontava. E raramente estressava. Quando calhava de os cinco filhos brigarem, coisa rara – era um “pega pra capá” – e ela simplesmente abria a porta de um quarto e dizia: “meninos, todos pra cá”. Nós obedecíamos, e ela completava calmamente: “É o seguinte, vou fechar a porta e vocês continuem brigando. O que sobreviver, vai lá na sala e me chama”, e saía tranquilamente.

Nem preciso dizer que a discussão acabava imediatamente. E como não queríamos ficar confinados olhando um pra cara do outro, rapidamente saía um para dizer que tínhamos feito as pazes. Ela ouvia e falava: “ah, é? Que bom!”. E ao chegar no quarto, completava: “Que bom que fizeram as pazes, vocês são muitos e precisam ser amigos uns dos outros. Está mesmo tudo bem?”. Nem sempre estava, mas mentíamos: “Sim, mãe, está”. E ela então arrematava: “Ótimo, então abracem uns aos outros”... e abraçávamos...

Já experimentou abraçar alguém que você tem ou está com raiva? Quando criança, afirmo de carteirinha, é mágico: se há alguma raiva ou mágoa restante, ela vai embora no momento em que se abraça, puft! E já saíamos brincando novamente. O meu pai fazia o mesmo.

Google Images
E era uma festa. Com duas empregadas pelo menos, pra dar conta da casa e da gente, mamãe fazia “vista grossa” pra muita coisa. Tinha uma empregada, por exemplo, que varria a sujeira pra debaixo do tapete pra acabar mais rápido a limpeza e ficar brincando com a gente. Tudo muito inesquecível. Principalmente porque era um gesto tão puro, tão sem maldade, que realmente mamãe não incomodava – e, claro, pedia para a outra empregada limpar. Ninguém era de fato prejudicado, e a vida corria solta. E aos giros. Ao menos, aos olhos... e no quintal daquela casa, que mesmo tendo sido transformada em prédio, existe perfeitamente na memória da gente.

domingo, 6 de novembro de 2011

SENHORA DO TEMPO - COLOR BLOCKING

Por Vera Guimarães

Na vitrine da loja chic, a montagem: regata de seda roxa, short de seda amarela. Dito assim, parece uma palhaçada. Mas, não. Era uma seda fosca, de inquestionável qualidade, e os tons se harmonizavam perfeitamente. Não era qualquer roxo, não era qualquer amarelo, eles combinavam.

Eu devia estar no ginasial, 13 ou 14 anos. Numa festinha, apareceu uma garota usando um vestido naquele mesmo tom de amarelo, enfeitado com faixa roxa, um raminho de violetas de lado. Muito críticas, e provavelmente despeitadas, colega e eu fizemos entre nós chacota daquela combinação.  
Tempos depois, já na faculdade, eu via, com certo espanto, uma colega mais arrojada usar rosa com vermelho, ou verde com azul, misturas pouco usuais.
Parece que nada acrescentei ao progresso da civilização ao criticar e me espantar com quem faz diferente. Hoje, primavera de 2011, misturar cores é uma tendência, a color blocking, que está em todas as revistas de moda, como as figuras abaixo.



E, mesmo que não fosse moda, as pessoas podem, sim, vestir o que lhes agrade e não apenas  o que seja considerado pelos outros como harmonioso ou normal. E, sim, foram as pessoas que ousaram cabelos diferentes, roupas diferentes, aquelas que enfrentaram rótulos infamantes e desrespeitosos, foram essas pessoas que garantiram que hoje usemos roupas confortáveis e agradáveis.
Se isso acontece no plano absolutamente individual (Huuuum, sei não! Nada é tão individual assim.), imaginemos no plano dos costumes, do comportamento, das relações de trabalho, das estruturas afetivas e familiares.

Só para ficar num pequeno exemplo, nós, mulheres, hoje não sairíamos sozinhas, não trabalharíamos nem votaríamos, nem mesmo leríamos, se algumas “loucas” não tivessem enfrentado as críticas gratuitas, se não tivessem aguentado as ridicularizações, pressões, prisão, humilhações e até a morte em defesa de suas convicções.   
                                                                                                                 
Chiquinha Gonzaga

Bertha Lutz




Daqui pra frente, prometo pensar duas vezes antes de jogar pedras em quem, literal ou metaforicamente, use vermelho com roxo!


domingo, 23 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. A MÍSTICA DO TRABALHO

Por Vera Guimarães

Imagem: deiatricotando.blogspot.com
Amiga me conta que há uns 10 dias não tem sido produtiva, que tem ficado no ócio e que tem achado isso muito bom. Quer dizer, apesar de sempre ter trabalhado muito durante toda a vida, de estar com os filhos criados, ainda assim o ficar sem fazer nada aparece como algo não muito natural, tanto que mereceu registro.

Meu irmão fazendeiro foi derrubado por uma vaca, trincou osso do joelho, foi levado a contragosto ao hospital, disseram-lhe que ficasse de repouso, mas ele fugiu das recomendações e com dois dias já estava no curral.


Ao ficar viúva, uma de minhas irmãs me confidenciou que seu sonho agora é viver num hotel e usar um tanto do seu tempo em atividades realmente prazerosas para ela, tais como conviver mais com amigas, dedicar-se a passeios, rezas, TV e leituras. Passado quase um ano, ela continua envolvida com a lida doméstica, sem se libertar da vida antiga, apesar de não ter quem, a rigor, dependa dela.  




Certa época, entrou para a organização onde eu trabalhava uma turma nova, moderna, disposta, realmente boa de serviço. Uma dessas pessoas, além de ser capaz, fazia mesmo questão de se mostrar sempre ocupada, estudiosa e apressada. Um dia nos encontramos no clube, ela na sua espreguiçadeira. Muito gentil, me chamou para me juntar a ela e explicou que gostava de aproveitar aquelas horas para ler suas revistas técnicas especializadas. Ao abrir espaço para mim, caíram da mesinha várias das revistas. Até hoje, aqui em casa, CARAS é chamada de revista técnica especializada.


São inúmeros os casos de pessoas que não admitem ficar sem trabalhar, que não se permitem papear à toa com amigos, que não conseguem transferir tarefas para outrem, que não dão conta de simplificar a rotina, que não param nem para cuidar da saúde,  que acham desdouro o lazer.
Não me refiro a quem de fato executa seu trabalho com leveza, com prazer. São incontáveis também os casos de pessoas que seguem assim felizes até o fim da vida, seja no que sempre fizeram ou em algo novo. Também não me refiro às que são obrigadas pelas circunstâncias a assumir certos papeis.


Eu me refiro àquelas pessoas que simplesmente não conseguem deixar de executar tarefas desagradáveis e até certo ponto desnecessárias, àquelas pessoas que não reconhecem a praticidade de alguns aspectos da vida moderna, àquelas que, mesmo podendo, não sabem substituir algo complicado por algo já pronto, àquelas que supõem que certos serviços sejam sua obrigação, seja por culpa, hábito arraigado, senso exagerado de dever ou perfeccionismo.


A Expulsão do Paraíso,
Charles Joseph Natoire,
c. 1770 - fflch.usp.br
Como se construiu esta mística do trabalho? Primeiro, em lições da Bíblia, guia e inspiração de toda a civilização ocidental, que, ainda no Genesis, nos conta que, como castigo pela desobediência, Adão e Eva, ao serem expulsos do Paraíso, perderam a inocência, a imortalidade e o direito ao ócio: “Comereis o pão com o suor do vosso rosto.”
Ao longo da história, as religiões e vários sistemas filosóficos e de governo reforçaram a ideia do trabalho não apenas como necessidade, mas também como valor moral. A fábula A Cigarra e a Formiga e a historinha A Galinha Ruiva são exemplos dessa pedagogia.
                                                                                 
Na família de minha mãe, alguns episódios com certeza ajudaram a formar trabalhadores compulsivos. Por exemplo, em festas, almoços ou jantares em casa, nem bem acabada a comemoração, lá estava uma prima encarando o monstro da pia, lavando aquele mundo de louça. Quando alguém comentou: “Você gosta de lavar vasilha, né?”, ela respondeu de voleio: “Eu, não! Eu não gosto é de ver vasilha suja!”


Um dos meus tios, já passado dos 80 anos, portanto com mais de setenta anos de trabalho duro na roça, estava descansando depois do almoço, quando chegaram visitas. O quarto dele dava diretamente para a sala onde se encontravam essas pessoas. Apertado por ter sido pego no ócio, ele não relutou: pulou a janela, deu volta na casa, e apareceu na sala como se estivesse vindo de alguma ocupação no terreiro ou no curral.


Ao fim deste relato, constato que, como quase tudo na vida, aqui também é tudo muito relativo. Se, por um lado, comparada a pessoas operosas e diligentes, eu me considero folgada e preguiçosa, por outro lado, frente a outras pessoas, sou eu a operosa e diligente.   

domingo, 16 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. UM PULO RÁPIDO NA INFÂNCIA

Por Ana Laura Diniz


Carrego tanta lembrança da infância que fica difícil falar de uma coisa ou outra. Mas eis que estou em São Paulo, e vendo a casa da minha irmã cheia de caixas de mudança - pois meus pais retornaram para cá - pensei nas tranças, nas tramas, nos caminhos, nas aventuras, nas viagens, enfim, nas situações inusitadas. E foram muitas.

A mais comum era inventar que algum tio tinha chegado de surpresa em São Paulo (eles moravam, em maioria, em Belo Horizonte), o que fazia meu pai chegar mais cedo do trabalho... ah, que delícia! Podíamos curti-lo um pouco mais, pois sempre trabalhou demais.

Meus pais - Neyde e Mário Lúcio -, criaram uma casa de Anas e Luíses: Ana Beatriz, Luís Henrique, Luís Fernando, Ana Cristina e eu, Ana Laura. Nasci sendo uma estatística - um caso em um milhão - pois minha mãe ficou grávida quase quatro anos depois de já ter ligado as trompas. 

E nós cinco aprontávamos! Costumávamos fazer surpresas sempre que possível. Hoje, lembrando das situações, penso que a cada vez que dizíamos ter uma surpresa, eles deviam temer... Mas não sei, pois nunca, jamais esboçaram nenhum desgosto. Como num domingo de sol em que resolvemos lavar o carro do papai - um passat novo em folha, de um verde metálico muito bonito... terminamos e fomos chamá-lo: 


- Pai, pai, venha ver, fizemos uma surpresa para você!


Todos junto, querendo levá-lo pela mão, até que ele chegou, viu e disse sorrindo:


- Ah, que legal... vocês lavaram o carro do papai?!?
- Sim, pai, lavamos!!!
- Agora diz uma coisa para o papai: vocês passaram bombril nele?
- Sim, pai, passamos, passamos!!!
- Ah, que legal, ficou muuuuito bonito!!! 


E todos entramos felizes da vida.


Dispensável dizer que só tivemos consciência do que tínhamos feito muitos anos depois, uma vez que ele não brigou com a gente. O carro só tinha uma semana e o arranhamos por inteiro... E ganhamos o melhor sorriso do mundo como recompensa.

E mamãe seguia a mesma política: não se estressava por nada. Uma vez, a casa recém-pintada, chamamos os dois para a sala dizendo ter uma surpresa! Eles chegaram, olharam e disseram:

- Desculpem, filhos, mas não estamos vendo nada...

Nós rimos. Três de um lado e dois do outro lado - abrimos a cortina:

- Tcharammmm...

- Nossa filhos, que legal, vocês desenharam a parede inteira??!
- Sim, vocês gostaram??
- Muito, filhos, está lindo!!!

E havia o que quisesse: carros, montanhas, sol, lua, mar, estrela, crianças brincando, andando de bicicleta... o que mais pudesse.

As histórias são muitas, quase que infindáveis... coisas que nem imaginam...

Então olho para essas caixas de mudança e penso no número de vezes que já mudamos de casa, de bairro, de cidade... e mais ainda: que é possível viver num mundo de harmonia, sem qualquer nível de violência para se obter realmente o respeito. No lugar de palmada, diálogo sempre (muito) aberto. E pensando bem, essa característica sobreviveu e nos acompanha até hoje.

domingo, 2 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. TRABALHO INFANTIL

Por Vera Guimarães

Não pretendo abordar o drama mundial que é o trabalho infantil, prática que escraviza e condena à morte e à degradação milhões de vidas ainda no começo. Em todas as partes do mundo crianças são submetidas a tarefas pesadas, insalubres, continuadas, em muitos casos acima de suas forças e de sua compreensão.

Os meninos carvoeiros não têm perspectiva de mudança de vida, nem nunca brincarão nem irão à escola. Os ditos falcões, meninos do tráfico, Falcão - Meninos do Tráfico, têm baixa expectativa de vida e declaram mesmo que não querem viver. Nas grandes cidades, meninas pequenas são retiradas da escola para cuidar de irmãos menores enquanto as mães trabalham. Ou vão para a rua vender bala. Ou vão se prostituir.

Quero, sim, contar de um trabalho infantil divertido, prazeroso, integrador, aquele executado por crianças ao lado de seus pais, aquele que complementa o próprio trabalho dos adultos, feito de tarefas que significam simulação de papéis e aprendizado para o futuro.

Assim que minha família se mudou da roça para a cidade, em fins da década de 1930, meu pai começou um negócio de produção de fumo. Eu ainda não era nascida. Na ampla chácara dentro da cidade, meu pai fazia os viveiros e plantava as mudas. Zila é quem conta: “As flores do fumal eram lindas, cor-de-rosa, e nelas estavam as sementes, miudinhas. Depois vinha a colheita das folhas, que eram postas em balaios e levadas para o barracão, onde eram penduradas até a hora de destalar. Tinha bancos com uma roda enfiada, presa nele; a pessoa assentada ia fiando, fazendo as tiras. Depois juntava três e saia uma trança bonita e firme. Tudo na roda, fiando ou trançando. Depois embalava numa lata, fazendo uma “rodia” (rodilha?) dentro dela, ou enrolava num pau. O rolo de fumo. O fumo de rolo. Aí tinha o fraco, o forte, o amarelo, o preto, o fino, o grosso, a gosto de todos os fregueses. Bem destalados, bem fiados e com aquela ciência de quem sabia fazer bem feito.” (Zila Guimarães Lanza, minha irmã, in PROSA NA VARANDA).

Todos trabalhavam nisso. Uma das irmãs me contou que nosso irmão mais velho levava o rádio (na nossa casa, sempre o rádio!) para o barracão e promovia concursos, algo assim como adivinhar qual seria o próximo cantor, quem sabia cantar a música, qual ritmo viria. Suponho que o prêmio seria diminuir as tarefas do ganhador. Vejam só, antes de inventarem a matéria Gestão de Pessoas meu irmão já praticava estratégias motivacionais!

Perdi o ciclo do fumo, mas depois conquistei minhas pequenas tarefas. Mais nova da casa, sempre acompanhei minha mãe às compras. Aprendi a escolher frutas, legumes e verduras e hoje, mesmo com os recursos de compras on line, gosto de ir pessoalmente ao supermercado ou à frutaria.

Dia desses, compramos canela em pó e eu lembrei que antigamente a gente usava canela em lascas, aquela casca seca e enroladinha. Era uma das minhas tarefas socá-la no almofariz de bronze até virar um pó finíssimo, do qual exalava o aroma delicioso da especiaria. A cor, inconfundível, foi cantada em prosa e verso na nossa literatura e em letras de músicas. Além da mais óbvia de todas, A MULATA É A TAL, de Braguinha, (“Mulata cor de canela, Salve, Salve, Salve ela!”), tem também Milton Nascimento:



A figura do almofariz sempre me trouxe lembranças agradáveis e, assim que encontrei um parecido com o nosso, o trouxe para minha casa, onde divide espaço com a tesoura enferrujada, abridores de latas e de garrafas, a carretilha de abrir massa de pastel, objetos usados na velha cozinha da minha mãe.

Ficar rodeando a cozinha trazia alguns bônus, coisinhas bobas e muito apreciadas por mim e outras crianças. Por exemplo, em dias de festa ou de preparação de uma comida melhor, ajudar a descaroçar azeitonas e ameixas garantia poder chupar os caroços mal trabalhados. Abrir a lata de leite condensado significava poder ficar com a sobra. Ajudar a bater claras em neve para o bolo assegurava poder raspar a tigela onde foi batida a massa, assim, crua mesmo. E ganhar a raspa do doce de leite no fundo do tacho de cobre, aqueles queimadinhos? Era o céu na terra!

Trabalhar não era castigo. Mesmo assim, eu fazia corpo mole para algumas tarefas. Mas no geral entregava marmitas de bom grado. Ia feliz fazer alguma compra, entregar ou buscar alguma encomenda, levar recado para um parente, levar tecido para cobrir botão, chulear uma roupa.

Também gostava de descascar verduras e o fazia seguindo instruções estritas de minha mãe para não tirar casca grossa. O desperdício era inadmissível. E foi assim que fui eleita a descascadora das laranjas da terra que se transformariam em maravilhosa compota, amarela e brilhante.

Aliás, para cozinhar essas frutas ou outro alimento que demandasse tempo e muito gasto de gás, fazíamos fogareiro de serragem, e eu adorava participar de todas as etapas da confecção desse engenhoso artefato. Era assim: primeiro, Mamãe e eu íamos à serraria buscar a serragem, resíduo do corte da madeira, um pó fino. Não sei se era comprada ou ganhada. Em casa já havia uma lata de 20 litros da qual se havia retirado a tampa e se havia feito um buraco ao pé de uma das faces. Nesse buraco se enfiava um toco de lenha, cilíndrico, e pela abertura de cima, de onde tinha saído a tampa da lata, se enfiava outro. Aí eu segurava unidas perpendicularmente essas duas peças de madeira, enquanto Mamãe ia despejando a serragem. Aí é que era bom. Provavelmente por ter os pés ainda pequenos, eu subia e marchava em cima da serragem, que ia ficando gradativamente compactada. Eu saía e se despejava outro tanto de serragem. E assim sucessivamente, até o material chegar à borda da lata. Retirávamos as peças de madeira com cuidado para não desmoronar aquela estrutura e tínhamos um túnel em L. Colocava-se em cima da lata a panela ou o tacho e acendia-se o fogo, que resultava numa bela e duradoura chama que ardia durante horas, a serragem se consumindo lentamente.

Meus irmãos mais velhos com certeza trabalharam mais do que eu. Caçula, mais protegida, pouco fiz para aliviar a imensa carga de trabalho da minha mãe. Trabalho infantil para mim era algo leve e divertido.

Pena que não possa ser assim para todas as crianças!

domingo, 25 de setembro de 2011

SENHORA DO TEMPO. VIAJANDO...

Hoje as senhoras do tempo são minha mãe e minha irmã Zila, a que conta e a que anota, respectivamente, e elas falam de nossos passeios, de nossas viagens. Este relato e muitos outros são fruto de conversas sem fim que Zila teve com parentes e amigos e que resultaram no livro PROSA NA VARANDA, de 1991. As duas já partiram deste mundo, mas aqui estão.
[Vera Guimarães].



“Mamãe relembra nossas andanças que já foram muitas vezes faladas aqui. Mesmo com a meninada pequena, tanto na roça como morando aqui, ela e Papai não perdiam as missas e festas por lá, os velórios, as obrigações sociais todas, não deixando nenhuma amizade esfriar nem morrer. O mesmo aconteceu em Sete Lagoas, onde fizeram muitos amigos e compadres e não era difícil saírem da cidade, a pé, para visitar esses amigos todos, no Gersão, no Sapé, Gineta, Boqueirão e em tantos outros lugares. Papai trabalhou no Bosque, perto da Sede, e “cortava” isso tudo a pé mesmo.

Antes de Conceição de tio Lulu casar, Mamãe deu vontade de rever os irmãos, os sobrinhos e os amigos, amanheceu lá no Guará e puseram o pé na estrada, as duas. Rodearam e foram chegar no Olhos d´Água, após ter o sol ainda queimando e Afonso teve pena delas, ele que era o rei da boa vontade, ficou à  disposição para levá-las de carro até o ponto de partida. Isso foi repetido centenas de vezes, do ponto até no tio Lico, até no tio Osório, até no tio Rege, até no tio Pedro Celes, até no tio Lulu Campelo.”  Zila Guimarães Lanza

Aqui entra Mamãe:

“Ô, pobreza feliz, viu? A gente não tinha carro, não, mas passeava muito, sem preguiça de nada. Quando tinha as festas, a gente enchia um caminhão, bem velho, que era o de preço mais barato, e lá ia aquele povão cantando pela estrada poeirenta ou barrenta de Jequitibá a Pirapama, essa que hoje é asfaltada. Mas ela era, em muitos trechos, em outro lugar (até Jequitibá), cheia de curvas, estreita, com pontes em cima do ribeirão e sempre, na chuva, com ele transbordando. Falo assim pensando na ponte velha, aquela do rio das Velhas que, no fim, balançava e era buraco só. A gente descia do caminhão velho, fazia “nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, amém” e passava, pisa aqui, pisa ali, os meninos chorando de medo, Diva empacada, que não ia nunca mais, chorando. Mas era só chegar outra data festiva, ó nós pegando o “trem” de novo”! Medo, fazia era medo mesmo! E,quando a viagem era pra diante do Lulu Campelo, que era o mais perto pra nossa “turnê”, melhor. Tinha o último dos irmãos, o Osório, mais perto de Pirapama, e aí era mais um tanto de estada cheia de curva, pontes fracas nos córregos que até “rodaram” um ônibus cheio de gente, o da Onça, cheio, e muitos perigos que enfrentamos, mas, graças a Deus e à “Nossa Santa Ignorância”, fomos, aos trancos e barrancos, arriscamos até nossas vidas, mas estamos aí. Agora que a gente vê que foi muita loucura, mas Deus segurou cada um de nós. Ele via que era o jeito da gente ir e não podia decepcionar tanta gente, inclusive nossa meninada, os que moravam conosco e os que já tinham mudado para cá. Não sei como a comunicação chegava para todos, a combinação era feita e na hora de sair era um tal de parar e entrar  passageiros, como se fosse um caminhão de “miçanga”. (O clima era bem esse da foto do www.fotoscanastras.blogger.com.br).



Aí o tempo foi passando, uns já ganhando seu dinheiro, melhorando de vida e nós ficando até chiques... Já podíamos fretar um ônibus! Lotar era fácil, era todo mundo querendo ir e a gente ia mesmo. Foram comprando carros, uns levando quem não tinha condução, mas eu tem até pouco tempo que parei de andar de ônibus, descer nos pontos e chegar, longe, a pé onde era o destino. Cira comprou carro, dirige, Verinha, Geraldo, Alexandre, Artur, Paulo Henrique, todos, me põem no carro deles e vamos lá. Isso é nas fazendas, na do Paulito (já fui muito, a pé, do ponto até lá, ou direto, de caminhão), em outras, do nosso pessoal, até Nova Almeida, e ao redor desta cidade, que é meu pião. Já tenho uma sacola pronta e “não mudo a roupa”, de chegar por uma porta e sair por outra, nem! De avião, já andei que chega, já fui longe e acho que não falta nada para eu experimentar nessa vida. Umas dúzias, mais ou menos, de netos meus, de sobrinhos, os genros Tarcísio e Artur, já moraram, passearam, estudaram ou trabalharam em muitos países da Europa, e outros lá longe, que só sei ser no “estrangeiro”, como a gente usava falar. Nem era assim, era “na estranja” que os meninos falavam. Nossa família vai de avião, de navio, de trem, de ônibus, de caminhão de gado (a Zila, caroneira, que o diga), de carro velho, na carroceria de caminhão, de caminhonete, de jipe, de Rural, de cavalo, de carroça, de carro de boi, de “a pé”, mas o importante é ir, é chegar como todas as vezes, graças a Deus, nós chegamos até hoje. Gente, temos que rezar muitos terços, agradecer muito a Deus por tudo que fizemos, tudo que vivemos, que sofremos e, mais, que Ele nos deu de alegrias e felicidades. Nossa família, que agora vocês, mais novos, conhecem um pouco mais, é e sempre foi uma família feliz e honrada e tiveram, muitos, e ainda têm a sorte de uma vida longa, de poder colher os frutos do que plantaram. E valeu a pena lutar. Vocês, que estão aí com os mais velhos, amparando os passos que vão diminuindo cada vez mais, sabem que a vida é um dom de Deus e sabem valorizar cada passo que dão nos seus caminhos. Sou tão feliz por isso e por tudo. Geraldo, Lenir, Débora e Juarez vão voar amanhã para um passeio longe. Vão conhecer vários países que um punhado dos meus já conhece. Peçamos a Deus que eles sejam felizes como vocês (e os que estão lá) foram e são pela oportunidade de conhecer outro “mundo”. Vão com Deus! “ (Dona Didi, minha mãe).

Conservo de Mamãe esse gosto por sair passeando, encontrando amigos e parentes, vendo pessoas desconhecidas, novas paisagens. E da Zila, o prazer de contar. É por isso que de vez em quando registro o que vi e senti em viagens por “Oropa, França e Bahia”! Ou por “terras, Datas e Gouveia”! Enfim, por aqui e “na estranja”!

domingo, 19 de junho de 2011

SENHORA DO TEMPO. ABASTECENDO-NOS...

Por Vera Guimarães

Minha mãe nasceu e foi criada na roça. Ela viveu, nas primeiras décadas do século XX, no mundo da quase absoluta auto-suficiência das fazendas. Em cada uma dessas unidades se produzia de tudo. A alimentação vinha das lavouras, do gado, dos pequenos animais criados no quintal, das hortas, dos pomares. Do leite tirado nos currais se faziam os queijos, os requeijões morenos, a manteiga, os doces. Os cobertores e parte do vestuário vinham do algodão plantado por ali mesmo ou do pelo das ovelhas, tudo fiado, cardado, tingido, tecido e costurado em casa. Várias das fazendas tinham seu próprio engenho, onde se beneficiava a cana, do que resultavam açúcar, rapaduras, aguardentes. Quase todas tinham forjas, olarias, serrarias, carpintarias e marcenarias, que tornavam possível a construção de casas, currais, paióis e tulhas, a fabricação de carros-de-boi, charretes e carroças, a criação, desenvolvimento e manutenção de instrumentos, máquinas e ferramentas. 

Quando a família se mudou para a cidade, no final de década de 1930, entramos em outra era, a era do dinheiro em troca das mercadorias, ou das mercadorias em troca de dinheiro.

Para o abastecimento do básico, feijão, arroz, açúcar, batata e óleo, de que precisávamos em grande quantidade, já que minha mãe abriu uma pensão e também fornecia marmitas, havia os armazéns de secos e molhados, os atacadistas, galpões enormes e desprovidos de charme. Eu, mais nova e menos envolvida com as tarefas da casa, acompanhava minha mãe em todas as compras e bem que gostava de subir nas pilhas de sacas de gêneros, de ver o movimento de carregamento e descarregamento de caminhões e carroças, reparava nos enormes caixões de feijão mulato, feijão preto, feijão fradinho, feijão roxinho..., o arroz com casca, arroz pilado, apreciava o cheiro das réstias de cebola e alho. Ali se comprava em quantidades maiores, em sacas de 60 k ou latas de 20 litros.

Caso precisássemos de quantidades menores de algo, recorríamos às vendas, atraentes e curiosíssimas, onde se encontrava de tudo, para tudo, de todos os tamanhos, para todos os gostos. Mais ou menos como na imagem abaixo:


Comprávamos leite e manteiga em pequenas chácaras afastadas, e para chegar a elas atravessávamos pastos e pequenos córregos. (Inacreditável como o lugar dessas fazendinhas é hoje um centro urbano riscado de ruas e cheio de prédios e casas.) Ou também comprávamos o leite de vendedores que percorriam as ruas em carroças e o retiravam de dentro de latões com uma caneca de cabo longo.

Depois, numa fase mais moderna, desenvolveram um sistema em que o leite ficava dentro de recipiente hermético, enorme cilindro de metal com um litro de vidro invertido acoplado. Ver o leite subir até a marca de um litro e depois descer e sair pela torneira era um mistério insondável, assim como as vozes que chegavam pelo rádio.


Havia também o que chamávamos de fábrica de manteiga, verdadeiros empreendimentos de beneficiamento de leite que também atendiam o público no varejo. Uma dessas fábricas ficava na rua onde morávamos, num grande terreno em forma de L que abrigava pátio, usina de beneficiamento, venda, escritório e casa da família e tinha entrada por duas ruas. Para comprar manteiga, passávamos por uma área densamente arborizada com mangueiras, ameixeiras, laranjeiras e até um marmeleiro. Eu tinha sorte de ser amiga de uma das netas do dono da empresa, então às vezes atravessávamos o portão que ia dar na horta da casa da família. Ali eu me encantava com o jardim com um tanquinho no meio e canteiros de violetas, papoulas, dentes-de-leão, esporinhas, palmas-de-santa-rita, dálias, cravos, rosas. Dentro da casa caprichada eu me lembro ou não sei se forjei na imaginação um lustre com canutilhos pendentes. Mas tergiverso...

Ainda na nossa rua havia a fábrica de doces. Embora minha mãe fosse exímia em doces em geral e em frutas cristalizadas, às vezes lá comprávamos goiabada, marmelada, bananada. A fábrica se localizava em grande terreno, à frente do qual ficava a casa da família e eu também tinha a sorte de ser colega de um dos filhos. Eu adorava ir à fábrica, um ambiente úmido, quente e impregnado de cheiros doces, onde conseguia que me deixassem embalar barras de doces em papel celofane, selado em uma chapa quente. E gostava igualmente ou mais de entrar na casa rica, ensolarada, de pisos brilhantes e, principalmente, cheia de revistas em quadrinhos que lia avidamente, até mais do que quando saboreava os doces. Que saudade de Laura Jane e Tiquinho, Agostinho Mocho, Hortelino Trocaletra! Obrigada, Luis Carlos!

Embora nos quintais coubessem hortas e algumas fruteiras e sempre houvesse um galinheiro, a nova vida urbana, um maior intercâmbio com outras famílias e vizinhos, tudo isso acabava criando necessidade de outros artigos além daqueles a que estávamos habituados. Por exemplo, o macarrão, que não era tão comum na vida rural, tornou-se obrigatório com o novo hábito do ajantarado de domingo. E também começamos a nos familiarizar com novos legumes e frutas.  

Acompanhando minha mãe nas compras, na feira de barracas desmontáveis, escolhíamos frutas e legumes. Paradoxalmente, a maior variedade se encontrava nas feiras e mercados da cidade do que nas hortas e pomares da roça ou casa, onde praticamente só havia couve, chuchu e tomatinhos de cerca. Só de abóboras nessas feiras me lembro destas aqui: abóbora dágua, verde clarinho, pescoço comprido; abóbora de porco, no formato de uma bola de futebol americano, com gomos, rajada de cores indefinidas; moranga, aquela alaranjada, achatada, com gomos acentuados; mogango, verde-escuro rajado, também oval. Fico feliz que as feiras sobrevivem e estão vivas em praticamente todas as cidades do planeta, seja 1º., 2º., ou 3º. mundo. A imagem abaixo parece recente:


Se não íamos à feira ou ao mercadão, que sucedeu as feiras, podíamos esperar pela passagem das carroças dos verdureiros, geralmente imigrantes, fosse o português Artur Castanheira, ou o italiano Martinelli, com seus legumes, frutas e verduras fresquinhos, ainda molhados e cheirando a terra. São memoráveis os tomates-maçã, grandes, vermelhos e saborosos, produzidos pelo Artur.

Também vinham até nossas casas os fornecedores de peixe e, principalmente, os vendedores de dobradinha, ou fato, ou bucho. Para quem não conhece, trata-se do estômago do bovino, peça de cor amanteigada, de texturas várias. Encontrei aqui ótimas descrições e fotos do que se trata. Chegavam à nossa porta senhoras trazendo à cabeça latas de 20 litros cheias dessas peças molengas que, confesso, não eram bonitas nem cheirosas, mas que, trabalhadas pela habilidade de minha mãe, se transformavam em ensopado delicioso, que eu saboreava com gosto e ainda me divertia escolhendo as peças diferentes, as fininhas, as mais grossas, as em forma de favo de abelha.  
As padarias, além de terem lojas, também punham na rua carroças com seus produtos. No meio da tarde, primeiro escutávamos o patear do burro no calçamento de pedra. Aí víamos a carroça chegando, o condutor à frente, na parte de trás a enorme caixa abaulada de folha de flandres. Ao abrir essa caixa, éramos inundados pelo cheiro quente do pão novinho e crocante, pelo aroma de canela que emanava das roscas, pelo cheiro inconfundível de cravo e erva-doce nas broas e biscoitos. Ah, saborear tudo isso no meio da tarde, com café quentinho! Todos os sentidos ativados em poucos minutos!

A sequência da história todos conhecemos. Chegaram os supermercados e sua irretocável e inegável praticidade: tudo ao mesmo tempo agora. Sem mágoa. Só saudade.

domingo, 24 de abril de 2011

SENHORA DO TEMPO. COMEÇOS

Por Sealvia

Imagem: Flickr/ de Maria Eugênia M. Guimarães
Adoro os começos, as origens, os inícios, o novo, tanto que digo com freqüência que gostaria de engarrafar todas as sensações boas que sinto ao iniciar, principalmente relações. Os melhores “era uma vez” da minha vida começaram com um sorriso, e me marcaram tanto quanto meus “gran finales”, que definitivamente nunca foram “felizes para sempre”.

Então eu sorrio pra vocês, puxo o balde do poço da memória e derramo um dos meus começos favoritos, que permanece, não como um quadro, mas mais como o museu em si, onde a cada visita descubro uma ala nova, uma nova obra, um novo detalhe.

Era uma manhã de primeira numa segunda, provavelmente em março, porque na minha infância as crianças tinham muito mais tempo pra brincar e as aulas só começavam depois das cinzas do carnaval terem sido bem sopradas por uma semana, pelo menos. Não era meu primeiro ano, embora o primeiro também tenha sido especial, por ser o primeiro, mas era um começo em toda a sua glória.

Voltar a acordar o corpo nas madrugadas frescas, vestir o uniforme intacto e reluzente, carregar o material novo com carinho maternal, os livros cheios e os cadernos vazios, e o carinho da mãe, que ajudava a pentear, que dava beijo estalado na bochecha e leite com toddy quentinho. Tudo tinha muito mais cor, mais brilho, gosto e graça.

Eu entrava no ônibus escolar tão cedo que assistia ao espreguiçar do sol, e de posse do meu lugar preferido, ao lado da janela de emergência (sempre precavida), ia assistindo ao lento desfile, rua a rua e porta a porta dos outros estudantes, novos e antigos colegas, alguns silenciosos, mas a maioria agitada. Como numa dança, no ônibus escolar era importante cada um procurar o par certo e eu ainda não tinha o meu.

Dentre tímidos olhares e efusivos cumprimentos os pares iam se formando e o cenário se completando aos poucos. Eis que meu par veio a ser a única menina de todas as crianças ali presentes que iria estudar na minha classe. Das apresentações à amizade unha e carne passaram-se apenas alguns minutos e íamos conversando sobre nossos gostos e desejos, sobre como seria bom se as poltronas do ônibus fossem parecidas com poltronas de avião, sobre o que queríamos ser quando crescêssemos e sobre como era legal o Guerra nas Estrelas, que nem eu nem ela tínhamos visto no cinema porque éramos muito pequenas ainda.

Falar sobre o filme foi a deixa para fazer saltar uma cara sorridente e marota por entre o vão dos bancos da frente palpitando sobre o assunto: “É, o filme é muito bom mesmo!”. Mil risadinhas borbulharam dos dois lados e eu não soube ali na hora, mas alguma coisa aconteceu comigo. Só sei que em algum lugar do mundo deve ter caído um raio, ou uma borboleta saiu do seu casulo, ou um arco-íris surgiu no céu ou tudo isso junto e tudo o mais que deve acontecer nesses momentos mágicos da vida da gente.

É uma sensação de susto que a vida dá, é como se eu estivesse ali, já achando que tava tudo bom demais quando ela vem e me mostra que tem mais, sempre tem muito mais! A gente é que se põe na velha fôrma e se acomoda, que acha que quando tem neblina a nossa volta é porque o mundo encolheu, quando na verdade ele fica é maior, porque o que nos cega é o medo de entrar na névoa do começo e descobrir que ali atrás existe outra paisagem, que pode até ser um abismo, mas também pode ser um gramado bem comprido, daqueles que convidam a gente a correr até cansar. Mas como é que a gente vai saber se não der o primeiro passo, se não sorrir de volta?

E o que veio em seguida àquela manhã já nem me importa tanto hoje, porque o começo foi bom o suficiente pra sustentar os “e foi então que de repente” e os “quando menos esperava” que apareceram depois naquela história.