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domingo, 11 de março de 2012

SENHORA DO TEMPO. GUARDIÕES DA MEMÓRIA

Por Vera Guimarães

Hoje esta senhora do tempo destaca alguns de seus parentes que muito fizeram e fazem pela preservação da história da família. Há os que contam casos, os que fazem festas e reuniões, aqueles que emprestam seus sítios, os que convidam para suas casas, os que fazem rir com casos saborosos envolvendo antepassados, os que transmitem receitas culinárias, os que transportam parentes em visita a outros, os que enviam cartões em datas importantes, os que guardam na memória o dia do aniversário de muitos, os que se esforçam para destrinchar a genealogia, os que sabem o nome de todos, os que rezam pelos outros, os que proveem recursos materiais aos que precisam.

Uma dessas pessoas foi nossa irmã Zila, que já se foi deste mundo, autora do livro PROSA NA VARANDA, (fig. 1) registro de conversas dela com nossa mãe e nosso pai e muitas outras pessoas da família, do que resultou valioso patrimônio imaterial, que mostra como se vivia, quem éramos, o que pensavam e como agiam nossos antepassados e seus contemporâneos.

Aqui ela reproduz relato de nossa mãe sobre bodas de ouro de um casal de tios, festa que aconteceu em fazenda-cenário de toda nossa vida.

“Agora vamos às Bodas de Ouro do casal, que na época morava na Vargem Alegre. Mas a festança foi no Olhos d´Água, onde morava a filha deles, Sá Mariquinha, que era casada com Sô Gandini, italiano que veio fazer a ponte antiga sobre o Rio das Velhas, em Traíras. Por ali ficou, casou e tiveram muitos filhos, Como no sobrado deles tinha luz elétrica, mais conforto, salão de festas, de refeição, com mesa e bancos enormes, terreiro na frente e nos fundos, ficou acertada a festa. Tudo foi muito bonito, foram pessoas de vários lugares, inclusive o fotógrafo de Belo Horizonte, o Higino Bonfiglioli, que tirou muitos retratos der famílias dali, inclusive da nossa. A capela não cabia o povo todo, mas as casuarinas davam sombra, como as outras árvores que enfeitavam a frente do sobrado. O celebrante foi Padre Castanheira, de Portugal, que foi para Traíras e assistia toda a região. De sábado para domingo, teve um baile de arromba no salão de cima, coisa chique, e no outro dia teve festa o dia todo, comida, mesa de doces, mesa de café, leite e quitandas, o que deve ter gasto muita gente ali fazendo. E os preparos das carnes, que não arrumaram num dia só? A vaca que mataram chamava Espanhola. Ela foi para o Riachão, para engordar, e voltou de lá roliça. Fez um farturão. Não sei se teve batuque, mas deve ter tido, pois todo mundo por ali gostava. Tiraram um retrato que é uma beleza, de um tanto de cavaleiros encarrilhados, no terreiro da frente. Quase ninguém tinha outra condução a não ser cavalo ou carro de boi. Lembro que chegaram na Vargem Nova todos da  família de Nhô Luis e Lendá, muitas filhas deles. Lembro delas sentadas no caixão da cozinha, aqueles altos, de madeira, com tampas de suspender e que eram para guardar mantimentos ou roupas de cama. Uns falavam tulha e hoje é arca. Aí eu era moça de namorar. Acho que elas ficavam ali esperando o almoço. Usava jantar todos na cozinha e conversar ali, à vontade.”

Pois, então, este foi um dos muitos enredos descritos no livro PROSA NA VARANDA, de nossa irmã Zila, que, assim, garantiu parte da preservação do patrimônio imaterial da família.   

O cenário de tantos eventos significativos de nossa família foi esse casarão. Nele aconteceu a festa de bodas de ouro descrita acima e muitos outros encontros.

Durante muito tempo, desde que me lembro, frequentei essa fazenda, que, na minha infância, pertencia à família de querida prima, que nos acolhia com carinho, quitandas e jabuticabas sem fim.

A fazenda com suas jabuticabas sem fim                        Hoje, o casarão em reforma

Hoje, adquirida e preservada por um sobrinho, se firma como mais um marco concreto de nossas lembranças. A todos esses parentes que conservam suas casas, esse patrimônio material da família, nosso reconhecimento e nossa homenagem.

domingo, 25 de setembro de 2011

SENHORA DO TEMPO. VIAJANDO...

Hoje as senhoras do tempo são minha mãe e minha irmã Zila, a que conta e a que anota, respectivamente, e elas falam de nossos passeios, de nossas viagens. Este relato e muitos outros são fruto de conversas sem fim que Zila teve com parentes e amigos e que resultaram no livro PROSA NA VARANDA, de 1991. As duas já partiram deste mundo, mas aqui estão.
[Vera Guimarães].



“Mamãe relembra nossas andanças que já foram muitas vezes faladas aqui. Mesmo com a meninada pequena, tanto na roça como morando aqui, ela e Papai não perdiam as missas e festas por lá, os velórios, as obrigações sociais todas, não deixando nenhuma amizade esfriar nem morrer. O mesmo aconteceu em Sete Lagoas, onde fizeram muitos amigos e compadres e não era difícil saírem da cidade, a pé, para visitar esses amigos todos, no Gersão, no Sapé, Gineta, Boqueirão e em tantos outros lugares. Papai trabalhou no Bosque, perto da Sede, e “cortava” isso tudo a pé mesmo.

Antes de Conceição de tio Lulu casar, Mamãe deu vontade de rever os irmãos, os sobrinhos e os amigos, amanheceu lá no Guará e puseram o pé na estrada, as duas. Rodearam e foram chegar no Olhos d´Água, após ter o sol ainda queimando e Afonso teve pena delas, ele que era o rei da boa vontade, ficou à  disposição para levá-las de carro até o ponto de partida. Isso foi repetido centenas de vezes, do ponto até no tio Lico, até no tio Osório, até no tio Rege, até no tio Pedro Celes, até no tio Lulu Campelo.”  Zila Guimarães Lanza

Aqui entra Mamãe:

“Ô, pobreza feliz, viu? A gente não tinha carro, não, mas passeava muito, sem preguiça de nada. Quando tinha as festas, a gente enchia um caminhão, bem velho, que era o de preço mais barato, e lá ia aquele povão cantando pela estrada poeirenta ou barrenta de Jequitibá a Pirapama, essa que hoje é asfaltada. Mas ela era, em muitos trechos, em outro lugar (até Jequitibá), cheia de curvas, estreita, com pontes em cima do ribeirão e sempre, na chuva, com ele transbordando. Falo assim pensando na ponte velha, aquela do rio das Velhas que, no fim, balançava e era buraco só. A gente descia do caminhão velho, fazia “nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, amém” e passava, pisa aqui, pisa ali, os meninos chorando de medo, Diva empacada, que não ia nunca mais, chorando. Mas era só chegar outra data festiva, ó nós pegando o “trem” de novo”! Medo, fazia era medo mesmo! E,quando a viagem era pra diante do Lulu Campelo, que era o mais perto pra nossa “turnê”, melhor. Tinha o último dos irmãos, o Osório, mais perto de Pirapama, e aí era mais um tanto de estada cheia de curva, pontes fracas nos córregos que até “rodaram” um ônibus cheio de gente, o da Onça, cheio, e muitos perigos que enfrentamos, mas, graças a Deus e à “Nossa Santa Ignorância”, fomos, aos trancos e barrancos, arriscamos até nossas vidas, mas estamos aí. Agora que a gente vê que foi muita loucura, mas Deus segurou cada um de nós. Ele via que era o jeito da gente ir e não podia decepcionar tanta gente, inclusive nossa meninada, os que moravam conosco e os que já tinham mudado para cá. Não sei como a comunicação chegava para todos, a combinação era feita e na hora de sair era um tal de parar e entrar  passageiros, como se fosse um caminhão de “miçanga”. (O clima era bem esse da foto do www.fotoscanastras.blogger.com.br).



Aí o tempo foi passando, uns já ganhando seu dinheiro, melhorando de vida e nós ficando até chiques... Já podíamos fretar um ônibus! Lotar era fácil, era todo mundo querendo ir e a gente ia mesmo. Foram comprando carros, uns levando quem não tinha condução, mas eu tem até pouco tempo que parei de andar de ônibus, descer nos pontos e chegar, longe, a pé onde era o destino. Cira comprou carro, dirige, Verinha, Geraldo, Alexandre, Artur, Paulo Henrique, todos, me põem no carro deles e vamos lá. Isso é nas fazendas, na do Paulito (já fui muito, a pé, do ponto até lá, ou direto, de caminhão), em outras, do nosso pessoal, até Nova Almeida, e ao redor desta cidade, que é meu pião. Já tenho uma sacola pronta e “não mudo a roupa”, de chegar por uma porta e sair por outra, nem! De avião, já andei que chega, já fui longe e acho que não falta nada para eu experimentar nessa vida. Umas dúzias, mais ou menos, de netos meus, de sobrinhos, os genros Tarcísio e Artur, já moraram, passearam, estudaram ou trabalharam em muitos países da Europa, e outros lá longe, que só sei ser no “estrangeiro”, como a gente usava falar. Nem era assim, era “na estranja” que os meninos falavam. Nossa família vai de avião, de navio, de trem, de ônibus, de caminhão de gado (a Zila, caroneira, que o diga), de carro velho, na carroceria de caminhão, de caminhonete, de jipe, de Rural, de cavalo, de carroça, de carro de boi, de “a pé”, mas o importante é ir, é chegar como todas as vezes, graças a Deus, nós chegamos até hoje. Gente, temos que rezar muitos terços, agradecer muito a Deus por tudo que fizemos, tudo que vivemos, que sofremos e, mais, que Ele nos deu de alegrias e felicidades. Nossa família, que agora vocês, mais novos, conhecem um pouco mais, é e sempre foi uma família feliz e honrada e tiveram, muitos, e ainda têm a sorte de uma vida longa, de poder colher os frutos do que plantaram. E valeu a pena lutar. Vocês, que estão aí com os mais velhos, amparando os passos que vão diminuindo cada vez mais, sabem que a vida é um dom de Deus e sabem valorizar cada passo que dão nos seus caminhos. Sou tão feliz por isso e por tudo. Geraldo, Lenir, Débora e Juarez vão voar amanhã para um passeio longe. Vão conhecer vários países que um punhado dos meus já conhece. Peçamos a Deus que eles sejam felizes como vocês (e os que estão lá) foram e são pela oportunidade de conhecer outro “mundo”. Vão com Deus! “ (Dona Didi, minha mãe).

Conservo de Mamãe esse gosto por sair passeando, encontrando amigos e parentes, vendo pessoas desconhecidas, novas paisagens. E da Zila, o prazer de contar. É por isso que de vez em quando registro o que vi e senti em viagens por “Oropa, França e Bahia”! Ou por “terras, Datas e Gouveia”! Enfim, por aqui e “na estranja”!