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domingo, 11 de março de 2012

SENHORA DO TEMPO. GUARDIÕES DA MEMÓRIA

Por Vera Guimarães

Hoje esta senhora do tempo destaca alguns de seus parentes que muito fizeram e fazem pela preservação da história da família. Há os que contam casos, os que fazem festas e reuniões, aqueles que emprestam seus sítios, os que convidam para suas casas, os que fazem rir com casos saborosos envolvendo antepassados, os que transmitem receitas culinárias, os que transportam parentes em visita a outros, os que enviam cartões em datas importantes, os que guardam na memória o dia do aniversário de muitos, os que se esforçam para destrinchar a genealogia, os que sabem o nome de todos, os que rezam pelos outros, os que proveem recursos materiais aos que precisam.

Uma dessas pessoas foi nossa irmã Zila, que já se foi deste mundo, autora do livro PROSA NA VARANDA, (fig. 1) registro de conversas dela com nossa mãe e nosso pai e muitas outras pessoas da família, do que resultou valioso patrimônio imaterial, que mostra como se vivia, quem éramos, o que pensavam e como agiam nossos antepassados e seus contemporâneos.

Aqui ela reproduz relato de nossa mãe sobre bodas de ouro de um casal de tios, festa que aconteceu em fazenda-cenário de toda nossa vida.

“Agora vamos às Bodas de Ouro do casal, que na época morava na Vargem Alegre. Mas a festança foi no Olhos d´Água, onde morava a filha deles, Sá Mariquinha, que era casada com Sô Gandini, italiano que veio fazer a ponte antiga sobre o Rio das Velhas, em Traíras. Por ali ficou, casou e tiveram muitos filhos, Como no sobrado deles tinha luz elétrica, mais conforto, salão de festas, de refeição, com mesa e bancos enormes, terreiro na frente e nos fundos, ficou acertada a festa. Tudo foi muito bonito, foram pessoas de vários lugares, inclusive o fotógrafo de Belo Horizonte, o Higino Bonfiglioli, que tirou muitos retratos der famílias dali, inclusive da nossa. A capela não cabia o povo todo, mas as casuarinas davam sombra, como as outras árvores que enfeitavam a frente do sobrado. O celebrante foi Padre Castanheira, de Portugal, que foi para Traíras e assistia toda a região. De sábado para domingo, teve um baile de arromba no salão de cima, coisa chique, e no outro dia teve festa o dia todo, comida, mesa de doces, mesa de café, leite e quitandas, o que deve ter gasto muita gente ali fazendo. E os preparos das carnes, que não arrumaram num dia só? A vaca que mataram chamava Espanhola. Ela foi para o Riachão, para engordar, e voltou de lá roliça. Fez um farturão. Não sei se teve batuque, mas deve ter tido, pois todo mundo por ali gostava. Tiraram um retrato que é uma beleza, de um tanto de cavaleiros encarrilhados, no terreiro da frente. Quase ninguém tinha outra condução a não ser cavalo ou carro de boi. Lembro que chegaram na Vargem Nova todos da  família de Nhô Luis e Lendá, muitas filhas deles. Lembro delas sentadas no caixão da cozinha, aqueles altos, de madeira, com tampas de suspender e que eram para guardar mantimentos ou roupas de cama. Uns falavam tulha e hoje é arca. Aí eu era moça de namorar. Acho que elas ficavam ali esperando o almoço. Usava jantar todos na cozinha e conversar ali, à vontade.”

Pois, então, este foi um dos muitos enredos descritos no livro PROSA NA VARANDA, de nossa irmã Zila, que, assim, garantiu parte da preservação do patrimônio imaterial da família.   

O cenário de tantos eventos significativos de nossa família foi esse casarão. Nele aconteceu a festa de bodas de ouro descrita acima e muitos outros encontros.

Durante muito tempo, desde que me lembro, frequentei essa fazenda, que, na minha infância, pertencia à família de querida prima, que nos acolhia com carinho, quitandas e jabuticabas sem fim.

A fazenda com suas jabuticabas sem fim                        Hoje, o casarão em reforma

Hoje, adquirida e preservada por um sobrinho, se firma como mais um marco concreto de nossas lembranças. A todos esses parentes que conservam suas casas, esse patrimônio material da família, nosso reconhecimento e nossa homenagem.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

SENHORA DO TEMPO - HOMO COLLECTOR - CATANDO FRUTINHOS

Vera Guimarães










Dia desses encontrei quatro jenipapos debaixo da linda árvore. Lá estavam eles do jeito que deviam estar: castanho-acinzentados, meio enrugados, esborrachados. É assim que a gente os pega. No chão. Não é apanhando, cutucando, subindo na árvore. Têm que estar maduros e caírem... de maduros. São bem feios. Mas têm um gosto especial, diferente, meio alcoólico. A típica fruta de se catar.                    

www.taquarussu.com

Quando eu era menina, nas fazendas, ou mesmo na cidade ainda não totalmente urbanizada, andávamos por pastos, estradinhas, riachos, cercas, campos e trilhas, e qualquer saída de casa nos colocava em contato com frutinhos variados, que catávamos com prazer e comíamos com deleite. Deleite? Nem sempre. Alguns desses frutinhos eram francamente desagradáveis ao paladar e outros simplesmente bobinhos. Nada nos desencorajava de nos aventurarmos no cerrado, subir numa árvore alta, galgar uma cerca em busca do cobiçado fruto. Aliás, nem sempre eram frutos, também havia talos, sementes, flores. Íamos atrás de qualquer coisa comestível. Nem era nada necessário ou nutritivo ou especialmente saboroso, parece que o que importava era mesmo o prazer de descobrir e colher algo diferente do que havia na horta ou no pomar.


No tempo das chuvas, novembro a janeiro, era época de catar o pequi. Aqui cabe a ressalva de que o pequi não se enquadra na categoria de não nutritivo ou não saboroso. Há pouco tempo escandalizei amigas não versadas na roeção de pequi ao enfrentar pratada monumental de caroços cozidos da fruta: a gente os pega e os vai delicadamente roendo. Roendo, nem mordendo nem mastigando. Quando fiz algumas aulas de ilustração botânica, um dos meus modelos foi um ramo de Caryocar brasiliensis. Catar pequi é uma atividade coletiva, saíamos aos bandos de mulheres e crianças para a aventura. Curvados sob um pequizeiro, nos dedicávamos a encontrar os frutos caídos e misturados e às vezes escondidos na folharada. Eram levados para casa ainda na casca verde e só na hora de cozinhar é que se cortava aquela polpa e se retirava o caroço amarelinho.



Nem sempre catávamos frutos substanciosos, como o pequi ou o jenipapo. Sentados perto de casa, conversando, pegávamos, por puro desfastio ou para fazer charme, talos de grama, puxando a haste com cuidado, até que se soltasse e revelasse aquele finalzinho tenro, verde-clarinho, que mastigávamos. Gosto de nada. Comíamos as folhas, a bananinha e os talos azedinhos de trevos rasteiros. Enrolada nas cercas, encontrávamos a rama do melão-de-são-caetano, uma frutinha amarela que se abria ao sol e nos revelava sementes vermelhinhas. Mais beleza que gostosura. Cagaita já desarranjou muito intestino. Jatobá, aquele fruto seco, esfarinhento, parecendo um giz amarelo, já entalou uma de minhas irmãs. Os araticuns chegavam em casa como um troféu. Não me lembro de haver pego um sequer. Flores de hibisco, daquela variedade enroladinha, despregadas do talo, eram suprimento de aguinha doce, que certamente estávamos roubando de pássaros e insetos. Dependendo da variedade, atacávamos os coquinhos com as unhas, com os dentes ou com uma pedra. De alguns chupávamos a polpa, de outros comíamos a semente. Na beira de algum córrego se debruçavam as ramas e as favas do ingá, de onde tirávamos as bagas aveludadas e adocicadas.


O camará ou cambará, depois de seca a flor, produzia um cacho de frutinhos esféricos verdes que, ao se tornarem azuis quase pretos, estavam no ponto de serem comidos. Mais uma bobagem comestível. Outro arbustinho produzia uma espiga de frutinhos rosa, apropriadamente chamada de milho-de-grilo, ou, em mineirês, miidigrilo. E mais colhíamos: araçás, goiabinhas, cajuzinhos, pêssegos verdes, cana...



   www.panoramio.com
Até parece que tínhamos compulsão por coletar. O que me fez perguntar a alguns amigos se, na evolução da espécie, existiu um HOMO COLLECTOR. Aqui está a resposta da Fal:

“Vera, tio Stringer nos ensina que todo homem é Homo sapiens. O que vinha antes era uma macaco peludim e fofo, talvez um pouco parecido com meu primo, mas NÃO era homem. Não era gente (dai depois de catorze vódecas, quando você chega no fio e fala "Cara, vc é muito gente", errada você não está). Homo é o gênero, sapiens é a espécie. Aliás, sapiens é a única espécie, vai vendo. Até existiram outras espécies de Homo, mas tão tudo extinta ( Australopithecus? Extintos. A. afarensis? Baubau. A. africanus? Sifu.), procêver. Então, que os fio foram vindo.

Primeiro um fio chamado Homo habilis. Coisa pouca, tipo uns dois milhões e meio de anos atrás. Na África. Ele chama Habilis pq ele sabia fazer ferramentas e tal. Tipo. Tivesse um aqui, essas prateleiras tava tudo pendurada, certeza.

Dai vem o Homo ergaster. África do Sul. Diz que foi o premero bonito que saiu da mama africa. Pensa num fio corajoso, vera. Se fosse eu, a gente tava lá té hoje, só te digo isso. Eu não quero ir nem no mercado, imagina pra Ásia. A nado.

Dai vem o Homo erectus. Gato. Mas de um milhão de anos atrás, velho demais pra mim.

Quer dizer. Ásia, África, Europa. Necas na América, bandivagabundo (tu se ligou que até hoje não tem muito homem erectus por essas bandas, fia?? Arqueologia explica tudo). Dai vem o Homo ergaster. Tem paleoantropólogos que só qué chamar de erectus os fios achados na Ásia, mas eu sou contra. Porra, meu homo eu quero erectus. blog da historia

H. heidelbergensis. Tipo 800 mil anos atrás. Depois H. floresiensis, cabô 12 mil anos atrás, e
meu favorito, o Homo sapiens neanderthalensis. Ele foi Homo ou ele foi uma espécie separada??? Então. O dna, esse safadinho, diz que era uma espécie separada. Não faz mal, pq eu não gosto da minha família mesmo.

E aí, só aí, nóis. Homo sapiens. Esses caras ai de cima, todos eles menos o neandertalzim, foram nossos tios.

Antes mesmo de aprendermos a vestir nossas cuecas, éramos coletores. Mas não teve (bom até agora eu não achei) um homo colector. Nós éramos (somos) coletores, mas a nível de homo, somos Homo sapiens e só. Sem piadas, por favor.

Mas aguarde. Pedrão, a meu pedido, foi mexer nos livros de palentologinha do meu velho.”

Ahá! Estavam achando que era só uma croniquinha sobre frutinhas, graminhas, matinhos? Gostaram da aula de Paleontologia da tia Fal?

domingo, 6 de novembro de 2011

SENHORA DO TEMPO - COLOR BLOCKING

Por Vera Guimarães

Na vitrine da loja chic, a montagem: regata de seda roxa, short de seda amarela. Dito assim, parece uma palhaçada. Mas, não. Era uma seda fosca, de inquestionável qualidade, e os tons se harmonizavam perfeitamente. Não era qualquer roxo, não era qualquer amarelo, eles combinavam.

Eu devia estar no ginasial, 13 ou 14 anos. Numa festinha, apareceu uma garota usando um vestido naquele mesmo tom de amarelo, enfeitado com faixa roxa, um raminho de violetas de lado. Muito críticas, e provavelmente despeitadas, colega e eu fizemos entre nós chacota daquela combinação.  
Tempos depois, já na faculdade, eu via, com certo espanto, uma colega mais arrojada usar rosa com vermelho, ou verde com azul, misturas pouco usuais.
Parece que nada acrescentei ao progresso da civilização ao criticar e me espantar com quem faz diferente. Hoje, primavera de 2011, misturar cores é uma tendência, a color blocking, que está em todas as revistas de moda, como as figuras abaixo.



E, mesmo que não fosse moda, as pessoas podem, sim, vestir o que lhes agrade e não apenas  o que seja considerado pelos outros como harmonioso ou normal. E, sim, foram as pessoas que ousaram cabelos diferentes, roupas diferentes, aquelas que enfrentaram rótulos infamantes e desrespeitosos, foram essas pessoas que garantiram que hoje usemos roupas confortáveis e agradáveis.
Se isso acontece no plano absolutamente individual (Huuuum, sei não! Nada é tão individual assim.), imaginemos no plano dos costumes, do comportamento, das relações de trabalho, das estruturas afetivas e familiares.

Só para ficar num pequeno exemplo, nós, mulheres, hoje não sairíamos sozinhas, não trabalharíamos nem votaríamos, nem mesmo leríamos, se algumas “loucas” não tivessem enfrentado as críticas gratuitas, se não tivessem aguentado as ridicularizações, pressões, prisão, humilhações e até a morte em defesa de suas convicções.   
                                                                                                                 
Chiquinha Gonzaga

Bertha Lutz




Daqui pra frente, prometo pensar duas vezes antes de jogar pedras em quem, literal ou metaforicamente, use vermelho com roxo!


domingo, 23 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. A MÍSTICA DO TRABALHO

Por Vera Guimarães

Imagem: deiatricotando.blogspot.com
Amiga me conta que há uns 10 dias não tem sido produtiva, que tem ficado no ócio e que tem achado isso muito bom. Quer dizer, apesar de sempre ter trabalhado muito durante toda a vida, de estar com os filhos criados, ainda assim o ficar sem fazer nada aparece como algo não muito natural, tanto que mereceu registro.

Meu irmão fazendeiro foi derrubado por uma vaca, trincou osso do joelho, foi levado a contragosto ao hospital, disseram-lhe que ficasse de repouso, mas ele fugiu das recomendações e com dois dias já estava no curral.


Ao ficar viúva, uma de minhas irmãs me confidenciou que seu sonho agora é viver num hotel e usar um tanto do seu tempo em atividades realmente prazerosas para ela, tais como conviver mais com amigas, dedicar-se a passeios, rezas, TV e leituras. Passado quase um ano, ela continua envolvida com a lida doméstica, sem se libertar da vida antiga, apesar de não ter quem, a rigor, dependa dela.  




Certa época, entrou para a organização onde eu trabalhava uma turma nova, moderna, disposta, realmente boa de serviço. Uma dessas pessoas, além de ser capaz, fazia mesmo questão de se mostrar sempre ocupada, estudiosa e apressada. Um dia nos encontramos no clube, ela na sua espreguiçadeira. Muito gentil, me chamou para me juntar a ela e explicou que gostava de aproveitar aquelas horas para ler suas revistas técnicas especializadas. Ao abrir espaço para mim, caíram da mesinha várias das revistas. Até hoje, aqui em casa, CARAS é chamada de revista técnica especializada.


São inúmeros os casos de pessoas que não admitem ficar sem trabalhar, que não se permitem papear à toa com amigos, que não conseguem transferir tarefas para outrem, que não dão conta de simplificar a rotina, que não param nem para cuidar da saúde,  que acham desdouro o lazer.
Não me refiro a quem de fato executa seu trabalho com leveza, com prazer. São incontáveis também os casos de pessoas que seguem assim felizes até o fim da vida, seja no que sempre fizeram ou em algo novo. Também não me refiro às que são obrigadas pelas circunstâncias a assumir certos papeis.


Eu me refiro àquelas pessoas que simplesmente não conseguem deixar de executar tarefas desagradáveis e até certo ponto desnecessárias, àquelas pessoas que não reconhecem a praticidade de alguns aspectos da vida moderna, àquelas que, mesmo podendo, não sabem substituir algo complicado por algo já pronto, àquelas que supõem que certos serviços sejam sua obrigação, seja por culpa, hábito arraigado, senso exagerado de dever ou perfeccionismo.


A Expulsão do Paraíso,
Charles Joseph Natoire,
c. 1770 - fflch.usp.br
Como se construiu esta mística do trabalho? Primeiro, em lições da Bíblia, guia e inspiração de toda a civilização ocidental, que, ainda no Genesis, nos conta que, como castigo pela desobediência, Adão e Eva, ao serem expulsos do Paraíso, perderam a inocência, a imortalidade e o direito ao ócio: “Comereis o pão com o suor do vosso rosto.”
Ao longo da história, as religiões e vários sistemas filosóficos e de governo reforçaram a ideia do trabalho não apenas como necessidade, mas também como valor moral. A fábula A Cigarra e a Formiga e a historinha A Galinha Ruiva são exemplos dessa pedagogia.
                                                                                 
Na família de minha mãe, alguns episódios com certeza ajudaram a formar trabalhadores compulsivos. Por exemplo, em festas, almoços ou jantares em casa, nem bem acabada a comemoração, lá estava uma prima encarando o monstro da pia, lavando aquele mundo de louça. Quando alguém comentou: “Você gosta de lavar vasilha, né?”, ela respondeu de voleio: “Eu, não! Eu não gosto é de ver vasilha suja!”


Um dos meus tios, já passado dos 80 anos, portanto com mais de setenta anos de trabalho duro na roça, estava descansando depois do almoço, quando chegaram visitas. O quarto dele dava diretamente para a sala onde se encontravam essas pessoas. Apertado por ter sido pego no ócio, ele não relutou: pulou a janela, deu volta na casa, e apareceu na sala como se estivesse vindo de alguma ocupação no terreiro ou no curral.


Ao fim deste relato, constato que, como quase tudo na vida, aqui também é tudo muito relativo. Se, por um lado, comparada a pessoas operosas e diligentes, eu me considero folgada e preguiçosa, por outro lado, frente a outras pessoas, sou eu a operosa e diligente.   

domingo, 9 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. URBANIDADE

Por Vera Guimarães


ur.ba.ni.da.de

sf (lat urbanitate) 1 Qualidade do que é urbano. 2 Delicadeza, cortesia; civilidade, polidez. Antôn: grosseria.(Dicionário Michaelis on line).


A crônica de FREDZILA, aqui do PRIMEIRA FONTE, sobre a diferença de comportamento entre toquianos e japoneses em geral, me deu o mote. Ao ler outro relato do cronista em que ele diz que empurrar e ser empurrado no metrô de Tóquio é aceitável, uma coisa explicou a outra. Relevem minha superficialidade, que me faz pensar que existe uma única justificativa para nossos maus modos. Se assim fosse, os pobres brasileiros seriam os campeões das grosserias. Afinal, como se não bastasse haver aqui a superlotação que se vê no metrô de Tóquio, temos também rotas desconexas, desrespeito de horários, trajetos pouco inteligentes, veículos mal conservados, vias em péssimo estado, tarifas altas. Se eu tivesse que sacolejar nessas condições, gastando duas horas do dia para ir e duas horas para voltar no trajeto casa-trabalho, trabalho-escola, seria, para dizer o mínimo, uma pessoa intratável. (Ok, às vezes sou uma pessoa intratável.) O transporte público degrada as pessoas. Como costumo dizer, esses vagões e ônibus são a nova senzala. Com este transporte, os brasileiros teriam todo motivo para serem grosseiros sempre. Mas não são.

Em várias de nossas cidades, há grupos de pessoas que sempre pegam o mesmo ônibus, no mesmo horário, e, bravamente, com muito humor e capacidade de superação, fazem dessas duas horas horrorosas um espaço para brincadeiras, compartilhamento e solidariedade, e ali dividem histórias, lanches, companhia, casos, música.  

Dia desses, conversando com duas de minhas irmãs, perguntei a elas se na escola havia aulas de civilidade. Eu não me lembrava de lições explícitas sobre o assunto.   Mas minhas irmãs, mais velhas que eu, me contaram que havia, sim, aulas formais da matéria no grupo escolar, nas quais se ensinava como devíamos tratar os mais velhos, grávidas e parentes. Eu também não me lembrava de ver Mamãe, sempre ocupada com assuntos sérios de manutenção de uma casa e família numerosa, interromper alguma atividade para nos passar esses preceitos. Mas passou, pelo exemplo de todas as horas, no trato com parentes, empregados, vizinhos. E fico feliz de ver que os passei adiante: meu filho mais novo, quando tinha uns quatro anos, em passeio por uma fazenda, ali no meio do mato, no cerradão, ficou a rodar com um papel de bala na mão à procura de uma lata de lixo.

O que sei é que era absolutamente normal cedermos assentos aos mais velhos, apanhar para eles um objeto caído, dar passagem a grávidas, parar de varrer o passeio quando viesse alguém.

Começo a fugir de situações nas quais a falta de educação impera, como, por exemplo, nas salas de espetáculos. Não consigo conviver pacificamente com as conversas, os ruídos e cheiros de comida, os toques de celulares, os pés nas poltronas, tudo isso que hoje é parte integrante de uma ida ao cinema. Considero seriamente me mudar para Austin, Texas, USA, apenas para ter o prazer de frequentar as salas do Alamo Drafthouse, um complexo de entretenimento que leva a sério o direito dos espectadores de verem em paz o filme que escolheram, que leva a sério o dinheiro que essas pessoas gastaram, o tempo e o esforço que despenderam para se deslocar de suas casas. Simplesmente respeita as pessoas que lá estão para a experiência mágica de uma sessão de cinema. Cliquem aqui e vejam o que acontece lá.

Sou muito autoritária? É, eu também acho.

Outros maus comportamentos sociais, a meu ver, simplesmente desafiam o bom senso, já nem são mais falta de consideração com aqueles eventuais merecedores de atenção extra, como os citados idosos e grávidas. Por exemplo, é prática cada vez mais comum ninguém ceder passagem, como num corredor de shopping, que supostamente serviria para o ir e o vir, de preferência  observando-se a mão direcional usada no país.  Aqui no Brasil, vai-se sempre pela direita, elementar, meu caro Watson! Por falar no fiel escudeiro de Sherlock, na Inglaterra deve ser pela esquerda. Sem digressões, dona Vera! Pois bem, o que eu observo e do que tento me esquivar nesses corredores é das linhas de pessoas vindo em minha direção, elas lado a lado, e não lhes passa pela cabeça me abrir passagem. Eu que pare e me esgueire contra a parede ou a vitrine e as deixe passar naquela mesmíssima formação.

Andando pela praia com aquelas minhas irmãs, comentamos que nada custa cumprimentarmos os desconhecidos que estão dividindo aquele espaço conosco. Um sobrinho que morou na Inglaterra relatou que jogava futebol umas duas vezes por semana, quase sempre com as mesmas pessoas. E que ele só seria cumprimentado se tivesse sido formalmente apresentado ao colega de prática esportiva. Ah, entendi, encontrões e troca de passes pode, cumprimentar e confraternizar, ah, isso não, só depois de serem devidamente introduced.  Nem tanta cerimônia, por favor! Felizmente por aqui não é assim.
Não sou um modelo de delicadeza, sou impaciente e carrego nas costas muitos pecados de grosserias que fiz. Todas desnecessárias. Peço perdão a parentes, amigos, desconhecidos, parceiros e adversários de esporte, marido, filhos, netas.

E reverencio aqueles que fazem vicejar flores de cortesia: as pessoas que confraternizam dentro do ônibus-senzala, o operário do aeroporto que, sem que eu pedisse, tomou o trabalho de procurar debaixo de uma escada vazada o meu batom, amiga que me envia linda toalha bordada com as próprias mãos, o jovem que se ofereceu para içar minha mala até o vagão do trem, a moça que guardou meu cartão de crédito esquecido na loja e... eu poderia citar centenas de gentilezas que me fizeram e fazem sempre, mesmo que eu não seja delas merecedora.

Que surpresa! Terminando este texto, alimentado a princípio pela minha rabugice, vejo que há muito mais civilidade do que eu estava disposta a lembrar. Serei mais atenta às gentilezas que me fazem. Quem sabe me torne mais cortês...

domingo, 2 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. TRABALHO INFANTIL

Por Vera Guimarães

Não pretendo abordar o drama mundial que é o trabalho infantil, prática que escraviza e condena à morte e à degradação milhões de vidas ainda no começo. Em todas as partes do mundo crianças são submetidas a tarefas pesadas, insalubres, continuadas, em muitos casos acima de suas forças e de sua compreensão.

Os meninos carvoeiros não têm perspectiva de mudança de vida, nem nunca brincarão nem irão à escola. Os ditos falcões, meninos do tráfico, Falcão - Meninos do Tráfico, têm baixa expectativa de vida e declaram mesmo que não querem viver. Nas grandes cidades, meninas pequenas são retiradas da escola para cuidar de irmãos menores enquanto as mães trabalham. Ou vão para a rua vender bala. Ou vão se prostituir.

Quero, sim, contar de um trabalho infantil divertido, prazeroso, integrador, aquele executado por crianças ao lado de seus pais, aquele que complementa o próprio trabalho dos adultos, feito de tarefas que significam simulação de papéis e aprendizado para o futuro.

Assim que minha família se mudou da roça para a cidade, em fins da década de 1930, meu pai começou um negócio de produção de fumo. Eu ainda não era nascida. Na ampla chácara dentro da cidade, meu pai fazia os viveiros e plantava as mudas. Zila é quem conta: “As flores do fumal eram lindas, cor-de-rosa, e nelas estavam as sementes, miudinhas. Depois vinha a colheita das folhas, que eram postas em balaios e levadas para o barracão, onde eram penduradas até a hora de destalar. Tinha bancos com uma roda enfiada, presa nele; a pessoa assentada ia fiando, fazendo as tiras. Depois juntava três e saia uma trança bonita e firme. Tudo na roda, fiando ou trançando. Depois embalava numa lata, fazendo uma “rodia” (rodilha?) dentro dela, ou enrolava num pau. O rolo de fumo. O fumo de rolo. Aí tinha o fraco, o forte, o amarelo, o preto, o fino, o grosso, a gosto de todos os fregueses. Bem destalados, bem fiados e com aquela ciência de quem sabia fazer bem feito.” (Zila Guimarães Lanza, minha irmã, in PROSA NA VARANDA).

Todos trabalhavam nisso. Uma das irmãs me contou que nosso irmão mais velho levava o rádio (na nossa casa, sempre o rádio!) para o barracão e promovia concursos, algo assim como adivinhar qual seria o próximo cantor, quem sabia cantar a música, qual ritmo viria. Suponho que o prêmio seria diminuir as tarefas do ganhador. Vejam só, antes de inventarem a matéria Gestão de Pessoas meu irmão já praticava estratégias motivacionais!

Perdi o ciclo do fumo, mas depois conquistei minhas pequenas tarefas. Mais nova da casa, sempre acompanhei minha mãe às compras. Aprendi a escolher frutas, legumes e verduras e hoje, mesmo com os recursos de compras on line, gosto de ir pessoalmente ao supermercado ou à frutaria.

Dia desses, compramos canela em pó e eu lembrei que antigamente a gente usava canela em lascas, aquela casca seca e enroladinha. Era uma das minhas tarefas socá-la no almofariz de bronze até virar um pó finíssimo, do qual exalava o aroma delicioso da especiaria. A cor, inconfundível, foi cantada em prosa e verso na nossa literatura e em letras de músicas. Além da mais óbvia de todas, A MULATA É A TAL, de Braguinha, (“Mulata cor de canela, Salve, Salve, Salve ela!”), tem também Milton Nascimento:



A figura do almofariz sempre me trouxe lembranças agradáveis e, assim que encontrei um parecido com o nosso, o trouxe para minha casa, onde divide espaço com a tesoura enferrujada, abridores de latas e de garrafas, a carretilha de abrir massa de pastel, objetos usados na velha cozinha da minha mãe.

Ficar rodeando a cozinha trazia alguns bônus, coisinhas bobas e muito apreciadas por mim e outras crianças. Por exemplo, em dias de festa ou de preparação de uma comida melhor, ajudar a descaroçar azeitonas e ameixas garantia poder chupar os caroços mal trabalhados. Abrir a lata de leite condensado significava poder ficar com a sobra. Ajudar a bater claras em neve para o bolo assegurava poder raspar a tigela onde foi batida a massa, assim, crua mesmo. E ganhar a raspa do doce de leite no fundo do tacho de cobre, aqueles queimadinhos? Era o céu na terra!

Trabalhar não era castigo. Mesmo assim, eu fazia corpo mole para algumas tarefas. Mas no geral entregava marmitas de bom grado. Ia feliz fazer alguma compra, entregar ou buscar alguma encomenda, levar recado para um parente, levar tecido para cobrir botão, chulear uma roupa.

Também gostava de descascar verduras e o fazia seguindo instruções estritas de minha mãe para não tirar casca grossa. O desperdício era inadmissível. E foi assim que fui eleita a descascadora das laranjas da terra que se transformariam em maravilhosa compota, amarela e brilhante.

Aliás, para cozinhar essas frutas ou outro alimento que demandasse tempo e muito gasto de gás, fazíamos fogareiro de serragem, e eu adorava participar de todas as etapas da confecção desse engenhoso artefato. Era assim: primeiro, Mamãe e eu íamos à serraria buscar a serragem, resíduo do corte da madeira, um pó fino. Não sei se era comprada ou ganhada. Em casa já havia uma lata de 20 litros da qual se havia retirado a tampa e se havia feito um buraco ao pé de uma das faces. Nesse buraco se enfiava um toco de lenha, cilíndrico, e pela abertura de cima, de onde tinha saído a tampa da lata, se enfiava outro. Aí eu segurava unidas perpendicularmente essas duas peças de madeira, enquanto Mamãe ia despejando a serragem. Aí é que era bom. Provavelmente por ter os pés ainda pequenos, eu subia e marchava em cima da serragem, que ia ficando gradativamente compactada. Eu saía e se despejava outro tanto de serragem. E assim sucessivamente, até o material chegar à borda da lata. Retirávamos as peças de madeira com cuidado para não desmoronar aquela estrutura e tínhamos um túnel em L. Colocava-se em cima da lata a panela ou o tacho e acendia-se o fogo, que resultava numa bela e duradoura chama que ardia durante horas, a serragem se consumindo lentamente.

Meus irmãos mais velhos com certeza trabalharam mais do que eu. Caçula, mais protegida, pouco fiz para aliviar a imensa carga de trabalho da minha mãe. Trabalho infantil para mim era algo leve e divertido.

Pena que não possa ser assim para todas as crianças!