quinta-feira, 19 de abril de 2012

DIÁRIO DE UMA ADOLESCENTE. LOLLAPALOOZA.

Por Bianca Monteiro
Ano passado, quando li pela primeira vez anúncios do Festival Lollapalooza, ignorei assim como faço de primeira com todos os outros shows, como "ah, não tenho dinheiro mesmo, não vai ter minhas bandas favoritas, não tenho motivos pra querer olhar etc etc etc etc". Com esse pré convencimento imbecil, quase perdi uma oportunidade de ouro! Duas das minhas bandas favoritas estavam anunciadas, e uma em cada um dos dois dias do festival. Triste, né? Ter que escolher entre um e outro... Ainda mais sendo Arctic Monkeys e Joan Jett & The Blackhearts. Hoje, acho quase um insulto admitir que cheguei a ficar em dúvida na época. A escolha sempre foi mais que óbvia. Então, depois de muitas lamentações sobre preferir não escolher nenhum, em janeiro, já tinha meu ingresso pro dia 7 de abril. 

Joan Jett é minha grande inspiração como pessoa. Na segunda metade dos anos 70, aos 17, fez sucesso em The Runaways, sua primeira banda. Hoje, aos 53 anos, Joan ainda é um grande ícone feminino no rock'n'roll (claro que, pra mim, o principal). Como eu disse, minha escolha era mais que óbvia, eu nunca perderia a primeira vinda dela ao Brasil, já nos 37 anos de carreira. Oportunidade única. Passei meses falando disso, esperando e contando os dias, até que finalmente chegou (e dessa vez, com ingresso, melhor ainda). Depois de ver as fotos do festival na internet, desejei ter ido mais cedo, não pelas atrações dos diversos palcos espalhados no gigantesco Jockey Club, mas pra observar a beleza do lugar e a diversidade de pessoas, aproveitar melhor. Porém, fica difícil quando se tem um grande trânsito pra enfrentar, diversos portões com filas grandes, e não se sabe onde entrar. Cheguei em cima da hora, mas dei sorte: minha entrada deu de cara pro palco Butantã, onde logo ela se apresentaria, pontualmente, às 19h15min. Fiquei a poucos metros dela, do lado esquerdo do palco, e pensei até que estava vazio. Percebi que estava enganada ao ver o vídeo da exibição no Multishow, estava lotado, já que as pessoas que aguardavam o Foo Fighters que entraria às 20h30min no palco Cidade Jardim precisavam de uma distração.
Logo a Joan entrou, com a roupa vermelha brilhante do tipo que usava nas Runaways. As duas primeiras músicas, que eram as mais conhecidas (nas críticas li algo como "numa escolha pouco inteligente", mas julguei proposital, já que sendo amiga do Foo Fighters ela deixaria que o público fosse guardar lugares para o show deles logo após ouví-la um pouco) abriram o show com empolgação, e como todos sabiam as letras de "Bad Reputation" e "Cherry Bomb" (das Runaways), a plateia vibrava em uníssono. Infelizmente, não foi o que houve no restante do show. As pessoas realmente começaram a ir embora, o que foi vantajoso pros fãs que, como eu, puderam chegar mais perto, mas imagino o que eu sentiria se fosse da banda. Na verdade, pensei nisso até demais. Com tantos shows ao mesmo tempo, alguns ficariam sem público, e isso é lamentável. Enfim, a Joan foi muito simpática e engraçada tentando falar algumas frases em português, a que mais me marcou foi o "não seja tímido!", antes de todos cantarem por vários minutos um "yeah, oh yeah, oh yeah" introduzindo o cover de Gary Glitter, "Do You Wanna Touch Me? (Oh Yeah)". Cheia de energia, onde as pessoas viam a mulher de 53 anos, eu via ainda a garotinha de 17... No setlist também estavam presentes "You Drive Me Wild" (também das Runaways), "I Love Rock’n'Roll [vídeo]" (do The Arrows), "Crimson & Clover", seu sucesso "Love Is Pain", "Fake Friends", e duas músicas inéditas (tanto que ela teve que levar uma cola pra lembrar as letras). Como pouquíssimas pessoas conheciam o restante das músicas, senti que a plateia ficou meio parada demais, embora eu nunca fosse capaz de me contagiar com esse clima estando assim tão perto da Joan. Pelo contrário, cantei, gritei, chorei, morri, até cuspi sem querer na menina da frente ao fazer o "ch-ch-ch-ch-ch-ch-ch-cherry bomb", e não parei de pular um segundo (inutilizando minhas filmagens). Sempre existe aquela pontinha de esperança e ilusão que espera que uma hora o ídolo repentinamente te note no meio de uma multidão (literalmente, nesse caso)... E a minha realmente durou até que ela saísse do palco. Se despediu com "I Hate Myself For Lovin' You" com o show já bem vazio, mas retornou ao palco surpreendentemente com "AC/DC", encerrando minha noite da melhor forma possível... E quando ela finalmente deixou o palco, começou a tocar "Sheena Is A Punk Rocker", dos Ramones (conhecida entre meus amigos como a minha música). Achei muita coincidência, e tive que gravar pra mostrar pra eles depois.

 


Minha noite não acabou por aí, mas, aquele foi o encerramento com chave de ouro. As pessoas, literalmente, corriam até o palco Cidade Jardim, do outro lado do Jockey. O show já começava com "All My Life" e "Times Like These", e como não tinha pressa, sentei na grama com meu tio, atrás das 70 mil pessoas que só foram para ver o Foo Fighters. Mesmo bem longe do palco, considerei o melhor show que já vi na vida, meu tio também. Dave Grohl é engraçadíssimo, e tem um carisma incomparável. Só dava pra ver as macas entrando e saindo do meio da multidão, com fãs desesperadas passando mal, ou até mesmo rapazes carregando suas namoradas desmaiadas nos braços... Isso já demonstrava o clima completamente diferente que as mesmas pessoas do show anterior conseguiram criar, mesmo eu, a quase 300 metros do palco, sentia a multidão calorosa se exaltar com Dave. Suas piadinhas e constantes perguntas do tipo "quanto tempo de show vocês querem? 1 hora tá bom?" só faziam as pessoas gritarem ainda mais. Infelizmente, ele estava rouco, mas mesmo assim conseguia dar conta dos gritos frequentes nas canções, principalmente na minha favorita, "Walk", que na minha concepção foi o melhor momento do show, assim como "My Hero". Teve até uma hora que ele tocou bateria pra lembrar seus velhos tempos no Nirvana... E também tocaram um cover do Pink Floyd, "In The Flesh". Logo em seguida, "Best Of You", tão esperada por mim. Num intervalo, eles saíram do palco, e depois de alguns minutos houve uma transmissão nos telões, com a câmera de visão noturna, deles nos bastidores continuando com a brincadeirinha do "quantas músicas a mais? 2? Tá bom... 3?". Voltaram a todo vapor, e depois de algumas músicas, Dave começou a falar sobre a influência do Jane's Addiction pra banda (o líder Perry Farrel é o criador do festival), e nesse assunto de ícones do rock, anunciou surpreendentemente "Joan fucking Jett". Todos se entreolharam com a aparição da Joan, convidada pra cantar com a banda. Não quis nem saber das 70 mil pessoas e saí correndo entre elas pra chegar perto e vê-la de novo. Depois de ouvir "Bad Reputation[vídeo]" e "I Love Rock'n'Roll" (imagina só que honra cantar suas músicas e ter o Dave Grohl fazendo seu backing vocal!!!!), ela se despediu, eles também, mas com "Everlong", fazendo o Jockey se emocionar.



Não falei que ia valer a pena? (:

quarta-feira, 18 de abril de 2012

LANTERNA MÁGICA - O QUE VOCÊ QUER SABER DE VERDADE

por Egídio La Pasta, Jr


Tenho ouvido muito o cd mais recente da Marisa Monte, O que você quer saber de verdade. Talvez porque as canções falem sobre amor e eu sou aquele cara sempre em (des)acordo com as coisas do coração. Se você conhece a discografia da cantora, vai perceber alguma similaridade com o Memórias, crônicas e declarações de amor. Talvez porque fale dessas gavetas que o amor abre. E fecha também.

À partir do cd, escrevi e gostaria de dividir o resultado. Não é sobre o cd, mas é o cd.

****

Virei a noite como quem vira uma taça de vinho. Procurando, quem sabe, na ironia da chuva forte e do vento frio, alguém para dividir a madrugada e também - por que não? - os sonhos. Em vão, talvez para me certificar de que não encontraria ou não conseguiria ou não seria dessa vez, ainda, mas com uma ponta de orgulho ou uma leve sensação de dever cumprido no sentido de enfrentar a noite. “Enfrentar as horas” e Virginia Woolf povoa o pensamento, mas abro passagem para que ela se vá porque hoje não existe espaço para os dois. 

Depois, um amigo me ligou tarde da noite e me disse, bêbado, algumas palavras que, sinceramente, eu não lembro. Imaginei que os efeitos do álcool, por algumas óbvias razões, fizeram com que ele me procurasse. Não por ser especial ou confiável, mas por ser o único que poderia estar acordado além-madrugada e também o único que não se importaria em ouvir palavras sem creditar a importância literal de cada uma delas. Apenas saber que eu o ouvia, confortava o seu porre de alguma forma. Antes de desligar - e talvez seja essa a única frase que eu me lembro - além do alô, naturalmente, ele me disse:

- Eu não consigo entender nós dois. Nós poderíamos, não poderíamos? Mas eu nunca tive coragem de ir além.

- O meu além é o seu limite.

E desliguei. De cara limpa. Por opção. Vaidade. Necessidade. Hoje, dividir pode também significar estilhaçar. Perdido. Sem grande alarde. Consciente. Dentro da noite, que não é tão veloz. Mas que revela. E se é incômoda e se é fria e se é maiúscula em questões não resolvidas, é também menos frágil e menos dolorosa e menos banhada em drama e lágrimas. Porque com o tempo a gente compreende e dispensa certos adornos. 

Amanheceu às cinco e quarenta e oito. Da janela eu vi. Não estivesse tão frio e chuva não houvesse, eu desceria as escadas em pijama e chinelo para sentir a manhã. Para sentir essa sensação de recomeço, já que todo o dia é...

- O que é que todo dia é? - você chuta a questão e eu não faço o gol.

Eu não sei – a platéia vira as costas.

Amanhã eu vou dormir o dia todo – esse é o meu placar.

O que há de mal com o não saber? Perdido no meio do labirinto, entre idas e vindas, eu suspendo as drogas por agora. Porque preciso da lucidez de quem ainda não se encontrou no meio da página. Então álcool, fumaça, sopros, cachaça, tudo isso me embriaga feito movediça areia que me prende os pés e eu quero avançar. Mesmo seguindo sozinho, exatamente como eu comecei a história e não havia ainda o jogo e as curvas que me levam ao mesmo lugar. Mantenho o sensorial porque me faz bem. Não abro mão da cueca revolucionária que reage ao outro. Mantenho a música e é fácil compreender a razão. Música preenche. Enaltece. Reverbera. Aciona. Emociona. Não gosto de estar no escuro. Mas é no escuro que te escrevo. E se não te conheço depois de tanto tempo é porque não acendestes a luz. Ou fui eu que não tirei os óculos escuros?

Antes não acompanhado do que só.

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Aqui, uma entrevista divulgada no site da Marisa Monte, onde alguns amigos a entrevistam sobre o novo trabalho. Escolhi a entrevista que a Adriana Calcanhotto fez para compartilhar. Você encontra ainda as entrevistas feitas por Hermano Vianna, Francisco Bosco, Marcos Augusto Gonçalves e Jéferson Güntzel na página da cantora.

Adriana: Do momento em que você chegou em casa, quando acabou a turnê, e acabou aquele negócio de viagem, de fazer mala e não sei o quê, como é que começou a semente desse disco? Você já estava pensando em coisas ou ficou aqui zanzando?

Marisa: Quando terminou a turnê eu entrei num momento de silêncio, sabe? De esvaziamento mesmo. Eu já tinha algumas dessas músicas feitas, prontas ou começadas durante a turnê, mas eu precisava ficar um tempo em casa, precisava desse tempo de vida, normal, de cotidiano... Sem tanta interrupção, sem tanta descontinuidade, sem tanta adaptação a realidades diferentes... a cada dia um hotel, uma comida, um horário, um fuso, uma língua... Nesse momento, eu tive mais oportunidade de encontrar os parceiros, terminar as coisas já começadas, assistir aos shows dos outros e nutrir as relações que se transformaram nesse novo trabalho. Aí, eu fui fazendo as músicas. Na verdade, esse disco é uma seleção de algumas músicas que eu fiz nesses últimos três, quatros anos. Algumas até foram feitas durante o período de gravação do disco.

Adriana: Você compôs já com o disco em andamento?

Marisa: Sim, umas duas ou três aconteceram durante o disco. E algumas já tinham sido gravadas por outras pessoas, como "Bem Aqui", pelo Dadi, “O Que Você Quer Saber De Verdade”, pelo Arnaldo, e “Verdade, Uma Ilusão”, pelo Brown.

Adriana: Daí, quando você compôs, sendo que você já estava gravando, você compôs pela inércia de estar mexendo com as coisas, mexendo com os instrumentos, ou você teve uma necessidade para fazer o disco, complementar coisas?

Marisa: Não, a música que eu me lembro de ter feito durante o processo foi consequência da minha passagem por Los Angeles, quando encontrei o Rodrigo Amarante. Eu nunca tinha feito nada com ele, mas existia uma vontade mútua. Um dia a gente se encontrou no estúdio porque a gente gravou uma música para o último Red Hot + Rio, “Nu com a minha música”, de Caetano Veloso e Devendra Banhart. Durante esse tempo em que a gente estava no estúdio, pintou a ideia de uma música. Ela já veio com algumas palavras, uma coisa que a gente fez junto na hora, já com alguns pedacinhos de letra. Depois, ele continuou sozinho. Quando ele veio ao Rio, ele trouxe o que ele tinha feito. Aí, demos aquela arredondada e eu achei que ela tinha a ver com o resto do disco todo. Ela fala sobre saber o que se quer e sobre pagar o preço do que se quer, mesmo parecendo loucura para todo mundo em volta. A música é na primeira pessoa e ela diz: “Vá, pode falar, pode escrever, eu vou me entregar”. É sobre o reconhecimento e a conquista do desejo.

Adriana: Eu achei interessante que o disco fala dessas coisas que você está dizendo, do imprevisível do amor e como isso é assim mesmo. E tem uma ligação muito forte dessas canções que falam do canto, de como o canto atravessa isso, de como o canto expressa isso, e é tão interessante porque é tão você. É o jeito que você faz a sua música. Eu queria que você falasse disso...

Marisa: Eu sou uma cantora bem ligada à tradição da canção e do canto. Eu gosto de uma canção com refrão, com primeira parte, com segunda parte. Eu gosto muito de melodia. A relação do canto com o amor é ancestral. Até os passarinhos cantam quando querem atrair um parceiro. Então, isso é uma coisa da natureza. E, na verdade, a minha preocupação ao cantar o amor hoje é falar do amor de uma forma contemporânea, um amor que é vivido hoje. Então, têm várias questões com as quais a minha geração e as pessoas que estão hoje vivendo a questão amorosa se confrontam, como ter uma relação amorosa satisfatória e duradoura. Ou seja, falar do amor como ele de fato é vivido, não um amor tão idealizado.

Adriana: Eu acho que o disco tem isso, uma coisa da imprevisibilidade do amor.

Marisa: Sim, tem uma música que fala “amar alguém não tem explicação”. Amar alguém só pode fazer bem. O amor é uma forma de inteligência, talvez a maior delas. Estamos vivendo muitas transformações nas relações familiares, nas relações humanas, e uma coisa certa é que os modelos do passado não servem mais para a gente.

Adriana: Eu acho bem interessante que algumas pessoas muito jovens vão ouvir esse disco e vão ter um toque de que o amor é assim mesmo, não é tão simples assim. É bem mais complicado, bem mais complexo e, por isso, tão interessante...

Marisa: A questão amorosa é uma questão relevante na vida de todo mundo. Talvez um ou outro não se importe com isso, mas a maioria se importa.

Adriana: E o que você tocou no disco? Eu vi que você tocou percussão...

Marisa: Aqui em casa tem um acervo de instrumentos que fica à nossa disposição. Como em muitos momentos éramos só eu e o Dadi, nos desdobrávamos em várias funções, nem que fosse para simular o que queríamos gravar depois. "Ah, podia ter um teclado". Então, a gente gravava para ver como é que ficava. O Dadi também é um músico super versátil. Ele toca violão, toca baixo, toca bandolim. Então a gente pôde se divertir aqui. Muitas coisas foram substituídas depois, quando eu chamei o Daniel Jobim, o Bernie Warrel ou mesmo o Pupillo. Mas alguns instrumentos que tocamos acabaram ficando. Em “Verdade, uma ilusão”, eu gravei só os pratos. Depois, o Pupillo, ouvindo o que eu toquei, só fez a caixa. No final, a bateria que se ouve somos nós dois juntos. Tentamos servir às canções de uma forma muito intuitiva, muito musical e até despretensiosa.

Adriana: Quer dizer, você nunca pensou em uma sonoridade para o disco, você foi canção por canção...

Marisa: É, eu fui escutando as canções e vendo o que cada uma delas ia pedindo. Essa é uma coleção de canções, cada uma do seu jeito. A intenção foi potencializar o sentimento de cada uma delas, o que elas queriam dizer. Eu sempre achei que eu seria o ponto de ligação entre essas músicas e, de alguma maneira, essa diversidade sempre foi uma marca minha.

Adriana: E o nome?

Marisa: “O Que Você Quer Saber De Verdade” foi composta há algum tempo e o Arnaldo acabou gravando em um de seus discos. A música é um convite ao silêncio necessário para se escutar as necessidades da alma.

Adriana: Queria saber sobre aquele momento em que você chegou em casa, no final da turnê, trouxe a bagagem, as tralhas e aí precisou de espaço, de tempo. Não estava pensando em canção, muito menos em botar um disco na rua, falar com pessoas. Queria saber como você está se sentindo agora...

Marisa: Eu acho que é um momento de expansão e retração natural. É um movimento de dinâmica, um conceito altamente musical de intensidade e alívio. Eu estou feliz porque eu estou com vontade de trazer essas músicas ao publico. Estou feliz com o resultado. De uma forma geral, eu acho que é um momento muito bom porque as ideias dão muito trabalho. Ter uma ideia é fácil, mas você fazê-la vir do plano do ideal para o plano do real dá muito trabalho. Elas chegarem ao plano real para mim significa o disco ser escutado pelas pessoas. Claro que o processo agradável e prazeroso, estar cercado de amor, de afeto e de amigos, é importante para o resultado, mas ele se realiza mesmo é quando se encontra com o público. Agora isso é do disco.

Adriana: E o show?

Marisa: Ah, eu já tenho várias ideias interessantes para o show. De linguagem, da própria linguagem gráfica que a gente está usando no disco, na capa, no site e de vários desdobramentos que podem ficar interessantes. Tenho umas ideias de banda, de repertório, de cenografia, mas isso ainda está em segundo plano para mim porque estou muito mergulhada em outras questões. Por eu estar fazendo esse lançamento de uma forma que eu nunca fiz, muito independente, através do meu site, em um canal de comunicação muito direto, isso faz com que eu tenha que produzir muito mais conteúdo, como textos, respostas, vídeos. Eu acho que tudo que está sendo feito hoje, nesse sentido, é experimental. Não existe exatamente um formato que tenha se provado satisfatório, eficiente, até porque, se existir esse formato, ele vai se tornar insatisfatório muito rapidamente. Exige muito envolvimento da minha parte. Não posso simplesmente delegar isso, porque isso é muito pessoal. Eu ainda estou só sonhando com essas coisas do show. Vai ficar para o ano que vem.

terça-feira, 17 de abril de 2012

QUITANDA DA VIDA 72

Telinha Cavalcanti

Vocês já devem ter visto as lojas chiques que vendem brigadeiro. No Shopping RioSul tem um quiosque. Eles têm a audácia de vender um brigadeirinho assinzinho por R$ 4,50. Deve ir ouro na receita, ou, como diz uma amiga minha, os brigadeiros são feitos por freiras albinas e ninjas da Groenlândia.
Eu já comi um brigadeiro feito com chocolate belga. É macio e o sabor é muito bom. Mas 4,50 num coisinho que mal enche o buraco do dente da minha lombriga é um desaforo.
Por isso, vim mostrar uma receita de brigadeiro diferente, de farinha láctea. Bom prá festa de criança, bom para fazer e dar de presente, bom para comer quente de colherinha vendo sessão da tarde.

Ó que difícil!

Brigadeiro de Farinha Láctea:

Ingredientes:

1 lata de leite moça
1 colher de chá de margarina
4 colheres de farinha láctea (ou mais, pq não?)

Como fazer:

você já sabe :)



imagem: Doce Carolina

segunda-feira, 16 de abril de 2012

VIVER E SUAS VARIANTES

Por Dade Amorim


                   

A dupla “dor-delícia de ser quem se é” e a serenidade são gêmeas bivitelinas. Conhecemos bem as diferenças entre ambas, e no entanto nos passam certo sentimento de univocidade – como dois conjuntos matemáticos com uma área em comum que de algum modo os define. São duas, mas uma precisa da outra para existir inteira.
A experiência mais completa de existir e a serenidade são semelhantes ao que os químicos chamam de elementos simples, irredutíveis. Convivem em harmonia e criam intervalos de prevalência; equilibram-se na gangorra dos dias, uma ajudando a definir e identificar a outra. Fertilizam a argila de que somos feitos como o adubo e a água fazem com a terra que recebe uma planta.
Só se vive plenamente sendo capaz de mergulhar nessas duas instâncias. Uma é necessária à outra; são como espelhos com sinais trocados, e por isso podem se contemplar e fortalecer mutuamente. Sem serenidade a experiência de estar vivo é menos intensa; os acontecimentos não se desdobram de todo, não mostram todas as faces que resultaram naquele e não em outro acontecimento. Entendem-se os motivos pela metade, criam-se julgamentos apressados, falhos, e fica muito fácil distanciar-se das pessoas por não ser capaz de compreendê-las. Sem serenidade (essa paz de dentro, que independe de sossego externo e até da própria paz social), o ego toma conta da situação – e o ego pode ser considerado uma instância emburrecedora por excelência.
Nem é tão difícil criar esse estado interior a que chamamos de serenidade. Começa com um olhar sinceramente interessado no que vai dentro de si; olhar-se como se fosse “de fora”, imaginando ver outra pessoa e suas alternativas.  Outra vantagem da serenidade é recriar a solidão como quem decora uma casa, ver novidades até no dia-a-dia, reavaliar a rotina, tornar o tédio um sentimento mais distante. Sozinho ou acompanhado, é possível aproveitar melhor o que a vida oferece de bom quando se é capaz de relativizar os maus momentos.
E como é improvável, senão impossível, que alguém consiga atravessar a vida sem sofrimento, ao menos vai encontrar em si um espaço mais confortável para seu próprio uso e para quem estiver próximo, porque a serenidade é resultado de uma espécie de ginástica interior, e dá força e agilidade mental a quem a conquista. 


 Imagem: Alberto Caeiro.

domingo, 15 de abril de 2012

MORREM OS POETAS EUSTÁQUIO GORGONE E TONINHO GODFREDSEN: EUSTÁQUIO GORGONE DE OLIVEIRA, CASCATEIRO, COMO TODO POETA, OU FINGIDOR, COMO DIRIA PESSOA

Por Esther Lucio Bittencourt



Eustáquio Gorgone


Quando morre um poeta não é possível sementeio de palavras ou plantação de letras, mas, somente, terra arrasada. Nada pode ser dito, nenhum som deve ser emitido. A noite pesa sobre os ombros derreados do silêncio. Mesmo que os cachorros latam, que os carros buzinem, o som não nos chega : a emissão deles depende da voz do poeta em letras e do poeta em temperos.

Quando morrem dois poetas, assim de seguido, como se fosse correição de formigas, o chão fica quebradiço, o solo oco e o dentro do planeta é um profundo vazio gemendo o uivo dos lobos.Ontem, dia 26, morreu em São Paulo, onde estava hospitalizado o poeta Eustáquio Gorgone. Há algumas semanas foi cozinhar para as nuvens Toninho Godtfredsent, este poemava com o sabor , sabia evolar perfumes de seus temperos.


Sobre o queijo azul- vídeo editado por Fernando Niman

Ontem, na Praça 16 de setembro, em Caxambu, houve homenagem a Eustáquio prestada pela LESMA-Liga Ecológica Santa Matilde- e pelo MOSCA , -Grupo de Cultura Alternativa- movimentos culturais de Conselheiro Lafaeiete e de Cambuquira no Movimento Universitário Abril Poético.


Creio que Eustáquio gostaria no fundo azul, em terceiro plano, destas foto, por isto está postada

LESMA na Praça XVI de Setembro em Caxambu, ontem


Acadêmicos leram biografia de Eustáquio Gorgone e disseram seus poemas, assim como seus filhos, que estavam presentes .

Um dos últimos livros de Eustáquio," Fortaleza de Feno" foi uma sugestão do Toninho Godfredsen.

Num país com reis, elfos, e gnomos, a Dinamarca e natais repletos de luzes, assim conta Toninho a história do Queijo Azul de Minas. Com a mesma voz que nunca mais escutaremos. Recordo de chegar ao seu restaurante, o Royal Dansk - e era sempre assim- ele levantava de onde estivesse e conversávamos sobre a arte .E a comida, saborosíssima  muitas vezes, era esquecida  no calor da conversa e, posteriormente, saboreada com o tempero do embalo de sua voz e contares que  nunca  mais ouvirei.

Certa vez ele chamou por sua filha Constança que assumira como Chef do restaurante e nos apresentou.
Mas conto como surgiu o "Fortaleza de Feno" : Pedro Leal, o pintor que ilustrou alguns litros de Eustáquio, à bico de pena com irmãos do poeta iam jantar no Toninho que lhes mostrou um exemplar de um livro dinamarquês, pequenino, do tamanho de fortaleza de feno, com algumas fábulas. Esta foi a fórmula:



Quando a gente pensa que o mundo é quadrado, leva um tombo, Tropeça na pedra que Dromond colocou no caminho e cai em si. Pois é, de Toninho veio a sugestão de um livro que Gorgone e Pedro Leal concretizaram.

No hospital, Eustáquio escreveu o livro derradeiro. Aguardamos por ele.
Toninho, dele tenho guardado na alma, o sabor do última caldo que tomei no Royal Dansk. Dia de estômago em revolta e o caldo chegou à calhar.

O que me entristece e muito é saber que a cidade de Caxambu, que deve muito aos dois, Eustáquio, poeta do mundoi e Toninho que veio do mundo para Caxambu não receberam nenhuma homenagem da cidade. Foi preciso que alguém de fora lembrasse do poeta

Esta a última entrevista que fiz com ele. Conversas mantivemos muitos e muitos, após.

EUSTÁQUIO GORGONE DE OLIVEIRA, CASCATEIRO, COMO TODO POETA, OU FINGIDOR, COMO DIRIA PESSOA


Eustáquio Gorgone acredita que “o horizonte do mineiro é a angústia. Serras azuis e verdes da Mantiqueira, da Bocaina, as ladeiras, as curvas sobre curvas da estrada aproximam o horizonte, assim como a primeira remada encaminha o barco e seu barqueiro para o derradeiro ancoradouro e os quartos, as salas, se abrem para dentro das pessoas.

O mineiro quando pega no remo pela primeira vez encurta caminhos. A primeira braçada o leva para baías e lagos que se fecham sobre si mesmos e sobre o remador. Aí tudo seca e a quilha do navio ancora nos montes.

A arte é coisa morta. Feita de lembranças nossas e dos outros, das saudades; arte é a história dos que não mais estão presentes. É como a cebola: fatias que se enrolam sobre si mesmas.”

Eustáquio é poeta. Nasceu em Caxambu, Minas Gerais, em 1949. Licenciou-se em Letras e Pedagogia. O autor de mais de 10 livros de poesia tem pronto um livro com cerca de 140 poemas. “A Janela do verbo assistir”, sua última publicação foi vencedor do Prêmio Estímulo às Artes, 2006, da Fundação Clóvis Salgado e do Suplemento Literário de Minas Gerais.

1
astrônomos vieram a passa quatro
por ocasião do eclipse de 1912.
na porta da hospedaria, lia-se:
não aceitamos pessoas com moléstias
contagiosas
e que se preocupam com manchas escuras.
folheando os livros da época,
deparo-me com a relação dos sábios
e o relatório de cada um deles.
de fato, as sombras surgiram nos céus
contra a vontade do senhor da hospedaria
que expulsando os filósofos e poetas,
fez a luz voltar ao sol.

16
navegamos pelos vales
abertos à tristeza.
outrora havia o pássaro
chamado sahy de colleira
e ele justificava o eu lírico.
navega pelos vales
abertos à tristeza.
o que foi um ato amoroso
agora é apenas sestro.
a longa viagem termina
quando faróis nos levam
para dentro de suas sombras

Eustáquio Gorgone de Oliveira, olhos azuis, cabelos brancos e uma calva; assim lembra a figura de Drumond, poeta de feitio quixotesco no perfil anguloso e seco. Gorgone porta traços delicados no rosto que, se não fosse magro, seria redondo.
Mora no estrangeiro, mas no estranho que habita Caxambu.

Conversamos em frente da piscina do Hotel Gloria que segundo ele, é um hotel da cidade que nunca está, parece fora de Caxambu. “Pertence aos que por lá passam, se hospedam, os estrangeiros. E é essa transitoriedade que me fazer morar no estrangeiro, pois é o clima de outros lugares que se respira aqui.”
Poeta premiadíssimo que tem Pouso Alto como matéria de ensimesmar-se. De cima, dos cumes, o poeta preserva a si mesmo e seu entorno ao observar o seu dentro que é o fora ao avesso.

Pouso Alto é uma cidade do sul de Minas Gerais quando se recita os municípios pela janela do carro. Para o poeta, a cidade, apesar de metáfora, é concreta mesmo sendo abstrata. Diz ele que um grande poeta mineiro, publicado na Europa, Yacir Anderson Freitas, lhe confessou que gostaria de ter escrito um livro chamado Pouso Alto. “Falou comigo por telefone que gostaria de dar título a um livro que escrevera de Pouso Alto. Só que Pouso Alto não é somente um título para mim”. É o ponto de vista de Eustáquio
Mas o Gorgone, barroco, (“considero minha poesia um pouco barroca, àquelas contorções do barroco, as perspectivas, as sobreposições... o barroco era universal porque convive com a angústia, o anseio da impossibilidade do ser humano ser feliz”) pela dor de retornar sempre ao mesmo ponto, as volutas do trajeto, adona-se de Pouso Alto em seus poemas.

“A arte é uma produção morta, porque é um produto do ser humano , um produto social do artista. Ela é uma, como se diz... um anseio de uma... não é anseio... como a cebola do Herman Hesse que diz que nossa alma é como a cebola com várias camadas. Eu não era Pouso Alto quando tinha 12 anos. É uma montagem... metáfora. Mas a morte é como o símbolo de que que você , coisa morta, sem vida, extinta, sem respiração , um cadáver, é uma prova do que você vivenciou quando era vivo ou antes, uma testemunha do que você percebeu antes de se tornar inerte, a arte é isso: uma prova, uma produção do que você foi testemunha, de que alguém foi contemporâneo daquilo quando vivo. Só. A morte é apenas uma questão técnica. Chegarei a um momento em que esterei t4ecnicvamente correto , na absoluta solidão. Quem ler um texto meu no futuro verá que apenas usei a técnica do silêncio.

Hoje a felicidade é muito mais fácil. “

Quem ler o livro “A flor do esquecimento”- cultura popular e processos de transformação-, na página 183, do escritor nascido em Juiz de Fora, Edmilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira de Magalhães Gomes, no ensaio “No terço da Lola”, verá que a epígrafe usada é a do poema 25 do livro “Passagem na Orfandade”de Eustáquio, publicado em Juiz de Fora em 1999: “A meus pés persignam-se os evangelhos
Seus capítulos me aderem como pólen:
Verdade de puro linho e algodão.”

Sim, ele é poeta que já virou epígrafe. Sente que seus mortos exigem dele, os mortos em expectativa, o elogio final, o registro último, que significará enfim a morte do poeta. Só assim seus mortos o deixarão em paz.
São eles, como suas lembranças, que provocam a arte e serão eles quem conduzirão o poeta as baías que se fecham sobre si mesmas e secam para que o vivido torne-ser para sempre.

“O livro mais lido do mundo é o corpo humano. O segundo é a Bíblia. Todos folheiam o corpo, passam suas páginas desde o nascimento até a morte. Curioso é que as iluminuras, a encadernação, estas podem mudar,, mas será sempre o corpo humano assim como a Bíblia mantém suas parábolas.
Hoje as casas não têm portas trancadas, como na minha juventude. Todas podem ser abertas e desvendar seus segredos.

Salas amplas, quartos livres para a juventude amar.. Se é bom eu não sei mas penso que o desejo despe-se da ansiedade e dos mistérios, não precisa mais pular janelas. A imaginação padece de agonia. Enfim, é a morte definitiva do pensar barroco.
É difícil sintetizar o amor mesmo porque ele está sempre presente em meu trabalho poético. Para o homem é muito fácil ser feliz porque desde cedo ele convive com a pornografia. E parece que basta essa convivência.”na quitanda do Ney nos encontramos de vez em quando entre frutas e legumes, na Travessa Nossa Senhora dos Remédios. Que remédio! A família preza a despensa sortida. Seus filhos lêem os versos que ele faz assim como cheiram o pão fresco saído do forno da padaria com perfume de outrora.”

“Após a primeira remada comecei a morrer com mineiridade. Minas Gerais, afinal, é sempre o mar de todas as possibilidades.


CHICO CASCATEIRO


O poeta Eustáquio Gorgone de Oliveira reflete sobre o significado do cipó na obra do português Chico Cascateiro que, no início do séc. XX, foi responsável pela construção de uma originalíssima obra paisagística, quase artesanal, em algumas cidades do sul de Minas Gerais. Artesão naturalista, construiu coretos, bancos, cascatas e fontes, que hoje constituem um valioso patrimônio artístico de Minas Gerais.

CIPÓS DE CIMENTO
Eustáquio Gorgone de Oliveira*

Elementos por excelência da arte naturalista, a água,
as pedras e as árvores se conjugam no trabalho de Francisco da
Silva Reis. Como um indez de argamassa, sua obras nos evocam
antigos bosques e matas que, em outras épocas, circundavam a
incipiente vegetação urbana, semeada em pequenas manchas pelas
montanhas.
Dentre as plantas nativas que serviram de inspiração
a este artista português, inúmeras espécies de cipós marcam signi-
ficativa presença nos esteios, baldrames e ripas que compõem seus
quiosques e miradouros.
Trepadeiras de difluida beleza, os cipós foram registrados
por naturalistas e viajantes (Thomas Ewbanck, Ferdinand Denis, Jean
B. Debret) em gravuras de sóbrio realismo. Na vida cotidiana dos
indígenas e mestiços, seus emaranhados liames servem na elaboração
de utensílios e peças de artesanato. As redes, cestas, amarras e
enfeites confeccionados com cipó acompanham o homem do berço
à mortalha.
Sinuoso e resistente, este vegetal pode ser visto, na obra de
Chico Cascateiro, cintado aos troncos e pedras. Vem incrustado na
argamassa que lhe serve de suporte ou exibe seu lenho cortado na
extremidade (cipó-cruz). De maneira natural, sem o artifício maneiroso,
o cipó contorna as terças e vigas. Não revela falsos nós ou cordomes
impróprios. Percorre, sim, com naturalidade, os orifícios e frestras,
deixando que aligadura entre os bambus e esteios se faça pelo encaixe
ou por cravos dispostos nos gomos da madeira. Acompanhando o
movimento dos cipós, lagartas e centopéias procuram refúgio no topo
das coberturas.
O cipoal sugere a lactação das pedras e troncos e não apenas
adorno. Grutas, escadas e pilastras são nutridas por estes veios com
novos arranjos, criando os limites dos parques públicos e ambientes
particulares.
Entre as oportunidades que os homens tiveram de criar parques
e praças nas cidades do Sul de Minas, o conjunto arquitetônico legado
por Chico Cascateiro revela-se como a expressão mais adequada de
entendimento com a natureza. Neste contexto, os relegados cipós ainda
nos abraçam com a mesma força que a sociedade moderna, através das
demolições, procurou arrancá-la de nós. “



OPINIÕES

Sobre o livro “Manuscritos de Pouso Alto”
“A poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira apresenta, com evidência, aspectos marcados pela tradição do barroco mineiro. Nesse sentido, a referência ao mundo distorcido remete às figuras do Alejadinho e às tensões manifestas pela estética barroca. O sentimento que perpessa o livro, intermitência de prazer e dor, luz e sombra, provoca no leitor encantamento e espanto e se abre para um interessante leitura fenomenológica para a qual este prefácio serve apenas como porta de entrada. Se passarmos por essa porta, descobriremos que a obscuridade luminosa desses versos ("a vista não alcança/ a luz interior", poema 24) nos conduz à experiência dos místicos, na qual as visões do outro mundo se dão junto com o sangramento do corpo, como lemos no poema 11: "alguém tece o destino/ nos corpos que desfiam / sangue após o corte."

Resenha sobre o livro "Ossos Naives", de Eustáquio Gorgone de Oliveira.

Numa caixa, guardamos todos os ossos. E ali eles se misturam e, ao mesmo tempo, mantêm sua individualidade. Como numa natureza morta, os ossos saltam para a tela e formam o retrato de um instante, de vários instantes. Assim é como sinto “Ossos naives”, de Eustáquio Gorgone de Oliveira (Rio de Janeiro, 7 Letras; Juiz de Fora, Funalfa, 2004), onde os versos são esticados sobre o papel como a formar um esqueleto fragmentado de uma história que envolve o eu lírico, a cidade antiga, os costumes do interior das Minas Gerais.

A poesia de Eustáquio neste novo livro, que recebeu o Prêmio Cidade de Juiz de Fora em 2004, envolve uma cronologia bastante peculiar, que se reflete inclusive no uso de palavras com grafia de português antigo. E este “cronos” é um dos temas recorrentes na obra, levando a uma reflexão nítida sobre a fugacidade de tudo, e sobre a solidão que ele mesmo provoca. Tempo e solidão andam de mãos dadas.”

“O que é um poema?/ cavalo preso/ em nossas baias (...)// lastreados estamos/ nos enganos da arte,/ por enquanto.” (p. 88) E sutilmente o poeta declama “lua, ensina-me o luar./ passei noites lendo as sombras.” (p. 90)

Camilo Mota é escritor e poeta, fundador e editor do Poiésis, reside em Saquarema-RJ


PASSAGEM NA ORFANDADE – 2
Quando o amor circula nas bocas,
ele se move de vermelho a vermelho.
Qual cidade é assim por dentro ?
A primavera viaja sobre carris
e aonde vamos ela também leva
no toucado suas flores.
Cornos forrados de abelhas
trazem o mel das liturgias.
Fossem todos os dias luminosos
a quem distribuir as sombras ?

sábado, 14 de abril de 2012

FREDZILA - BUEIROS NIPÔNICOS

Carlos Frederico Abreu

Quem anda pelo Japão de olho nas alturas dos arranha-céus (ainda se usa este termo?), nos prédios gigantescos e modernos, acaba perdendo algo bem ali sob os pés.
Os bueiros mais bacanas do mundo…
A cidade que tem os mais bonitos é (disparado) Nagasaki!





sexta-feira, 13 de abril de 2012

COMO CURAR COLITE BEBENDO ÁGUA EM CAXAMBU: RECEITAS DO DR. LYSANDRO GUIMARÃES

Por Esther Lucio Bittencourt


Alceo Pinheiro Fortes


Alceo Pinheiro Fortes, 86 anos, do Rio de Janeiro, casado com um casal de filhos e cinco netos, era professor do estado e trabalhava na área de recursos humanos da Petrobrás. Um dia, com uma colite crônica, ainda bem jovem, com seus 26 anos de idade, seus tios insistiram que viesse para Caxambu, estância hidromineral do sul de Minas Gerais onde, certamente, com as águas curaria sua inflamação do colo, a colite.

No Rio de Janeiro andara por vários médicos, mas nenhum deu solução para seu sofrimento. Os tios então decidiram: em Caxambu tem ótimos médicos e resolverão seu caso. Ele relutou e disse: “Olha, não acredito nisto não”.
Mas eram as férias de fevereiro, em 1953 cedeu. Disse então, “eu vou. E vim com eles para cá. Ficamos hospedados no Hotel Bragança, eu e minha mulher, tínhamos um filho só na época e essa tia marcou uma consulta com o Dr. Lysandro Guimarães.
Hotel Bragança, que fica em frente ao Parque das Águas de Caxambu (foto google)

O consultório do Dr. Lysandro era no Balneário do Parque das Águas, hoje o Parque tem o nome dele.
Fui a ele, não acreditando em nada, contei meu problema e ele me disse: "Vamos resolver isto sim". Tirei do bolso uma porção de remédios que eu tomava, andava com o bolso cheio de atroveran, cibalena, analgésicos e coloquei tudo sobre a mesa dele.
Dr. Lysandro Guimarães(foto recolhida em álbum no Picasa, da família Castro Guimarães

Ele me ouviu, ouviu, ouviu, olhou os remédios e disse que iria tentar resolver o problema: "Vou prescrever uma receita para você e começa assim: toda manhã, em jejum , eu quero que você tome 300 mililitros da água Duque de Saxe que é sulfurosa. Em Jejum. Depois, ás onze horas, repita a mesma dose.
Às 17 horas você retorne ao Parque e tome um copo de 150 mililitros da Fonte Leopoldina, que é magnesiana e também vou te receitar porque senti que você tem um temperamento nervoso, tomar uma ducha escocesa circular que havia no Balneário do Parque."

Peguei a receita, ele pegou todos os remédios, todos os que eu havia colocado sobre a mesa e jogou na lata do lixo.
Eu quase dei nele. Aqueles remédios eram a minha segurança!
Mas fui para o Hotel.

Olha, fiz o tratamento. Depois de mais de ano de dieta rigorosíssima passei a comer de tudo. Foi um tratamento de quinze dias e logo comia tudo de que gostava: feijoada, carne de porco, tudo! Esqueci a dieta e passei a vir todo ano para Caxambu.
No ano seguinte de minha cura fui procurar o dr. Lysandro para que ele comprovasse que o tempo se passara e eu estava curado. Todos os anos eu o procurava e, até hoje, uso a água sulfurosa e me tornei hóspede efetivo da cidade! Hospedo-me há mais de 50 anos no Hotel Palace, no mesmo apartamento, minha família toda vem sempre para cá.
Sempre recomendo às pessoas que precisam o mesmo tratamento que fiz. Tornei-me fã de Caxambu e quero dividir meu entusiasmo com quem conheço".


Seu Alceo doou a imagem de São José que fica na Portaria do Parque das Águas. Ele é padroeiro dos funcionários.

ALGUMAS FOTOS DO PARQUE DAS ÁGUAS DE CAXAMBU






Sobre o Parque das àguas Lysandro Guimarães, em Caxambu

quinta-feira, 12 de abril de 2012

EMBRATUR FALA PARA CAXAMBU COMO SE TORNAR ÚNICA NO MERCADO DE TURISMO

Por Esther Lucio Bittencourt

Marcelo Pedroso Diretor de Mercados Internacionais da EMBRATUR, em palestra ontem em Caxambu

Marcelo Pedroso, diretor de Mercados Internacionais do Instituto Brasileiro de Turismo, Embratur, 41 anos, morador em Brasília, Distrito Federal, esteve ontem, dia 11 de abril, no Centro de Convenções do Hotel Glória de Caxambu, à convite do Prefeito Luiz Carlos Pinto, para expor sobre os caminhos a seguir pelo empresariado da cidade antes, durante e depois da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e de todas as festividades que haverá no Brasil, com vistas a garantir para a cidade maior exposição turística. A organização foi da Prefeitura de Caxambu Convention & Visitors Bureau .

Em entrevista ao jornal Primeira Fonte, Marcelo informou "que as eleições municipais não podem alterar o rumo dos acontecimentos “porque toda ação positiva deve ser tomada por grupos da sociedade civil e empresariado local . Qualquer acirramento da disputa política, e haverá, e à despeito de haver diferenças entre projetos políticos, a cidade deve ter em conta que em primeiro plano está o seu benefício e que a sociedade civil tem capacidade de mobilização para conduzir seu futuro da melhor maneira possível.

Mas tenho a certeza de que nenhum grupo político desejará o mal da cidade. Principalmente porque as pessoas trabalham aqui, têm negócios aqui e não desejam que a cidade vá para o buraco.

Independentemente disto, entendendo a dinâmica da política eleitoral, acho que a iniciativa privada tem papel fundamental neste processo e deve estar acima de quaisquer movimentos políticos. A sociedade civil, de uma maneira geral, tem interesse num trabalho que gere desenvolvimento econômico para a cidade e por isto acredito que nesta fala que fiz para os presentes nesta noite, acredito que possa vir a ser uma semente que frutifique, ainda que se tenha um ambiente mais acirrado por conta da disputa política."

Num momento da palestra ele falou sobre a importância de saber, fora da cidade, o que é Caxambu.
Ele mesmo informou: “ Não conhecia Caxambu, nunca tinha vindo. Já tinha ouvido falar de Caxambu como uma das principais estâncias hidrominerais de Minas Gerais. É o que tenho de lembrança. Já numa visita que o Prefeito Luiz Carlos Pinto nos fez, há dois meses atrás, em nossa conversa falamos de várias outras coisas que existem na cidade.

Ele foi nos procurar para que possamos apoiar e ajudar a desenvolver o potencial turístico da cidade e de que forma podemos aproveitar a realização da copa do mundo, no Brasil.
A Embratur se prontificou a vir à cidade e mostrar o trabalho que estamos fazendo e mostrar para a cidade e suas principais lideranças do turismo de que forma aproveitar este potencial de copa do mundo.

Nos comprometemos também a disponibilizar todas as ferramentas de divulgação que temos no Mercado Internacional, como nossa agenda de feiras e eventos no exterior, quando um stand para Caxambu já está garantido, além de nosso trabalho de relações públicas e com a imprensa no mercado internacional, enfim, buscar, sempre associado a outros destinos turísticos, na medida em que a estratégia da Embratur é focada em promover o Brasil, divulgar Caxambu no Mercado Exterior e permitir a Caxambu também aproveitar estas oportunidades.

Nas feiras, por exemplo, onde não tem custo de participação dentro de nosso stand de Brasil poderá haver um de Caxambu para que possa haver contatos com operadores de turismo e agentes de viagens dos principais mercados onde promovemos o turismo brasileiro."


Marcelo Pedroso explica que é necessário toda cidade ter algo muito especial que a caracterize. Citou os lençóis Maranhense, como exemplo os Lençóis Maranhenses que só existem numa região do mundo, o Estado do Maranhão , no Brasil . Então, Caxambu, precisa divulgar o que a torna única.

Raro fenômeno geológico, foi formado ao longo de milhares de anos através da ação da natureza. Suas paisagens são deslumbrantes: imensidões de areias que fazem o lugar assemelhar-se a um deserto. Mas com características bem diferenciadas. Na verdade chove na região, que é banhada por rios. E são as chuvas, aliás, que garantem aos Lençóis algumas das suas paisagens mais belas. As águas pluviais formam lagoas que se espalham em praticamente toda a área do parque formando uma paisagem inigualável.









(imagem Google)


Brasil Sensacional. Campanha para a copa do Mundo de 2014 da EMBRATUR

ABRIL POÉTICO- CAMINHOS DO SUL: SÁBADO EM CAXAMBU

Por Esther Lucio Bittencourt

Exibição de slakeline na Praça XVI de Setembro, sábado passado em Caxambu, durante o Segundo Encontro de Consciência Ambiental, promovido pela Associação Fontes das Gerais e Pelo Renova Mata com o objetivo conscientizar a população sobre a necessidade de proteção e preservação do recursos naturais Participaram mais de 90 pessoas como voluntárias para para limpeza de trilhas do Morro e Parque das Águas de Caxambu, foram plantadas 15 árvores no Morro de caxambu e 10 no Parque. Estas árvores foram adotadas por pessoas que participaram da atividade. Foto de Ricardo Melo . aqui tem mais


Grupo Lesma

O circuito Universitário Abril Poético, Caminhos do Sul, organizado pela Liga Ecológica Santa Matilde, LESMA,  de Conselheiro Lafaiete, antiga cidade mineira,percorreram as cidades de Campanha, Lavras (dias 12 e 13 de Abril), São João Del Rey e chegará a Caxambu neste sábado, dia 14 , onde a a partir das 19 horas e 30 minutos homenageará o poeta , falecido recentemente, Eustáquio Gorgone de Oliveira, dentre outras atividades.


LESMA E MOSCA, Grupo de Cultura Alternativa uniram-se para realizar a Mostra Especial de Curtas-metragens “Mosca encontra Lesma”: ecologia, cultura e história regional, na Pousada Águas de Caxambu, às 17 Horas.
Às 19:30hs – “Poesia na Praça”: atividades culturais na Praça XVI de Setembro (coreto): Recitais: Recital Lesma Poesia (Conselheiro Lafaiete); Íris Ferreira Torres (São Lourenço); Homenagem ao Poeta Caxambuense Eustáquio Gorgone de Oliveira.
Às 20hs – “Espaço Abril Poético”: intervenções culturais e artísticas no-Bar Viking. Shows:Fábio Pimentel e Fernando Amarante (Lambari)Os Fernandes (Barbacena) Tatiana Cobbett & Marcoliva (Florianópolis)


No dia 15 de abril, domingo de 2012 os grupos encerrarão as atividades em Caxambu e partirão para Campanha. A programação de Caxambu será: 09hs – “Ritmo e Poesia”: oficina de poesia e música para crianças de 7 a 14 anos, no Parque das Águas (fonte Duque de Saxe) ; 10hs – “Música no Parque”: roda de música e poesia no Parque das Águas com lançamento dos cds  “Árvore da Vida” do Grupo Lesma e “Bendita Companhia”, de Tatiana Cobbett & Marcoliva.


LESMA


Fundada no dia 15 de novembro de 1998 a Liga Ecológica Santa Matilde (LESMA) sempre pauta suas ações tendo como metas a Ecologia, Cultura e a História Regional. O jornal da LESMA, que circula em 35ª edição e o jornal Ecologia & Cultura, são os instrumentos de divulgação das ações, eventos e parcerias da ONG. O recital LESMA Poesia foi fundado no dia 21 de Abril de 2001 e é o braço poético da entidade. O atual presidente da LESMA é o psicólogo José Odilon Rodrigues Pereira.


A LESMA conta, ainda, com uma biblioteca particular “Arquivo Histórico Nilo Eustáquio Soares”. Com ações integradas e reconhecimento social e didádico, a ONG realiza sempre ações cooperativas de âmbito regional. Produz, anualmente, o Salão de Poesia ABRIL POÉTICO e o roteiro turístico e cultural CAMINHOS DE QUELUZ.


Como editora a LESMA já lançou os seguintes livros: Conselheiro(Lesma Poesia), De Villa Real de Queluz a Conselheiro Lafaiete(Antônio Perdigão), Lafayette Rodrigues Pereira – um ilustre queluzense, (Allex Milagre), Poemas de um homem apaixonado(Ailton José da Silva), O Amor Visto da Ponte, (Wagner Vieira, Osmir Camilo e Patrícia Fonseca) e Família Apolinário – Memória e Cidadania (Núcleo de pesquisa da família Apolinário), Árvore da Vida (Lesma Poesia).

TRILHA DA MATA EM CAMBUQUIRA- ESCADAS PROMOÇÃO



Vinheta da MOSCA

Vinheta MOSCA 6 [Mostra Audiovisual de Cambuquira] from Mostra Audiovisual de Cambuquira on Vimeo.


Na cidade de Campanha, no Sul de Minas as atividades serão a partir das 18hs – “Poesia na Praça”: atividades culturais na Praça Central com: Recital Lesma Poesia e Convidados
20hs – “Espaço Abril Poético”: intervenções artísticas na Praça Central, com recitais e shows: Fábio Pimentel e Fernando Amarante (Lambari); Íris Ferreira Torres (São Lourenço); Recital Lesma Poesia (Conselheiro Lafaiete);Os Fernandes (Barbacena); Tatiana Cobbett & Marcoliva (Florianópolis).


Dia: 16 de abril de 2012 (segunda feira): 09hs – “Ritmo e Poesia”: oficina de poesia e música para crianças na Escola Estadual Dom Othon Motta; 10hs – “Música na Praça”: roda de música e poesia na Praça Central, com lançamento dos Cds  “Árvore da Vida” do Grupo Lesma e “Bendita Companhia”, de Tatiana Cobbett & Marcoliva. 15:30hs – Mostra Especial de Curtas-metragens “Mosca encontra Lesma”: ecologia, cultura e história regional. No Cinema da Prefeitura (garagem); 19hs – “Poesia: ações e reflexões”: mesa de discussão no Auditório da Paiva de Vilhena (Sion) (Com participação da Prof. Dr. Maria Ângela de Araújo Resende (UFSJ), Grupo Lesma Poesia (Conselheiro Lafaiete) e Grupo Larvas (Lavras)
21hs – “Poesia na Varanda”: apresentações culturais nos jardins das Faculdades Integradas Paiva de Vilhena (Sion); Participações de Recital Lesma Poesia, Fábio Pimentel e Fernando Amarante, Tatiana Cobbett & Marcoliva, e alunos dessa instituição.

CONSELHEIRO LAFAEITE

A primeira notícia que se tem da história de Conselheiro Lafaiete, uma das cidades mais antigas de Minas Gerais, é por volta de 1683, dada pela bandeira de Garcia Rodrigues, que fala no arraial de garimpeiros e índios chamado Campo Alegre dos Carijós.
Consta que antes essas paragens já teriam sido visitadas pelo português D. Rodrigo, em 1680/81, e mesmo, anteriormente, pelas bandeiras de Pais Leme (1674) e Lourenço Castanho (1675) que, penetrando no vasto sertão, desbravavam as terras abrindo picadas e caminhos. E na aventura achavam ouro, plantavam roças, criavam arraiais.

CAXAMBU


Dizem uns que, outrora, os negros vindos de Baependy e da vizinhança, costumavam se reunir nas referidas Águas Minerais e aí celebravam batuques memoráveis, ao som dos seus caxambus, e assim, do hábito do convite veio a tona “Vamos ao caxambu”, ficou o termo aplicado ao próprio sítio da festa.

Outra lenda que se destaque é de que as águas das fontes daqui, principalmente quando ainda um grande brejo ali dominava, produziam, borbulhando, um murmuro mais ou menos violento e de certo modo comparável ao rufar do tambor dos escravos.

Mas a explicação mais cabível é, sem duvida, a que faz derivar a designação da cidade de “Caxambu” do morro existente, Morro de Caxambu como é conhecido hoje, o qual é de forma cônica exuberante, exatamente como o instrumento africano, o Caxambu.


EUSTÁQUIO GORGONE DE OLIVEIRA


Eustáquio Gorgone de Oliveira

SOLEDADE DE MINAS

7.

Esta moça bonita espera o namorado
Todos os domingos.
Ele não vem porque mora longe
E não sabe que ela guarda fios de ouro
Para um simples casamento.
Assim evaporaram-se as semanas e meses
e ela faz novos vestidos de baile
Mas o seu calor diminui um pouco.
Ele não vem. Talvez, quem sabe,
A chuva possa trazê-lo nos relâmpagos
E sua mãe aceitar até um louco.
Haveria uma festa sem requintes
(para que o eco do foguete se ele se perde?)
E em trajes brancos ela sorriria
Com seus lábios e unhas vermelhos.


Mais Eustáquio Gorgone aqui

quarta-feira, 11 de abril de 2012

LANTERNA MÁGICA : HUGO CABRET E O CAVALO DE TURIM

Por Esther Lucio Bittencourt

Cena de Hugo Cabret


Não creio que os dois filmes tenham algo em comum, mas são parecidos. Não sei se pelo requinte de cada frame ou por um estado de solidão aceita como definitiva pelos personagens.









Li o livro "A invenção de Hugo Cabret" e acreditei que não iria gostar do filme, como acontece normalmente. Ledo engano. O filme canta a sétima arte e, para mim, seria o candidato perfeito ao Oscar. Mas quem ganhou foi o "Artista" que conta Hollywood na passagem do filme mudo para o falado. A história é de um clichê irreparável. E apenas um cão, o grande astro, consegue fazer do filme alguma coisa passível de ser palatável
Mostra, nesta mudança,  a debacle de um ator que , na minha modesta opinião é e sempre será um canastrão.

Dizem que Hugo canta o cinema francês. Discordo. Só porque ele foi criado pelos irmãos Lumiére que não acreditavam no sucesso do cinema? É o que conta o livro e o filme.

Primeiro filme dos irmãos Lumiére.


Aí chega a história até Georges Melliés que era mágico e resolveu ser cineasta e fez o filme, antigamente não havia a classificação de curtas, Viagem a Lua, sonhada por tantos ficcionistas como Julio Verne e H,G, Wells.




Scorcese que ama o cinema não poderia deixar de cantar seu maior hino: a história de como tudo começou.
Nisto ele parece com Coppola que recuperou Napoleón, do cineasta Abel Gance, para exibição. Lembro que ele foi projetado em 4 telões,colocados em forma de arena, no Estádio Caio Martins, em Niterói, numa promoção da Universidade Federal Fluminense e da Prefeitura Municipal. A orquestra sinfônica da Uff fazia a trilha sonora. Inesquecível.
o historiador e preservacionista inglês Kevin Browlow percorreu 25 anos de sua vida em busca dos negativos, pedaço por pedaço, do Nepoléon do cineasta francês Abel Gance, lançado em 1927.
E parece que tudo começou. realmente, na França.

Bem, como pelo menos uma vez por semana revejo "O Cavalo de Turim", pois ele me toma as fibras por inteiro, acho melhor nem falar sobre ele. Pedirei ao Egídio La Pasta Jr, que converse comigo sobre o filme, (na realidade esta é a coluna dele, a Lanterna Mágica com que Proust Brincava todas as noites, enquanto as festas rolavam em salões de sua casa. Hoje, estou aqui de metidismo puro) Então , o Cavalo fica para a próxima. Mas abaixo do Abel Gance tem um trailer dele, cedido gentilmente pelo youtube. Bela Tarr é muito bom, né mesmo? Inté...





PS- Reparem como as cenas externas de Hugo Cabret são quase todas em tom sépia, como se reportasse a um mundo indefinido para ele, Hugo, que olha das frestas dos ponteiros dos relógios a vida no seu cotidiano.

terça-feira, 10 de abril de 2012

QUITANDA DA VIDA 71

Telinha Cavalcanti

Outro dia, através do Facebook, reencontrei uma amiga que estudou o científico comigo. A gente falou dos meninos da classe, de quem transformou o letreiro "Feliz Páscoa" em "Pênis Falcoa"*, da vez que as freiras do colégio expulsaram um aluno que lia a Playboy da Luciana Vendramini na sala... e dos palitinhos de cebola que estavam presentes em todas as festinhas/trabalhos em equipe/whatever que juntassem a turma da escola.

Então, trazendo os dias de Menudo, provas de física e quase nenhum problema de verdade, mas muito drama na vida da pessoa, a receita dos palitinhos de cebola. Não são umas madeleines, mas bem que quebram o galho.

PALITINHOS DE CEBOLA

Ingredientes:
1 pacote de creme de cebola
500 g de farinha de trigo
400 g de margarina


Como fazer:

Misturar tudo formando uma massa.
Enrolar formando palitinhos ou bolinhas (amassar com o garfo para deixar a marquinha dos dentes)
Untar uma forma com margarina e levar ao forno por mais ou menos 20 minutos ou até dourar.
Esperar esfriar para servir. Eu nunca esperei. :D


*eu sei que "Falcoa" não faz sentido e não tem N na frase para transformar "Feliz" em "Pênis", mas viraram o Z de lado e o transformaram em N. E o pessoal precisava usar as outras letras, mas não teve idéia para uma palavra melhor. E agora eu já sei quem foi que escreveu, mas não conto, não conto, não conto!

imagem: blog Temperarte

segunda-feira, 9 de abril de 2012

UMA VELHA HISTÓRIA SEMPRE ATUAL

Por Dade Amorim




No livro de contos Bestiário, de Júlio Cortázar, uma narrativa que, como quase todas as que ele deixou, é de certo modo um signo de sutilezas e, bem analisada, uma análise em profundidade da vida real. A casa em que os dois irmãos vivem é invadida por personagens desconhecidos. Mas o que ressalta nessa estranha história não é propriamente a invasão inexplicada, mas um lado bem conhecido da realidade.
No conto “Casa Tomada”, há, antes de tudo, um predomínio sutil do masculino sobre o feminino, encoberto pelo narrador com delicadeza, fazendo crer num bem-estar perene que no entanto não resiste a uma análise mais acurada: é sempre ele quem decide a ordem dos trabalhos, as atribuições de cada um; é ele quem vai ao centro para comprar as lãs da irmã, que "tinha confiança no meu gosto, apreciava as cores".
É o irmão ainda quem ouve primeiro as vozes e os ruídos do invasor dentro da casa e dele são sempre as atitudes e ações definitivas, como a escolha do dia das compras, as decisões na hora da fuga instantânea e até o calar-se sobre as preocupações e tristezas para não afligir o elemento feminino, considerado frágil e incapaz de ir mais longe que os limites da própria casa e do trabalho com as agulhas de tricô. Sem falar na imposição de um silêncio, que é como uma névoa envolvendo a vida dos dois irmãos de “Casa tomada”.
Irene, a irmã, concorda com todos os atos do irmão, sem protestos nem discussões, sem ao menos buscar uma confirmação em casos tão graves como a perda da casa, e não parece mesmo ter vontade própria: “Irene era uma moça nascida para não fazer mal a ninguém. (...) Não sei por que tricotava tanto. (...) Pergunto-me o que teria feito Irene sem tricotar.”
 Tentando justificar o trabalho constante da irmã com lãs e agulhas, e livrá-la – por gentileza ou ironia – da pecha de preguiçosa levantada contra outras mulheres do mesmo tipo, o narrador-protagonista se contradiz, contando que Irene só produz coisas necessárias: algumas páginas adiante, falará da “gaveta da cômoda de alcanfor cheia de écharpes brancas, verdes, lilases (...) com naftalina, empilhadas como em uma mercearia; não tive coragem de perguntar a Irene o que pensava fazer com elas.”
Essa benevolência excessiva torna suspeita a aparente espontaneidade; não condiz com as angústias entrevistas na vida reclusa e voluntariamente solitária de Irene, cuja voz não se faz ouvir e na qual se apreende por indução um medo difuso e silenciado.
A invasão, por sua vez, se concretiza sem aviso, o que faz supor a subtração de dados importantes ao esclarecimento do enigma, denunciado pelo contraste entre o tom ambiguamente gentil adotado no texto e a realidade brutal que se relata.
Interdição e dominação compõem juntas uma simbiose necessária: uma não sobrevive sem a outra. Por isso pode concluir-se que, se existe dominação por parte do narrador de “Casa tomada” – já agora considerado suspeito e mentiroso – também ele estaria sujeito a algum tipo de interdição. Considerando a extraordinária passividade de sua irmã e o domínio com que ele dirige a narrativa, permitindo a ela uma presença decorativa de falas meramente superficiais ("— Este ponto que inventei não é um trevo?") ou interrompendo as falas com "voz de papagaio ou de estátua" dos sonhos dela, que tanto o incomodam (porque remotamente poderiam traduzir alguma verdade guardada ou interditada), crescem os indícios de que o elemento masculino, aparentemente amigável e modesto ("eu não tenho importância"), desempenha uma função subreptícia de dominador. E mais: a interdição estaria internalizada, uma vez que não chega a ser sequer mencionada, e são os fatos que nos fornecem indícios dela.

*Este texto foi extraído de O enigma como desafio (1990), trabalho desenvolvido durante o curso de Mestrado em Literatura Brasileira do Departamento de Literatura Brasileira da UERJ.

sábado, 7 de abril de 2012

MILLÔR, O FIM DE UM ESCRITOR QUE TEVE A CORAGEM DE ASSUMIR QUE NÃO TINHA ESTILO NENHUM

Millôr Fernandes


Por Claudia Borio (*)

Millôr Fernandes nasceu no Rio de Janeiro, no bairro do Méier, em 1923, filho de espanhóis cujo sobrenome era Fernandez. Ele mesmo contou que começou a trabalhar com 12 anos de idade e que a sua primeira frase publicada foi “meu bem era o nome dele enquanto solteiro”. 
Ele também contou que a certidão de nascimento era escrita com uma caligrafia a pena, extremamente bem desenhada, em que o traço do “T” estava destacado da letra e que um belo dia, precisando tirar uma cópia atualizada, ele leu ali “Millôr” ao invés de “Milton” e assim nunca mais se chamou Milton e sim Millôr, o que já denota, desde cedo, esse caráter engraçado e piadista, sem deixar de ser original, do autor que já nasceu com o pseudônimo pronto.


Estudou no colégio Enes de Souza, aquele mesmo descrito por Pedro Nava, sem saber que era um abolicionista, e depois no Liceu de Artes e Ofícios. Perdeu os pais muito cedo, o pai logo após nascer e a mãe mais tarde, passando por uma fase duríssima, “dickensiana”, em que ele morava com os tios e o bife ia para os primos. 


Foi nessa fase que ingressou na sua vida a sua avó, Dona Concheta de Nápoles, que ele descreveu várias vezes, tinha setenta e oito anos, quarenta e dois netos e bisnetos, e se apaixonou por ele, e por isso ele sempre dizia ter uma relação extraordinária de carinho com as mulheres. De fato, quando ele mencionava várias pessoas numa só frase, se houvesse mais mulheres do que homens, por exemplo duas mulheres e um homem, ele dizia “elas”.


Uma frase sua ficou famosa” o melhor movimento feminino é o dos quadris’, frase esta que ficou odiada pelas feministas brasileiras. No entanto, Millôr foi homem apaixonado e apaixonante, com muitas boas amigas fiéis até a sua morte (como Cora Rónai).



Em entrevista, ele declarou que as mulheres se destacavam por ter uma capacidade de sobrevivência maior que dos homens. Que se caísse uma bomba atômica as mulheres definitivamente saberiam como agir . Mesmo assim, ele achava que essas mulheres não seriam as feministas, apenas as inteligentes.


Para muitos, ele era o melhor humorista do Brasil, uma inteligência fulgurante, famoso como frasista e filósofo que ao mesmo tempo que escrevia, sabia desenhar. 


Além de escrever para teatro e cinema, passou mais de 50 anos escrevendo uma crônica diária e foi um artista plástico totalmente original. Usou vários pseudônimos, como Vão Gôgo, Volksmillor e Milton à Milanesa.
Dizia que o humor era coisa de família, “glandular” pois ele vinha de família espanhola, onde todos eram briguentos e adoravam discutir, mas também eram engraçados, e que era primo irmão do palhaço  Carequinha, que tinha outras pessoas de circo na família. 


Seu irmão, o famoso jornalista Hélio Fernandes, recordou que eles brigavam muito quando crianças, brigavam, brigavam, de repente paravam e um dizia: Você fica no meu lugar e eu no teu, e aí continuavam.


Orgulhava-se de ser um escritor sem estilo e especializado em coisa nenhuma, dizia-se “livre como um táxi”. Chamava sua vida de guri de bairro a “Universidade Livre do Méier”, onde aprendeu toda a malandragem necessária para escrever e sobreviver à ditadura e continuar muitos anos depois.


Brincava constantemente com as palavras, que rebuscava em dicionários e enciclopédias, e chegou a sofrer um processo por um político que ele acusou de “idioletia”, que não é o mesmo que “idiotia” (o processo foi arquivado), e até Guimarães Rosa parodiou numa memorável versão (ou riversão) da história do Chapeuzinho Vermelho.


Apesar de todo o senso de humor, achava que o ser humano era uma experiência que não deu certo.



Joãozinho: Obra de humor negro escrito por Millôr em 1952.
Desenhado por Péricles Maranhão ("O Amigo da Onça")





Em 1955, ele começou a fazer cobertura jornalística de campanha eleitoral, quando conheceu Jânio Quadros (que ele achou engraçado, imediatamente). E por um acaso fulgurante do destino, ganhou o primeiro lugar num concurso de desenhos em Buenos Aires, junto com Saul Steinberg, o conhecido desenhista americano ( que ilustrou durante mais de 20 anos a revista New Yorker)


Em 1956, foi fazer cobertura do Festival de Cannes e do casamento de Grace Kelly. Dizia que “este acontecimento até hoje rende mentiras por parte de muitos jornalistas. Guardo as minhas para momentos insípidos de conversação.”


Em seguida, teve também uma exposição de desenhos no Museu de Arte Moderna, naquela época uma sala em baixo do Ministério da Educação, como melhor cenógrafo do ano. Ele dizia nunca ter entendido o motivo de receber essa homenagem.


Em 1958, afirmava ele, seu grupo de praia inventou o frescobol em Ipanema. Que antes se jogava a “pelota basca”, sem muito sucesso, mas ele difundiu o frescobol e se auto-proclamou campeão do Posto 9. Dizia que era o melhor esporte do mundo, pois ninguém precisava ganhar... 


Em 1960, estreou sua peça “Um elefante no Caos”, com pesada intervenção da censura. Em 1963, primeiro conflito por questões religiosas contra a ética tradicional dos Diários Associados. Millôr, ateu desde criancinha, declarou: “me sinto como um navio abandonando os ratos”.


Em 1964, tentou lançar uma revista própria, ’O PIF-PAF’, quinzenal que, em 1979, o serviço de informações do exército consideraria oficialmente como o início da imprensa alternativa no Brasil. “Ainda bem, porque fecharam o jornal no oitavo número e eu fiquei devendo 21.000 cruzeiros. Meu valor na praça, então, era mais ou menos 500 cruzeiros mensais.”


Em 1963 ele trabalhava na Revista O Cruzeiro, publicando uma seção onde repetiu o nome de sua tentativa de revista, chamando a seção assim de Pif Paf. 


A pedidos da revista, fez uma série de desenhos narrando a verdadeira história de Adão e Eva, e tirando uma gozação com Deus, acabou demitido, tendo que mover um processo contra a revista, que ganhou. 
Ele começara como “factótum”, uma espécie de Office-boy em 1938, e a primeira seção que escreveu, de última hora, batizou de Post-Scriptum. 


Millôr acabou trabalhando em várias seções dO Cruzeiro, revitalizando a revista e fazendo com que sua tiragem, de 11mil, passasse para 760 mil exemplares semanais após a guerra, uma tiragem que só a Veja conseguiria bater cinco décadas depois. Com inventividade desconcertante, nessa época ele mesmo já se denominava de “o maior leigo do país”.


Depois de todos aqueles anos em O Cruzeiro, Millôr passou 14 em Veja, 6 no Pasquim, 10 na IstoÉ, mais ou menos isso no Jornal do Brasil (em duas fases) e algum tempo na Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, no Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo.
Em meio a esse período, tomou conta quase sozinho do Pasquim, o famoso jornal que combatia a ditadura nos anos 60-70, escrevendo as colunas dos amigos que se achavam foragidos ou presos, mantendo o estilo de cada um e não deixando o jornal afundar.


Entre seus defeitos, contava-se a língua afiada (jurava que 95% da humanidade era absolutamente idiota e que os outros 5% eram discutíveis) e a vaidade exacerbada. Certa vez, o humorista Jaguar disse que “Millôr Fernandes não suporta a idéia de que exista alguém melhor do que ele”.


Brigou também com Chico Buarque, dizendo que “os defeitos de Chico Buarque se chocaram comigo”, e proferiu a seguinte frase:


"Eu desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal."


Entrou em polêmica também com Daniel Filho , ator e diretor de cinema e televisão ligado à Rede Globo, dizendo que ele era um “prepotente e exibicionista” e acrescentou: “Nem veado é”!


Mas por outro lado não tinha medo de dizer o que pensava, como quando disse que Hitler também veio de baixo: “Era um filho da puta no meio daquela Áustria cheia de milionários”. 
Eternamente cético, combateu a ditadura e depois a corrupção, mesmo achando que para esta não havia cura, que os corruptos eram como os cupins, se recolhendo por um tempo e depois voltando, que para isso o Brasil devia ter o “voto contra” para que as pessoas pudessem simplesmente votar contra algumas pessoas.


Por outro lado, tendo traduzido Shakespeare, estudado e lido durante toda a sua vida, revelava surpreendente lucidez e humildade quando dizia que “cultura é entender a extensão da própria ignorância”, e aproveitava para dizer que “Lula não tem a noção da própria ignorância”. Indignado com o escândalo do mensalão, fez até “uns versinhos. Chama-se “Poema em ão”. É assim: Se ele sabe do mensalão/é charlatão./Se ele não sabe/é um boçalão.”.


Um cético em política, achava que o socialismo, em teoria, era maravilhoso. Como o cristianismo. “Mas, na minha vida toda, eu nunca encontrei um cristão e um comunista de verdade. Sou um humanista ateu. No entanto, sou mais comunista e mais cristão que muita gente. Eu me responsabilizo pelas empregadas que me atendem. Não vou abandoná-las jamais”....


Millôr adoeceu há alguns anos e ficou discretamente em casa, sempre avesso a qualquer publicidade, onde finalmente faleceu, neste ano. 
Talvez achasse graça de saber que, em uma página de jornal publicada na internet, noticiando a sua morte, no rodapé,  uma empresa de crematório aproveitou para fazer sua propaganda, oferecendo “linda cerimônia ecumênica”.


(*) Claudia Borio é escritora em Curitiba e tenta, com muita força, não ter estilo nenhum também.