quarta-feira, 17 de novembro de 2010

CONFISSÕES DE UM PROFESSOR

Por Ana Laura Diniz

O livro do filósofo francês Jacques Rancière, O Mestre Ignorante, traça rumos que averiguam a teoria pedagógica clássica - mestre de um lado, aluno de outro – firmando e exaltando, assim, uma distância inigualável entre as duas partes. Nesse conluio de situações, surgem perguntas: “Quem sabe mais e quem sabe menos? Quem manda e quem obedece? Quem tem mais ou menos poder?”

De acordo com ele, a noção segundo a qual “há seres inferiores e superiores” deveria ser extinta, uma vez que eterniza as desigualdades que beneficiam os detentores do poder.

Assis: "A figura do professor deve
estar para o aluno tal como o
maestro está para seus músicos.
Que haja a regência, mas
com espaço para a criatividade
do músico"
Para o professor Ronaldo de Assis, 36 anos, formado pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), especialista em Matemática e Estatística pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), nem sempre é assim. “Na minha opinião, deve haver hierarquia ao mesmo tempo em que a participação do aluno for maior do que é hoje. A relação entre professor e aluno deveria ser um tanto mais próxima. O aluno precisa ter um espaço maior. Mais do que isso, precisa sentir que a sua participação é imprescindível. Ele precisa ser incentivado. Penso que a figura do professor deva estar para o aluno tal como o maestro está para seus músicos. Que haja a regência, mas com espaço para a criatividade do músico”, afirmou.

A hierarquia, sob seu ponto de vista, então precisa existir...

Sim, na verdade, o que precisa ser quebrada não é a hierarquia, mas a barreira que existe entre professor e aluno. Hoje o sistema é programado: um professor lecionará Matemática, outro Português, outro História, mas não há um envolvimento pessoal entre professor e aluno porque não há espaço no programa, e, a bem da verdade, os professores não são preparados para isso, para trabalhar valores, incluindo a questão da cidadania.

Acredito que há uma barreira, mas que o sistema mesmo é que condiciona o professor a adotar essa postura.

Pode exemplificar?

Claro. A maioria do ensino hoje está sob moldes dos sistemas apostilados. Literalmente, o professor é hoje programador de conhecimento: introjeta conhecimento técnico, científico, na cabeça do aluno, mas não há espaço em nenhum desses programas para trabalhar as personalidades, os valores, que são essenciais para a vida em sociedade e, por conseguinte, para um ser humano evoluir. Por que o que a gente está fazendo? De uma maneira ou de outra, formamos pessoas que possam contribuir com a sociedade, mas a visão do Estado para o aluno é tecnológica – ele tem que aprender a tecnologia da ciência de determinada disciplina – e os valores e os princípios, importantíssimos para a mesma sociedade, pois a solidifica, repito, fica sem espaço.

E como há ausência de visão, os aspectos que seriam relevantes para uma vida próspera, por não ocorrer, fazem com que a sociedade funcione mal, o crime, etc, a falta de cidadania tem seu retorno nas ruas do País...

Exato, e sempre da pior forma. Num rápido raciocínio é como jogar o lixo no chão. Como esse tema não é trabalhado em sala-de-aula, o Estado – que deveria oferecer oportunidades amplas e irrestritas de ensino - se vê ainda onerado por não ter visão a longo prazo.

Como o Senhor define hoje a educação?

É difícil resumir, mas educar é mais que transferir e aprimorar o conhecimento; é aprender a desenvolver em sala-de-aula não só o conteúdo que se tem programado para lecionar, mas tendo oportunidade, trabalhar valores para formação da personalidade, com temas ligados à cidadania de forma a engendrar cidadãos.

Do jeito que funciona o ensino, raramente se tem abertura para isso. Há um sistema de produção seriado no qual cada professor trabalha uma parte, mas não há esse trabalho de personalidade, de valor e de cidadania, e praticamente fica a cargo de cada professor, se este se preocupar ou arranjar tempo para isso. O que é exceção deveria ser regra: trabalhar a parte de princípios humanos é fundamental para o progresso de um povo, e consequentemente, de uma nação.

Sucintamente, o que acontece atualmente?

A condição que o Estado nos coloca para trabalhar é a seguinte: somos repositores de mão-de-obra; que vai desde o lixeiro, um balconista, até um médico ou advogado. Nós apenas repomos. Porque os advogados de hoje morrerão, e amanhã tem que dar um jeito para trabalhar no futuro do advogado. Quer dizer, não há cuidado com a parte do caráter da pessoa e, em decorrência, com o da sociedade. Tudo isso ajuda para que os professores fiquem longe dos alunos.

Nessa maré, como se define um bom aluno? Os “melhores da turma” são os que tiram nota mais alta ou o quê?

O melhor é aquele que conseguiu desenvolver uma aptidão para a pesquisa, porque o que tira a melhor nota é só aquele que pegou melhor determinado conteúdo, mas o objetivo é que ele desenvolva depois aquele aprendizado. Ser detentor apenas do conteúdo não é o suficiente. Mas é lógico que se o aluno tiver o conhecimento agregado à curiosidade, excelente. Contudo, se ele tiver uma só característica, que seja a do curioso – pois certamente será o grande pesquisador e, portanto, sem sombra de dúvida, o melhor.       

terça-feira, 16 de novembro de 2010

PROGRAME-SE!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

DESIGUALDADE OU EMANCIPAÇÃO?

Por Dade Amorim


Jacques Rancière. O mestre ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual. 2ed. Trad. Lílian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. 192p.

Partindo de uma experiência insólita em sua longa carreira de pedagogo, Joseph Jacotot, professor francês do início do século XIX, apercebeu-se de que o processo de aprendizagem pode não consistir naquilo em que o senso comum e a teoria então vigente (e vigente até hoje, temos que reconhecer) haviam consagrado. O que Rancière denomina de “aventura intelectual” aconteceu-lhe quando, exilado por motivos políticos nos Países-Baixos, Jacotot ocupava o posto de leitor de literatura francesa em meio período. Ignorando o holandês, o mestre não teria como responder às dúvidas de seus alunos sem que alguma coisa em comum o ligasse a eles como canal de comunicação eficiente o bastante. Esse canal se apresentou sob a forma de um livro – o Telêmaco em edição bilíngüe publicada em Bruxelas. Por meio de um intérprete, ele indicou o livro aos estudantes, recomendando que aprendessem, com o auxílio da tradução, o texto francês.
“Quando eles haviam atingido a metade do livro primeiro, mandou dizer-lhes que repetissem sem parar o que haviam aprendido e, quanto ao resto, que se contentassem em lê-lo para poder narrá-lo. Era uma solução de improviso, mas também, em pequena escala, uma experiência filosófica, no gosto daquelas tão apreciadas no Século das Luzes. E Joseph Jacotot, em 1818, permanecia um homem do século passado.”
Esperando um resultado desastroso, o mestre pediu então aos alunos que escrevessem em francês o que achavam do texto lido. Era uma avaliação necessária da experiência totalmente empírica imposta pelo acaso. A surpresa no entanto foi das melhores: “seus alunos, abandonados a si mesmos, se haviam saído tão bem dessa difícil situação quanto o fariam muitos franceses”. Constatou que haviam sido capazes de entender o texto e com isso aprender francês o bastante para escrever na nova língua sobre o que haviam lido.
A experiência, capaz de revolucionar seu espírito, levou o pedagogo a desenvolver uma reflexão crítica sobre qual seria de fato a grande tarefa dos mestres. A conclusão a que chegou constitui a heterodoxa teoria, inaceitável para a época, de que ensinar à maneira tradicional – um mestre que “sabe” liberando frações de seu saber para alunos ignorantes – é perpetuar a distância que faz da sociedade (e da escola, seu símbolo) um lugar estruturado em torno de fossos intransponíveis a separar mestre e aluno, quem sabe mais e quem sabe menos, quem manda e quem obedece, quem tem mais ou menos poder. Em resumo: os “melhores da turma” sempre deteriam o poder e a regência dos outros, os que ignoram, os que não conseguiram ser bem-sucedidos e nunca chegariam a sê-lo se não lhes ocorresse o “clique” que permite o acesso a sua verdade mais subjetiva, onde se encontra a fonte dos melhores recursos e o caminho aberto às aptidões intelectuais de cada um.
O esforço para seguir os passos do mestre e assim transpor a distância que separa o aluno dele é um enganoso método de progresso pessoal, segundo o ponto de vista de Jacotot. Porque esse esforço roubará dos discípulos a energia e a espontaneidade de que necessitam para descobrir por si mesmos o que convencionalmente aprendem a ver com os olhos de outros, acumulando saberes parcelados, muitas vezes impossíveis de reter. A experiência era de ordem cartesiana: teria que envolver mais que informações acumuladas. O exercício da curiosidade natural e a vontade genuína de conhecer suprem métodos sofisticados e elaborados que chegam de fora, pelo pensamento arbitrário dos que detêm o poder de ensinar.
A esse processo espontâneo de aprendizagem, Jacotot atribui como resultado um saber que é necessariamente também conhecimento, no sentido de que aquilo que assim se aprende é compreendido e incorporado a um acervo pessoal sob a forma de experiência vivida e indelével.
Por essa e outras razões conexas, Rancière percorre propositadamente um conjunto de atalhos e caminhos que examinam a teoria pedagógica convencional. Sem utilizar conceitos consagrados ou idéias que são pontos pacíficos para os defensores da escola que conhecemos, busca em cada capítulo e em cada item do livro revisitar o processo de aprendizagem com a liberdade de quem descobriu uma nova vertente. A novidade era abolir-se a noção segundo a qual “há seres inferiores e superiores; os inferiores não podem o que podem os superiores”. Essa “hierarquia das inteligências” perpetuaria as desigualdades que beneficiam os detentores do poder.
“Não há inteligência onde há uma agregação, ligadura de um espírito a outro espírito. Há inteligência ali onde cada um age, narra o que ele fez e fornece os meios de verificação da realidade de sua ação.”
A veracidade está no cerne dessa experiência. Assim, é a experiência de cada um – que ele chama “seu próprio negócio” – que o levará ao conhecimento. Um pai ignorante pode levar o filho a adquirir conhecimento, contanto que dê a ele a oportunidade de descobrir por si só esse conhecimento, não como “um pedagogo gentil”, mas como “um mestre intratável” que levará o filho a querer se emancipar. Para isso, todas as faculdades são chamadas: atenção, determinação, persistência, curiosidade. Quando alguém efetivamente aprende alguma coisa, aprende porque quer aprender; e para isso está acima de tudo sozinho, interessado e entregue a sua experiência. Ele quer “adivinhar”, está atento aos indícios e à tradução do que lê, do que vê e analisa.
O traço socrático dessa atitude é bem visível: na base de tudo está o “conhece-te a ti mesmo”. Assim como no caso de Sócrates, que a seu tempo deu origem a uma escola com reflexos políticos em seu meio, o Ensino Universal, como foi chamado mais tarde o pensamento gerado pela aventura intelectual de Jacotot, não conseguiria manter sua força original. Mas na verdade, jamais morreria.

domingo, 14 de novembro de 2010

QUITANDA DA VIDA III

Por Telinha Cavalcanti


Doce "de olho"


Antes que vocês pensem em comidas exóticas e nojentas, doce de olho é aquele que não tem receita. Ou, como diz minha santa mãezinha, dona Helena, "o quanto baste" disso ou daquilo, e ainda mais "a gosto do freguês".

Fiz inúmeras tentativas de adaptar as receitas "de olho" para uma coisa mais civilizada, e fracassei retumbantemente. Há receitas em que tudo depende.

Então, vai uma receita só, hoje, boba, simples e a minha preferida desde sempre: doce de caroço de goiaba, que - arrá! - não é da minha mãe, é da minha avó paterna, de quem herdei o nome e não conheci, pois morreu um ano antes de eu nascer: vó Stella.

Doce de goiaba é uma coisa besta que todo mundo sabe fazer, e se não sabe, deveria.Tem doce de cuia, a compota, tem doce cremoso e tem geléia. Esse doce é feito com a parte desprezada pelos que não são da minha família: o caroço, este incompreendido.

A receita não tem proporções, então você pode fazer com um quilo ou com 3 goiabas :)

Corte as goiabas ao meio, retire os caroços com uma colher de sopa, coloque na panela e adicione açúcar o quanto baste (tá vendo?). Com o fogo em temperatura média, mexa com colher de pau, com cuidado quando começar a borbulhar. Ele vai ficar brilhoso e começar a soltar da panela. Quando der o ponto, experimente o açúcar e veja se precisa colocar mais.

As sutilezas da receita, o ponto certo, a quantidade do açúcar, vão variar de acordo com o paladar de cada um. O jeito que eu gosto é quando ela fica bem brilhante, não muito doce e com ponto de geléia grossa. Não é uma goiabada cascão, viu?

Guarde em uma compoteira de vidro transparente para todos verem a beleza que o doce é. Atenção: não morda os caroços ao comer ou talvez precise ir correndo ao dentista.

RETRATOS DA VIDA

uma breve explicação

Em 27 de novembro de 2009, o advogado Jorge Carrano publicou em seu blog,Generalidades especializadas, um post sob o título "Antiguidades". O curioso foi que ele não se referiu a coisas, mas a pessoas. E entre elas, a vontade de saber o paradeiro da amiga Esther Lucio Bittencourt, Diretora de Redação do Jornal Primeira Fonte.

Para tanto, deixou também recado no blog 
Porcas e Parafusos
, sem a certeza de se tratar da mesma Esther. Era. E quase um ano depois, ao entrar em seu blog pelo painel, ela viu o recado que lá estava. 


Contou a notícia com surpresa e felicidade, e resolvi rastrear o blog de Carrano a fim de saber o que escrevera sobre ela. Vi. Entrei rapidamente em contato com ele, fornecendo os contatos da amiga. 
E ontem, ao ler em seu blog essa Carta aberta, li de imediato para Esther, que respondeu de prontidão em seu Porcas e Parafusos


Resolvi compartilhá-las também com vocês, leitores do 
Pêéfe, não apenas porque reencontros são valorosos, mas especialmente porque ambos pertencem a um Brasil que não existe mais. O contexto social, político, econômico e cultural agora é outro; e o olhar - para o bem e para o mal - também.


Que os encontros venham! E a vida valha!


Abraços cordiais, 
Ana Laura Diniz

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Carta aberta para Esther

Por Jorge Carrano


E não é que graças ao fantástico meio que é a internet, consegui localizar a ex-parceira Esther Lucio Bittencourt.


Muito pouco sei, entretanto, ainda, sobre suas atividades nestes últimos cinquenta anos ou mais. O pouco que consegui descobrir, foi graças ao e-mail da sua amiga e sócia Ana Laura Diniz, conforme comentário ao post do dia 4 de novembro último.


Mais que depressa visitei os blogs e a website informados - http://primeirafonte.blogspot.com e http://porcaseparafusos.blogspot.com/ , na busca de mais detalhes sobre Esther.


Permito-me algumas deduções e obviedades. Confirmando a vocação e o talento já demonstrados quando ainda estudante secundarista, tornou-se jornalista: brilhante e atuante, como é fácil constatar nas visitas aos blogs supracitados.


Poeta já era, desde sempre. Se mais não falo sobre poesia é porque me faltam sensibilidade e cultura literária.

Parece ter estado comprometida com movimentos a favor do fim do regime ditatorial militar. Casou. Reside em Caxambu.

Foi ou é amiga de amigos e colegas meus, sem que soubéssemos: Jourdan Amora, Ricardo Augusto dos Anjos, Hermes Santos ( na verdade Florihermes) e outros.


Cara Esther, enquanto aguardo suas notícias, envio-lhe esta carta aberta. Não alimento grandes expectativas, pois como os orientais já definiram sabiamente, não é possível entrar duas vezes no mesmo rio.


Também exerci atividades estudantis, tendo sido presidente, por dois mandatos, do Grêmio do Liceu Nilo Peçanha e diretor da FESN – Federação dos Estudantes Secundários de Niterói ( logo depois do Jourdan), também por dois períodos. Participei de um grupo teatral incipiente e insipiente, que se reunia na casa do oftalmologista Paulo Pimentel, sob inspiração do poeta e, então, diretor da Biblioteca Pública do Estado - Geir Campos. O grupo tinha como alvo politizar os trabalhadores, via teatro experimental.


No governo Roberto Silveira, pai, saudoso político, diversamente do inexpressivo filho Jorge Roberto, participei de alguns movimentos: campanha pelos passes estudantis, pela meia-entrada nos cinemas (fizemos muita fila boba) e em especial, pela ocupação, que resultou na encampação do Colégio Jairo Malafaya (época dos tubarões do ensino).


Não tive problemas com os militares, eis que dois anos antes do 31 de março de 64, porque conheci a mulher com quem viria me casar, abandonei todas as atividades políticas, nas quais estava mais ou menos engajado, arranjei emprego, passei a estudar mais um pouco, fiz vestibular, casei, formei-me e vieram os filhos.


Tonei-me um pacato, anônimo e conformado cidadão, com raros e improdutivos momentos de inconformismo, manifestados aqui e ali, sem maiores consequências.


Dos nossos parceiros Eugenio Lamy, Alódio Santos e Oswaldo Szertock, nada sei, senão que o primeiro – Eugenio, é médico psiquiatra e o Oswaldo formou-se em odontologia.


Nossas crônicas eram escritas, o mais das vezes, pelo Lamy. Lembro de uma em especial, sobre a morte de um negrinho (naquela época podia-se falar de negrinho sem cair na idiotice do politicamente incorreto), que era vendedor de amendoim e morreu atropelado tendo nas maõs a lata com o brazeiro.

É isso aí.

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Carta aberta para Jorge Carrano

Por Esther Lucio Bittencourt

Jorge,

Quando acabou o Estudante em Foco, nosso programa de rádio, fiquei trabalhando na rádio Federal como auxiliar de discotecária do Marques Meu Patrão da Silva, que tinha um programa sertanejo às 7 horas da manhã. Fui treinada pela Léa e Antenógenes Silva nos meandros do rádio e, por fim, tendo na técnica Ivan Borghi e Gerssy Campos, passei a apresentar programas nobres da rádio.

Daí fui para a TV Tupi, depois fui trabalhar no tablóide Praia Grande e Revista, onde cheguei a editora-chefe. Fui descoberta como cartunista pelo Jaguar, que me publicou na revista Senhor. Assim como publicava contos, poemas na revista Leitura e em suplementos literários.
Parei de publicar poesias, quando ouvi de Manuel Bandeira – na ocasião, um amigo – que eu me dedicasse aos contos, pois nunca seria poeta.

No Praia Grande, ainda cometi pequenas colaborações no extinto Correio da Manhã Diário de Notícias. Fiz parte do CPC da Une, que se reunia na casa de Martha Rique Reis, esposa de Geraldo Reis – que foi preso e torturado – e mãe do Aquiles, do MPB4; juntamente com Décio Mafra, que chegou a dirigir o setor de Niterói, e Ricardo Augusto dos Anjos. Com Décio e Hiderval Garcia, aliás, tive uma editora, a Engra. O Ricardo foi o primeiro a ser lançado por nós.

Incentivada por Lu Pacheco, junto com Emese e Ingrid, duas refugiadas de campo de concentração soviético, freqüentávamos a casa de Jaci (não sei se você lembra dele. Ele morava perto do Instituto Abel), onde víamos filmes das ações de Fidel Castro em Sierra Maestra, e havia verdadeiros altares com pedaços de fardas, cartuchos de balas disparadas, bandeiras, relembrando a proeza do homem que contra tudo e contra todos tirou Fulgêncio Batista do poder.

Casei. Fui morar no Rio Grande do Sul. Lá mantive contatos com diários de notícias de Porto Alegre, onde Sérgio Jockyman me introduziu fazendo uma entrevista comigo, e onde publiquei alguns artigos.

No Rio Grande do Sul, perdi o meu primeiro filho.

Li muito, conheci Virginia Woolf, Thomas Mann, Stendhal, Proust, Joyce, etc. Dos escritores brasileiros, desde da adolescência trazia a minha bagagem.

Veio a Revolução, em 64, e assustada, recebi uma carta de Ricardo Augusto dos Anjos, recomendando que eu ficasse bem quietinha porque a Polícia Militar estava atrás de mim.

Nessa ocasião, Sereno Chaise, que era prefeito de Porto Alegre, havia ocupado o quartel militar, expulsado o governador do Estado, Ildo Meneghetti, para além das fronteiras brasileiras, e aguardou a chegada de Jango e Brizola.

O povo estava em armas. Pretendia reagir até o último fio de cabelo ao exército que descia do Rio de Janeiro para colocar ordem no Rio Grande do Sul.

Jango e Brizola não apareceram. Sereno Chaise foi para as rádios dar a notícia à população, e o governador do Estado retornou para o seu cargo.

Nunca vi população tão derrotada.

Logo depois, Lacerda foi visitar o Rio Grande do Sul. A população inteira se reuniu e atirou nele corvos mortos.

Os homens da rua dos Homem em Pé, que sempre demonstravam orgulho e prosperidade, eram fantasmas de si próprios – acabrunhados e abatidos.

O Rio Grande do Sul, que era grande produtor de carne, não tinha nenhuma pendurada em seus açougues. Foi privado de tudo. Comíamos soja, e olhe lá.

Voltei para Niterói, passando por São Paulo, onde fiquei algum tempo.

Já em Niterói, ajudei o meu marido a montar um grande estúdio fotográfico. Fui fazer ballet com Renée Simon, e trabalhar na Universidade Federal Fluminense (UFF).

No entanto, um pouco antes disso, trabalhei na TV Globo, dando início ao que seria o Jornal da Tarde. Também trabalhei no jornal O Globo. Soube de duas vagas no Jornal do Brasil, e me candidatei a elas. Nessa época, não sei se você lembra, mulher não trabalhava na Geral do jornal, e era isso que eu pretendia.

Consegui. Fui repórter na Geral.

Fiquei no Jornal do Brasil até 1973. Em 1969, no entanto, fui presa e fiquei no DOI-CODI de São Paulo, saindo pouco tempo antes da morte do Herzog.

Fui torturada.

Barreto Neto, que era então o reitor da UFF, manteve minha permanência na universidade apesar de tudo. E o Jornal do Brasil mandou-me à Parati, onde fiquei um tempo em repouso.
Como disse, em 1973, saí do Jornal do Brasil, e já havia separado do meu primeiro marido, e vivia com o pai do meu segundo filho, que está casado, e mora em Florianópolis.

Trabalhei na revista Inéditos, consegui com o então Ministro da Justiça,Armando Falcão, a liberação de alguns exemplares cassados, usando o meu nome Lúcio Bitttencourt, que pertencera ao senador Lúcio Bittencourt, meu tio, que apesar de morto mantinha seu círculo de amizades.

Em 1975, lancei o meu primeiro livro pela editora José Olympio, No país das palavras onde moram os homens mudos, e criei a Feira do Autor, de onde surgiram os escritores Júlio César Monteiro Martins, Jefferson de Andrade, um poeta que infelizmente me falta à memória, e onde Vander Pirole conseguiu se projetar com a ajuda do autor de Malagueta, Perus e Bacanaços, João Antônio.

Enquanto isso, continuava escrevendo para suplementos literários, mantendo amizade com Maria Amélia Mello, Lúcia Minner, Nélida Piñon, Eliane Zagury, Clarice Lispector, Maria Alice Barreto, Carmen da Silva e Oswaldo França Júnior, para citar alguns que influenciaram – para o bem ou para o mal – a minha vida de escritora.

Aposentei-me aos 50 anos. Fui criar gado em Pendotiba, Niterói. E enfim, mudei-me para o Sul de Minas – especificamente para São Lourenço, onde morei dois anos e meio. Em seguida, mudei-me para Caxambu, onde estou até hoje.

Convivi com Renato Archer, quando era Ministro do governo Sarney, e Marco Maciel. E por ter facilidade desta convivência, pude recusar ao então presidente Sarney, manter uma fala na rádio que eu havia criado para a UFF. Daí então, nasceu a conversa com o presidente, programa que até hoje cumpre a liturgia do cargo.

Em 1974 ou 1975, quando houve a fusão do Estado do Rio com o Estado da Guanabara, foi extinta a Agência Fluminense de Informação (AFI) e que você deve ter conhecido, já que conviveu com o governador Roberto Silveira.

A AFI fornecia informações para os jornais do Estado do Rio de modo a mantê-los operantes, com capacidade de informar a população local, visto que os jornais de grande circulação ainda não tinham penetração que atendesse a essas necessidades. Então para que esses jornais não morressem, criamos – eu e o Jourdan Amora – uma agência de informação que mantivesse a vida desses noticiários, que funcionava na rua São José, no Rio de Janeiro. Lá conseguimos reunir grandes nomes da imprensa nacional, então desempregados por conta do excesso de estudantes que as universidades jogavam no mercado de trabalho, sem condição de serem absorvidos. Contamos em nossa equipe com Raul Pragana, que sempre cumpriu a Presidência da República desde a época de Getúlio Vargas; com Jader Barbalho, Meire, que acabou trabalhando na Folha de S.Paulo; Luiz Carlos Sarmento e um grande amigo, especializado em Economia, que nos atualizava com informações corretas, além de Renato Thomaz da Silva.

E aí segue um breve resumo dos últimos 50 anos. Falta mais...

Tenho 68 anos, já tive duas isquemias, e luto para não ter a terceira.

Esqueci de te dizer que lancei um outro livro, este romance, chamado Vicenza Taborda, e um de poemas – desobedecendo ao Manuel Bandeira, O Imaginário Eixo. E estou para lançar, Varal de Possíveis, também de poesia.

Em 2008 e 2009, fiz a roteirização para audio-livros de uma série de obras para a Ediouro, sob o selo Plug-me, culminando com Grande Sertão e Veredas. E pasme, roteirizei também O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, à semelhança da peça que apresentamos em nosso programa estudantil.

Escrevo para o Mídia Independente, faço tradução gratuita de textos em inglês e espanhol para o jornal português, Info, e alguns jornais sindicais da Espanha. Além disso, mantenho meu blog, Porcas & Parafusos (http://porcaeparafuso.blogspot.com), que está parado a um tempão – e que você me motivou a reativá-lo com essa carta aberta; o Imaginário Eixo (http://imaginarioeixo.blogdrive.com), e o jornal Primeira Fonte (http://primeirafonte.blogspot.com).

Por fim, crio cavalos Mangalarga Marchador juntamente com a jornalista
, escritora e professora, Ana Laura Diniz. Temos o Haras Primeira Fonte.

Brevemente, iremos estrear o Caxambu Conection, junto com a escritora Fal Azevedo, e, quem sabe, você poderá participar dele.

No ano passado, participei do livro Entre ouvidos, que fala sobre rádio, organizado pela Lílian Zaremba. Foi publicado com auxílio do Mercosul.
Vivi sete casamentos. Vinícius de Moraes que se cuide.

P.S.: Não sabia que o Alódio gostava de mim. Nada sei dos que você menciona, a não ser com Ricardo, com quem mantenho contato estreito.
É um prazer reencontrá-lo, e saiba: vocês nunca me saíram da lembrança.

Um beijo, Esther

sábado, 13 de novembro de 2010

A CIDADE TORNA O CAMPO URBANO

A delimitação entre o campo e a cidade se perde no urbanismo

Por Ana Laura Diniz

Diego Marihama: "um único McDonald's altera todo o sistema de
relação entre a população e a cidade."
É o que afirmou o professor de filosofia, Diego Kenji Marihama, na apresentação de seu trabalho no último encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Caxambu, Sul de Minas Gerais.

Segundo Aristóteles, o homem é por natureza um ser político capaz de trabalhar em sua mente estratégias, habilidades, discussões, que jamais outro animal portará. “Quando Aristóteles definiu o homem como animal político é porque, na sua concepção, a própria razão é, essencialmente, política”, disse. “Mas depois de traçar uma análise do homem e de sua racionalidade, foi necessário perceber o pensamento antropológico da cidade - desde o pensamento feudal, onde o ar da cidade liberta, até a relação com Marx Weber, para haver capitalismo precisa-se de cidade”, continuou o professor de filosofia.

Desta forma, Marihama observa que cada cidade é única, podendo assim, jamais fazer relações outras se quer, pois ela está inserida em um contexto econômico, social, religioso, que a transforma em objeto complexo. “Há dessa forma, uma diferença entre a definição sociológica de cidade e de seus limites administrativos ou legais captados pelo recenseamento urbano.”

URBANISMO –
“A influência do modo de vida urbano está além dos limites da cidade, expansão que só é possível pelas intensas trocas proporcionadas pelo sistema de comunicação e pela adoção generalizada da tecnologia e das relações sociais de produção modernas”, disse o filósofo.

Para ele, é importante lembrar que os espaços rurais não estão isolados do centro urbano. “Ao contrário, a lógica urbana integra os diversos setores da sociedade, incluindo as áreas rurais, em seu universo político, econômico, cultural e social. Portanto, é impossível falar em cidade pura ou em campo puro, ambos são tipificações ideais de formas de comunidades e de relações sociais. A realidade abriga diversas gradações que se encontram entre esses tipos extremos.”

Percebendo a arbitrariedade de se definir uma comunidade como sendo urbana fundamentada apenas no tamanho da população ou em sua densidade, Marihama propõe que se faça referência a características sociais significativas na conceituação do urbano. “Quanto maior a heterogeneidade e densidade da população, mais intensamente se manifestarão as características do urbanismo. O grau de interação social também é uma variável importante: quanto maior for o número de indivíduos se relacionando na sociedade, maior será a diferenciação potencial entre eles”, disse.

O aumento do número de habitantes interagindo modifica a forma das relações sociais, que tendem a transitoriedade, superficialismo, fragmentação e anonimato. As relações sociais passam a se pautar na lógica utilitarista, devido à pressão da divisão do trabalho e da especialização dos indivíduos. “Mas é curioso perceber que o número de habitantes, isoladamente, não afeta o contexto. Em Varginha, por exemplo, o fato de ter apenas um McDonald’s faz a cidade ser completamente diferente da sua vizinha, Pouso Alegre, ambas no Sul de Minas. É impressionante como um simples objeto modifica o meio. A relação cidadão versus cidade é outra”, enfatizou o filósofo.

A forma política característica do modo de vida urbano é também um sistema representativo. Assim, o indivíduo precisa se articular em diversos grupos de interesses para se valer na arena política e social. “A densidade populacional tende a vir relacionada com a diferenciação social e os grandes contrastes urbanos, tanto de natureza econômica como social e cultural, o que pode potencializar tensões nervosas. A distribuição dos diferentes grupos na cidade não ocorre por acaso, obedece a uma lógica urbana de classificação, seleção e alocação de indivíduos, recursos públicos, instituições e serviços.

Essa lógica está relacionada a vários fatores como o mercado de consumo e de mão-de-obra. As diferentes localidades acabam por se inserir na lógica urbana de formas variadas, surgindo assim, as desigualdades regionais e dominância dos centros urbanos”, acrescentou.

De acordo com Marihama, a mobilidade seria outro traço marcante do modo de vida urbano, manifestando-se no status flutuante do sujeito no meio sócio-econômico, no elevado grau de renovação dos membros dos diferentes grupos e nas mudanças contínuas de residência e local de emprego.