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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

CORRESPONDÊNCIA URBANA

Telinha querida,

Enquanto aguardamos Carla San, Alline Storni e tempo para recomeçarmos a retomar a escrever para o Primeira Fonte, preciso te dizer que hoje recebi um telefonema atencioso do Jorge Carrano preocupado com o meu sumiço e o da Ana. Expliquei o que acontecera, que precisamos nos ausentar por um tempo por questões de instabilidade de saúde do pai dela, e que o Primeira Fonte estava entregue a você . Ele, imediatamente emendou; e muito bem entregue. Concordei com ele, pois sua Direção de Redação tem sido maravilhosa. Como é importante ter amigos, minha amiga. Ele conversou com o Ricardo Augusto dos Anjos, que passou meu celular para ele e, com gentileza demonstrou sua preocupação. E olhe que não tendo visto nenhum comentário dele, no PF, ultimamente, estava preocupada também com ele, mas ainda sem tempo para uma atitude.

Sabe como é, a casa precisa ser retomada, as aulas de música começaram, e os ensaios do coral que se apresentará dia 23, aqui em Caxambu, foram intensificados. Então , sinto-me um pouco atropelada pela vida. Mas foi muito agradável ter ouvido a voz antiga do Carrano, a mesma de quando jovens e apresentávamos um programa de rádio com mais alguns amigos, chamado " O Estudante em Foco". De repente me pareceu que o tempo não havia passado, que dentro de seis meses completarei 70 anos, e ele deve andar nesta mesma idade cronólógica. Ouvi a voz de um jovem, acredite. O que o espírito feliz e jovem podem fazer por nós, não é mesmo, querida?

Esta correspondência urbana de hoje pretende fuxicar mais um pouco na vida de sua família, relembrar os velhos casos, as boas histórias que mantém aquecida a nossa alma, que segundo o Niemeyer Filho, o neurologista, mora em nossas mentes. Foi um prazer ter te conhecido pessoalmente e abraçado em junho, quando estive no Rio para a operação de minha irmã que, dia 11 deste mês segue para Portugal, onde ficará até outubro. Na ocasião irá a uma feira medieval que tradicionalmente acontece em alguma cidade por lá.
Mas, vamos ao nosso assunto: conte-me, por favor, contadora de histórias, alguns casos de sua família.

Beijo afetuoso, minha amiga

Esther

PS- Izaak Dinensen dizia que as melhores leituras são propiciadas por contadoras de história. Ela tinha prazer em contá-las.



Telinha , ladeada por Ana Laura e outra amiga, Airee


Eu estou no meio,atrás. Telinha e Airee ao lado



LENDAS DE FAMÍLIA


Telinha Cavalcanti


Esther, que gentil o gesto do Carrano! Abri um imenso sorriso ao ler seu e-mail, bem no espírito do ditado "quem meus filhos beija, minha boca adoça" :)

Pois vamos falar dos outros antes que eles falem da gente, né? Há muitas, muitas histórias, que voltam quando a gente conversa. O nosso cérebro é uma coisinha prodigiosa, e é só puxar um fio que todo o novelo vem junto...

Lá em casa, quando não se tem muita certeza de quando uma história aconteceu, ou se alguns detalhes se perderam com o tempo, ninguém deixa de contar, não. Só precisa dizer que é lenda da família :)

Uma dessas lendas conta que minha tia foi ao cemitério, e, no caminho entre as sepulturas, tropeçou no que lhe pareceu um galho seco. Não deu outra: naquela mesma noite, acordou de madrugada com uma pancada violenta nas costelas; segundo meu vô Juca, a tia chutou um osso que estava desenterrado e o falecido foi se vingar.

Nessas histórias sobrenaturais, papai contava a madrugada horrível que passou numa pensão, quando ouviu arrastar de correntes até o dia nascer, seguidos de uns gritos desafinados. No café da manhã, reclamou com o dono da pensão que tinham lhe dado um quarto malassombrado. O senhor estranhou a conversa e pediu que papai mostrasse de onde vinha o som; papai subiu ao quarto, o último do corredor, e apontou uma parede. O dono da pensão caiu na risada e mostrou o que havia do outro lado: o poleiro do papagaio, que tinha a pata presa numa corrente e que passara a noite gritando porque a comida acabou...

Papai, depois dessa, não teve mais muita crença nas almas do outro mundo. Eu já era menina grande, meus dez, doze anos, quando mamãe contratou uma empregada muito medrosa, a Amparo. Certa vez, papai se escondeu do lado de fora de casa e começou a chamar a pobre, com uma voz lúgubre: "Ampaaaaaaaro!!! Ampaaaaaro!!! Amparo, eu vim lhe buscar, Ampaaaro!"
A coitada cobria a cabeça com o pano de prato e ia correndo chamar minha mãe: "Olhe, dona Helena, o que o doutor tá fazendo!", reclamava, quase chorando. Mamãe respondia "Minha filha, se você sabe que é ele, porque tem medo?"

Mamãe sempre foi muito pragmática, nesses assuntos de almas do outro mundo: diz sempre "Quem tem Jesus no coração não tem medo da escuridão" e "Os mortos não fazem mal a ninguém, a gente tem que temer os vivos." Outra lenda da família conta que ela dormiu no quarto em que minha avó Stela morreu - na cama em que ela morreu!!! - poucos dias depois do enterro da velhinha. E sempre me falou, com olhos tranqüilos: "Sua avó jamais voltaria para fazer mal a ninguém, porque eu devia ter medo dela?"

O medo é uma coisa recorrente em Pernambuco. Seja o medo do sobrenatural, da Perna Cabeluda que aparecia do nada, sem corpo, chutando as pesoas, ou o medo da crueldade dos antigos; para construirem a Rua Nova, no cento de Recife, muitas casas foram demolidas e, numa delas, acharam um esqueleto dentro de uma parede. Começava aí a lenda da Emparedada da Rua Nova, moça que foi presa  viva dentro das paredes da casa por ordens do pai. Cogita-se uma gravidez sem casamento, mas nunca se pôde provar. Mas dizem que ela anda pelas ruas, de madrugada, chorando seu destino...

MAIS LENDAS

Pois bem. Papai era menino quando a Segunda Guerra começou. Meus tios mais velhos já na casa dos 18, 20 anos. E aconteceu de um deles ser convocado prá guerra. Que arma? Não sei, só me disseram que ele ia embarcar no porto do Recife. A minha vó não desesperou porque não era mulher de desesperar, mas não gostou da história, é claro.

No dia marcado, cercado pelas rezas e recomendações maternas, lá foi meu tio defender o Brasil. Mas meu tio não lutou. No dia do embarque, veio a notícia: a guerra acabou!!!
Minha vó não era de desespero, como eu disse lá em cima. Mas, certamente, tinha muito prestígio no céu. :D

Outra do tempo da guerra foi que, perto da casa do meu pai havia uma loja de doces de um casal alemão. E, com medo de represálias, o casal foi embora, dizem que só com a roupa do corpo. Não era fácil ser estrangeiro no Brasil naqueles tempos. A notícia não tardou a espalhar pela criançada. O mais corajoso quebrou uma janela, entrou e ficou jogando doces, chocolates, tudo de bom que via pela frente, para o resto da turma pegar. Papai tava nesse meio, felicíssimo... até que vovó viu a turba. E viu o filho mais novo no meio. Papai já passava dos 50 anos quando me contou essa história - e até aquele dia não esqueceu a surra que levou.

Saindo da guerra direto para o comecinho dos anos 80, uma história que aconteceu com uma das minhas irmãs. Elas são mais velhas do que eu, e, quando eu tinha meus 10 anos, as duas já estavam para casar. Então, essas histórias, mais que lendas da família que me contaram, são lendas da família que eu vivi :)

Minha irmã estava noiva e quis fazer uma sobremesa caprichada, para impressionar o noivo. Uma bavaroise de limão. Mandou todo mundo sair da cozinha - eu, principalmente, para não atrapalhar - e só saiu com a cristaleira mais bonita da casa cheia de um creme branco-esverdeado.
Depois do jantar, solenemenete, minha irmã serviu o doce. E, para surpresa de todos, ela havia errado a receita e a bavaroise estava intragável: limão demais.
Só o noivo comeu, repetiu e ainda afirmou "Tá uma delícia, meu amor!
Eu, com toda a seriedade dos meus dez anos, olhei para papai e vaticinei: "Esse aí casa com ela".

Mais tarde, toda a família notou que a minha irmã começou a fazer um caderno de receitas, como o que a minha mãe tinha. Tudo muito chique, musses, suflês, sobremesas caprichadas. Ela não colava as receitas das revistas, pois achava feio - preferia passar a limpo, com sua letra de professora. Então a minha irmã casou, levou seu enxoval vaporoso (havia um robe com pluminhas na barra, ela parecia uma estrela de cinema...) e seu caderno preto de receitas. Uma semana, quinze dias depois, ela ligou com voz muito humilde e pediu para falar com mamãe... "Mamãe... como faz arroz, mesmo?"

Estas são algumas histórias lá de casa. Qualquer dia desses eu conto mais algumas... :)

terça-feira, 14 de junho de 2011

QUITANDA DA VIDA XXXI

Por Telinha Cavalcanti

É junho, o mês mais lindo do ano, mês dos santos, do frio, das bandeirinhas e do milho. Esta receita de bolo de milho foi passada para a minha mãe por d. Izabel, amiga tão querida que já é parte da família há mais de vinte anos :)

Bolo de Milho

400 gr de milho verde
300 ml de leite
100 ml de leite de coco
4 ovos
150 g de açúcar
15 g de manteiga sem sal derretida
1 colher de chá de fermento em pó
uma pitada de sal
farinha de trigo para untar a fôrma

Como fazer:

Muito cuidado ao cortar o milho, para não ferir a espiga.
Caso prefira usar milho em lata, lave bem para tirar o gosto da salmoura; se for milho conservado em vapor, não precisa lavar tanto.
Bata no liquidificador o milho, o leite de coco e o leite de vaca até ficar uma textura bem fina.
À parte, bata os ovos e o açúcar até ficarem bem fofos. Adicione a manteiga derretida.
Junte o fermento e o sal a esta mistura e a coloque no liquidificador, pulsando por um minuto, para misturar mas não deixar ralo.
Unte uma fôrma com manteiga e cubra com farinha de trigo, tirando bem o excesso.
Asse em forno pré-aquecido, em temperatura média, por 30 minutos ou até que ele esteja dourado.

Coma ouvindo Luiz Gonzaga :)

Olha Pro Céu
Luíz Gonzaga
Composição : Luiz Gonzaga / José Fernandes

Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Foi numa noite igual a esta
Que tu me deste o teu coração
O céu estava assim em festa
Pois era noite de São João
Havia balões no ar
Xote e baião no salão
E no terreiro o teu olhar
Que incendiou meu coração.

imagem:  culturamix

quarta-feira, 18 de maio de 2011

PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W.

Por Telinha Cavalcanti





Feira de São Cristóvão, Rio de Janeiro







Fui poucas vezes à Feira de São Cristóvão, também conhecida como Feira dos Paraíbas. E fui com aquele espírito de "vou encontrar um pedacinho da minha terra", o mesmo espírito que levou os imigrantes italianos a formarem a comunidade Little Italy, em Nova Iorque, os japoneses a fazerem os festivais na Liberdade, em São Paulo e tantos outros povos em tantos outros lugares tentarem resgatar um pouco de quem são em terra estranha.

E foi assim mesmo que eu me senti: estranha. Porque era e não era. Luiz Gonzaga estava lá, embaixador de todos os que saíram de casa e vieram pro sul-maravilha. Todos que deixaram seu chão, seu pai, sua mãe, os códigos de vida e honra e pararam num lugar caótico, barulhento, cheio de gente com costumes e comidas diferentes. Era, sim, um posto-avançado do Nordeste. Mas também não era.





As comidas estavam lá - mas muitas, também, não estavam. Sim, tem o acarajé frito na hora pela baiana de turbante; há queijos, cachaças, farinhas, bolachas sete-capas. Mas é diferente.

O forró toca quase initerruptamente. Mas é, como Chico César tão brilhantemente definiu, é o forró de plástico. São bandas que saem prontas das gravadoras em ritmo de linha de montagem. É o pré-fabricado da música, sem raiz, sem chão, sem asas, músicas que levam do nada ao lugar nenhum.

Sim, há o artesanato. Mas é possível chamar artesanato o que não tem mais criatividade? Os bonequinhos de barro, daqui a pouco, vêm com um carimbo "made in china". Achar o verdadeiro artesanato é procurar ouro onde ouro não há.

A feira é feita pros outros. Pros que acham que sabem o que é o Nordeste. Ao lado da renda que veio de longe, há camisas de futebol: Flamengo, seleção brasileira, Real Madrid, Barcelona.

Eu pasmo e penso: o que eu busco, ainda existe? O forró pé-de-serra, a boneca de pano, as minhas histórias. E eu penso que esta procura é pelo fruto da memória - nós podemos comer a mesma fruta, comprada - mas os frutos mais saborosos ainda são aqueles que colhemos nós mesmos.

domingo, 8 de maio de 2011

SENHORA DO TEMPO. DIA DAS MÃES

Por Esther Lucio Bittencourt

Para Alline Storni

AUGURI! 

Hoje, falamos sobre o dia das mães. Que, afinal, é todos os dias, mas diz o marketing que é de bom tom lembrar dela no dia em que o comércio fatura com vendas. Para quem? Presente para as mães! 



E me pergunto: desde quando o Primeira Fonte obedece a quejandos e tais? Mas, desta vez, exceções sempre existem, vamos participar do lugar comum porque os depoimentos são bonitos, são lindos de doer. E por causa de Alline. Alline Storni que teve Norah em Milão. Nasceu por estas semanas.


Por isto, este dia vai para Alline com votos de que Norah ame o sol do Brasil.
Mas, olhem só mães... em nós, vocês existem todos os dias do ano. Mas hoje vamos comer macarronada e frango, o ajantarado das tradicionais famílias burguesas de domingo, para estar mais de acordo com o senso comum.

Dia das Mães: dona Helena

Por Telinha Cavalcanti

Um dia, em fevereiro de 1970, Dona Helena arrumou as malas da famíla - todos iam viajar, passar umas semanas numa casinha de veraneio na praia de Tamandaré, em Pernambuco. Os planos pros próximos dias incluíam muito descanso, muito peixe e muito banho de mar.

Só que aí Dona Helena percebeu uma coisa: iiiih... Segundo seu calendário, ao chegarem na praia, ela não iria poder tomar banho de mar por uma semana, pelo menos.

De qualquer jeito, a idéia da praia a deixava feliz. Ela, o marido e as meninas haviam morado lá durante alguns anos, antes de se mudarem pro sertão. Ia ser muito bom rever os amigos, deitar na rede, sentir a brisa morninha do fim da tarde.

Chegando em Tamandaré, ela pôde tomar banho de mar durante toda a estadia. Nada impediu que ela vestisse seu maiô e acompanhasse as filhas e o marido nas manhãs de sol quente, nas tardinhas de pescaria com vara de bambu e molinete, o samburá cheio de iscas.

Voltando para sua casinha, lá no sertão, dona Helena voltou a fazer as contas. Com os olhos brilhando, esperou o marido chegar do trabalho. Sentou-se com ele à mesa e contou a novidade. Os dois começaram a fazer planos.

Em outubro daquele ano, eu nasci.

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Reconciliação

Por Vera Guimarães

Eu tinha quase oito anos e bastante confusão no coraçãozinho de menina. O pai, carinhoso e amável, mas desprovido das armas para os embates da vida, acabou cedendo a chefia da família para a mãe, valente e decidida, que abriu uma pensão para sustentar a família numerosa.

Eu não sabia direito a quem amar, se à provedora inflexível, se ao pai que tentava passar despercebido, mas sempre presente nas queixas da mãe.

E acabei achando que à mãe só devia respeito e gratidão, que ali não havia espaço para amenidades, para os supérfluos e os gestos de carinho.

Foi, pois, motivo de surpresa e encantamento o par de brinquinhos que minha mãe me deu naquele aniversário. Eles eram miúdos, feitos de ouro polido e martelado, em forma de caixinha redonda, com uma pequena pedra vermelha.

Eu não me cansava de olhar para eles. E entendi que, por trás e apesar das contas no armazém e da lida no tanque e no fogão de lenha, ainda havia espaço no coração de Mamãe para a poesia de uns brinquinhos comprados a prestação.

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Alline Storni, que escreve 84, Charing Cross, estava hoje na varanda de sua casa, em Milão, como descreveu no Facebook:
"Na varanda, pegando um solzinho com a minha branquela! Sul balcone, prendendo il sole con la mia bianca! Feliz dia das mães. Auguri!"

quinta-feira, 10 de março de 2011

SEU GERTZ E A SS DE HITLER

Por Telinha Cavalcanti

Seu Gertz era um alemão muito branco e mal-humorado que trabalhava na Rádio e a gente gostava de conversar. Ele me contou do dia que salvou a família da SS de Hitler.

Foi assim: a família de seu Gertz era judia. A mãe dele morreu cedo, deixando o filho bebezinho. O pai casou-se com uma alemã e, quando a situação ficou insustentável na cidade onde eles moraram, a família foi pegar um trem para emigrar. Na estação, um guarda da SS, depois de ver os papéis do pai, da madrasta e de seu Gertz com um ou dois anos, mandou que eles ficassem separados da multidão, ou seja: o tempo fechou. Veio o chefe do guarda e perguntou para a madrasta "quem é essa criança?" - e ela, com o menino no colo, respondeu "é meu filho". O chefe deu uma bronca no guarda e falou "não incomode esta família! você não vê que esta mulher é ariana? Esta é uma família alemã!"

E foi assim que seu Gertz, ainda no colo, salvou toda a família...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

QUITANDA DA VIDA XIV

Por Telinha Cavalcanti

Hoje me deu um certo medo ao começar a escrever a coluna. Porque, né? eu não sei cozinhar. E como ser que sapeia na cozinha (eita, entreguei a idade), minhas receitas tão chegando no fim. E aí lembrei duma coisa que eu adoro e passei anos sem comer porque simplesmente saiu de moda.

E quando as coisas saem de moda a gente não acha, ninguém faz, a gente não come e a gente esquece. Até que, numa reunião de família no fim do ano, a gente reencontra aquele prato delicioso e tem que se controlar para manter a boa educação recebida e não fugir com a travessa ao som de Love Story.

SALPICÃO

Essa é a receita da mãe da namorada do filho da prima do meu marido. E foi essa receita que me fez honrar a criação que Dona Helena me deu :)

Frango defumado desfiado
Maçã verde
Creme de leite
Maionese
Ervilha
Azeitona
Batata palha
Uva passa branca e preta
Milho verde

Em uma tigela, desfie o frango defumado. É preciso retirar a pele dele antes, então siga as instruções da embalagem. Reserve.

Misture a maionese e o creme de leite. A proporção varia de acordo com seu gosto: é para tirar o sabor forte da maionese, pois o frango defumado vai brigar com ele, mas também não é para ficar líquido demais.
Corte a maçã em cubinhos e misture na maionese, assim ela não vai escurecer. Junte o frango desfiado, a ervilha, o milho, as passas. Só um pouquinho de azeitona, e picadinha. Cubra com uma leve camada de batata palha. Fuja com a travessa ao som de Love Story.


domingo, 14 de novembro de 2010

QUITANDA DA VIDA III

Por Telinha Cavalcanti


Doce "de olho"


Antes que vocês pensem em comidas exóticas e nojentas, doce de olho é aquele que não tem receita. Ou, como diz minha santa mãezinha, dona Helena, "o quanto baste" disso ou daquilo, e ainda mais "a gosto do freguês".

Fiz inúmeras tentativas de adaptar as receitas "de olho" para uma coisa mais civilizada, e fracassei retumbantemente. Há receitas em que tudo depende.

Então, vai uma receita só, hoje, boba, simples e a minha preferida desde sempre: doce de caroço de goiaba, que - arrá! - não é da minha mãe, é da minha avó paterna, de quem herdei o nome e não conheci, pois morreu um ano antes de eu nascer: vó Stella.

Doce de goiaba é uma coisa besta que todo mundo sabe fazer, e se não sabe, deveria.Tem doce de cuia, a compota, tem doce cremoso e tem geléia. Esse doce é feito com a parte desprezada pelos que não são da minha família: o caroço, este incompreendido.

A receita não tem proporções, então você pode fazer com um quilo ou com 3 goiabas :)

Corte as goiabas ao meio, retire os caroços com uma colher de sopa, coloque na panela e adicione açúcar o quanto baste (tá vendo?). Com o fogo em temperatura média, mexa com colher de pau, com cuidado quando começar a borbulhar. Ele vai ficar brilhoso e começar a soltar da panela. Quando der o ponto, experimente o açúcar e veja se precisa colocar mais.

As sutilezas da receita, o ponto certo, a quantidade do açúcar, vão variar de acordo com o paladar de cada um. O jeito que eu gosto é quando ela fica bem brilhante, não muito doce e com ponto de geléia grossa. Não é uma goiabada cascão, viu?

Guarde em uma compoteira de vidro transparente para todos verem a beleza que o doce é. Atenção: não morda os caroços ao comer ou talvez precise ir correndo ao dentista.