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sábado, 7 de setembro de 2013

GENTE HUMILDE.

Esta seção é destinada a contar a vida das pessoas como nós, que vivem longe dos holofotes, mas que têm suas histórias de vida, cotidiana, formando a consciência coletiva do mundo. Enfim, elas são o micro do macro. 

Hoje a conversa é com dona Maria Gomes da Silva, doméstica aposentada de Ouro Preto. As palavras, se coloquiais, se em gírias, serão respeitadas. Tudo faz parte do meio para se chegar ao fim.

(ALD e ELB)

A GUARDIÃ

Por Esther Lucio Bittencourt
colaboração de Ana Laura Diniz

Maria Gomes da Silva, de 75 anos, doméstica aposentada. Vive em Ouro Preto, Minas Gerais, e durante muitos anos trabalhou para Linda Nemer, proprietária atual da casa que era da poeta norte-americana Elizabeth Bishop.

Dona Maria, a Guardiã
“Na época em que Linda pegou essa casa, que era da Elizabeth Bishop, um amigo dela me disse que ela precisava de uma pessoa para tomar conta da residência. Era o Marcelo, dono da Padaria na Rua São José. Então a Linda mandou me chamar lá em casa, aí eu vim, nós conversamos e ela falou assim: ó dona Maria eu preciso de uma pessoa para cuidar desta casa, porque eu vou mandar reformar ela, arrumar.... a casa estava muito estragada.... e quero que a senhora cuide dela e a traga sempre muito limpa, arrumada, porque eu vou vim passar fim de semana aqui – a Linda é ouropretana , mas mora em Belo Horizonte- meus amigos virão, eu preciso de uma pessoa assim. A senhora aceita? Aceito, uai. Eu preciso trabalhar... Foi em 1985 e hoje minhas filhas continuam fazendo o meu trabalho. Mas sempre venho dar uma olhada para ver se está tudo bem.

A Elizabeth era amiga da Lili, parece que elas vieram para o Brasil na mesma época. As três irmãs, Lili, Nini e Jerry. Hoje só a Jerry está viva. Dona Lili morava na rua do Carmo.

Eu nunca trabalhei com a dona Elizabeth, mas a mulher que era empregada dela e chamava Vitória era amiga dessa vizinha aqui, dona Noquinha, e na época que Elizabeth adoeceu Vitória foi para Belo Hotizonte e lá ela casou e acho que ela ainda é viva ainda . Ela é comadre desta aqui, a dona Noquinha. Eu nem conheci a Vitória, mas conheço bem dona Noquinha.”

Estávamos numa sacada da copa da casa e desejei saber o que a poeta via da sacada, como era a cidade no tempo em que morava lá.

Dona Maria e Esther
Dona Maria me respondeu: "Ela devia ficar olhando aí tudo isto aqui que já existia na época dela, menos as casa lá por alto, àquela parte de lá , do outro lado assim, por volta, que lá não existia ainda, era tudo campo, que ali hoje é um bairro enorme que tem a Coperouro da Alcan. Na época em que a Elizabeth morava aqui não tinha isto, nem aquelas casinhas, que era também campo, igual a parte de lá. Há pouco tempo, assim, que a Prefeitura dá os lotes , aí as pessoas vão lá e falam : fora. E os que estão lá vão embora e eles constroem uma casa e lá em cima a Universidade fez a Escola de Minas. Lá em cima é a Universidade. Os jardins daqui foram feitos pela Linda. Estes cheios de copos-de-leite... Mas dizem que ela gostava de uns golinhos, né? A Elizabeth.

A divisa vai aqui desta árvore aqui . Para lá da árvore é da outra casa. Da árvore vai reto até lá em baixo, depois sobe e vai até perto do hotel Solar das Lajes que era da dona Lili, perto da casa grande que dona Lili comprou. Tem estas janelas que tem uma cor, né ? que cor é esta? Parece esverdeada... esta casa destas janelas era pequena . No que seu Pedro foi querer fazer hotel ele foi espichando para aqui , como fala? Fazendo bangalôs? E a casa de cima está fechada porque está muito estragada, tá quase caindo. Olha só... tá quase caindo.”

E assim dona Maria continua com suas histórias, e as casas, lugares, pessoas desfilam na sua fala como se fossem conhecidos de todos nós. De vez em quando ela dá uma olhada no serviço das filhas, comenta alguma coisa com a neta que está lá para ajudar.... e assim a vida corre na 546 da rua Conselheiro Quintilhiano onde morou a poeta Elizabeth Bishop. Uma casa de janelas que abrem para a calçada, apenas um banheiro e muito espaço para jardim e sonhos, os construtores dos poemas.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

ELIZABETH BISHOP E SUA OBRA




Por Esther Lucio Bittencourt
fotos de Ana Laura Diniz


No momento em que é lançado o filme Flores Raras  , baseado no livro Flores Raras e Banalíssimas , nada mais propício do que republicar uma série de matérias feitas após visita à casa da poeta Elizabeth Bishop em Ouro Preto. 


Elizabeth Bishop nasceu no ano de 1911, em Worcester, Massachusetts. Bem jovem perdeu o pai, que também morreu jovem. Sua mãe foi internada num asilo para doentes mentais e ela foi morar com os avós na Escócia. Formou-se no Colégio Vassar, em 1934.


Sestina

A chuva de setembro cai sobre a casa

Sob a luz mortiça, a grisalha avó

Senta-se na cozinha com a criança

Ao pé do fogão Pequena Maravilha,

Lendo as velhas piadas do almanaque,

Rindo e falando para esconder as lágrimas

Pensa que suas equinociais lágrimas

E a chuva sobre o telhado da casa

Foram preditas ambas pelo almanaque,

Coisas que pode conhecer só uma avó.

Apita a chaleira no fogão-maravilha

Ela corta o pão e diz à criança

.....................................................

Entre 1935 e 1937 ela viaja pela França, Espanha, Norte da África, Irlanda e Itália. Mora por quarto anos em Key West, Flórida. Lá, prepara seu primeiro livro, “North and South”, publicado em 1946.


Sua obra: 



POESIA


North and South (1946)

Poems: North and South—A Cold Spring (1955)

Poems (1956)
Questions of Travel (1965)
The Ballad of the Burglar of Babylon (1968)
The Complete Poems (1969)
Poem (1973)
Geography III (1977)
The Complete Poems 1927-1979 (1983)
Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments (2006)

PROSA

Brazil (1962)
The Collected Prose (1984)
One Art: Letters (1993)

ANTOLOGIA

The Diary of Helena Morley (1977)


LEIA OS LIVROS


       ·         "The Art of Elizabeth Bishop", editado pela Universidade Federal de Minas Gerais, por Sandra Regina Goulart de Almeida, Gláucia Renate Gonçalves e Eliana Lourenço de Lima Reis;
       ·         "Uma Arte", as cartas da poeta;
       ·         "Esforços do Afeto";
       ·         "O Iceberg Imaginário";
    ·    "Poemas do Brasil", todos estes editados pela Companhia das Letras.


Morreu em Cambridge, Massachussetts, em 1979. Mas antes viveu 15 anos no Brasil. Entre um apartamento no Leme, uma casa em Teresópolis, a Samambaia e Ouro Preto, seu derradeiro amor. Sua casa foi comprada por Linda Nemer de sua herdeira Helen Methfessel.



SALA ELIZABETH BISHOP


A Sala Elizabeth Bishop, na Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB), é fruto de uma parceria da Biblioteca e a Embaixada dos Estados Unidos. Lá tem um rico acervo em língua inglesa, composto de obras de referência, ficção e não ficção norte-americana, de administração e negócios, livros infantis e juvenis, publicações governamentais e material atualizado para professores e alunos de inglês. São oferecidos programas culturais e de aconselhamento de estudos nos EUA, acesso supervisionado sobre o país, por meio de vídeos, CDs e CD-Roms e palestrantes em assuntos de interesse comuns a brasileiros e americanos.

Além disso, traduções em português de autores de literatura norte-americana estão disponíveis no acervo geral da BDB.

A homenageada, Elizabeth Bishop, foi responsável pela tradução para o inglês de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Mello Neto. Trabalhou no Setor de Poesia da Biblioteca do Congresso (Library of Congress) e se consagrou com uma poética que se tornou obrigatória em qualquer antologia de poesia norte-americana.

Para a maioria dos críticos e seus admiradores, o legado principal de Elizabeth Bishop é exatamente sua obra poética de extremo bom gosto e refinamento, resultado de longo e preciso trabalho de lapidação das palavras. Embora morando em Petrópolis, foi agraciada, em 1956, com o Prêmio Pulitzer de poesia, um dos prêmios literários de maior prestigio nos Estados Unidos, por Poems: North & South - A Cold Spring, junção de poemas já editados com a produção de uma década de Brasil. Após sua morte, em 1979, mais e mais leitores vêm descobrindo seu texto enxuto e denso, de grande prazer de leitura.

A CASA, em Ouro Preto

Pisar o mesmo chão de tábuas corridas, hoje desgastadas pelo tempo, que Elizabeth cansou de palmilhar. Olhar as paredes da casa de pau-a-pique e sentir nelas ainda a vibração de alma da poeta que de tão delicada “pedia licença para respirar”, como nos conta Linda Nemer que com ela conviveu durante alguns anos.

“Perdi duas cidades, eram deliciosas. E, 
Pior, alguns reinos que tive, dois rios, um 
Continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.
- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
Amado), mentir não posso. É evidente:
A arte de perder muito não tarda a aprender,
Embora a perda - escreva tudo!- lembre desastre.
 (do mesmo poema: "Uma Arte")

A vida, é evidente, nos contamina com as perdas e Elizabeth sentiu isto desde jovem. Quando conseguiu alguma coisa de seu foi a poucos anos de sua morte. Mas assim como soube ganhar, soube perder, com garbo, sem mágoas ou, como diz seu poema, “disaster”.

[continua no próximo domingo]

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

ELIZABETH BISHOP, POETA EM OURO PRETO

Por Esther Lucio Bittencourt
colaboração de Ana Laura Diniz

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
De perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.
(Do poema “Uma Arte”, de Elizabeth Bishop)

Começo esta matéria assim: quebrando cânones do jornalismo e a escreverei na primeira pessoa.

Foi em Ouro Preto, Minas Gerais, que subi 700 metros de ladeiras, por conta de um desejo de Ana Laura Diniz, de andar. Iríamos procurar encontrar a casa da poeta Elizabeth Bishop. Andamos mais, muito mais. Graças ao "vamos Esther, não podemos estar mais tão longe", a teimosia venceu o forte sol, o cansaço, e promoveu a recompensa, inigualável. Sentei na mesma cadeira de balanço que Elizabeth Bishop sentara. Percorri seu quarto e vi a cama em desalinho, usada pelos proprietários atuais. Ana Laura num silêncio especial, fotografava. Conversei com as empregadas antigas. Nenhuma delas conviveu com a poeta que morou cerca de 15 anos no Brasil e hoje é considerada uma das maiores dos Estados Unidos e, certamente, do mundo.

Mas vamos aos comentários e ensaios fotográficos de Ana Laura Diniz. As conversas seguem depois.


Vista pela rua, uma casa como tantas outras de Ouro Preto...
... mas quando se passa pela porta de estilo colonial...
... os detalhes, como esses das fechaduras, chamam a atenção!
Na placa, o texto na íntegra: "Nesta casa viveu, nas décadas de 1960-1970, a poeta Elisabeth Bishop (1911-1979), nome expressivo da poesia norte-americana contemporânea. Traduziu e publicou obras da literatura brasileira, além de marcar sua produção literária com uma visão sensível e original do País". Museu Aberto - Cidade Viva.


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

UMA ARTE ENTRE DOIS MUNDOS: ELIZABETH BISHOP



Por Esther Lucio Bittencourt
fotos de Ana Laura Diniz


Neste momento do lançamento do filme Flores Raras, sobre o livro de Carmem Oliveira, Flores Raras e Banalíssimas, que fala da relação entre a a poeta Elizabeth Bishop e a inventora de Jardins, Lota Macedo Soares, nada melhor do que relembrar u8ma série de matérias que foram feitas a partir da visita à casa de Elizabeth, em Ouro Preto, Minas Gerais.

“Continuo achando a minha casa a mais bonita do mundo, e a cidade é linda também, do ponto de vista arquitetônico – mas isto não basta. Você não tem nenhum paciente milionário, ligeiramente excêntrico, que se interesse por arquitetura barroca, ou história da América do Sul, ou psicologia – que estaria interessado em comprá-la? Juntamente com uma boa quantidade de bons móveis do século XVIII e início do XIX?”
.......

Este é o trecho de uma carta escrita pela poeta Elizabeth Bishop para a doutora Anny Baumann, em dezembro de 1969, sobre sua casa na cidade mineira de Ouro Preto, quando desejava vendê-la por desesperar-se com a mão-de-obra sempre incapaz e cara da cidade.

Rubrica de Elizabeth Bishop em bilhete/poema para Manuel Bandeira
Do livro “Uma Arte”, editado pela Companhia das Letras, foi extraído este texto. Estive em sua casa em Ouro Preto com Ana Laura Diniz, que fez as fotografias.


Elizabeth Bishop(google)
Sentei em sua cadeira de balanço, respirei o sentimento da casa, pois é certo que todas as casas guardam nas paredes a vida e as emoções dos que nela viveram. Pela janela vi a pequena cachoeira seca, com algumas samambaias nativas crescendo na sombra entre as pedras. Talvez, em seu tempo, pela ladeira de pedra seca talvez rolassem águas encrespadas, principalmente, no tempo da chuva. Lembranças, quem sabe da serra de Petrópolis, no Estado do Rio, da Fazenda Alcobaça, em Samambaia, onde vivia com Lota de Macedo Soares.











A DONA DA CASA
Fotos de Ana Laura Diniz

Foto da foto: Linda Nemer há alguns anos atrás.
Reprodução da foto que está presa por um simples adesivo na parede
 da sala-de-estar da casa "Mariana".
Linda Nemer, 74 anos, professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) de Ciências Econômicas e Sociologia Política, comprou a casa de Elizabeth Bishop, em Ouro Preto, de sua herdeira Alice Helen Methfessel, que viveu durante anos como secretária e amiga íntima da poeta.

“Meu irmão, o artista plástico José Alberto Nemer, conheceu Elizabeth na casa do pintor Scliar, em Ouro Preto,” conta Linda, “e ficaram amigos. Na década de 50 ela começou a reforma da casa que comprara em Ouro Preto. Lota ainda era viva e as duas vinham muito à cidade e ficavam hospedadas no Pouso Chico Rey de Lili Correa de Araújo. Eu a conheci no hospital, em Minas Gerais, quando esteve internada devido ao seu problema com a asma.


Da primeira sala da casa, a vista para o jardim.







Sou de Ouro Preto, mas morava, trabalhava e estudava em Belo Horizonte. Por várias vezes estive hospedada na casa de Elizabeth, em Ouro Preto, e ela, muitas vezes, ficava em minha casa, em Belo Horizonte, para tratamento médico. Quando ela voltava aos Estados Unidos meu irmão e eu tomávamos conta da casa dela.

Quando eu viajava para a Europa ou para os Estados Unidos nos encontrávamos. Uma vez, em Boston, fomos ao cais do porto ver um Loft que um arquiteto de vanguarda construíra e ela pretendia comprá-lo. Perguntei se pretendia deixar Ouro Preto. Ela olhou-me firme e respondeu: Jamais deixarei Ouro Preto, pois foi a primeira vez na vida que tive uma casa só minha, sem ser hóspede em casa alheia.”



VIDA CIGANA

Foto da foto: Linda e Bishop no verão de 1972,
em Massachusetts, EUA.
Elizabeth Bishop perdeu os pais ainda jovem e morava na casa de avós. Depois viajou pelo mundo até que chegou ao Rio de Janeiro onde hospedou-se no apartamento da arquiteta e paisagista Lota Macedo Soares, com a qual viveu um romance intenso. Lota, que morava no Leme, foi a responsável pela construção do Aterro do Flamengo, no Rio, no Governo Carlos Lacerda.

No Brasil, Elizabeth viveu 15 anos. Após o suicídio de Lota, seu grande amor, ela fixou-se em Ouro Preto, dividindo seu tempo entre aulas em faculdades norte-americanas, viagens pela Europa e a cidade mineira.

“Já recebi propostas para vender esta casa que seria transformada em Museu Elizabeth Bishop, da Universidade de Vassar, onde ela estudou, e da Fundação Ford, que comprou a casa de seus avós no Canadá e construiu um Centro Cultural.

Elizabeth era uma pessoa finíssima, delicadíssima, requintada. Recebia amigos com honras de chefe de estado. Ela adoecia, passava mal, ia para Belo Horizonte e ficava em nossa casa. Sempre grata, delicada, reconhecida.

Era tão delicada na convivência que pedia licença para respirar. Era um peso pluma. Em sua casa de Ouro Preto promovia serestas, encontros de músicos e gostava muito de ouvir Gal, Bethânia, Caetano, Bossa Nova e Vinícius de Moraes, de quem era muito amiga. Gostava de coisas simples. Por exemplo, se conhecia na cidade vizinha, Mariana, um saxofonista, o apresentava para os amigos em sua casa, em noite de festa. Aliás, sua casa chamava Vila Mariana em homenagem à poeta amiga norte-americana Marianne Moore.

Sabe aquela música do Caetano Veloso, ‘Não Identificado’? Ela desejava muito vertê-la para o Inglês. Mas esbarrou no disco voador porque em inglês a palavra ficava como pires voador.” A música é esta:

NÃO IDENTIFICADO
(Caetano Veloso)




“Falava muito mal o português, mas conhecia a língua e as suas nuances. Apreciava muito também este poema de Carlos Drummond de Andrade:

RETRATO DE FAMÍLIA


Fez uma antologia de poetas brasileiros e publicou nos Estados Unidos. Gostava de João Cabral de Melo Netto, do poeta engenheiro Joaquim Cardozo, Manuel Bandeira. Verteu o livro de Helena Morley, Minha Vida de Menina, para o inglês. Conhecia e amava o Brasil. Dizia que os músicos brasileiros eram os verdadeiros poetas”, continuou Linda.

Elizabeth Bishop (1911-1979), prêmio Pulitzer de Poesia em 1956, morou quinze anos no Brasil (de 1952 a 1967). “Seu olhar sobre a política do Brasil era de Lota, uma burguesa conservadora, que falava somente o inglês junto com seus amigos. A voz do Brasil era de Lota e somente após a morte desta é que Elizabeth começou a perceber como era o país, econômica e politicamente falando. Aqui em Ouro Preto ela passou a conviver com a realidade do Brasil. Reclamava muito dos trabalhadores que, por ela ser americana, sempre as coisas lhe saíam mais caras. Aqui, um trecho do grande poema que ela fez : “Manuelzinho”.

"E um dia berrei tão alto
que era para você ir correndo
e me trazer aquelas batatas
que seu chapéu voou e você saltou dos tamancos
deixando três objetos dispostos
em triângulo aos meus pés,
como se o tempo todo você tivesse sido um jardineiro de conto de fadas
e à palavra 'batatas'
sumisse para retomar as atividades
de príncipe encantado em outro lugar".


Ouça aqui o poema Armadillo, dito pela poeta Elizabeth Bishop: http://www.poets.org/viewmedia.php/prmMID/15214

domingo, 27 de novembro de 2011

SENHORA DO TEMPO - MEMÓRIAS DE CAXAMBU (VIDA NO INTERIOR)


Lais Niman da Silva
É irônico ser Lais, de 23 anos, que se forma em Direito este ano na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e mora em Sete Lagoas (MG) com o irmão. 

Irônico, não, a palavra empregada não pode ser esta. É prematuro, no mínimo. Mas como todos temos memórias, seja em que idade for, e Lais é uma das jovens mais observadoras e sensíveis que conheço, ninguém melhor do que ela para escrever com tino e propriedade sobre suas experiências, neste momento em que prepara sua monografia sobre Comércio Internacional e Câmbio... basicamente sobre a perda da hegemonia do dólar e o pagamento em moedas locais, a nova tendência mundial - "Estou na 52ª página da minha monografia e ainda tenho 2 capítulos pela frente. Escrevi depressa, mas com carinho. Não pude me dedicar o quanto queria, tive que escrever bem rápido e nem revisei". 

E nem precisava, Lais, emocionei-me ao ler. 
Eis a Senhora do Tempo de hoje.

elb


Memórias de Caxambu, vida no interior...


Por Lais Niman da Silva

O privilégio de viver no interior é que nossa pequenez fica integralmente relativizada. Não somos apenas mais um, mais um que passa em uma cancela qualquer, sabe-se lá onde; mais um que faz aniversário ou que é atropelado no vigésimo quinto cruzamento de uma via expressa...

Por que? Talvez porque sobre mais tempo para desviarmos nosso olhar, ou por não sermos escravos de nada, nem de trabalho, nem de trânsito, nem de mercado, nem de marginais, nem de horário. Aqui, a nossa independência tem um toque lúdico, não é matemática, tampouco estatística.

Temos nosso nome, sobrenome, família, amigos e até “aquela” cadeira marcada “naquele” café. A árvore genealógica de cada um parece ser de inteiro conhecimento da população, assim como, o que não se pode deixar de falar, cada passo do passado, presente e, por que não, do futuro. Diria que é um campo mais fértil para a confiança germinar, aquela confiança do fio do bigode que, onde ainda existe, foi substituída por algum documento assinado e autenticado em cartório.

Caxambu tem gosto de biju (não era pra rimar), de água mineral, de café da tarde, de colo, de família, de gargalhadas, de ballet. Crescer respirando o ar puro do “paraíso das águas”, ao som de piano e doces vozes a nos guiar, não é coisa que se possa desprezar, até porque reflete em cada etapa da nossa existência.

Dar comida aos patinhos do lago, andar de charrete sob a brisa fresca da manhã, caminhar por trilhas tão cheias de paz, conquistar nosso espaço em um ambiente tranquilo, conhecer tradições, orações, animais, aproveitar o nosso “vale florido de amor”, criar laços...

Há, os laços!

Como são importantes em nossas vidas. Tudo isso constrói nossa essência, delimita nossos valores que, acreditem, serão muito bem testados ao longo do tempo. É bom sentir cada momento vivido por nós, saber de onde vimos, porque somos assim ou assado pois é aí que saberemos para onde vamos. Não ser um mero expectador em nosso próprio palco e não deixar o tempo nos fazer esquecer nossas motivações e ideais é coisa rara hoje em dia.

Fácil é cair em uma grande massa, manobrada por poucos (bem ordinários): é neste ponto que nos rendemos a uma pequenez mesquinha e perdemos nossa identidade...

Em um lugar, que não sei ao certo se ainda é do passado, chamado Ouro Preto, encontrei boas doses de magia arraigada em cada mínimo pedaço da cidade. Pedras e madeiras parecem nos contar longas histórias onde mito e realidade se misturam, porém, cidade interiorana que é, não deixa de ter aquelas características típicas que permitem o domínio do tempo e de nós mesmos.

O passado exposto em arte, páginas amareladas em museus, igrejas que exalam fé e mistérios e monumentos que demonstram atos de bravura compõem um extenso romance que nos coloca em uma oscilação de nostalgia e compreensão de nossas origens.

A paisagem construída em ouro e sangue sobre montanhas negras e, quase sempre, nebulosas, transporta seus personagens para uma frequência intensa de alegrias, prazeres, belezas, amores, ódios, dores, medos, encantos, delícias, insanidades, santidades, milagres, euforias, alforrias...

Para carregar tanta energia, é preciso estar sempre com os ombros descansados! Embora bem pesado esse fardo, é única e inesquecível a (con)vivência nesse lugar. Superar limites, enfrentar fraquezas, decepcionar-se, surpreender-se, tomar chuva, suar ao sol, subir e descer morros, abusar da folia, criar intimidade com a cultura, inventar paixões, cheirar mofo, compartilhar momentos, amadurecer, chorar, sorrir, descobrir infinitos horizontes... São constantes da vida ouropretana, inferno e paraíso: bagagem suficiente para querer sempre mais!

A Dama do Lago- Imagem da Ninfa
(Parque das Águas de Caxambu)
Visão do Balneário do Parque das Águas de Caxambu
- os Plátanos desfolhados do inverno - 
Entrada do Parque das Águas
Boulevard Avenida, onde tem o café, o restaurante, bancos e várias lojas. É o lugar onde sentamos para conversar e apreciar o café.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

NAS CALÇADAS DE OURO PRETO...

...os pés das jornalistas Esther Lucio Bittencourt e Ana Laura Diniz
à procura da casa "Mariana", que foi morada da poeta 

norte-americana Elizabeth Bishop.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

UM DIA EM OURO PRETO

Por Ana Laura Diniz
colaborou Esther Lucio Bittencourt

Museus, casas coloniais, igrejas, ladeiras, becos e a necessidade de muita força nas canelas. As lembranças de criança que eu tinha de Ouro Preto parecem imutáveis. As pernas ainda doem ao subir repetidas vezes as ruas. Os museus estão nos mesmos lugares embora pareçam ter cedido espaço aos muitos bares e restaurantes que se acumulam. Os hotéis e as pousadas se enroscam no emaranhado de casas. Algumas tombadas pela ação do tempo, dos morros, mais precisamente pelo número de caminhões que cortavam a cidade e faziam a terra literalmente tremer. 

Dos quartos do segundo andar da Pousada Casa Grande, onde nos hospedamos, por exemplo, as paredes ainda tremem quando os ônibus passam pela rua. Ouro Preto ganhou casas tão tortinhas quanto a famosa Torre de Pisa. Itália que se cuide. Também porque os italianos são presença marcante na cidade. E ingleses, franceses, americanos e alemães. "As pessoas lá de fora valorizam mais aqui do que o próprio brasileiro", diz o ouropretano Marcos Silva, vendedor de pedra sabão. 

Verdade ou não, os brasileiros estão também por lá. Os que moram na cidade, reclamam do alto custo de vida. O que é cobrado para o turista se cobra também do morador que recebe, quando muito, um salário comercial por volta de R$ 600,00. 

Com tantas casas aglutinadas, becos e caminhos sinuosos, é difícil narrar a vida moderna de Ouro Preto. A cidade é toda interrompida. A história de séculos está atravessada no comércio que tem nas vendas de artesanato o seu principal atrativo. Mas é justamente ali, naquele pedaço de terra, que está boa parte do patrimônio cultural da humanidade e o mais importante conjunto arquitetônico barroco do País. 

A cidade nasceu sob o nome de Vila Rica por meio da expedição comandada pelo bandeirante Antônio Dias e após 30 anos já tinha 40 mil pessoas trabalhando na exploração desordenada do ouro. Passou-se a chamar Ouro Preto após a Independência do Brasil e foi capital de Minas Gerais até os idos de 1897.

Abaixo, um ensaio fotográfico feito pela jornalista Esther Lucio Bittencourt e essa que aqui vos narra a saga da cidade do ouro, de calçadas desiguais e solas de sapatos de todo o mundo.









E A CARAVANA DO PÊÉFE CONTINUA!