quarta-feira, 22 de junho de 2011

RESPONSABILIDADE SOCIAL COMEÇA EM CASA

Ilustração: Google Images 
Por Ana Manssour

Esse assunto anda me perseguindo por todos os lados. Para onde me viro, dá-lhe responsabilidade social. Como cidadã e como Relações Públicas, sempre achei que as organizações deviam envolver-se e comprometer-se com a sociedade, procurando apoiá-las e auxiliá-las no seu desenvolvimento, da mesma forma como sempre achei que devem estar profundamente envolvidas com a salvaguarda do meio-ambiente e do ecossistema.

E, têm-se visto por aí muitas iniciativas louváveis, das mais diversas empresas. Paradoxalmente, observa-se, também, que várias dessas empresas que tanto “fazem o bem” para a sociedade em geral, muitas vezes esquecem de coisas básicas relativas ao seu próprio público interno, os funcionários. Fico com a impressão – para não dizer certeza – de que estão apenas querendo aparentar, mostrar para os outros como são bons e bonitos, quando, na verdade, por dentro, estão mais para ruins e feios.

Isso me faz lembrar um velho ditado do tempo da minha avó: - por fora flores e rendas, por dentro forofofó. Voltamos ao básico. O que importa é o conteúdo e não a aparência. Vale a intenção, a vontade de acertar, e não, necessariamente o sucesso, até porque todos sabemos que muitos erros e fracassos são o começo de um caminho de acertos.

Fica-se com aquela sensação terrivelmente desconfortável de que as empresas estão agindo como certas pessoas, mostrando uma cara para consumo externo, e outra para consumo interno. Sabem aquelas pessoas que achamos amáveis, educadas, simpáticas por anos a fio, e que depois descobrimos que em casa, com a família, são grosseiras, impacientes, desagradáveis e agressivas ao extremo?

Aprendi desde pequena que a gente tem que começar de dentro para fora, de casa para a rua. Às vezes o começo do processo pode se dar por algum evento externo, é verdade. Mas se não melhorarmos a nós mesmos, a maneira como nos relacionamos com as pessoas que nos são mais caras, os mais próximos, de nada adianta ficar sendo bonzinho para os outros. Mais dia, menos dia, a máscara vai cair.

Além do mais, qualquer pessoa sensata e com um mínimo de compreensão “das coisas da vida” (e para isso não é preciso formação universitária...) sabe que os funcionários de uma empresa são os principais responsáveis pela manutenção da vida de uma organização. É como o sangue em nossas veias. Se não temos sangue, não temos vida!

Então, não seria bem mais fácil, muito mais barato e eficaz se as organizações começassem a exercer a sua responsabilidade social dentro de casa? Ou seja, dando atenção à realidade dos seus funcionários, especialmente para aqueles que ganham salários mais baixos, têm menor formação escolar, moram em condições menos favorecidas?

É claro que não estou dizendo para não se preocupar com a comunidade, com a sociedade como um todo. Mas entendo isso como um segundo passo, quando os “de casa” já estão devidamente estruturados e vivendo, com suas famílias, em condições mais dignas de vida. Dessa forma, seria possível, inclusive, contar com os próprios funcionários como multiplicadores dessa consciência social e até como voluntários - de verdade, e não por imposição – em campanhas sociais.

A sabedoria popular sempre pregou que educação começa em casa, através dos exemplos. Isso vale tanto para a criação dos nossos filhos, em família, quanto para a sensibilização e conscientização dos funcionários, na empresa.

Por exemplo: - o que vocês faz em termos de responsabilidade social na sua casa? Em relação ao zelador, à faxineira, ao porteiro? Vamos começar por aí!

terça-feira, 21 de junho de 2011

QUITANDA DA VIDA XXXII

Por Telinha Cavalcanti

21 de junho. Hoje era o aniversário do meu pai. Dia de festa, mesa farta, alegria em casa. Ô homem para gostar de aniversário! E, por ser pertinho do São João, ele juntava logo as duas festas: tinha bolo, velinha, bandeirinha recortada, canjica, pamonha e fogos. E só de falar, já estou sorrindo.

Prá começar, deixa eu explicar uma coisa: canjica não é o que vocês estão pensando. Vocês estão pensando naquele doce cheio de carocinho de milho branco, com caldinho, não é? Pois é. Isso aí que vocês estão pensando é MU-GUN-ZÁ.  Repitam comigo: mugunzá.

Canjica é o que, estranhamente, vocês chamam de curau. Aquele mingauzinho de milho enfeitado com canela em pó.

Porque uma coisa é outra coisa e a outra coisa é uma coisa que eu nem sei de onde vem o nome é um total mistério. Mas eu sou teimosa e faço questão de ensinar direitinho a diferença.

Canjica Pernambucana

8 espigas de milho verde
4 cocos secos para ralar
4 xícaras de (chá) de água quente
2 colheres de (chá) de sal
meio quilo de açúcar
4 litros de água

Como fazer:


Rale o coco e retire o leite puro (coloque o coco ralado em um pano fino e aperte até escorrer todo o leite). Esse é o leite grosso, também chamado primeiro leite). Reserve. 
Junte 2 xícaras de água quente ao bagaço do coco e retire mais leite.
Junte a água quente restante e tire o restinho do leite, que vai sair beeem ralinho.
Pegue as espigas de milho, coloque em pé e corte os grãos bem rente ao sabugo - com cuidado para não tirar mais do que deve.
Bata no liquidificador o milho com 2 litros de água. Passe por uma peneira.
Repita o processo com o bagaço do milho, para não desperdiçar nada. 
 
Misture o leite de coco  com o açúcar, o sal e a massa do milho passada pela peneira. 
Leve ao fogo para cozinhar, mexendo sempre até engrossar e soltar do fundo da panela. 
Coloque em travessa ou pirex, ou ainda em potinhos individuais. Decore com canela em pó. (Mamãe fazia losangos, grafismos, escrevia G H - de Geraldo e Helena... enfim, o céu é o limite)

Raspe o fundo da panela da canjica e seja feliz.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

VIVA NOSSA LITERATURA

Por Dade Amorim

João Ubaldo Ribeiro. Viva o povo brasileiro. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 700 p.


Um país que conta com autores do quilate do itaparicano João Ubaldo Ribeiro não precisa se preocupar com seu lugar no mundo das letras. Assim como um povo que inspira um livro como Viva o povo brasileiro pode ter certeza de que, mesmo injustiçado, mal servido de líderes políticos, usurpado e vilipendiado como tem sido pelos séculos afora, tem tido ao menos grandes e solidários analistas: Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Antonio Callado e João Ubaldo, por exemplo. Gente capaz de encarnar num livro as dores e atrocidades, a incompreensão e a injustiça de um regime social que, a serviço da crueldade, tornou impossível ou simplesmente extinguiu a vida de tantas pessoas.

Tem havido vários outros, eu sei; mas aqui falo de Ubaldo e sua obra antológica e – como diz Geraldo Carneiro em seu prefácio – fundadora. Fundamental, digo eu, para que se compreenda e se aprofunde o conhecimento histórico e antropológico do Brasil e da formação de sua gente. 

A existência de autores como João Ubaldo não serve de consolo nem corrige de imediato todas as iniquidades. A idéia porém não é essa. Se ninguém levantasse a voz – e com tal potência – nem deixasse documentos assim; se tanta miséria, covardia e crueldade ficassem sem outro registro que os dados oficiais, omissos, obscuros, impessoais, como esperar alguma resposta, mesmo lenta? O que acontece tem que deixar ecos, porque sem eles tudo se esquece no silêncio da história. E até para falar da beleza e das qualidades desse povo incrível, de suas crenças, da pureza que ainda marca os hábitos cotidianos, para entender seus valores, é preciso conhecer os episódios e a crueza do processo de sua formação.  

Depois de muitos anos, reli Viva o povo, e novamente me espantei diante da riqueza barroca de seu estilo, da linguagem a um tempo esfuziante e precisa com que nos transporta a tempos e lugares estranhos para nós. É um livro cheio de vida, de uma visão irônica e dolorida de um tempo que se estende sobre séculos. São personagens cujas vozes ouvimos ainda, que nos cercam em seus alpendres, nas salas dos ricaços, em clareiras no mato, em quartos e senzalas; são fatos que ainda repercutem em nossa carne de agora, e que explicam tanta coisa sobre as dores persistentes de nosso tempo.

Viva o povo brasileiro não é apenas uma obra-prima literária. É também uma obra-prima de brasilidade, além de uma demonstração irrefutável da teoria da pedrinha na água e seus atavismos.

domingo, 19 de junho de 2011

SENHORA DO TEMPO. ABASTECENDO-NOS...

Por Vera Guimarães

Minha mãe nasceu e foi criada na roça. Ela viveu, nas primeiras décadas do século XX, no mundo da quase absoluta auto-suficiência das fazendas. Em cada uma dessas unidades se produzia de tudo. A alimentação vinha das lavouras, do gado, dos pequenos animais criados no quintal, das hortas, dos pomares. Do leite tirado nos currais se faziam os queijos, os requeijões morenos, a manteiga, os doces. Os cobertores e parte do vestuário vinham do algodão plantado por ali mesmo ou do pelo das ovelhas, tudo fiado, cardado, tingido, tecido e costurado em casa. Várias das fazendas tinham seu próprio engenho, onde se beneficiava a cana, do que resultavam açúcar, rapaduras, aguardentes. Quase todas tinham forjas, olarias, serrarias, carpintarias e marcenarias, que tornavam possível a construção de casas, currais, paióis e tulhas, a fabricação de carros-de-boi, charretes e carroças, a criação, desenvolvimento e manutenção de instrumentos, máquinas e ferramentas. 

Quando a família se mudou para a cidade, no final de década de 1930, entramos em outra era, a era do dinheiro em troca das mercadorias, ou das mercadorias em troca de dinheiro.

Para o abastecimento do básico, feijão, arroz, açúcar, batata e óleo, de que precisávamos em grande quantidade, já que minha mãe abriu uma pensão e também fornecia marmitas, havia os armazéns de secos e molhados, os atacadistas, galpões enormes e desprovidos de charme. Eu, mais nova e menos envolvida com as tarefas da casa, acompanhava minha mãe em todas as compras e bem que gostava de subir nas pilhas de sacas de gêneros, de ver o movimento de carregamento e descarregamento de caminhões e carroças, reparava nos enormes caixões de feijão mulato, feijão preto, feijão fradinho, feijão roxinho..., o arroz com casca, arroz pilado, apreciava o cheiro das réstias de cebola e alho. Ali se comprava em quantidades maiores, em sacas de 60 k ou latas de 20 litros.

Caso precisássemos de quantidades menores de algo, recorríamos às vendas, atraentes e curiosíssimas, onde se encontrava de tudo, para tudo, de todos os tamanhos, para todos os gostos. Mais ou menos como na imagem abaixo:


Comprávamos leite e manteiga em pequenas chácaras afastadas, e para chegar a elas atravessávamos pastos e pequenos córregos. (Inacreditável como o lugar dessas fazendinhas é hoje um centro urbano riscado de ruas e cheio de prédios e casas.) Ou também comprávamos o leite de vendedores que percorriam as ruas em carroças e o retiravam de dentro de latões com uma caneca de cabo longo.

Depois, numa fase mais moderna, desenvolveram um sistema em que o leite ficava dentro de recipiente hermético, enorme cilindro de metal com um litro de vidro invertido acoplado. Ver o leite subir até a marca de um litro e depois descer e sair pela torneira era um mistério insondável, assim como as vozes que chegavam pelo rádio.


Havia também o que chamávamos de fábrica de manteiga, verdadeiros empreendimentos de beneficiamento de leite que também atendiam o público no varejo. Uma dessas fábricas ficava na rua onde morávamos, num grande terreno em forma de L que abrigava pátio, usina de beneficiamento, venda, escritório e casa da família e tinha entrada por duas ruas. Para comprar manteiga, passávamos por uma área densamente arborizada com mangueiras, ameixeiras, laranjeiras e até um marmeleiro. Eu tinha sorte de ser amiga de uma das netas do dono da empresa, então às vezes atravessávamos o portão que ia dar na horta da casa da família. Ali eu me encantava com o jardim com um tanquinho no meio e canteiros de violetas, papoulas, dentes-de-leão, esporinhas, palmas-de-santa-rita, dálias, cravos, rosas. Dentro da casa caprichada eu me lembro ou não sei se forjei na imaginação um lustre com canutilhos pendentes. Mas tergiverso...

Ainda na nossa rua havia a fábrica de doces. Embora minha mãe fosse exímia em doces em geral e em frutas cristalizadas, às vezes lá comprávamos goiabada, marmelada, bananada. A fábrica se localizava em grande terreno, à frente do qual ficava a casa da família e eu também tinha a sorte de ser colega de um dos filhos. Eu adorava ir à fábrica, um ambiente úmido, quente e impregnado de cheiros doces, onde conseguia que me deixassem embalar barras de doces em papel celofane, selado em uma chapa quente. E gostava igualmente ou mais de entrar na casa rica, ensolarada, de pisos brilhantes e, principalmente, cheia de revistas em quadrinhos que lia avidamente, até mais do que quando saboreava os doces. Que saudade de Laura Jane e Tiquinho, Agostinho Mocho, Hortelino Trocaletra! Obrigada, Luis Carlos!

Embora nos quintais coubessem hortas e algumas fruteiras e sempre houvesse um galinheiro, a nova vida urbana, um maior intercâmbio com outras famílias e vizinhos, tudo isso acabava criando necessidade de outros artigos além daqueles a que estávamos habituados. Por exemplo, o macarrão, que não era tão comum na vida rural, tornou-se obrigatório com o novo hábito do ajantarado de domingo. E também começamos a nos familiarizar com novos legumes e frutas.  

Acompanhando minha mãe nas compras, na feira de barracas desmontáveis, escolhíamos frutas e legumes. Paradoxalmente, a maior variedade se encontrava nas feiras e mercados da cidade do que nas hortas e pomares da roça ou casa, onde praticamente só havia couve, chuchu e tomatinhos de cerca. Só de abóboras nessas feiras me lembro destas aqui: abóbora dágua, verde clarinho, pescoço comprido; abóbora de porco, no formato de uma bola de futebol americano, com gomos, rajada de cores indefinidas; moranga, aquela alaranjada, achatada, com gomos acentuados; mogango, verde-escuro rajado, também oval. Fico feliz que as feiras sobrevivem e estão vivas em praticamente todas as cidades do planeta, seja 1º., 2º., ou 3º. mundo. A imagem abaixo parece recente:


Se não íamos à feira ou ao mercadão, que sucedeu as feiras, podíamos esperar pela passagem das carroças dos verdureiros, geralmente imigrantes, fosse o português Artur Castanheira, ou o italiano Martinelli, com seus legumes, frutas e verduras fresquinhos, ainda molhados e cheirando a terra. São memoráveis os tomates-maçã, grandes, vermelhos e saborosos, produzidos pelo Artur.

Também vinham até nossas casas os fornecedores de peixe e, principalmente, os vendedores de dobradinha, ou fato, ou bucho. Para quem não conhece, trata-se do estômago do bovino, peça de cor amanteigada, de texturas várias. Encontrei aqui ótimas descrições e fotos do que se trata. Chegavam à nossa porta senhoras trazendo à cabeça latas de 20 litros cheias dessas peças molengas que, confesso, não eram bonitas nem cheirosas, mas que, trabalhadas pela habilidade de minha mãe, se transformavam em ensopado delicioso, que eu saboreava com gosto e ainda me divertia escolhendo as peças diferentes, as fininhas, as mais grossas, as em forma de favo de abelha.  
As padarias, além de terem lojas, também punham na rua carroças com seus produtos. No meio da tarde, primeiro escutávamos o patear do burro no calçamento de pedra. Aí víamos a carroça chegando, o condutor à frente, na parte de trás a enorme caixa abaulada de folha de flandres. Ao abrir essa caixa, éramos inundados pelo cheiro quente do pão novinho e crocante, pelo aroma de canela que emanava das roscas, pelo cheiro inconfundível de cravo e erva-doce nas broas e biscoitos. Ah, saborear tudo isso no meio da tarde, com café quentinho! Todos os sentidos ativados em poucos minutos!

A sequência da história todos conhecemos. Chegaram os supermercados e sua irretocável e inegável praticidade: tudo ao mesmo tempo agora. Sem mágoa. Só saudade.

sábado, 18 de junho de 2011

84, CHARING CROSS. MUSEU DO PRADO - PARTE II

Por Ana Paula Medeiros

Ah, o Museu do Prado, na Espanha. As semanas passaram, mas chegamos finalmente ao segundo andar (para conferir a primeira parte, clique aqui). Não sei se almocei antes ou depois disso, provavelmente antes. Fiz uma pausa, fui à cafeteria do próprio museu, pra nem perder tempo, comi um sanduíche e voltei.

Fiquei apaixonada por Murillo, um cara do século XVII, portanto completamente barroco. E as pinturas dele estão impregnadas desse espírito sedutor, pedagógico, aliciante, do barroco, que captura a gente pela emoção. Na Adoração dos Pastores, o foco de luz no menino Jesus é lindo, o pano branco que o envolve brilha. Nas suas pinturas, Maria é doce, morena, humana. Na Anunciação, ela é uma menina. Não há tensão nem conflito, as crianças e cordeirinhos são fofos, as cenas são íntimas, domésticas. La Inmaculada de El Escorial é uma das ascensões mais lindas que eu já vi.

Adoração dos pastores

Anunciação

Imaculada do Escorial


No segundo piso tem mais Goyas. O Retrato da Rainha Maria Luiza a cavalo aparece no filme Sombras de Goya (aliás, eu gostei do filme, você viu?). Ele foi um retratista espetacular da corte. Mengs, por exemplo, é um cara que também pinta retratos da realeza em fns do século XVIII, mas eles são mais reverentes. Goya é mais sarcástico. Parece que, apesar da pompa e da pose, ele capta a alma distorcida dos seus retratados só no brilho do olhar. Alguns retratos parecem inacabados, há borrões laranjas no fundo, por que isso? Eu gosto mais dos retratos de Goya do que de suas representações de cenas religiosas. As majas são lindas! Achei interessante a metalinguagem explícita no retrato de uma pintora que pinta o retrato de seu marido. E tem a série feita pós-invasão de Napoleão, como a revolta e os fuzilamentos de 3 de maio de 1808. Comprei uma camiseta pros meninos com um pedaço dessa cena. A estupidez da guerra e a falta de sentido e de razão em tudo está tão bem demonstrada ali.


Eu continuo fascinada com o brilho das roupas: cetins, sedas, rendas. Sei que eu perco muita coisa e que deveria ver tudo de novo e de novo. Há quadros diante dos quais se deveria parar por horas, que valeriam, sozinhos, a ida ao museu. Algumas pessoas se espantam quando eu digo que voltaria ao Prado ainda muitas e muitas vezes, e veria tudo de novo, sem falar no que não deu tempo dessa vez.

Velázquez é um gênio. Não é à toa que a porta principal de entrada do Museu é dedicada a ele, e tem a escultura dele na frente. A coroação da virgem é delicadíssima. Ao mesmo tempo, o retrato de Felipe IV me fez ter medo do cara. A roupa negra sobre fundo negro, a luz só no rosto severo, uma coisa bárbara! Os retratos de Velázques são mais cotidianos, sem as poses ortodoxas, mostram a dinâmica da família, é quase como uma dessas fotografias que a gente chama “instantâneos”, por mostrarem um momento capturado ao acaso.

Eu fiquei cuidando pra não ver Las Meninas antes da hora. Eu não queria espiar o quadro de repente, sem estar preparada, como aconteceu com a Guernica do Picasso. Quando cheguei na sala onde o quadro ocupa lugar de destaque, prendi a respiração. Por alguns segundos, fiquei sozinha diante da tela. Nenhuma outra pessoa, só eu. A tela é grande, eu achei que fosse menor. Li com atenção o texto explicativo que há ao lado, e reli os seus próprios comentários. Achei legal que, tendo a infanta bem ao centro, de vestido branco, o título aluda às serviçais. Tive um frisson quando percebi que Velázquez, no quadro, está olhando pra mim, como se também me interpelasse. Na verdade, dá vontade de sentar no chão e ficar olhando, olhando, até o fim do dia. A luz que vem lá do fundo, das escadas, é genial também. Mas o mais legal é ver o quadro mais de longe, dá outro senso de profundidade.

Quantos bufões e freaks ele também pintou. Aliás, não só ele.

Ribera também é bacana. Mas depois de Velázquez, nada mais parece tão bom. Assim mesmo, gostei da Madalena. Diz ali na etiqueta que ela é a madalena “arrependida”. Eu achei o quadro de uma sensualidade enorme. O rosto dela não me convenceu de nenhum arrependimento. Fiquei chocada com a Mulher Barbuda. Cruz credo!


Ribera pinta bem os velhos decrépitos, principalmente os santos. São sérios, as rugas encarquilhadas, as mãos artríticas, os olhos na sombra, a luz reflete na testa, de lado, faz a virtude parecer tão assustadora.

Depois teve Rembrandt. Eu já estava ficando cansada, não tem nenhuma anotação. E no entanto, eu lembro que gostei tanto da Artemísia.

El Greco é um capítulo à parte, e todo particular. São figuras compridas, linhas verticais, caras austeras, cores vibrantes. Apesar da luz, há menos brilho, os tons são foscos, os contornos são escuros, mais duros e delineados. É diferente. Gostei de um Santo Antônio que é quase preto e branco, em seus matizes de cinzas quentes e frios. Os cavaleiros têm barbas pontudas e poses cheias de dignidade.


De Rubens eu gostei das Três Graças e do Juízo de Páris. Na verdade gostei de muito mais. Os olhos são tremendamente expressivos. Amei as celulites das moças.

Eu vou ter que voltar lá. Eu tinha um compromisso à noite, e combinei com o marido de encontrá-lo no hotel de volta às 5, pra gente se arrumar pra sair. Por sorte, o hotel era quase na frente do museu, então, saí de lá 10 minutos antes, mas a verdade é que as últimas 2 horas de visita eu já não aproveitei tanto, tava cansada, saturada de tanta informação, guardei a caderneta. O certo teria sido dividir a visita em dois dias diferentes, cada um num andar, por exemplo, e resistir à tentação de olhar de novo o que já tinha sido visto no dia anterior, pra dar tempo de aproveitar melhor. Mas não fiz isso, e agora vou ter que voltar lá - assim que possível - pra ver melhor essa segunda parte. 

84, CHARING CROSS

VIAGEM PELA MÚSICA E PELA DANÇA

Por Esther Lucio Bittencourt

Bem , para mim a música, é uma viagem. assim como os poemas. Ontem à noite, após jantar no Royal Dansk, do Toninho, jantar é exagero pois foi apenas um fondue, fomos para casa do Fernando Niman, onde apreciamos Das Lied Von der Erde, de Mahler, para mim a peça mais linda dele, regida por Bernstein, magníficamente. Eu tenho três gravações distintas desta peça e  nenhuma delas se compara ao trabalho minucioso do Bernstein , que apreciei ontem.

Mas voltando para a Escola Municipal de Música de Caxambu, que é da Prefeitura, e onde se aprende música graciosamente quero falar sobre a minha primeira professora , a Karina. Ela tem uns ares da Capitu, de Machado de  Assis. Morena, olhos negros ou castanhos escuros, cabelos longos. Mas é uma alemã durante a aula. Um errinho e volta tudo de novo. Com ela aprendo violino e teoria. Aí , eis que o arco erra, os dedos tropeçam, e voltamos tudo de novo. Na teoria ela me ensinou o que sei. E tem muito mais coisa, pois se falasse no " Música para os Olhos" escreveria um livro, quase.....

Este ano entrou na Escola a Cristina. Dá aula de extensão vocal, piano, lá é teclado porque não tem piano, e teoria. Com ela aprendo teclado, extensão vocal e teoria. É loura, tem uma tez clarinha, e o sorriso que parece o sol, anima-nos em momentos de desespero no Halleluja de Handel e acredita ser tudo possível. Um dia farei uma entrevista com ela para que vocês entendam o porque ela acredita sempre. E a Sumaia, que nos dá aula de canto uma vez por semana, professora aqui da cidade e que resolveu doar um horário de seu tempo para Caxambu, que a recebeu de braços abertos.

Enfim, terminamos a noite na casa do Fernando, por volta de 1,30 da manhã assistindo a este vídeo na Tv, Pavane Opus 50, de Fauré porque ela sabe colocar, assim como a Ana, porque aprendeu com ele, toda a internet na Televisão. Este vídeo foi postado ontrem pelo Servio Tulio no Facebook e as imagens são de Paul Cezanne.


Foram tantas as emoções com Das Lied Von der Erde, A canção da Terra, aqui está o final dela, após termos visto as gravações que Fernando fez das Liturgias da Semana Santa em Tiradentes, Minas Gerais,

que esqueci de comentar com ele que assistisse ao que "Ce que la mort me dit" também de Mahler, dançada por Jorge Donn numa coreografia de Maurice Béjart em seu Ballet de XXe Siècle.
Gustav Mahler nunca era usado em Balé, Fauré sim e muito.

De novo Ce que la Mort Me dit, desta vez ensaio com Béjart, o de bigode.

Quando Nureyev morria, eu via este balé, com música de Mahler, usada ousadamente por Bájar, como homenagem ao bailarino, porque um tempo se confundiu com outro.

entrevista da Rai com Nureyev

Por fim, dirão vocês que uma pavane é uma pavane, Talvez tenham razão. Veja a semelhança desta de Ravel com a de Fauré:

ou é impressão minha?

Daqui a pouco entrará a viagem de Ana Paula Medeiros pelo Museu do Prado. O final da caminhada.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MÚSICA PARA OS OLHOS

Por Esther Lucio Bittencourt

A pessoa ouve a música e se deleita. Mal percebe os caminhos da montagem de uma partitura. Bem, eu era assim. Até que fui aprender violino. E uma coisa engatou na outra, veio o teclado. Só que violino, por ser um instrumento de cordas agudo, usa a clave de sol
que, antigamente era representada pela letra G.

Bem, no piano, usa-se na mão esquerda a clave de fá (é a que parece um ponto de interrogação com dois pontos) onde as notas ocupam posições diferentes daquelas da clave de sol. E, na mão direita, toca-se usando a clave de sol. Haja hemisfério cerebral funcionando perfeitamente.


O Violoncelo é o que usa as três claves: a de sol, a de fá e a de dó, que está na pauta acima, -pauta é o conjunto de 5 linhas e 4 espaços- que parece um três , com um traço mais grosso e outro mais fino, porque tem uma extensão maior de notas que variam entre o tom médio o grave e o agudo.

Aí você olha para a partitura, onde a música está escrita (pentagrama) e depara com uma Clave de Sol. Sabe então que o tom da música será em sol. Mas espere aí; falta muita coisa ainda... Ela está em sol menor ou maior, em sustenido ou bemol? Vamos ver?
Ao lado da clave, seja ela qual for, tem algum acidente? Alguma coisa escrita? Ah! tem dois números. Mas isto marca o tempo e o compasso, é outra coisa que depois conto. Além dos números tem mais alguma coisa? Pode aparecer casinhas da velha, os sustenidos, ou o b, que indica bemol.

Este monte de casinha da velha, ou seja, de sustenidos, chama-se de armadura de clave. Ela vai me dizer o tom da música. Esta está em dó sustenido maior.
Acha difícil? Espere, um pouco mais.

Vamos entender. O Dó maior é a escala padrão pois não tem nenhum bemol e nenhum sustenido. A partir dela são construídas as escalas maiores e menores.

Então antes de tocar a música preciso saber em que clave ela está, em que compasso, e se ela está sujeita a acidentes que aumente a nota em meio tom, como o sustenido, o que não significa duração de tempo, pois isto é outra coisa,ou a diminui, no caso dos bemóis.

Mas você quer saber sobre o tempo de duração da nota? Aí você precisa ver se é uma semibreve, ou até mesmo uma semi fusa. Deixemos para depois, aí você pode dar um nó nos ticos e tecos.

Então estou eu com uma partitura em sustenido e aparece um bequadro que anula tudo. A partitura está em lá sustenido, portanto, toda nota lá é elevada em meio tom. Mas eis que no lá surge um bequadro, outro acidente.
Vemos acima um bequadro na nota fá que está em semínima, que é esta coisica preta com uma haste para cima. Nem iremos falar sobre dobrado bemol, dobrado sustenido, meio bemol, meio sustenido para não complicar demais. Nem vou falar que a ordem da posição dos dedos sobre as teclas e sobre as cordas, assim como a ordem dos sustenidos e bemóis deve ser sempre obedecida. Ops... em Pour Elise, não. Uma peça para piano, fácil, fácil, composta por Beethoven onde o Ludwig escreve na partitura que dedos devemos usar para tocar. Ufa!


Olha o Beethoven aqui. E ficou surdo! E surdo compunha.

Segue a partitura de Halleluja de Handel, da obra Messias. Vejam como as notas estão representadas pintadinhas de preto, com rabinho e, por fim, uma semibreve seguida de uma pausa de mínima encerra o coro. Os rabinhos são das colcheias e semi colcheias.










Até agora está tudo claro?

Não? Complicado demais para iniciantes ? E olha que eu já estava entusiasmada para complementar esta música para os olhos.... De quem é a culpa desta dificuldade? De Deus, ora! Não foi ele quem fez o homem? Não foi o homem quem precisou dar fórmula aos sons? Culpem Deus, por favor, o responsável por tudo. Já cantava Amália Rodrigues:




homenagem à Amália

Foi Deus
Não sei, não sabe ninguém
Porque canto fado, neste tom magoado
De dor e de pranto . . .
E neste momento, todo sofrimento
Eu sinto que a alma cá dentro se acalma
Nos versos que canto
Foi Deus, que deu luz aos olhos
Perfumou as rosas, deu ouro ao sol e prata ao luar
Ai, foi Deus que me pôs no peito
Um rosário de penas que vou desfiando e choro a cantar
E pôs as estrelas no céu
Fez o espaço sem fim
Deu luto as andorinhas
Ai . . .deu-me esta voz a mim

Se canto, não sei porque canto
Misto de ternura, saudade, ventura e talvez de amor
Mas sei que cantando
Sinto o mesmo quando, me vem um desgosto
E o pranto no rosto nos deixa melhor
Foi Deus, que deu voz ao vento
Luz no firmamento
E pôs o azul nas ondas do mar
Ai foi Deus, que me pôs no peito
Um rosário de penas que vou desfiando e choro a cantar
Fez o poeta o rouxinol
Pôs no campo o alecrim
Deu flores à primavera ai
E deu-me esta voz a mim

quinta-feira, 16 de junho de 2011

CORRESPONDÊNCIA URBANA. O AMOR ESTÁ NO AR

ANA LAURA DINIZ CONVERSA COM CLÁUDIA LYRA


Cláudia por ela mesma: 42 anos, carioca, bacharel em Direito, com dois filhos lindos já adultos, dois cachorros e muitos amigos.

***
Oi, Cáudiiii Lyyyiiiira!!!

Como é que você está, querida?
Sabe que tem umas duas semanas que penso nas conversas que tínhamos via MSN e bateu uma saudade... daí pensei nos seus dias, e principalmente, a quantas anda você no quesito amor.
Então o desejo dessa correspondência. E como a mente funciona numa espécie de turbilhão, faço uma série de perguntas... algumas, talvez, aparentemente sem sentido, mas espero que fique à vontade para responder o que quiser, da forma como desejar, claro.
O que é amor para você? E de que maneira ele acontece?
Já teve momentos em que se sentiu dentro de "redemoinhos"? Se sim, eles foram positivos, negativos ou foram aqueles que apenas te deixam tonta, sem ar? Aliás, já lhe faltou fôlego ou sobrou em algum sentido? Já fez loucuras ou tomou sérias atitudes por amor? (Por que tem coisas que só por amor, né?).
Você acha que ama/amou as pessoas com as quais se relaciona/relacionou ou o que desperta mesmo paixão em você é o amor pelo amor?
Amar é difícil ou é um processo natural? Por quê?
Você separa amor da paixão? Ou acha que um está intrínseco ao outro?
Você está na fase do amor ou da paixão? E se ama, o que faz pesar para o amor ser maior que certas atitudes?
Amor tem receita?
Amor está atrelado a sexo?
Como você se compara hoje com a Cláudia de 5 anos atrás?
Acha que o amor e o sexo depois dos 40 é melhor? O que mudou? 
Seus filhos lidam bem com essa Lyrão que é puro amor? Apoiam seu amor, sentem ciúmes?
À propósito, ciúmes faz parte do amor? Ou considera ciúmes um porre? Acha que atrapalha ou apimenta a relação?
Já estivemos na era do ficar, agora parece que é a do pegar... mas na real, que era é essa que todos vivemos no amor? Saberia decodificar?
Se tivesse como fazer... como formularia o amor?
E existe amor sem transa, sem sexo?
Ou se há amor, tem que existir sexo?
Quantos tipos de amor existe? Acha que será assim: amará até o fim?

Beijos, beijos,
saudades sempre,
a amiga que te ama,
Ana Laura


***


Oi, NáLaura!!!


Já começa na veia, né? 
Hahahahaha... amor, amor...
Maluca! Enfim... amor é o que me move e eu nem sabia disso. Há até bem pouco tempo, achava que eu era racional. Mas agora, velhinha já, descobri que tive a sorte de, durante muito tempo, amar o que, racionalmente, era aceitável: amei meus pais, meu irmão, meu marido, meus filhos e tudo o que fiz na vida foi por eles. Então, perto dos 40, comecei a me questionar, se o rumo que dei à minha vida era aquele mesmo que eu queria e se eu me amava
enfim... o resto você já sabe: joguei casamento pro alto, me joguei numa paixão doida, tô num redemoinho só há três anos, hahaha.

Descasei, arrumei amantes (não necessariamente nesta ordem), tomei a iniciativa de pedir pra minha mãe ir morar em outra casa, essas coisas. Foi preciso muito amor por mim, principalmente, para fazer isso. Mas é aquela coisa já batida de amar a si próprio para amar os outros direito.

E se isso está acontecendo de fato... Olha... Não sei...

Amar é muito difícil. Porque amar tem a ver principalmente com altruísmo, que é muito difícil.

É muito difícil, por exemplo, acordar de madrugada pra dar de mamar, principalmente se o bico do teu peito tá todo rachado. É muito difícil, por exemplo, aguentar mal humor do marido desempregado. É muito difícil aturar a TPM da esposa. Amor e paixão são coisas bem diferentes pra mim. Mas é bem mais legal amar algo que você esteja apaixonada.

Hum... Estou numa fase de viver minhas paixões. Sou apaixonada por meu namorado, mas já aconteceram coisas que colocaram meu amor por ele a prova e o amor prevaleceu (Credo... frase piegas do carai...).

A empatia faz pesar para que o amor seja maior que certas atitudes...

Sempre que penso no que faz o amor funcionar, me vem a palavra empatia. Se não tiver empatia, não é amor.

A receita é essa: tentar sentir o que a outra pessoa tá sentindo. Uma vez li que "empatia é a sua dor no meu coração".

E é assim, um conjunto de coisas. O amor romântico sempre está atrelado a sexo. E sexo com amor é muito bom, mesmo quando é basiquinho. Um sexo oral em quem você ama vale mais do que todo kama sutra num PA qualquer.

Estou com 42 anos - até outubro pelo menos - e há cinco anos eu estava apavorada com a chegada dos meus 40 anos: insegura, me achando desinteressante, me sentia invisível. 

Naquela época fiquei muito focada no lance de atração sexual, se eu era atraente ou não. E isso desestabilizou todo resto. 

Meu ex-marido me olhava com o mesmo desejo que olhava a cômoda do quarto
(Pelo menos era assim que eu sentia). Outros homens não demonstravam interesse... Agora sei exatamente o meu poder de fogo e isso, de repente, passou a ter uma importância menor na minha vida. Virei "Lyrao" e isso simplesmente é só uma parte pequena de mim. Uma parte que não preciso me preocupar mais.

A parte maior tem a ver com os relacionamentos, família e amigos. Os homens que se aproximam tendem a virar amigos, porque adoro conversar, ser gentil, ser prestativa.

... meu ex, é claro, ficou muito magoado. Minha mãe tem toda uma preocupação religiosa, vou ser destruída no juízo final, essas coisas... porque, nesse meu redemoinho, também abandonei a religião e coisa e tal. Mas todo mundo reconhece que estou em paz, tô tranquila. Descontinuei algumas amizades, mas ganhei outras.

NáLaura, você tinha que ter me conhecido na época braba. Meu blog (abandonadíssimo) tem alguns textos que refletem minha cabeça na época. Cara... leio aquilo e até me assusto. Todo esse redemoinho é positivo, mas fico tonta e sem ar... ainda bem que tenho muito fôlego, hauahuahauahua.

E foi assim. Euzinha, perto dos 40 anos, comecei a achar que, se não desse uma guinada na minha vida naquela época, nunca mais daria e, decididamente, aquela não era a vida que eu queria. Então não vacilei e resolvi mudar tudo, só não mudei de emprego, hauhauahua.

Logo no início, fiquei loucona, virei mó baladeira, namoradeira que só, aquelas... me diverti muito! Com o tempo fui chegando no meu prumo. Tô feliz, tô tranquila, tô amando. Meus filhos estão bem, amo meu namorado. Pra ficar perfeito, só me falta mais dinheiro, huahauhau.

E meus filhos lidam bem com essa nova Lyrão. Não me apoiam no amor porque implicam com todos os meus "pretendentes". Talvez seja um pouco de ciúmes e meu namorado, sabe como é? é uma coisa polêmica, né?

É a tal coisa... amo alguém que, racionalmente, não era pra amar. E olha, ciúme é uma meeeerdaaaaa, um porre, mas é difícil não sentir, sei lá...

Não sou extremamente ciumenta, mas tenho ciúme de todo mundo: dos amigos, dos filhos, dos peguetes, do namorado. Tenho ciúme porque meu cachorro Pimpão obedece mais ao Lucas do que a mim. Credo, é um horror. Não acho que tem a ver com amor e, sim, com orgulho. E tudo depende. Quando é exagerado, atrapalha muito. Quando só te dá um apertinho no peito e te motiva a superar um suposto concorrente, apimenta. Sem contar que, quando a gente vê o outro tendo uma pontinha de ciúme de você, dá aquela sensação gostosa de que o outro te valoriza. Mas nada de exageros, escândalos e bafão - isso é horrível.

Olha... e essa coisa de tempo é uma coisa estranha. Na boa, não tenho o menor problema de "pegar" ou "ficar". Já me aconteceu várias vezes de estar em algum lugar e sentir vontade de ficar com alguém sem compromisso. Já rolou isso com amigos, inclusive. E a gente se deu uns pegas, satisfez o tesão e pronto acabou.

O que me incomoda é quando o sujeito (e isso acontece principalmente da parte dos homens em relação às mulheres) sinalizam com uma promessa de compromisso quando só querem mesmo pegação. Acho isso desonesto. Acho que a outra pessoa tem o direito de saber que é só pegação e escolher se está a fim disso ou não.

Uma vez, teve um cara que saiu comigo várias vezes. E nessas oportunidades nem chegou a me tocar. A gente ia almoçar juntos, tomar café, coisas assim
e só conversava. Quando ele me deu o primeiro beijo, olhou bem dentro dos meus olhos e disse que queria namorar sério comigo. Tão lindinho. Aí, alguns dias depois, finalmente fomos pro motel, e só nesse dia fiquei sabendo (por acaso) que o cara era casado. Sacanagem isso.

Outro cara me levou pra conhecer amigos, me fez surpresa à luz de velas regada a espumante, andou comigo por dois meses pra cima e pra baixo e aí um belo dia, ligo pra casa dele, e atende uma outra mulher que começou a fazer um escândalo. Fala sério... expõe a gente a certas coisas... não tem necessidade disso, gente... sou tão facinha, não precisa prometer nada, huahuahauhauahua... brincadeira... não é isso (é que sou boba, né, Nálaura, você sabe, se não fizer uma piadinha... não sou eu).

Mas imagina formular o amor? Só você pra me jogar essa... tipo E=m²? ixi... acho que errei a fórmula da energia... cara... acho que amor não tem fórmula. Tem coisas que são básicas, né? Respeito, empatia principalmente. Não tem amor que sobreviva à falta de respeito e não existe amor sem empatia. Também não existe amor romântico sem transa. Se for amor romântico, veja bem, não tem cabimento querer fazer sexo com a mãe, huahuahua.

Sério... duas pessoas que estão romanticamente ligadas? Tem que ter sexo, tem que ter tesão. É claro que o tempo que estão juntos e a idade e a saúde de cada um influenciam. Conheci um casal de idosos que deviam fazer sexo, sei lá, uma vez a cada trimestre, mas faziam. Porque não eram meros irmãos ou companheiros... eles eram romanticamente ligados. E a gente via isso em outros momentos dos dois. O cara, por exemplo, passava a mão na bunda da mulher disfarçadamente... e os dois já tinham mais de 80 anos. É um comportamento sexual, não é?

Pois é... rolava um tesão ali e era legal ver isso. Ela faleceu... tadinha, ela era muito doente, mas ela morreu parecendo mulher ainda... não era um ser assexuado. 

E não sei se será assim... não sei se amarei até o fim. Se eu continuasse casada com meu ex, não seria. E tem horas que rezo pela extinção da minha libido, porque homem dá muito trabalho.

E são muitos tipos de amor pra gente administrar, né? Ih, hahua, o filial, o fraterno, o erótico/romântico, o amor paterno/materno. Hum... bom... tem tempo que percebi que a vida é cíclica, tem fases...

E a gente é feliz se tiver paciência de esperar as fases ruins passarem... porque elas passam. 

Mas também não vale a pena ser inerte.

Sabe como é: a gente tem que estar sempre de espora, porque nunca sabe quando o cavalo vai passar, huahaua. Se a coisa te incomoda e você vê que tem como mudar, então reúna coragem e mude... Acho que é isso.



quarta-feira, 15 de junho de 2011

PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W. RIO DE JANEIRO!

Por Carla San

O Rio de Janeiro continua e sempre será lindo! Clichê total e absoluto, mas nenhuma outra frase poderia ser mais adequada para falar da minha cidade.

E existem tantos cantinhos lindos nesta cidade. Tantas possibilidades de contato com a natureza e com as pessoas, com o prazer de viver, que foi difícil escolher um para apresentar no Primeira  Fonte, mas como neste peito bate um coração apaixonado pelo Rio real, aquele que pertence aos cariocas de nascença, de adoção, ou por uso capião da terra, escolhi o bairro de Santa Teresa. Sejam todos bem vindos!


Santa, como é chamado pelos cariocas, é um dos bairros mais antigos e tradicionais do Rio. Cheio de charme, com suas ladeiras, seus casarões históricos, seus museus, seu clima agradável, sua tranqüilidade, sua bela paisagem, seus moradores, seu do modo de vida  próprio, que é mais um dos encantos do lugar. É refúgio de intelectuais e artistas que fazem do bairro um pequeno oásis  de manifestações culturais e também políticas. É comum encontrar ateliês de artistas plásticos e artesãos abertos ao público e músicos nas ruas durante os finais de semana.

E não poderia deixar de falar do simpático símbolo de Santa Teresa:  O bondinho!


Se você já foi à Santa Teresa e não fez o trajeto de subida usando o bondinho, tenha certeza meu caro,  foi um tremendo erro, pois negar  a si mesmo um passeio tão encantador só pode ser masoquismo! O bondinho sai  da Estação Carioca de Bondes de Santa Teresa, que funciona diariamente, das 7:00h às 21h30h e fica na rua Lélio Gama, sem número (ao lado do prédio da Petrobras).  O ingresso custa atualmente R$ 0,60 e o bonde passa pelos Arcos da Lapa e percorre as principais ruas de Santa, mas vale a pena descer no Largo dos Guimarães ,  coração do bairro, para caminhar pela Rua Almirante Alexandrino, e escolher um dos ótimos restaurantes, bares e cafés encantadores concentrados no local, pois esta é outra característica marcante do bairro,  a presença de opções(cozinha brasileira, japonesa, alemã e natureba, nordestina e outras!), onde unem-se ao charme do local, a boa gastronomia e ao jeito carioca de viver sem pressa, saboreando cada instante do dia.  Os mais conhecidos são o Aprazível, a Adega do Pimenta, o Bar do Arnaudo, o Sobrenatural, o Bar do Mineiro, o Espírito Santa e o Cafecito.


Um dos meus favoritos é o Sobrenatural, que tem como especialidade a cozinha brasileira e os frutos do mar. A decoração é uma homenagem ao bondinho. O ambiente é tão aconchegante que as pessoas perdem totalmente a noção do tempo  quando estão lá.

Imagem: Marcelli Maia
Logo na entrada somos recebidos por esta nêga simpática, com seus encantadores olhos de ressaca como os de Capitu. Só por desencargo, a nêga simpática é a de vermelho, eu sou nega, mas não posso ser tão simpática porque isso sempre dá encrenca em casa..rs..

Carla San em seu momento Capitu

Santa Teresa é um bairro para ser sorvido aos poucos, apreciado em cada pequeno detalhe. Com histórias pitorescas, lendas urbanas e personagens reais que circulam pelo bairro até hoje.   
Cafecito
Foto: Autumnleaf

HELLO DOLLY! UM CELULAR E UM EX-MARIDO

Por Dorothy Coutinho
 
Dentro de poucos anos as crianças já nascerão com um micro celular implantado na orelha lembrando tempos idos, quando era obrigatório o furo nas orelhas das meninas.

A coleira eletrônica não me afeta diretamente, mas indiretamente. Na família, parentes próximos e distantes, conhecidos e amigos todos tem um celular, alguns têm dois ou três. Já está à venda na Europa um celular tão minúsculo que pode ser embutido debaixo da pele na altura do gogó. Ninguém percebe. Nada no bolso ou nas mãos! Ele liga e desliga com uma simples sacudidela “espanta mosca” na altura do pescoço.
 
O que me incomoda e penso em outras pessoas que também devem ficar desajeitadas com a situação é caminhar numa calçada tendo alguém ao meu lado, no mesmo ritmo, ou a uma distância razoável, falando ao celular, num tom de voz tão alto, que qualquer tentativa de quem está por perto de não ouvir o diálogo se torna inútil. Parece que esse tipo de demonstração em público está se tornando um hábito para quem usa celular no meio da rua.
 
E aconteceu há poucos dias quando uma bela e formosa senhorinha, de boa aparência, demonstrando “estar com a macaca” mandou essa no diálogo que travava:
- “pimenta no ku dos outros é refresco”!
Seu tom de voz era raivoso, a um passo da indignação, dragão mesmo, soltando fogo pelas ventas. Do lado de lá deveria estar ocorrendo algum tipo de cobrança.
- Eu aqui, dando um duro danado e você me sai com essa?
- Porque você não me liga para agradecer o celular novo que eu comprei para ele?
Sem dúvida o papo era de um “arranca rabo” entre um casal. Parecia uma união desfeita que deixou um filho de herança, com uma grande cobrança por parte do pai.
- E você, que não dá a refeição quando ele está com fome?...! Ele sempre reclama quando volta para casa. Pai desnaturado! Pensei.

E no caminho das cobranças mútuas, o papo também seguiu junto no celular daquela mulher.
 
Esse tipo de conversa a gente só ouvia quando acontecia uma linha cruzada com a vantagem de se ouvir os dois lados! Esse diálogo de um lado só, que a gente está se acostumando a ouvir no celular alheio, é muito mais numeroso. É impossível andar um quarteirão sem ouvir o trecho de uma conversa que deveria ser particular.
 
Outra chatice é o toque das chamadas desses aparelhinhos infernais. São infinitas as demonstrações de sons. De Mozart a Florentina do Tiririca, saem daquela coisinha tão pequenina e tão vibrante!
Nas calçadas, nos supermercados, em salas de esperas, enfim, em quase todos os ambientes de uso coletivo, a cada dia o som dos toques das chamadas fica mais alto. Em breve teremos um trio elétrico dentro de cada bolsa ou bolso. Acho que não vou sobreviver.
 
Sobre a mulher “dragão” que soltava fogo ao falar no celular, pensei: essa história vai acabar nas barras de um tribunal!
Eu não botaria minha mão no fogo por esse ex-marido!