quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

HELLO, DOLLY! AS FÉRIAS E A LAGARTIXA

Dorotthy Coutinho


A mulher sonhava em fazer um cruzeiro num transatlântico de luxo, com direito as noites de luar no Caribe, drinques coloridos à beira da piscina, lugares exóticos com nomes românticos: Galápagos, Barbados, etc.
- Praia! – gritou a filha.
- Serra! – gritou o filho.
- Quintal! Sugeriu o pai, pensando na “grana preta” que ia gastar.

Praia e serra, uma semana em cada uma, esse foi o acordo. O cruzeiro no Caribe ficou aguardando a improvável circunstância do pai morrer e a mãe se casar com um ricaço. Tinham ouvido falar de um hotel novo numa praia ainda não desenvolvida, com preços promocionais, numa distância razoável, calculada as probabilidades de irem e voltarem no carro ano 90 da família, sem nenhum problema mecânico no meio do caminho.

Para a praia, portanto. Uma semana!
Tudo no carro: pomada contra queimadura, repelente, quinino, tabletes de sal, ataduras, antibióticos, lança-chamas contra um possível ataque de formigas gigantes, e o computador portátil para manterem contato com a civilização. Mas estava faltando algo importante para o papai: os cinco livros de Agatha Christie que segundo ele, o manteriam longe do sol, da areia e da água fria por toda a semana.

Foram dormir e lá pelas tantas da madrugada o pai foi acordado com algo macio e morno passeando na sola do seu pé direito – que sempre ficava descoberto - quando se deparou com uma lagartixa, hóspede permanente daquele hotel fugindo em disparada.

No dia seguinte na hora do almoço no restaurante do hotel:
- Eu pedi peixe.
- O senhor pediu peixe.
- Exato. E isto não é peixe.
- É sim senhor.
- Não, meu amigo. Isto é carne. – É peixe. – É carne. – É.
- Pode ser peixe-boi.
- O senhor quer trocar de prato?
- Não, não. Isto está ótimo. Bife com molho de camarão. A gente deve experimentar tudo na vida.

Coisa fascinante é o ciclo da vida que se manifesta durante as férias. Os mosquitos nos comem, as lagartixas comem os mosquitos, e mais cedo ou tarde servirão a lagartixa no restaurante do hotel, sem sal. O ciclo se completa e a vida segue o seu curso.
No dia da volta estava tudo no carro: a prancha, as conchas, tudo. Inclusive a lagartixa.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

QUITANDA DA VIDA

Telinha Cavalcanti


Quem não comeu bolo formigueiro não teve infância. Tenho dito.

Ingredientes do bolo:

3 xícaras (chá) de farinah de rigo
1 xícara (chá) de chocolate granulado (aquele de enrolar brigadeiro e não, não serve o granulado colorido. o bolo é formigueiro e não arco-íris)
1 colher (sopa) de fermento em pó
5 ovos
2 xícaras (chá) de açúcar
1 xícara (chá) de óleo (canola, de preferência)
1 xpicara (chá) de água
margarina e farinha de trigo para untar a fôrma

Ingredientes da calda:

1 xicara (chá) de leite
1 colher (sopa) de essência de baunilha
1/2 lata de leite moça (150 gr, aproximadamente)

Como fazer

Em uma tigela, misture os ingredientes secos: farinha, granulado e fermento.
No liquidificador, bata os ovos, o açúcar, o óleo e a água. Junte aos ingredientes secos na tigela e misture bem com uma colher de pau ou de silicone.
Coloque em uma fôrma grande, que pode ter furo no meio ou não. O importante é que ela esteja untda e enfarinhada.
O forno deve ser pré-aquecido em temperatura média (200 graus, mais ou menos), durante 30 minutos ou até o bolo estar assado por inteiro; faça o teste do palito de dente.

Faça a calda e regue com o bolo ainda morno. Se preferir, faça uns furos com o garfo para que a calda penetre bem na massa. Polvilhe com açúcar de confeiteiro e sirva.

Imagem: Receitas Caseiras de Cátia

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Dinâmica do saber



                                                                         Bachelard


A ciência, a filosofia e qualquer outro ramo de saber demoram anos e décadas para conseguir avançar em suas conquistas. Nem sempre se percebe de início o lado útil e pragmático de uma descoberta. Um pesquisador e um estudioso têm que ser antes de tudo pessoas pacientes, de uma persistência acima da média. Há dados intermediários, dos quais dependem outros e outros. Há dados enganosos, que fazem perder tempo ou invalidam conquistas anteriores. A vocação da pesquisa é árdua e exige dedicação integral.
Dedicação no entanto subentende outros aspectos dessa maratona. É preciso antes de tudo que haja motivos de ordem subjetiva bastante fortes, que haja prazer no que se faz. Não é novidade. Em qualquer área de atividade humana, a busca da perfeição envolve satisfação e bem-estar que justifiquem infindáveis horas de trabalho e até, como no caso dos Curie - ou do Aleijadinho, em outra área - sacrifícios físicos que no entanto não os impediram de trabalhar sem esmorecimento.  Esses motivos constituem o próprio impulso, a razão de alguém se lançar pelo caminho das pedras rumo a um resultado.
Explicar esse impulso é tarefa temerária. Freud o atribui à busca de satisfazer pulsões que, de outro modo, poderiam responder por comportamentos desastrosos do ponto de vista social. Dá a esse fenômeno o nome de sublimação, às vezes interpretado como a procura da perfeição ou do sublime no sentido do belo. Na verdade, hoje se acredita que o processo não envolve necessariamente essa intenção, mas apenas dá uma utilização digamos produtiva à satisfação das pulsões inconscientes.
Gaston Bachelard vê, na origem do interesse pela pesquisa e investigação científicas, a imaginação, o sonho, o devaneio. A visão dele tem a ver com a primitiva explicação de Freud, embora a localize em sua própria área de trabalho, sem fixar sua origem e sem a generalização feita pelo pai da psicanálise. Para Bachelard, isso se explica porque toda hipótese responsável por uma pesquisa está enraizada no processo criativo e livre pelo qual se imagina ou fantasia alguma coisa.
Existe até uma teoria, defendida por Jean Rancière e alguns adeptos ilustres, que explica o aprendizado como exercício do desejo do aprendiz e não como uma distribuição fragmentária do saber maior de um mestre por seus alunos, como acredita a visão tradicional da pedagogia. O livro de Rancière chama-se O mestre ignorante, onde o autor conta o episódio de um mestre que apenas orientou – não “ensinou” – os estudantes para que aprendessem outro idioma e pudessem compreender ideias que ele próprio não dominava de todo. Pensando bem, faz sentido, já que o maior obstáculo ao aprendizado é o desinteresse do aluno.  
Uma outra face da questão está em que, em qualquer disciplina, o saber ético visa sempre explicar e/ou mudar a vida das pessoas para melhor. Se não for assim, é um saber que vira a cara à realidade. Pode produzir apostilas, ensaios, monografias, livros e artigos em publicações especializadas, anais de congressos e seminários. Se ninguém no entanto precisar desses dados para melhor compreender alguma coisa que tenha cheiro de gente e seus correlatos, eles serão certamente consumidos pelo fogo frio da inutilidade que arde em milhares de estantes, bibliotecas e depósitos de papel esquecidos pelo mundo. No pior dos casos, podem mesmo servir a ideologias destruidoras e mesquinhas, como a teoria posta a serviço da inexistente superioridade genética de certas “raças” humanas.
Ao contrário do que imaginam os desavisados, o verdadeiro saber não pretende ser instrumento de poder para poucos, não é arrogante e não exclui ninguém de seus benefícios. Quanto mais se domina um ou vários assuntos, mais claro se percebe a fragilidade humana e a finitude da qual ninguém escapa. O prazer que o conhecimento propicia é íntimo, simples e irresistível. Muito parecido com uma paixão, ele aquece e faz caminhar, leva sempre a quebrar limites, estende para mais longe o horizonte e dá novas razões de viver.  Títulos e diplomas podem existir para efeito externo, podem ser úteis para a vida profissional, mas provam muito pouco. O conhecimento é uma luz sempre acesa, a certeza de um sentido para a vida, uma garantia de não estagnação.

domingo, 13 de janeiro de 2013

SENHORA DO TEMPO: LIMPANDO

Vera Guimarães

Na lista de compras desta semana, lá no finzinho, um produto que ainda não tinha sido pedido aqui em casa. Quer dizer que não basta um produto que limpe, tem que limpar cerâmica? E não basta que limpe piso cerâmico, tem que ser específico para porcelanato? Até parece com algumas especialidades médicas: Dr. Fulano, especialista em  joelho esquerdo.

As auxiliares domésticas sempre me surpreendiam com pedidos de produtos, nunca era eu a descobridora de novidades. Uma delas nos pedia ZIÓ para limpar forno, que eu buscava inutilmente nas prateleiras.

Meu desinteresse pelas novidades talvez derive do fato de eu ser antiga, menina da década 1940, quando sabão era sabão, shampoo era xampu, abrasivo era areia. Verdade!

Na minha cidade do interior de Minas, ainda não totalmente urbanizada, ainda meio rural, conheci sabões artesanais, feitos com a matéria-prima que estivesse disponível. Como eu era muito pequena, não participava da fabricação do sabão preto, apenas via a movimentação e conheci a expressão dicuada, ou decoada, provavelmente significando “de (cinza) coada”. Hoje sei que aí se desenrolava uma clássica reação química, envolvendo ácido, base, potassa, saponificação. Aqui tem uma boa descrição do processo.

Na fazenda de algum dos tios, via mulheres lidando com a cinza, a gordura (animal ou vegetal), os tachos fumegantes. A massa daí resultante era posta a secar, em bolas ou blocos luzidios de sabão preto, que depois eram envolvidos em palha seca e armazenados nos jiraus. E pronto, era com ele que se lavavam as vasilhas, os pisos, a roupa, e até mesmo o usávamos no banho, pois nem sempre havia sabonete.

As vasilhas eram lavadas em regos que passavam perto das casas, ou até mesmo por dentro de alguma varanda coberta, contígua à cozinha, cúmulo do conforto.  Além do citado sabão preto, usávamos areia fininha para arear as panelas.

Nas fazendas, a roupa era lavada em córregos, regos, poços, de preferência onde houvesse pedras ou lajedos, nos quais a roupa era posta a quarar e a secar. Era um serviço pesado sair carregando à cabeça bacias de roupa, balaios com sabão e lanche, às vezes um bebê, aí atravessar pastos e lavouras até chegar à água, então esfregar, estender e recolher a roupa lavada... Eu, muito tempo depois,  já adulta, trabalhava em uma fundação dedicada a projetos de capacitação profissional para mulheres carentes. Um desses projetos era o de lavanderias comunitárias, que seriam construções simples em algum ponto do lugarejo, com água canalizada, tanques e pontos de energia para passação das roupas. Muito justo: acabavam o desconforto, as longas distâncias, os corpos dentro da água, as posições sacrificantes para a coluna. Era o que pensávamos, nós, as burocratas urbanoides. E não é que ouvimos de algumas comunidades que não, muito agradecidas, não queremos lavanderia. Em pesquisa posterior, descobrimos que as mulheres prezavam demais aquele espaço de tempo longe de tudo e de todos, apenas tendo a companhia das amigas mais chegadas, quando podiam cantar, falar o que quisessem, se soltar... Jamais imaginávamos que, mais que o desconforto, importava a elas a libertação, ainda que temporária, da rotina doméstica solitária.

Lavávamos os cabelos com sabão de coco e eles ficavam limpos e sedosos. Na minha adolescência apareceu o xampu Halo, alguém se lembra? Eu juntava trocados para comprar o meu. E também para comprar o Sabão em Flocos LUX, que vinha em pequenas lâminas em forma de losangos, próprio para lavar as primeiras roupas de malha compradas prontas.

Hoje as sortidas prateleiras dos supermercados me enlouquecem. São detergentes verdes, azuis, vermelhos, roxos, rosas, azuis. Não sei por qual birra, só tolero material de limpeza transparente, castanho ou verde. Vai entender!

Os xampus de hoje têm variedade desconcertante: para cabelos tingidos, lisos, para quem quer lhes dar volume, colorir, amaciar. Até parece! Xampus são apenas detergentes. E tome produtos para repor o que os detergentes tiraram. São os condicionadores, cremes de pentear, relaxantes, gloss, silicone, mousse para ativar cachos.

Também tenho solene antipatia de cosméticos com cheiro, cor e forma de comida. Existe uma rede internacional de perfumaria cujas lojas se assemelham a mercearias, e os produtos - sabonetes, esfoliantes, sais de banho, xampu em barra, hidratantes -, parecem queijos, frutas, legumes, gelatinas, pudins. Eca! Não gosto!

Estou muito implicante hoje. Sei que a vida anda pra frente, que o setor de produtos de limpeza movimenta bilhões de reais, que gera milhares de empregos. Fico por aqui, pois!

Ah, e o ZIÓ? Ora, EASY OFF! Que mania de inglês! Fica o mote para outra crônica mal humorada. 

Fig. 1 – foto da cronista
Fig. 2 -   Propaganda antiga de Sabão em Flocos
    

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

HELLO, DOLLY! BOM MESMO É...

Dorothy Coutinho

Numa conversa animada entre homens e mulheres um grande amigo estava presente. Ele e sua pressão alta e a dieta rigorosa que o caso exige.
O papo estava meio dividido sobre o masculino e o feminino.
E lá estava ele no meio do assunto, motivo da animação da ala masculina. Silencioso e triste suspirou fundo e disse em voz alta para que todos o ouvissem:
- vocês ficam aí dizendo que bom mesmo é mulher. Bom mesmo é sal!

É. Faz sentido.
O que diferencia os estágios da experiência humana nesta Terra é o que o homem, a cada idade considera bom. Melhor do que tudo. Bom mesmo.

O recém-nascido diria bom mesmo é mãe.
Na infância o cheiro do caderno novo?
- Não. Bom mesmo é o cheiro de Vick-Vaporub.

Na pré e na adolescência tudo passa a ser mais difícil na escolha do viveiro de prazeres: bola de gude, fazer xixi na piscina, jogar futebol e dar aquele passe de calcanhar.
Logo em seguida o homem se sente na obrigação de pensar que bom mesmo é mulher – ou prima que é parecido com mulher -, mas ainda acha que bom mesmo é acordar na segunda-feira com febre e não precisar ir à aula.

Depois, sim, vem a fase em que não tem conversa. Bom mesmo é sexo!
Esta fase dura geralmente até o fim da vida, mesmo quando o sexo precisa disputar a preferência com outras coisas boas.
Quando alguém diz que bom mesmo é outra coisa, está sendo honesto ou original.
- Bom mesmo é goiabada com queijo.
- Melhor do que sexo?
- Bom. Cada coisa na sua hora.

Já na idade madura, mesmo com o consenso de que nada se iguala ao prazer, mesmo teoricamente, o homem sentirá que as necessidades dos pequenos prazeres da vida prática vão se impondo.
E então ele dirá: meu filho, eu sei que você aí tão cheio de vida e de entusiasmo, não vai compreender. Tome nota do que eu digo por que um dia você concordará comigo: bom mesmo é escada rolante.

Esta é a trajetória do homem e seu gosto inconstante: do colo da mãe à descoberta final de que uma boa poltrona reclinável é algo muito bom, mas que bom, mas bom mesmo é nunca mais ser obrigado a ir a lugar nenhum, mesmo sem febre.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

QUITANDA DA VIDA

Telinha Cavalcanti


Eu voltei, agora prá ficaaaaaar porque aquiiii, aqui é meu lugaaaar!

E voltei com um feijãozinho tropeiro de comer rezado!

Ingredientes:
200 gr de bacon cortado em cubos
5 colheres de sopa de manteiga de garrafa
1 lingüiça calabresa fatiada
1 cebola cortada em cubinhos
2 dentes de alho
4 ovos
2 xícaras (chá) de feijão carioquinha ou mulatinho já cozido, com caldo
4 folhas de couve sem talo cortadas bem fininhas
2 xícaras de chá de farinha de mandioca
sal e molho de pimenta vermelha a gosto

Como fazer:

Em uma frigideira grande, em temperatura média, frite o bacon na sua própria gordura. Depois acrescente a manteiga de garrafa e refogue bem a cebola e o alho (picadinho ou esmagado, à sua escolha). Adicione a lingüiça calabresa fatiada e deixe dourar, mexendo sempre.
À parte, bata os ovos levemente só para incorporar as gemas. Coloque na frigideira, mexendo bem. Quando os ovos estiverem fritos, junte o feijão - sem caldo - e a farinha de mandioca. Continue mexendo até tudo estar bem misturadinho. Coloque o sal e a pimenta a gosto. Junte o caldo do feijão, aos poucos, para não empapar. Quando a consistência estiver boa, corrija o sal e, por fim, acrescente a couve picadinha.

imagem: GCN Receitas





segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Todos por um





Dade Amorim






Num tempo em que pensar parece coisa fora de moda, porque já existem modelos prontinhos pra ser usados, e as escolhas estão cada vez mais limitadas às ofertas consagradas pelo mercado, gostar de alguma coisa tornou-se meio que uma convenção. Sair dos padrões em uso é motivo de estranheza e má vontade por parte de certa massa de gente pré-fabricada, de cabeça feita pra encher os bolsos de uma indústria de espetáculos acelerados e barulhentos, que se dedica a impedir que seus consumidores possam pensar alguma coisa enquanto se agitam sem trégua. Essa educação pelo barulho liquida a capacidade de refletir e a liberdade de escolher o que realmente agrada a cada um. Barulho e agito demais prejudicam não só a audição como também criam calos na sensibilidade.

Por conta disso, boa parte de nossa gente perde a oportunidade de conhecer autores que nos enriquecem pela leitura, nos ajudam a desenvolver o senso crítico, estender o vocabulário e perceber certos mecanismos de nossa língua na sutileza de um bom texto.

Na segunda aula da Oficina do Conto, no Portal Literal, José Castello fala dos contos de Machado para mostrar como a narrativa curta pode ir muito além da história narrada e traduzir idéias.

No conto O espelho, por exemplo, o autor expõe um ponto de vista segundo o qual as pessoas têm na verdade duas almas – uma interna, que olha o mundo de dentro para fora, e outra externa, que se vê de acordo com os olhos do mundo a sua volta. Em nosso caso – “Um mundo em que as pessoas costumam ser reduzidas a títulos, a contas correntes, a imagens na mídia, a currículos, a crachás. A ‘alma exterior’ dá as cartas num mundo que se define pela superfície e pela velocidade e que tem horror à profundidade e à lentidão –” pode-se perceber o quanto o velho Machado é atual ainda hoje. E necessário.

É na capacidade de ser atual, mesmo fora de seu tempo, que reside uma das características do bom escritor, chame-se ele Machado, Poe ou Mia Couto.


domingo, 30 de dezembro de 2012

SENHORA DO TEMPO - "E SE..."

Vera Guimarães
 
Marido anda maravilhado com maciços de árvores de grande porte cobertas de ouro amarelo que, neste dezembro, se exibem por muitas vias de Brasília. Ao admirá-las mais uma vez, agora ali perto do Corpo de Bombeiros da Esplanada, esclareci: Canafístula! 


Por que preciso dar nomes às coisas, principalmente às da natureza ? Por que gosto de saber quem é quem? Por que não me basta o encanto do canto do passarinho, por que tenho necessidade de saber que é uma garrincha?  Apesar de não dar a mínima para horóscopo, já ouvi dizer que taurinos são chegados a uma classificação, a ordenamentos, categorizações. Sou taurina e sou assim.


Acho que esse interesse por nomear as coisas me veio nas muitas andanças com minha mãe, quando ela naturalmente ia dizendo o nome de uma planta, de uma raiz, de um animal, de uma pessoa, de um lugar...

Quando terminei o hoje denominado ensino médio e quis me encaminhar para Letras, tive que fazer o que se chamava adaptação, uma espécie de nivelamento ao então Científico (ou Clássico), já que eu havia feito o curso técnico de Contabilidade. As matérias que escolhi foram Latim (muito coerente com o que eu pretendia) e Biologia. Biologia? Por quê? Acho que me agradava exatamente o ordenamento, as classificações, a taxonomia.

Ainda hoje me pergunto por que não fui estudar Biologia. E se...? Essa bobagem de ficarmos pensando na vida que não vivemos teima em nos assaltar de vez em quando, principalmente quando estamos deprimidas, insatisfeitas com algo, nostálgicas. Recentemente, escutei de uma amiga, das pessoas mais admiráveis que já encontrei, pessoa que vive de forma arrojada, que enfrenta o senso comum, pessoa que faz história por suas ações, que faz diferença na vida de muita gente, que se lança em empreendimentos que lhe consomem o tempo, a saúde e a sanidade, pessoa que se dedica a atividades variadas,  desde criação de cavalos de raça até canto erudito, pois bem, ouvi dela que às vezes acha que deveria ter feito tudo diferente. Ora, Esther, faça-me o favor!
 

Deixe isso para pessoas fracas ou para a literatura e as artes. Uma de minhas autoras preferidas, a Lionel Shriver, escreveu um livro sensacional explorando exatamente esse “ E se...?”  Em O Mundo Pós-Aniversário ela nos conduz pela vida dos protagonistas, ora na perspectiva do que aconteceu a partir de determinada decisão, ora na perspectiva do que aconteceria se a decisão tivesse sido outra. Possibilidades infinitas e fascinantes! E a gente torcendo para que o caminho tivesse sido esse ou aquele.
 
No cinema também tem disso. Corra, Lola, Corra! é feito de cenas que repetem determinado fato e a cada repetição se avança mais um pouco no tempo, quando os fatos se alteram  e mudam a história, num ritmo  aflitivo, desastroso, tenso, com um desfecho muito bem construído.  

Outro filme nessa mesma linha é De Caso com o Acaso, relatos paralelos da vida da protagonista, um na hipótese de ela ter conseguido entrar no vagão que fechava a porta, outro na hipótese de ela ter perdido a viagem.
 

Por que mesmo estou falando de livros e filmes? Ah, por causa do tormentoso “E se...?” Então, e se eu tivesse feito Biologia? Talvez não gostasse tanto de descobrir o nome das coisas, como de fato gosto.


Fontes:

Fig. 1 - Canafístula
Fig. 2 – Garrincha
Fig. 3 – O Mundo Pós-Aniversário
Fig. 4 – De Caso com o Acaso

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Rio, cidade ambígua

                                 
Imagem sem nome de autor.


O Rio tem um quê de inesperado. Aqui acontecem coisas difíceis de encontrar em outras cidades do mundo. Até mesmo coisas desabonadoras acontecem por aqui com certa naturalidade. São traços de personalidade que os cariocas e seus amigos de fora vão absorvendo, à medida que se acostumam às ruas, bairros urbanos ou da periferia. São cenas típicas, sentimentos que se instalam na gente que vive aqui; paisagens que incorporamos ao dia-a-dia; costumes que se adotam sem saber bem por quê. Nada mais característico do Rio do que essa sensação de gratuidade, esse contágio fácil que vai generalizando um jeito de viver e agir; que inventa hábitos, expressões, gírias que acabam incorporadas ao carioquês. O jeito de vestir irreverente, a informalidade. A vivacidade, uma espécie de astúcia malandra de procurar o que fica mais simples, mais à mão, o que soa mais despreocupado e casual. A alegria de viver que chega às raias da inconsequência. Um certo atrevimento. E mesmo no inverno, o descaramento de sair sem casaco num frio de dez graus. Ou de casaco e sandália havaiana. Só um carioca pode fazer questão de ignorar o guarda-chuva, faça o tempo que fizer. E as (poucas) cotias do Campo de Santana, ao que parrece, são as únicas no mundo que não fogem das pessoas. Passa-se pela lagoa e lá está uma ave desafiadora na proa de um barco, e a gente para só para ver seu voo se desenhar no meio do céu. O carioca, do mais sofisticado ao mais simples, é um contemplativo.
De repente, um poodle miniatura chama para a briga os pés de quem passa e todos se encantam por ele, enquanto sua dona segue adiante e deixa na calçada os dejetos do bichinho como se não tivesse notado. Ninguém como um carioca sabe se fazer de desentendido, quando lhe interessa. Ninguém desconversa melhor. E ninguém liga pra isso; há uma ética do desinteresse que sustenta a infinita tolerância carioca para com a contravenção, o crime, a bandalha, o relaxamento. O carioca é um leniente que perdeu o freio. 
São cariocas os motoristas machões e marrentos e o poder desassombrado dos pivetes de qualquer idade. Carioca é cheio de saídas criativas. Improvisa, programa só pra não cumprir e não cumpre horários, a não ser que o emprego seja dos bons (aqui é preciso abrir uma exceção para os políticos de assembleias legislativas, que também não cumprem horários nem calendários, embora o emprego seja dos melhores de que sem tem notícia). Carioca pode conviver com o caos e a promiscuidade das ruas, dos bares, das boates sem perder uma ponta de compaixão e uma leveza que recria pessoas e ambientes, mas de repente se invoca (se irrita) por qualquer bobagem e parte para a briga.
É bem a nossa cara virar padrinho de um garoto de rua, ficar inteiramente eufórico por isso e depois perder o afilhado de vista. Acreditar cegamente em alguém só porque tem uma boa conversa. Apaixonar-se de repente por alguém que nunca viu. Fazer amizades instantâneas como se morasse no paraíso.
E no entanto o paraíso carioca é cada vez mais apenas uma linda paisagem. Parece que as virtudes desse povo criaram raízes tão enormes que, com o passar do tempo, viraram um cipoal em que se tropeça a toda hora. Porque uma virtude é o extremo oposto de um defeito, e acontece que os extremos sempre se tocam.