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domingo, 14 de agosto de 2011
SENHORA DO TEMPO , NARRAÇÃO DE TEXTOS LITERÁRIOS
(minha experiência)
Por Dôra Guimarães
Dôra Guimarães e Elisa Almeida(google)
Dôra Guimarães e Elisa Almeida (google)
Nasci em Curvelo, em 1943. Aos 19 anos, vim para BH fazer o curso de Letras. Durante quase 30 anos lecionei em escolas públicas de Minas e São Paulo. Perto de me aposentar, descobri a narração de histórias e a possibilidade de me ocupar com algo prazeroso depois que me afastasse do magistério.
Quando estudante de ensino médio, gostava de recolher dos livros que lia os textos mais líricos, as expressões mais poéticas e depois ficar repetindo-as oralmente para mim mesma saboreando sua magia, seu encanto. Gostava daquele contato oral com a palavra elaborada.
Não sabia que, anos mais tarde, reencontraria essa minha vocação através da Oficina Conta-Contos – a arte de contar histórias, realizada em 1990 na Livraria Miguilim e coordenada por Luiz Carlos Neves e Isabel de los Rios, do Grupo Encuentos y Encantos, da Venezuela. Durante a oficina já busquei um conto literário para preparar. Agora poderia saborear um conto inteiro e mais, passar o encantamento para outras pessoas.
Na época, lecionava Português para 7ª e 8ª séries e comecei preparar vários contos para meus alunos. Para surpresa minha, percebi que os adolescentes adoravam as histórias e pediam que eu as repetisse. Descobri então que essa era uma maneira fantástica de divulgar bons textos e incentivar o gosto pela leitura, pois os meus alunos buscavam ler os livros de onde eu tirava as histórias. Preparei alguns adolescentes que se interessaram, para narrarem pequenos contos e eles os iam repassando aos colegas de outras turmas. Me surpreendi com a receptividade dessas turmas, que , muitas vezes ,quando não tinham professor em sala, passavam para a sala vizinha, para ouvir de novo as mesmas histórias. Com essa motivação dos alunos, concluí que a narração de bons textos literários era, sem dúvida, um método pedagógico que, não só tornava as aulas mais atraentes, mas também despertava o gosto de ouvir, o prazer da literatura e o interesse pela leitura.
Em 1991 conheci Elisa Almeida, que, na época, pesquisava contos de fadas e os narrava para crianças numa Clínica de Psicologia. Decidimos trabalhar juntas, criando o Grupo Tudo Era uma Vez e pouco tempo depois já narrávamos histórias em vários lugares e oferecíamos oficinas para formação de novos narradores. Ela continuava narrando contos de tradição oral e eu, contos literários. Com o tempo, ela também foi se aproximando do conto literário e em 1994, montamos nosso primeiro espetáculo: “Histórias de Amor, Encontros e Desencontros”. Depois vieram outros trabalhos: “Riobaldiadorim, encontros no sertão”, “ Mula Marmela: histórias de mulheres em G. Rosa”, “ Rola Mundo ,contando Drummond”, “ Diadorim, no sirgo fio dessas recordações”, “Deus ou o Diabo para o jagunço Riobaldo” e “Dão- lalalão, os sinos do amor”.Todos eles apresentados em vários teatros do país.
Calina Guimarães(google)
Em 1993, a Dra. Calina Guimarães, prima de G. Rosa, e minha tia, depois de se aposentar em Juiz de Fora, onde trabalhou como Médica e professora da UFMG, voltou para Cordisburgo, sua terra natal, disposta a trabalhar com as crianças e jovens da cidade. Lá encontrou o Museu G. Rosa praticamente abandonado. Começou então a tarefa de buscar recursos para restaurá-lo. Em seguida, pensou que preparar os jovens para serem guias no Museu seria uma ótima forma para se aproximar deles e orientá-los na travessia da adolescência. Assim ela realizava, num só trabalho, dois objetivos: trabalhar com os jovens e por em funcionamento o Museu. Até então ela não tinha pensado em preparar esses jovens para narrar textos de G. Rosa. Quando ficou sabendo que eu narrava trechos de sua obra, ela se mostrou incrédula. Foi então que a convidei para assistir, em 1994, nosso espetáculo “ Histórias de Amor” com narração de textos de vários autores e, entre eles, G. Rosa. Nos ouvindo, então, concluiu que era possível, sim, narrar oralmente G. Rosa e que, para tornar as visitas ao Museu mais vivas, além de guias, os adolescentes também poderiam ser narradores de sua obra. Ela então, nos convidou para dar oficinas introdutórias para formar contadores e, depois de cada oficina, ela continuava o trabalho, treinando os textos de Guimarães Rosa com os adolescentes. Em 1995, ela criava o Grupo de contadores de estórias Miguilim, nome da principal personagem do conto “Campo Geral”.
Hoje, já na 7ª geração, o grupo torna viva a obra do escritor, divulgando-a não só para os visitantes do Museu, mas também para platéias de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades, encantando jovens e adultos e revelando que Guimarães Rosa é, antes de tudo, um grande contador de histórias.
Narrar textos de Guimarães Rosa abriu, para o grupo Miguilim, uma janela para o mundo. O contato com turistas e pessoas admiradoras ou estudiosas da obra roseana, as viagens, o desafio de enfrentar um público, tudo isso enriquece as experiências, aumenta a auto-estima e estimula o gosto pela leitura. Eles buscam ler outros autores e se tornam capazes de apreciar um bom texto literário e de lê-lo com expressividade e emoção. Hoje, são referência para as crianças de Cordisburgo e a maioria consegue continuar os estudos após o 2º grau, ingressando em cursos da UFMG.
interior do Museu Casa de Guimarães Rosa (google)
Em 2000 assumi a direção do , pois a Dra. Calina Guimarães, por motivos de saúde, se afastou. Passei a fazer os recortes de textos, o enxugamento dos contos, a leitura expressiva e a orientação na memorização das histórias. Cada texto é explicado, contextualizado e lido várias vezes. O contador só pode decorá-lo depois de compreendê-lo profundamente e de estar lendo com fluência, expressividade e sentimento. Ele tem de buscar a voz do autor, tem de descobrir a musicalidade inerente ao texto, pois cada um possui sua entonação e ritmo próprios. O texto exige ser decorado porque em Guimarães Rosa, como em qualquer outro grande autor, a forma e o conteúdo estão juntos como na poesia.
Para a Semana Guimarães Rosa que acontece todos os anos, no mês de julho, em Cordisburgo, já foram montados com o grupo Miguilim vários trabalhos em cima da obra do autor: textos de “Grande Sertão: Veredas” (narrados em quatro anos consecutivos), de “Campo Geral”, de “Sagarana”, de “Dão-la-la-lão”, de “A estória de Lélio e Lina” , “Festa de Manuelzão”, “Primeiras Estórias” e outros. Muitos desses trabalhos têm sido apresentados em várias cidades de Minas e outros estados.
Graças ao Grupo Miguilim de contadores de estórias, o Museu Casa Guimarães Rosa é hoje um dos mais visitados de Minas Gerais. Os visitantes querem ouvir, na casa onde nasceu o escritor, suas histórias e sua poesia nas vozes desses meninos e meninas que memorizam seus textos e os narram com simplicidade e emoção.
Em 2005, em razão da necessidade de formar novos elementos, pois, à medida que vão se formando no 2º.grau, eles deixam a cidade para continuarem os estudos, convidei Elisa para participar do processo de formação. Atualmente, nós duas, indo de 15 em 15 dias a Cordisburgo, dirigimos o grupo Miguilim, certas de que trabalhar com jovens no campo da literatura é realmente uma forma de atingir, entre outros, o objetivo proposto pela Dra. Calina Guimarães ao criar o grupo: ajudá-los a atravessar a adolescência de uma maneira saudável e feliz.
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quarta-feira, 10 de agosto de 2011
PINDORAMA 10° 0' 0" S / 55° 0' 0" W.
DESCOBRINDO O QUE SEMPRE ESTEVE DEBAIXO DOS MEUS OLHOS
Por Vera Guimarães
Mereço puxões de orelha por somente agora ter ido à Semana Roseana, que há 23 anos se realiza em Cordisburgo, MG semana roseana .
Vivi até meus 18 anos em Sete Lagoas, e Cordisburgo, tão perto, fez parte da minha infância e juventude. Fiz Letras. Fui apresentada a Guimarães Rosa. Consegui vencer a estranheza e me apaixonei por sua escrita forte e original. Já embrenhei pelo Grande Sertão: Veredas pelas portas das guerras, do amor de Riobaldo e Diadorim, das mulheres, da vegetação, da geografia. Eu sabia que minhas irmãs iam lá. Uma sobrinha-neta era miguilim. Não tenho desculpas por não ter ido antes.
Cordisburgo é uma cidade pequena e agradável .
Capela São José – Cordisburgo, MG http://www.receptivo.net.br/admin/img_paginas/49.jpg.target=blank
Passeei por suas ruas largas, espiei por dentro de jardins, imaginando se vidas felizes habitariam aquelas casas, fui à Matriz, subi de novo a escadaria que levava da estação ferroviária ao Hotel Argentina, hoje uma discoteca, comi empadinhas de massa fina, me maravilhei com a capelinha de São José, visitei o Portal do Sertão, fui ao Zoológico de Pedra. E acompanhei um pouco da programação da Semana Roseana. Tem oficina de produção de textos, mostra de artesanato, shows na rua, lançamento de livros, palestras, cursos variados, mas o ponto alto são as narrações de textos de Guimarães Rosa.
Há alguns anos tive notícia de que uma prima, a Dôra Guimarães, e uma parceira, a Elisa Almeida, entraram para o ramo da “contação de histórias”, é, assim mesmo, eu não tinha ideia da sofisticação da atividade e do que fosse ouvir uma obra literária narrada por elas. Pelo site tudo era uma vez, entendo agora o que fazem: “A narração oral remonta às origens da sociedade como uma das primeiras manifestações culturais do homem. Antes da linguagem escrita, foi ela a responsável pela preservação das tradições de um povo, ao mesmo tempo em que veiculava toda uma forma de percepção de mundo onde o elemento maravilhoso tinha seu lugar.
Correspondendo à faculdade básica humana de trocar experiências, a narração oral pôde encontrar maior ou menor espaço ao longo dos séculos da história humana.
O velho hábito – até então espontâneo – de contar histórias foi perdendo seu vigor no decorrer da era industrial e da era informatizada, dando, aos poucos, lugar à informação.
A partir do final do século passado, surge a preocupação de resgatar essa arte milenar reconduzindo textos escritos – populares ou propriamente literários – ao universo da narração oral. Para tanto, foi preciso agora atentar para alguns pontos (as técnicas) que auxiliam o treinamento das histórias a serem contadas.
Enquanto arte, o contar histórias mantém-se fiel ao seu primeiro e maior compromisso com a beleza, o prazer e a diversão, mas pode e deve estar a serviço de um incontável número de realidades onde se busque despertar o interesse e o gosto pela leitura, divulgar textos de tradição oral ou autorais (literários), introduzir temas a serem tratados numa aula teórica, entre outros.”
Num Festival de Inverno em Diamantina, há uns quatro anos, me encontrei com a Dôra, mas ainda não foi dessa vez que a ouvi. Foi preciso estar do outro lado do mundo, num passeio por rios e lagos da Rússia, para aprender definitivamente a diferença entre ler e ouvir um conto, uma história, um trecho de um livro.
“...Mantendo na narração a fidelidade ao texto, o grupo preserva o que diferencia a literatura: o trabalho com a palavra e a elaboração artística libertando-o através da voz, expressão e gestos do narrador. Ao buscar resgatar a voz do autor, o narrador oral dá vida ao texto tornando ainda mais evidente sua musicalidade, ritmo e poesia.”
Nesse passeio, a Dôra generosamente narrou para nós um conto do livro Afrodite, de Isabel Allende, e outros trechos de obras de Guimarães Rosa. Eu já conhecia alguns desses textos, mas era como se me fossem totalmente desconhecidos, tal a transformação por que passam na voz e na presença da narradora.
Soube também que as duas criaram e coordenam o Grupo Miguilim. “Formado por adolescentes de 13 a 20 anos, o grupo nasceu da necessidade de tornar mais atraentes as visitas ao Museu Casa Guimarães Rosa, chamando a atenção não apenas para a casa com seus objetos, fotos, móveis ou para a vendinha restaurada, mas, sobretudo, para a obra do escritor através da narração oral de suas estórias.”
Museu Casa Guimarães Rosa – Cordisburgo, MG fabianomafia.spaceblog.com.br/.../
“Os contadores de estórias MIGUILIM, verdadeiros embaixadores de Guimarães Rosa, além de guias do Museu, contam de cor sua obra também em escolas, universidades, teatros, casas de cultura, levando Brasil a fora o sertão roseano e divulgando sua literatura.”
E ali, em Cordisburgo, acompanhando um pouco da programação da Semana, me maravilhei, me emocionei, me diverti, chorei, ouvindo crianças e adultos transformarem palavras em pura magia.
.
“O contador de histórias moderno, ao optar por contar um conto literário, instaura um espaço novo. Ele traz para o universo da oralidade um conto que, pelo menos a princípio, foi escrito para ser lido. Nem todos os contos literários prestam-se a essa tarefa e, dentre os que se prestam, alguns o fazem mais naturalmente.
Guimarães Rosa, de maneira singular e magistral, materializa a tradição oral em seus textos tão elaborados. Narrativas surgem dentro de outras narrativas - seus personagens estão sempre prontos a contar histórias, oferecendo a nós, contadores, uma infinidade de opções. Contar Guimarães Rosa torna-se assim, para nós, uma experiência única. Se por um lado, os contos apresentam uma certa dificuldade para serem preparados, por outro, ao serem contados em voz alta descortinam para o ouvinte e para o próprio contador toda a poesia neles contida. E, como nos lembra Franklin de Oliveira, Rosa acreditava profundamente “no poder da Arte para transformar o indivíduo” desejando que “a poesia fosse incorporada à vida humana e não vivesse apenas no papel; que a vida, ela mesma, se transformasse num poema contínuo, numa realidade encantatória”.
Acreditando também nisso, emprestamos nossa voz, olhar e gestos para compartilhar com mais pessoas a beleza surpreendente de um conto rosiano e, quem sabe, desvelar significados antes encobertos.”
Já agendei minha ida a Cordisburgo para o ano que vem. Vamos?
Nota: Os trechos entre aspas e destacados foram retirados do site tudo era uma vez.
Por Vera Guimarães
Mereço puxões de orelha por somente agora ter ido à Semana Roseana, que há 23 anos se realiza em Cordisburgo, MG semana roseana .
Vivi até meus 18 anos em Sete Lagoas, e Cordisburgo, tão perto, fez parte da minha infância e juventude. Fiz Letras. Fui apresentada a Guimarães Rosa. Consegui vencer a estranheza e me apaixonei por sua escrita forte e original. Já embrenhei pelo Grande Sertão: Veredas pelas portas das guerras, do amor de Riobaldo e Diadorim, das mulheres, da vegetação, da geografia. Eu sabia que minhas irmãs iam lá. Uma sobrinha-neta era miguilim. Não tenho desculpas por não ter ido antes.
Cordisburgo é uma cidade pequena e agradável .
Capela São José – Cordisburgo, MG http://www.receptivo.net.br/admin/img_paginas/49.jpg.target=blank
Passeei por suas ruas largas, espiei por dentro de jardins, imaginando se vidas felizes habitariam aquelas casas, fui à Matriz, subi de novo a escadaria que levava da estação ferroviária ao Hotel Argentina, hoje uma discoteca, comi empadinhas de massa fina, me maravilhei com a capelinha de São José, visitei o Portal do Sertão, fui ao Zoológico de Pedra. E acompanhei um pouco da programação da Semana Roseana. Tem oficina de produção de textos, mostra de artesanato, shows na rua, lançamento de livros, palestras, cursos variados, mas o ponto alto são as narrações de textos de Guimarães Rosa.
Há alguns anos tive notícia de que uma prima, a Dôra Guimarães, e uma parceira, a Elisa Almeida, entraram para o ramo da “contação de histórias”, é, assim mesmo, eu não tinha ideia da sofisticação da atividade e do que fosse ouvir uma obra literária narrada por elas. Pelo site tudo era uma vez, entendo agora o que fazem: “A narração oral remonta às origens da sociedade como uma das primeiras manifestações culturais do homem. Antes da linguagem escrita, foi ela a responsável pela preservação das tradições de um povo, ao mesmo tempo em que veiculava toda uma forma de percepção de mundo onde o elemento maravilhoso tinha seu lugar.
Correspondendo à faculdade básica humana de trocar experiências, a narração oral pôde encontrar maior ou menor espaço ao longo dos séculos da história humana.
O velho hábito – até então espontâneo – de contar histórias foi perdendo seu vigor no decorrer da era industrial e da era informatizada, dando, aos poucos, lugar à informação.
A partir do final do século passado, surge a preocupação de resgatar essa arte milenar reconduzindo textos escritos – populares ou propriamente literários – ao universo da narração oral. Para tanto, foi preciso agora atentar para alguns pontos (as técnicas) que auxiliam o treinamento das histórias a serem contadas.
Enquanto arte, o contar histórias mantém-se fiel ao seu primeiro e maior compromisso com a beleza, o prazer e a diversão, mas pode e deve estar a serviço de um incontável número de realidades onde se busque despertar o interesse e o gosto pela leitura, divulgar textos de tradição oral ou autorais (literários), introduzir temas a serem tratados numa aula teórica, entre outros.”
Num Festival de Inverno em Diamantina, há uns quatro anos, me encontrei com a Dôra, mas ainda não foi dessa vez que a ouvi. Foi preciso estar do outro lado do mundo, num passeio por rios e lagos da Rússia, para aprender definitivamente a diferença entre ler e ouvir um conto, uma história, um trecho de um livro.
“...Mantendo na narração a fidelidade ao texto, o grupo preserva o que diferencia a literatura: o trabalho com a palavra e a elaboração artística libertando-o através da voz, expressão e gestos do narrador. Ao buscar resgatar a voz do autor, o narrador oral dá vida ao texto tornando ainda mais evidente sua musicalidade, ritmo e poesia.”
Nesse passeio, a Dôra generosamente narrou para nós um conto do livro Afrodite, de Isabel Allende, e outros trechos de obras de Guimarães Rosa. Eu já conhecia alguns desses textos, mas era como se me fossem totalmente desconhecidos, tal a transformação por que passam na voz e na presença da narradora.
Soube também que as duas criaram e coordenam o Grupo Miguilim. “Formado por adolescentes de 13 a 20 anos, o grupo nasceu da necessidade de tornar mais atraentes as visitas ao Museu Casa Guimarães Rosa, chamando a atenção não apenas para a casa com seus objetos, fotos, móveis ou para a vendinha restaurada, mas, sobretudo, para a obra do escritor através da narração oral de suas estórias.”
Museu Casa Guimarães Rosa – Cordisburgo, MG fabianomafia.spaceblog.com.br/.../
“Os contadores de estórias MIGUILIM, verdadeiros embaixadores de Guimarães Rosa, além de guias do Museu, contam de cor sua obra também em escolas, universidades, teatros, casas de cultura, levando Brasil a fora o sertão roseano e divulgando sua literatura.”
E ali, em Cordisburgo, acompanhando um pouco da programação da Semana, me maravilhei, me emocionei, me diverti, chorei, ouvindo crianças e adultos transformarem palavras em pura magia.
.
“O contador de histórias moderno, ao optar por contar um conto literário, instaura um espaço novo. Ele traz para o universo da oralidade um conto que, pelo menos a princípio, foi escrito para ser lido. Nem todos os contos literários prestam-se a essa tarefa e, dentre os que se prestam, alguns o fazem mais naturalmente.
Guimarães Rosa, de maneira singular e magistral, materializa a tradição oral em seus textos tão elaborados. Narrativas surgem dentro de outras narrativas - seus personagens estão sempre prontos a contar histórias, oferecendo a nós, contadores, uma infinidade de opções. Contar Guimarães Rosa torna-se assim, para nós, uma experiência única. Se por um lado, os contos apresentam uma certa dificuldade para serem preparados, por outro, ao serem contados em voz alta descortinam para o ouvinte e para o próprio contador toda a poesia neles contida. E, como nos lembra Franklin de Oliveira, Rosa acreditava profundamente “no poder da Arte para transformar o indivíduo” desejando que “a poesia fosse incorporada à vida humana e não vivesse apenas no papel; que a vida, ela mesma, se transformasse num poema contínuo, numa realidade encantatória”.
Acreditando também nisso, emprestamos nossa voz, olhar e gestos para compartilhar com mais pessoas a beleza surpreendente de um conto rosiano e, quem sabe, desvelar significados antes encobertos.”
Já agendei minha ida a Cordisburgo para o ano que vem. Vamos?
Nota: Os trechos entre aspas e destacados foram retirados do site tudo era uma vez.
domingo, 30 de janeiro de 2011
SENHORA DO TEMPO
Esta seção é sobre a memória de cada um. É o microcosmo resgatado para compor a colcha de retalhos que é a estória do brasil e do mundo,a nossa história. Senhora do Tempo e Vila..., que voltará em breve, sintetizam a multiplicidade do Primeira Fonte, que a partir do pessoal toca o universal, seguindo o exemplo de Marcel Proust, de "Em Busca do Tempo Perdido" e João Guimarães Rosa, das veredas do grande sertão. Ninguém melhor para iniciar os contares do que Vera Guimarães .
(ALD e ELB)
RUA DA BAHIA
Por Vera Guimarães
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| Rua da Bahia em confluência com a av. Afonso Pena, no início do século passado. |
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| Edifício Acaiaca |
Primeiro fiz cursinho no charmoso Champagnat, especializado na preparação para Direito e humanas em geral, que na época funcionava na Timbiras, entre João Pinheiro e Alagoas. Depois fui fazer Letras, na então UMG, primeiro nos altos do Edifício Acaiaca, depois nos altos da rua Carangola. Um tanto por proximidade e conveniência, outro tanto provavelmente por aquilo a que chamam destino, acabei morando em diversos endereços nas imediações da rua da Bahia, nunca a mais de dois quarteirões de sua rive gauche ou de sua rive droite.
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| Cine Metrópole - Vista do Centro de Belo Horizonte |
De início, morei com uma tia, na rua Goitacases, entre Espírito Santo e Bahia. Ali seria meu primeiro contato com a metrópole, aliás, o Cine Metrópole ficava a dois passos. A idéia era que eu ficasse provisoriamente nessa casa. Casa, não. Apartamento, um equipamento residencial inédito para mim. Até ali eu não conhecia elevador, porteiro, área de serviço, escada de incêndio. A tia, linda e elegante, amenizou o choque de minha chegada à Capital.
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| Detalhe do Acaiaca |
Morei, depois, ocupando vaga de uma menina que estava de férias, num pensionato de simpáticas freiras holandesas, alegres, trabalhadeiras, bem humoradas. De lá, lembro com especial carinho de um chá com biscoitos que elas serviam à noite, quando a conversa rolava solta, tranquila. Apesar da altíssima densidade demográfica nos quartos, e do evidente desconforto daí resultante, era um ambiente agradável e descontraído. Saí de lá com pesar.
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| Sobrado de estilo vagamente art decó |
De lá fui para o pensionato de uma uruguaia, na esquina de Bahia com Bias Fortes. A casa era um lindo palacete branco, com as varandas
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| Rua da Bahia, 1955 |
Daqui do planalto central, onde moro desde meados da década 1990, volto os olhos para a rua da Bahia, e a vejo como imenso rio, cujas margens percorri por mais de 35 anos a procura de mim mesma. Não sei se me achei, mas com certeza aquela rua da Bahia não encontro mais.
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sábado, 1 de janeiro de 2011
DILMA CONVOCA A OUSAR, SONHAR E CRIAR NO GRANDE SERTÃO E VEREDAS QUE É O BRASIL
Por Esther Lucio Bittencourt
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| Na República como no Império: Dilma passa em revista a tropa dos Dragões da Independência |
Hoje, dia 1 de janeiro de 2011, a presidente do Brasil, Dilma Roussef, que viveu intensamente os anos de sonho e de chumbo, apoiada
Ainda usando palavras de Rosa, ela informa que o "o que tem de ser, tem muita força".
Em seu discurso de posse ela conclamou o povo brasileiro a convocar o sonho, a ousadia e a criatividade para construir um Brasil mais justo. Está na contramão da proposta de Lennon ao avisar que o sonho acabou. Ela propõe exatamente o contrário: o retorno à coragem de sonhar.
Falou sobre a maciez da seda da faixa presidencial que cingirá, pela primeira vez, os ombros de uma mulher e informa que: “Não faremos a menor concessão ao protecionismo dos países ricos que sufoca qualquer possibilidade de superação da pobreza de tantas nações pela via do esforço de produção.”
Cingirá.... uma palavra macia a acompanhar uma mulher que é considerada firme, energica, dura. Mas o aço é duro e dúctil. Com sua dureza pode investir contra inimigos, com sua ductibilidade pode ganhar formas diversas.
Esta seda macia da faixa presidencial foi retirada dos ombros do ex-presidente Lula por sua mulher, Marisa. Parece que faltou ousadia ao torneiro mecânico que inventou, redescobriu, ousou o Brasil, saiu do poder com 86% de aprovação popular e fez de Dilma Rousseff sua sucessora, de realizar o gesto. A faixa foi colocada na nova presidente com muita rapidez; a saída do parlatorio foi abrupta: havia risco de choro convulsivo.
A mulher presidente que solicita receber a centelha de energia que carrega todas as mulheres disse ainda que: “No Ensino Médio, além do aumento do investimento público vamos estender a vitoriosa experiência do PROUNI para o Ensino Médio Profissionalizante, acelerando a oferta de milhares de vagas para que nossos jovens recebam uma formação educacional e profissional de qualidade.
Mas só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso com a educação das crianças e jovens.
Somente com avanço na qualidade de ensino poderemos formar jovens preparados, de fato, para nos conduzir à sociedade da tecnologia e do conhecimento.
Pela primeira vez o Brasil se vê diante da oportunidade real de se tornar, de ser, uma nação desenvolvida. Uma nação com a marca inerente da cultura e do estilo brasileiros - o amor, a generosidade, a criatividade e a tolerância.
Uma nação em que a preservação das reservas naturais e das suas imensas florestas, associada à rica biodiversidade e a matriz energética mais limpa do mundo, permitem um projeto inédito de país desenvolvido com forte componente ambiental.
O mundo vive num ritmo cada vez mais acelerado de revolução tecnológica. Ela se processa tanto na decifração de códigos desvendadores da vida quanto na explosão da comunicação e da informática.
Temos avançado na pesquisa e na tecnologia, mas precisamos avançar muito mais. Meu governo apoiará fortemente o desenvolvimento científico e tecnológico para o domínio do conhecimento e a inovação como instrumento da produtividade.
Mas o caminho para uma nação desenvolvida não está somente no campo econômico. Ele pressupõe o avanço social e a valorização da diversidade cultural. A cultura é a alma de um povo, essência de sua identidade.
Vamos investir em cultura, ampliando a produção e o consumo em todas as regiões de nossos bens culturais e expandindo a exportação da nossa música, cinema e literatura, signos vivos de nossa presença no mundo.
Em suma: temos que combater a miséria, que é a forma mais trágica de atraso, e, ao mesmo tempo, avançar investindo fortemente nas áreas mais sofisticadas da invenção tecnológica, da criação intelectual e da produção artística e cultural.”
A presidente Dilma Roussef que tropicou por três vezes no português, cansou, chorou e sabe que terá grandes sertões, veredas, estradas vicinais, mataburros, porteiras, riachos, e pouco oásis a percorrer na sua costura política e econômica para cumprir suas promessas deixa-nos o eco se suas palavras claras, quase escandidas do primeiro discurso presidencial.
Nós, povo, dizemos apenas uma palavra: amém. E vamos ousar, criar, inventar e sonhar: meu sonho é de que poderemos ser um país mais justo e honesto. Sonho firme. Pois meu sonho será realidade.
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