quarta-feira, 26 de outubro de 2011

NA ANPOCS, FILÓSOFO APRESENTA DEBATE SOBRE A CRÍTICA DA RAZÃO EM MICHEL FOUCAULT - DO PASSADO À REALIDADE

Por Ana Laura Diniz

Diego Kenji Marihama: o professor e
filósofo faz uma análise da real identidade do político
Presente no 35º Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Caxambu, no Sul de Minas, o professor e filósofo Diego Kenji Marihama apresenta esse ano um debate sobre “A Crítica da Razão Governamental em Michel Foucault”. 

Na entrevista exclusiva para o jornal Primeira Fonte, ele afirma - entre vários aspectos - que a sua ideia foi a de examinar a crítica governamental moderna efetuada por Foucault a partir de uma certa leitura que faz de Kant.

Primeira Fonte (Pêéfe) - Qual foi o tema que você desenvolveu esse ano?


Diego Kenji Marihama (DKM) – O meu tema partiu do seguinte pressuposto: Michel Foucault em uma conferência nos Estados Unidos explica o significado real da Filosofia que é de efetuar uma “crítica a razão política”.

“(...) depois de Kant, o papel da filosofia tornou-se o de impedir a razão de ultrapassar os limites daquilo que é dado na experiência, mas a partir desta época, (...) o papel da filosofia tornou-se também o de vigiar os abusos de poder da racionalidade política”. (Foucault, 1994, p. 181).
Michel Foucault: o filósofo e psicológico leu
Platão, Hegel, Marx, Nietzsche, Freud, Lacan
e outros, aprofundando-se em Kant, embora
criticasse a noção do sujeito enquanto
mediador e referência de todas as coisas,
 já que, para ele, o homem é produto
das práticas discursivas
 

Neste sentido, venho estudando desde outubro de 2010 a obra “Vigiar e Punir”, de Michel Foucault, tendo como apoio os artigos de Michel Senellart, professor de Filosofia Política da École Normale Supérieure de Lyon, no qual utilizo o seu tema para o debate na Anpocs - “A Crítica da Razão Governamental em Michel Foucault”.

Pêéfe – "Vigiar e Punir" é uma vasta pesquisa sobre a disciplina na sociedade moderna, que para Foucault, era "uma técnica de produção de corpos dóceis". Em seus escritos sobre medicina, Foucault criticou a psiquiatria e a psicanálise tradicionais. Qual foi o motivo da escolha por esse tema? De onde surgiu essa ideia?

DKM -
O grupo de trabalho do qual faço parte neste ano, tem como tema geral “O Comportamento Político”. Assim, cada estudante desenvolve ideias a respeito de tal comportamento.

A minha escolha, em particular, é a de examinar a crítica governamental moderna efetuada por Foucault a partir de uma certa leitura que ele faz de Kant. 

Pêéfe - Tem como traçar um paralelo de importância entre o seu tema do ano passado e o desse ano?

DKM - No ano passado, fiz um estudo sobre a delimitação entre o campo e a cidade se perdendo naquilo que conhecemos por Urbanismo. A análise foi em torno de duas cidades, Varginha e Pouso Alegre, ambas situadas no Sul de Minas Gerais.

O estudo analisou que embora essas cidades tenham proximidades com números de habitantes, são complexas, distintas por determinados objetos, por exemplo, um Mc Donald’s.

Neste ano, o estudo foi voltado aos abusos do poder enfatizando os políticos brasileiros, tendo como discussão o Ministério dos Esportes.

Pêéfe - Qual a sua visão de mundo hoje?

DKM - A conclusão que estamos percebendo nesse Encontro da Anpocs é a de que precisamos trabalhar mais nas escolas, nos grupos sociais, na religião, no trabalho, no lazer, naquilo que conhecemos por valores.

A política é importante e faz parte da vida do ser humano. Segundo Aristóteles, o homem é por natureza um ser político capaz de trabalhar em sua mente estratégias, habilidades, discussões, que jamais outro animal portará. “Quando Aristóteles definiu o homem como animal político é porque, na sua concepção, a própria razão é, essencialmente, política”.

Essa racionalidade, por sua vez, desenvolve nos indivíduos aspectos coletivos, sendo eles éticos (valores sociais, princípios morais). Neste aspecto é que analisamos a real identidade do político deixando para os ouvintes concluir a respeito.

Pêéfe - Faça um resumo da sua apresentação.

DKM - É importante ressaltar a ementa do nosso grupo de trabalho - “Comportamento Político” - o qual buscamos responder ao longo do Encontro. Entenda por isso o seguinte:

Ementa - Quais são os determinantes das distintas formas de participação política, como votar, se engajar em organizações da sociedade civil, participar de campanhas eleitorais e em protestos políticos? O que leva grupos e indivíduos a fazerem certas escolhas políticas; a terem certas preferências políticas? Por que indivíduos colaboram com outros na busca de soluções para problemas coletivos, mesmo quando a participação individual não traz ganhos imediatos?

Essas são as questões chave que orientam debates fundadores da ciência política contemporânea. Tais perguntas deram origem às diversas linhas de pesquisa que compartilham interesses comum:

1) A compreensão de fenômenos e processos mediante os quais indivíduos se informam, formam seus valores, crenças, atitudes políticas e sociais, e tomam decisões;

2) O enfoque na política de massas, em como cidadãos comuns pensam sobre política, economia e sociedade.

Propomos aqui um espaço destinado à discussão dos temas acima, iniciado nos trabalhos sobre o Comportamento Político no último encontro da Anpocs, voltado para o debate, a mensuração e a análise das opiniões, das crenças, das atitudes e das escolhas políticas dos públicos de massa no Brasil e Américas.     

terça-feira, 25 de outubro de 2011

QUITANDA DA VIDA XLVIII

Telinha Cavalcanti

Neste sábado, Perpétua passou aqui de surpresa: "Trouxe uma coisa para vocês!" - as surpresas de Perpétua sempre são deliciosas e esta não fez por menos: um tapoé de feijão tropeiro!

Comemos no jantar, suspirando de alegria :)

Ontem eu pedi e ela me deu a receita. Meio no olho, como sempre :)

Feijão Tropeiro

Ingredientes:

meio quilo de feijão mulatinho ou carioquinha cozido e sem caldo - segundo Perpétua, não se faz feijão tropeiro com feijão preto
1 cebola picadinha
3 dentes de alho picados ou amassados
um pedaço de bacon cortado em cubos, frito
1 ligüiça calabresa cortada em cubos, frita na gordura do bacon
sal a gosto
óleo

Como fazer

Refogue a cebola e o alho em uma panela funda.

Em outra panela, frite o bacon, reserve e use sua gordura para fritar a lingüiça. Se precisar, acrescente óleo

Junte o bacon e a lingüiça ao refogado de cebola e alho. Adicione o feijão e mexa bem.

Em uma frigideira, torre um pouco a farinha de mandioca. Depois que ela ficar levemente torrada, pode ir para a panela do feijão. Cuidado para não colocar farinha de mais ou de menos.

Ela avisa que há pessoas que colocam ovos no feijão tropeiro. É só fazer ovos mexidos na manteiga, amassar com o garfo e juntar ao feijão tropeiro, mas ela não gosta assim :)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ANPOCS DISCUTIRÁ ESTE ANO TAMBÉM DIREITOS LGTB

Por Esther Lucio Bittencourt



O 35º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) que inicia hoje em Caxambu, cidade do sul de Minas Gerais, terá encontro com a autora Alba Zaluar, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, amanhã, dia 25, às 18 horas, na sala 7 do Hotel Glória, onde funciona a secretaria do evento.

 Vista aérea de onde está prevista a
construção da Usina de Belo Monte

(Foto: Google)
Também amanhã, na sala 14 do Hotel Palace, às 9 horas, no simpósio Desenvolvimento, Reconhecimento de Direitos e Conflitos territoriais,  estarão presentes Sheila Juruna e Antonia Melo, do Movimento Xingu Vivo. Neste simpósio serão abordadas as questões dos quilombolas, dos indígenas e de Belo Monte, cuja polêmica construção da usina hidrelétrica, na Bacia do Rio Xingu, já dura há mais de 20 anos e hoje é considerada pelo Governo Federal como a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Chistina Toren
Além disso, às 9 horas, na sala 4 do Hotel Glória, haverá a primeira conferência. Chistina Toren, da Sant Andrews University, apresentará resumo de seu trabalho sobre "Towards a unified model of human being: confronting issues in anthropology and psychology".

                                              
A novidade deste ano na Anpocs é que, pela primeira vez, ela amplia sua interlocução com o Brasil ao convidar representantes dos movimentos de trabalhadores sexuais, lideranças indígenas, quilombolas e transexuais para debates com estudiosos. O Fórum Tráfico de Pessoas, Novas Flexões no debate, no dia 27, quinta-feira, no Centro de Convenções de Caxambu, será aberto pela Ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário Nunes, às 9 horas. A segunda sessão que trata do mesmo tema será às 13h30, coordenada pela Senadora Márcia Anita Sprandel.


O 35º Encontro Anual da Anpocs, que termina no próximo dia 28, tratará também sobre a Primavera Árabe, Tráfico de Pessoas, Análise de Conjuntura, Desafios de Combate à Miséria Extrema, Novos Alinhamentos Globais, Brics -acrônimo usado para definir à mercados emergentes como o Brasil, Rússia, Índia e China -, Haiti, Mercosul e direitos das Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis-LGBT.

Sufoco à italiana





Luiz Ruffato. Mamma, son tanto felice. Rio de Janeiro: Record, 2005. (Tomo I da coleção Inferno Provisório.)


Resultado de um trabalho de 15 anos, os cinco volumes da série Inferno Provisório estão agora à disposição dos admiradores desse escritor de mil e um recursos. Ao primeiro título, o incrível Mamma, son tanto felice, seguem-se O mundo inimigo,
Vista parcial da noite, O livro das impossibilidades e Domingos sem Deus.

 O estilo de Ruffato é bem conhecido, desde Eles eram muitos cavalos, seu primeiro livro, versando sobre a cidade de São Paulo, que lhe valeu o prêmio APCA. O moço começou como todo escritor gostaria de ter começado. E no seu caso, foi um prêmio merecido.

O primeiro livro dessa coleção deixa a gente em cócegas para conhecer os que vêm depois. É bem significativo o trecho do poeta Jorge de Lima que anuncia como uma epígrafe este romance/narrativa de abertura da série:

Também há as naus que não chegam
mesmo sem ter naufragado:
não porque nunca tivessem
quem as guiasse no mar
ou não tivessem velame
ou leme ou âncora ou vento
ou porque se embebedassem
ou rotas se despregassem,
mas simplesmente porque
já estavam podres no tronco
da árvore de que as tiraram.

Ruffato escreve como quem está vivendo os fatos. Arrasta o leitor para o ambiente da história, cerca-o de seus cenários, e tudo se torna tão real que a própria linguagem fica dispensada de maiores perfeccionismos. Não que ele escreva mal, nada disso. Muito ao contrário: Ruffato domina a linguagem de tal maneira que consegue se comunicar por meio de frases incompletas, sinais fora de lugar, tipologias misturadas. Se no primeiro romance ele se expressava de modo “fragmentário e frenético”,  como se anuncia na orelha de Mamma, essa continua sendo sua estratégia (muito eficaz) para arrastar o leitor e situá-lo no cerne das ações de que trata o livro – ações e acontecimentos capazes de nos afetar como se fôssemos nós mesmos personagens da trama.

E essa narrativa não-linear, tumultuada como a história que (não) narra, mas apresenta os fatos por assim dizer ao vivo, é, mais que um texto, uma espécie de epifania envolvendo o leitor. E quando, chegando ao fim do romance, ou seja lá como se possa caracterizar esse livro sui-generis, tem-se a ilusão de entrar enfim em uma narrativa dotada de sequencialidade, logo se perceberá que não é bem isso o que acontece.


domingo, 23 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. A MÍSTICA DO TRABALHO

Por Vera Guimarães

Imagem: deiatricotando.blogspot.com
Amiga me conta que há uns 10 dias não tem sido produtiva, que tem ficado no ócio e que tem achado isso muito bom. Quer dizer, apesar de sempre ter trabalhado muito durante toda a vida, de estar com os filhos criados, ainda assim o ficar sem fazer nada aparece como algo não muito natural, tanto que mereceu registro.

Meu irmão fazendeiro foi derrubado por uma vaca, trincou osso do joelho, foi levado a contragosto ao hospital, disseram-lhe que ficasse de repouso, mas ele fugiu das recomendações e com dois dias já estava no curral.


Ao ficar viúva, uma de minhas irmãs me confidenciou que seu sonho agora é viver num hotel e usar um tanto do seu tempo em atividades realmente prazerosas para ela, tais como conviver mais com amigas, dedicar-se a passeios, rezas, TV e leituras. Passado quase um ano, ela continua envolvida com a lida doméstica, sem se libertar da vida antiga, apesar de não ter quem, a rigor, dependa dela.  




Certa época, entrou para a organização onde eu trabalhava uma turma nova, moderna, disposta, realmente boa de serviço. Uma dessas pessoas, além de ser capaz, fazia mesmo questão de se mostrar sempre ocupada, estudiosa e apressada. Um dia nos encontramos no clube, ela na sua espreguiçadeira. Muito gentil, me chamou para me juntar a ela e explicou que gostava de aproveitar aquelas horas para ler suas revistas técnicas especializadas. Ao abrir espaço para mim, caíram da mesinha várias das revistas. Até hoje, aqui em casa, CARAS é chamada de revista técnica especializada.


São inúmeros os casos de pessoas que não admitem ficar sem trabalhar, que não se permitem papear à toa com amigos, que não conseguem transferir tarefas para outrem, que não dão conta de simplificar a rotina, que não param nem para cuidar da saúde,  que acham desdouro o lazer.
Não me refiro a quem de fato executa seu trabalho com leveza, com prazer. São incontáveis também os casos de pessoas que seguem assim felizes até o fim da vida, seja no que sempre fizeram ou em algo novo. Também não me refiro às que são obrigadas pelas circunstâncias a assumir certos papeis.


Eu me refiro àquelas pessoas que simplesmente não conseguem deixar de executar tarefas desagradáveis e até certo ponto desnecessárias, àquelas pessoas que não reconhecem a praticidade de alguns aspectos da vida moderna, àquelas que, mesmo podendo, não sabem substituir algo complicado por algo já pronto, àquelas que supõem que certos serviços sejam sua obrigação, seja por culpa, hábito arraigado, senso exagerado de dever ou perfeccionismo.


A Expulsão do Paraíso,
Charles Joseph Natoire,
c. 1770 - fflch.usp.br
Como se construiu esta mística do trabalho? Primeiro, em lições da Bíblia, guia e inspiração de toda a civilização ocidental, que, ainda no Genesis, nos conta que, como castigo pela desobediência, Adão e Eva, ao serem expulsos do Paraíso, perderam a inocência, a imortalidade e o direito ao ócio: “Comereis o pão com o suor do vosso rosto.”
Ao longo da história, as religiões e vários sistemas filosóficos e de governo reforçaram a ideia do trabalho não apenas como necessidade, mas também como valor moral. A fábula A Cigarra e a Formiga e a historinha A Galinha Ruiva são exemplos dessa pedagogia.
                                                                                 
Na família de minha mãe, alguns episódios com certeza ajudaram a formar trabalhadores compulsivos. Por exemplo, em festas, almoços ou jantares em casa, nem bem acabada a comemoração, lá estava uma prima encarando o monstro da pia, lavando aquele mundo de louça. Quando alguém comentou: “Você gosta de lavar vasilha, né?”, ela respondeu de voleio: “Eu, não! Eu não gosto é de ver vasilha suja!”


Um dos meus tios, já passado dos 80 anos, portanto com mais de setenta anos de trabalho duro na roça, estava descansando depois do almoço, quando chegaram visitas. O quarto dele dava diretamente para a sala onde se encontravam essas pessoas. Apertado por ter sido pego no ócio, ele não relutou: pulou a janela, deu volta na casa, e apareceu na sala como se estivesse vindo de alguma ocupação no terreiro ou no curral.


Ao fim deste relato, constato que, como quase tudo na vida, aqui também é tudo muito relativo. Se, por um lado, comparada a pessoas operosas e diligentes, eu me considero folgada e preguiçosa, por outro lado, frente a outras pessoas, sou eu a operosa e diligente.   

sábado, 22 de outubro de 2011

FREDZILA - NARA, PARTE 1

Carlos Frederico Abreu

A cidade de Nara  foi capital do Japão no século 7, sendo que somente outras duas cidades (Quioto e Osaka) tiveram esta mesma honra.

Devido a este passado, inúmeros santuários xintoístas e templos budistas são encontrados em Nara. O budismo fortaleceu-se no Japão neste período chamado Nara-jidai, quando o poder dos monges era tanto que influenciava na politica da corte imperial.


A casa do grande Buda Vairocana (ou Daibutsu), o grande templo do leste é um complexo arquitetônico budista. O budismo chegou no Japão no século 7, trazido por monges coreanos e que foram responsáveis por introduzí-lo junto à corte japonesa. Neste período também foram inventados os silabários hiragana e katakana.

A adoção do budismo pelos círculos mais elevados do império favoreceu seu crescimento; em 685, o então imperador Temmu ordenou que cada família tivesse um altar budista. Seu descendente, príncipe Shotuku, foi além, decretando que cada província construísse um templo.



O Japão, na época, era assolado por doenças, pragas e fome e o desejo de se agradar aos deuses foi fundamental para que o grande templo, o maior do país então, fosse construído. Completado em 751, era uma das maravilhas do mundo (ainda é). É a maior 'casa' de madeira do mundo.



O complexo original contava com dois pagodes de 100 metros, em seu tempo apenas menores que as pirâmides do Egito. Ambas foram destruídas por terremotos.


A imagem principal teve que ser refeita diversas vezes por diversos motivos, de incêndios a terremotos.



As mãos atuais foram refeitas no período Momoyama (1568 a 1615) e a cabeça refeita no período Edo (1615-1867).


De forma irônica, a construção de templos pelo país também fortaleceu um poder que rivalizaria com o do trono japonês, por este motivo, a corte imperial deixou Nara e mudou-se para a distante Quioto, por onde permaneceria por mil anos até a restauração Meiji.








Nara teve então seu esplendor apagado pela nova capital.
O templo Todaiji é sede da escola Kegon de Budismo e patrimônio da humanidade pela Unesco.

Ao longo do tempo, outros monumentos se somaram ao templo, como o grande portão (Nandaimon), erguido em 1194.



No portão, as figuras dançantes de Nio, tem 28 pés de altura, são guardiões da entrada do templo. Os jardins se juntaram ao complexo no século 16.



Uma das colunas de sustentação do grande hall possui um buraco junto a base, que diz-se, ser do tamanho de uma das narinas do Buda Daibutsu. A lenda diz que aquele que passar pelo buraco será abençoado na sua próxima vida.Ví várias pessoas presas ao tentar passar e precisando serem puxados para 'desentalar'.

É fácil encontrar este local, pelo som das risadas dos expectadores quebrando o silêncio reverencial .

A construção do templo custou tão caro para a economia da época que afundou o reino nos anos seguintes. Para se ter uma idéia, todo o bronze disponível naquele tempo foi usado para confecção da estátua.




O Buda Vairocana (ou Daibutsu) e suas medidas

Altura : 14.98 metros
Face : 5.33 metros
Olhos : 1.02 metros
Nariz : 0.5 metros
Orelhas : 2.54 metros,
Peso: 500 toneladas.


Binzuru - O discípulo expulso



Do lado de fora do templo está a estátua de madeira de Binzuru, um dos 16 discípulos de Buda.
Conta a lenda que Binzuru não era propriamente 'obediante' ao seu mestre e por castigo a estátua permanece do lado de fora do templo. Binzuru acabou se tornando popular entre aqueles que vinham de todo o país prestar homenagens a Buda e acabou incorporando a fama de que, se esfregando uma parte da estátua, correpondente ao local onde sofremos algum tipo de mal, Binzuru concede a cura.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A MÚSICA QUE SAI DO CORPO

Por Lilian Zaremba







Naquele verão de 91 no ambiente londrino do Albert Hall, a expectativa se instalara: todos aguardavam a apresentação daquela composição de Steve Reich. Os dois homens solistas entram no palco vestindo calça e blusas pretas, se alinham lado a lado na boca do palco. A música vai começar...mas onde estão os instrumentos?
Surpresa: os instrumentos são quatro mãos.
Steve Reich quis compor música que não precisasse de nada além do corpo, e o resultado “Clapping Music” escrita em 1972 mantém o primeiro solista repetindo o mesmo padrão sonoro enquanto o segundo aos poucos introduz variações.
Se esta proposta de Steve Reich apresentada no ambiente da música de concerto dos anos 70 causou certo espanto, e meso alguma indignação, em pleno terceiro milênio já não nos surpreende. Na verdade, retirar sons do próprio corpo é algo ancestral, inerente à condição humana... ok não precisamos exagerar, mas é sempre bom lembrar que humanos também uivam, gritam, bocejam, para além de toda redução civilizatória, também emitem gritos primais.

Os Barbapapas

Sofisticando este fato, elevado ao patamar das artes, os integrantes do grupo Barbatuques realizam belo trabalho de percussão corporal. Fernando Barba criou e dirige este trabalho que define como : "...os barbapapas eram serem que mudavam de forma e se transformavam em tudo, inclusive em instrumentos musicais”.
Seguindo esta idéia, Fernando e seu grupo criaram uma verdadeira bateria humana aonde os sons podem começar em uníssono, depois seguir como naipes de uma orquestra, abrindo espaço para solos aonde vários sons extraídos dos corpos são expostos e combinados ao grupo sonoro.

É natural que todo trabalho sonoro relacionado a nosso próprio corpo acabe nos remetendo a um passado ancestral. Contatos imediatos com o vento, frio ou quente, paisagens ainda presentes em meio ao caos urbano, ecoam como sentidos compartilhados, seja no frenesi de um festival pop, ou na amplitude com que artistas como Walter Smetak, Naná Vasconcelos, Uákti ou Marlui Miranda mergulham nessa capacidade física do som de nossos corpos.



Saudação tatu-jaboti: A vela prepara o vôo.   


Música no vídeo cantada por Marlui Miranda, retirada do CD: "Ihu Todos os Sons" - 1995 - Gravadora Pau Brasil. Gravação do vídeo: Mauricio Felippe.


Clapping Music (1972) by Steve Reich


Barbatuques DVD Corpo do Som ao Vivo - Show

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

RIO, VOCÊ FOI FEITO PRÁ MIM - BONDINHO DO PÃO DE AÇÚCAR

Gilvania Ferreira

Outubro é aquele mês que não falta aniversariante ilustre no Rio. Além do (agora oitentão) monumento do Cristo Redentor, também recebe o “parabéns pra você”: o Pão de Açúcar. Na próxima quinta-feira, dia 27, essa verdadeira obra de arte da natureza que impacta nossa vista e toma conta da paisagem do Rio completa 99 anos. Tá certo que o que a gente repara mesmo é o conjunto formado entre o Morro da Urca e o Morro do Pão de Açúcar (e não exatamente os teleféricos que os ligam), mas vai dizer que você consegue dissociar uns dos outros?

Eu não.



Qual dos dois é o mais famoso? Amigos, eu realmente não sei e confesso a vocês que nunca tive o trabalho de tentar adivinhar ou gastar meus parcos conhecimentos estatísticos em alguma análise sem emoção para tentar responder essa pergunta. Se o Cristo é uma das novas maravilhas do mundo moderno, o formato do Pão de Açúcar ilustra logomarcas de quase todos os eventos que acontecem ou acontecerão na cidade, como os Jogos Pan Americanos de 2007 e as Olimpíadas de 2016.

 Jogos Panamericanos de 2007

Olimpíadas de 2016

Eu confesso que o Pão de Açúcar exerce um certo fascínio sobre mim. Com aquela beleza toda, difícil mesmo seria ignorá-lo, não é? Já fui lá em cima nos mais diversos horários e sempre me encanta ver o Rio lá do alto. O pôr do sol sempre me deixa sem falas, ver as luzes da cidade acendendo logo em seguida é outro espetáculo e fico me perguntando o quanto não deve ser lindo passar o réveillon por lá (sim, é possível, leia aqui: www.bondinho.com.br).

Lembro da primeira vez que subi.

Não vou mentir: deu medo! 

E não diga que é irracional o que senti. Vai dizer que você acha super natural e tranquilo ficar dependurado dentro de uma caixa que se arrasta por alguns cabos a mais de 300 metros de altura?
Hoje, eu até caçoo de quem tem reação semelhante à minha em 1999, mas no dia eu tava tão apavorada achando que o teleférico ia despencar que cheguei a tropeçar naquela manobra de sair do bondinho e pisar em “terra firme” de novo e meu pé sofreu com uma leve torção. 



E o bom do Pão de Açúcar é que você pode curti-lo de ângulos diferentes. Não só lá de cima. Pode ser passeando pelas ruas da Urca, encravada aos pés do ponto de turístico de um lado ou do outro, enquanto faz uma caminhada na Pista Claudio Coutinho. 

Pode ser também pelo Aterro do Flamengo e até em um intervalo de suas compras no Botafogo Praia Shopping (o Spoletto tem um terraço com bela vista pro Pão de Açúcar, a Livraria Saraiva abriu um espaço na sua parede para “enquadra-lo” e no espaço externo da praça de alimentação também).
 
Só tenha cuidado se você estiver dirigindo!

E, a propósito, a subida custa mais de R$ 50 para fazer o passeio. Mas que vale a pena, vale.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

DIÁRIO DE UMA ADOLESCENTE. RELAÇÃO COMIGO MESMA

Por Bianca Monteiro

Particularmente, é irônico ser este o assunto justo nestes dias em que não estive me sentindo bem o suficiente para me usar como exemplo de qualquer situação. Todos têm seus dias bons e ruins, isso é indiscutível. E comigo não podia ser diferente. Meu humor seria predominantemente ruim (por causa do horário que eu acordo, claro) se não fosse a escola. Para alguns, é uma tortura. Mas, para mim, a parte ruim de todos os dias é apenas ter que acordar. Ao adentrar a escola, esta me parece uma dádiva. Obriga todo e qualquer mau humor a sumir apenas ao ver meus amigos. A ansiedade atual anda me impedindo de cumprir esse hábito. Cultivo esse defeito há algum tempo, antes resolvido roendo unhas, comendo escondido meu chocolate favorito, andando de um lado pro outro da sala da minha casa enquanto falava sozinha (contando minhas histórias para mim mesma milhares de vezes, por medo de esquecê-las). Ainda faço tudo isso, mas, o melhor jeito que aprendi para controlar meus sentimentos mesmo com toda a intensidade causada pela idade, foi passar a escrevê-los. Não soluciona de fato, mas organizar as ideias e formulá-las de forma que, quando compartilhadas, outras pessoas possam entendê-las já é um grande progresso para a análise destas. E sempre nessas análises, chego à conclusão que está tudo distorcido, que estou exagerando, dramatizando, que logo aquilo vai mudar... E é o que de verdade acontece. Procuro ter sempre esse senso crítico e procurar saber quais situações merecem ou não determinada quantidade de atenção. Acho que isso deveria ser obrigatório para todos, já que infelizmente a adolescência sempre passa essa mesma imagem, e porque de fato a maioria deles tem o comportamento condizente.

Outro problema que sempre me atingiu foi a baixa autoestima, causada pelo excesso de complexos (este eu realmente vejo que predomina, assim como o contrário, também visível em muitos). Vários dos meus amigos, até mesmo os mais próximos, têm grandes exigências consigo mesmos, frustrações com aparência, rendimento escolar, sentimento de inferioridade... E outros (dos quais me afasto, consequentemente) são tão exageradamente autoconfiantes que tornam-se iludidos a respeito das próprias capacidades e de seus limites. Novamente menciono a necessidade de equilíbrio em tudo (talvez por ser indecisa, nunca consigo ficar de um lado ou de outro... Faço parte permanentemente do meio termo). Resolvi este da forma mais estranha possível: me decepcionando ao perceber o quanto esse defeito afetava tudo ao meu redor. Numa desilusão muito grande, tive uma espécie de surto de realidade que me fez perceber a diferença infinita que havia entre o que as coisas realmente são e o que eu achava que elas eram. Perceber melhor as circunstâncias é o que todos fazemos, mas apenas depois que elas passam, já que assim tivemos tempo suficiente pra pensar no que deveríamos ter feito e em tudo o que houve de errado. Tentar não repetir erros é inútil, já que cada situação é única, e às vezes o que não foi bom na primeira talvez tivesse sido a melhor escolha na segunda. Mesmo assim, tento usar essa experiência como exemplo para ajudar esses amigos, sabendo que vivemos coisas completamente diferentes, mas que pelo menos algo eles poderão aproveitar. E além disso, estou sempre aqui com uma opinião sincera para dizê-los onde seus pontos de vista estão distorcidos. Os resultados parecem bons.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

QUITANDA DA VIDA XLVIII

Telinha Cavalcanti

Outro dia deu saudade de comer doce caseiro. Doce de verdade, que esses de pote de vidro não chegam nem aos pés. E, mexendo no caderno de mamãe, achei esta receita de doce de mamão verde, que pode levar coco, mas nesta não leva.

Lembrando que o mamão usado é o mamão bahia, não sei se dá para fazer com o papaya...  

 Doce de mamão verde
2 mamões verdes médios 
500 g de açúcar 
Cravo da índia a gosto

Como fazer:
Lave bem os mamões, descasque, retire as sementes e rale no ralo grosso.

Deixe o mamão ralado de molho por algumas horas para que se tire o gosto do verdor e do leite - uma noite é mais do que suficiente.

Lave novamente o mamão para que saia toda a água do molho.
Levar a ferver a água com o açúcar (meça para ser o suficiente para cobrir o mamão e deixar 2 dedos a mais). Quando estiver fervendo bastante, adicione o mamão.

Cozinhar em fogo baixo, mexendo de vez em quando. O mamão deve ficar macio. Veja o ponto da calda, que não deve ser rala nem grossa. Coloque o cravo quando estiver perto de tirar o doce do fogo, para o sabor não ficar muito forte.

Coloque em uma compoteira, sirva com queijo branco.

Existe um doce de mamão verde que é feito com quadradinhos de mamão passados no cal virgem. Se alguém tiver a receita, pode me ensinar? :D

imagem: Net Receitas

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Por que e porquês

  
Comecei a me entusiasmar pela escrita na escola, quando minhas redações começaram a fazer sucesso.
Eu era uma garotinha tímida e vesga, e as crianças não perdoam esses predicados. Fiquei cada vez mais tímida, tinha medo de abrir a boca, e meu ideal naquele tempo era ficar invisível. Mas um dia, lá pela segunda série, alguém elogiou uma redação feita por mim. Vi olhares meio admirados em minha direção. Ninguém podia esperar que aquela figua apagada com cara de boba conseguisse essa façanha. 
Meu ego de oito anos se libertou do esconderijo e deu umas cambalhotas pela sala.
Claro que eu não tinha a noção clara do que estava acontecendo, mas foi uma sensação tão gostosa que nunca mais esqueci. A certeza de que alguma coisa minha podia ser admirada pelos outros foi a primeira chance de me sentir gente entre as gentes. Pouco tempo depois fiz os primeiros amigos na turma e parei de inventar motivos pra faltar à escola.
Todo mundo precisa de alguma coisa que o faça sentir-se "como os outros". Nem precisa ser algo importante ou notável, mas a sensação de igualdade, de aceitação, desde a infância é essencial na vida. Isso é tudo que um ser humano precisa para abrir caminho à felicidade. Por isso, a partir desse tempo, escrever passou a ser um hábito. Era o meu forte, o que me dava um motivo suficiente para justificar minha existência.
Mais tarde incorporei também a leitura, o desenho e a pintura às coisas boas da vida. Enquanto isso tudo acontecia, outras alegrias foram crescendo e aparecendo: amigos, pessoas afetivamente importantes, acontecimentos reconfortantes que iam tornando a vida muito mais gostosa de viver.
A timidez continuou, embora nunca tenha propriamente impedido meu movimento entre os outros. A leitura, a escrita e a pintura prosseguiram sendo atividades um pouco compulsivas, que sempre trazem bem-estar.
Não corri atrás de profissionalização, embora meu trabalho tenha sido quase sempre com textos e desenho. Mas  posso dizer que escrever foi uma libertação e continua, décadas depois, a representar uma gratificação que não dá pra dispensar. Hoje fico pensando se não deveria ter procurado caminhos mais condizentes com essas atividades. Só que agora ficou meio tarde pra essa pretensão. Então, viva os blogs, por onde a gente pode se manifestar livremente, e que têm trazido alguns retornos, se não vantajosos do ponto de vista financeiro, que ficou sempre em outros departamentos, ao menos compensadores do ponto de vista do ego, que continua bem contentinho desde os oito anos.

 Imagem Journey, de Slawek Gruca.

domingo, 16 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. UM PULO RÁPIDO NA INFÂNCIA

Por Ana Laura Diniz


Carrego tanta lembrança da infância que fica difícil falar de uma coisa ou outra. Mas eis que estou em São Paulo, e vendo a casa da minha irmã cheia de caixas de mudança - pois meus pais retornaram para cá - pensei nas tranças, nas tramas, nos caminhos, nas aventuras, nas viagens, enfim, nas situações inusitadas. E foram muitas.

A mais comum era inventar que algum tio tinha chegado de surpresa em São Paulo (eles moravam, em maioria, em Belo Horizonte), o que fazia meu pai chegar mais cedo do trabalho... ah, que delícia! Podíamos curti-lo um pouco mais, pois sempre trabalhou demais.

Meus pais - Neyde e Mário Lúcio -, criaram uma casa de Anas e Luíses: Ana Beatriz, Luís Henrique, Luís Fernando, Ana Cristina e eu, Ana Laura. Nasci sendo uma estatística - um caso em um milhão - pois minha mãe ficou grávida quase quatro anos depois de já ter ligado as trompas. 

E nós cinco aprontávamos! Costumávamos fazer surpresas sempre que possível. Hoje, lembrando das situações, penso que a cada vez que dizíamos ter uma surpresa, eles deviam temer... Mas não sei, pois nunca, jamais esboçaram nenhum desgosto. Como num domingo de sol em que resolvemos lavar o carro do papai - um passat novo em folha, de um verde metálico muito bonito... terminamos e fomos chamá-lo: 


- Pai, pai, venha ver, fizemos uma surpresa para você!


Todos junto, querendo levá-lo pela mão, até que ele chegou, viu e disse sorrindo:


- Ah, que legal... vocês lavaram o carro do papai?!?
- Sim, pai, lavamos!!!
- Agora diz uma coisa para o papai: vocês passaram bombril nele?
- Sim, pai, passamos, passamos!!!
- Ah, que legal, ficou muuuuito bonito!!! 


E todos entramos felizes da vida.


Dispensável dizer que só tivemos consciência do que tínhamos feito muitos anos depois, uma vez que ele não brigou com a gente. O carro só tinha uma semana e o arranhamos por inteiro... E ganhamos o melhor sorriso do mundo como recompensa.

E mamãe seguia a mesma política: não se estressava por nada. Uma vez, a casa recém-pintada, chamamos os dois para a sala dizendo ter uma surpresa! Eles chegaram, olharam e disseram:

- Desculpem, filhos, mas não estamos vendo nada...

Nós rimos. Três de um lado e dois do outro lado - abrimos a cortina:

- Tcharammmm...

- Nossa filhos, que legal, vocês desenharam a parede inteira??!
- Sim, vocês gostaram??
- Muito, filhos, está lindo!!!

E havia o que quisesse: carros, montanhas, sol, lua, mar, estrela, crianças brincando, andando de bicicleta... o que mais pudesse.

As histórias são muitas, quase que infindáveis... coisas que nem imaginam...

Então olho para essas caixas de mudança e penso no número de vezes que já mudamos de casa, de bairro, de cidade... e mais ainda: que é possível viver num mundo de harmonia, sem qualquer nível de violência para se obter realmente o respeito. No lugar de palmada, diálogo sempre (muito) aberto. E pensando bem, essa característica sobreviveu e nos acompanha até hoje.