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domingo, 3 de abril de 2011

SENHORA DO TEMPO. TRILHANDO A MEMÓRIA

Por Vera Guimarães

Fui criança nos anos 1940/1950. Naquele tempo, o interior de Minas se ligava por trilhos. Para qualquer direção que mirássemos, havia uma linha, um ramal, uma viação. Central do Brasil, Viação Férrea Centro-Oeste, Cataguases-Leopoldina, Vitória-Minas me eram familiares e por eles viajei.

Filha mais nova, eu sempre acompanhava minha mãe em viagens de visitas a parentes e amigos, a maioria delas feitas por trem. De Sete Lagoas íamos, rumo ao norte, a Wenceslau Braz, Carvalho de Almeida, Araçai, Cordisburgo, Curvelo, Corinto e Diamantina.

Em Cordisburgo, ponto de almoço, havia o Hotel Argentina, ao qual se chegava subindo, a partir da estação, o que aos meus olhos de menina era uma escada majestosa. Não me lembro de haver feito refeição ali. Devia ser caro para nosso orçamento. Levávamos nosso próprio farnel. Aliás, voltando de uma viagem a Curvelo, onde ganhamos abacates, num trecho da viagem minha mãe abriu um deles e ali mesmo o saboreamos. Nunca um abacate foi tão saboroso.

Eu teria uns 13 anos quando meu irmão mais velho foi trabalhar no Banco do   Brasil em Carlos Chagas MG. Logo que ele se casou, fomos visitá-lo durante   minhas férias escolares. De Sete Lagoas até lá vivemos uma odisséia, quatro dias de trechos diurnos e noturnos, paisagens inéditas, vendedores de quitutes e frutas, mulheres com pencas de crianças, gente entrando e saindo, samburás, malas, uma cabra, gente dando sinal fora da parada (e o trem obedecendo), baldeações, pelo menos três viações: Central do Brasil, Vitória-Minas, Bahia-Minas.

Já adolescente e atleta do vôlei da Escola de Comércio, fiz com o time uma viagem para Vespasiano, hoje tão perto, naquele tempo uma viagem. Morávamos na rua da linha férrea, o trem saia cedinho e eu não acordei na hora certa. O técnico veio me buscar e disparamos os dois esbaforidos pela rua que amanhecia. Foi a conta de chegarmos e o trem partir.

Com outro time de vôlei, o da Praça de Esportes, fui a Montes Claros. Saímos à noite, fizemos baldeação em Curvelo ou Corinto e só chegamos ao destino pela manhã. Sonhos, paquerinhas, flirts, músicas sussurradas, casos, anedotas, confidências, tudo cabia no espaço de uma viagem de trem.

Minha primeira ida ao Rio foi pelo Vera Cruz, também conhecido pelo poético nome de Trem de Prata, deslumbramento com a viagem e com o destino.

Atrás, a Estação Ferroviária de Belo Horizonte,
hoje estação de passageiros e Museu de Artes e Ofícios

Estão vivos na minha lembrança o ruído das engrenagens dos comboios, o   desequilíbrio sutil ao andar por seus corredores, o frio na barriga ao atravessar a céu aberto a passagem de um vagão para outro, o cheiro único da maria-fumaça, a cadência tlecti-chitlequetlequeti-chi-tleque-tleque, as paisagens se sucedendo, “os dois lados da janela”, as gentes ao longo dos trilhos, a fagulha inesperada no rosto, os precários banheiros, o som plangente do apito numa curva do caminho...  Era nossa   rotina nos deslocarmos, por divertimento ou por necessidade, através das   ferrovias. Todo mundo o fazia: jovens, velhos, pobres, doentes, ricos, urbanoides, roceiros e suas cargas, negociantes, atletas, caixeiros-viajantes...

Sempre que viajo para fora do Brasil, procuro um trem. Conto isso para dizer que por lá a ferrovia está viva, vivíssima, e serve para os mais variados deslocamentos, curtos, longos, transcontinentais, atravessa metrópoles, o deserto de Gobi, o mar do Norte, proporciona contemplação, favorece convivência durante o trajeto, igualzinho nossas antigas ferrovias.

Apesar do pouco tempo disponível, fizemos questão de “perder” um dia inteiro para ir de Budapeste a Munique por ferrovia. Pela janela, passaram paisagens de cartão postal, lavouras recém-semeadas, casal de faisões ciscando a terra, veadinhos se embrenhando na mata rala ao barulho do trem, igrejas com cúpula “cebola”, crianças ciganas, bandos de estudantes, bandos de corvos.

De Porto a Lisboa, examinando tabelas, horários e roteiros, e devido a nossa ignorância e à especial sonoridade das palavras no português de Portugal, tivemos frouxos de riso imaginando e inventando significados bizarros para nomes das estações. O que seriam Alfarelos? E uma Albufeira? O que uma Trofa? Já Celorico da Beira nos lembrou um lavrador muito simpático e prestativo. Estarreja? Pampilhosa? E os bobos se acabavam de tanto rir.   

De Londres a Paris, fomos de Eurostar, por baixo do canal da Mancha. De inesperado e fascinante, a St-Pancras International Train Station de onde parte o trem. Fiquei apaixonada por sir John Betjeman, de quem até então nunca tinha ouvido falar, o poeta que lutou para que o prédio não fosse demolido. Vejam nós dois aqui:


Por aqui, no Brasil, praticamente só existem pequenos ramais turísticos, melhor que nada. Levei os filhos pequenos a Sabará pelo trem subúrbio. Fiz com eles Curitiba-Paranaguá. Passeei na maria-fumaça entre Tiradentes e São João Del-Rei, recentemente, e chorei de saudade. Quando soube que a Vale atrelou um vagão de passageiros a sua linha de carga entre Belo Horizonte e Vitória, lá fui eu nas 12 horas entre as duas cidades. Ainda não havia ar condicionado e fazia um calor absurdo ao atravessarmos a região do Vale do Aço. Com a janela aberta, poeira e fuligem entrando, ganhamos bigodes e sobrancelhas enormes e divertimento que não estava incluído na tarifa.

Pela época em que entrei na vida adulta, começou o desmonte de toda nossa rede de transporte ferroviário. E gradativamente foi-se acabando esse transporte democrático, limpo, seguro, acessível, divertido, saudável, poético. Vi suas lindas estações em estilo inglês serem demolidas, ruírem pelo abandono ou virarem centros culturais. A cada dia temos notícia de pilhagem de seus trilhos e vagões, de ocupação do leito das ferrovias por camelôs, de dormentes sendo transformados em mobiliário rústico chic, de vagões que viraram lanchonetes.

Às vezes tenho lampejos de esperança, como, por exemplo, ao ter conhecimento de que existe uma Associação Nacional de Preservação Ferroviária. Passeiem pelas fotos, pelos links, conheçam locomotivas e estações antigas, vejam as estatísticas.


Também fico feliz ao ver que na criação do Museu de Artes e Ofícios, localizado na estação ferroviária de Belo Horizonte, adotou-se o conceito de museu vivo, conciliando a exibição do magnífico acervo de objetos e da montagem de ambientes relacionados a trabalho com a revitalização e funcionamento, de verdade, do serviço de transporte de passageiros.

Infelizmente o site TREM DE DOIDO, pelo qual eu amava passear, virou uma antiguidade internética e está abandonado. Espero que vocês, como eu, se enterneçam principalmente com os gifs animados da galeria 2.

A poesia que acompanha linhas e vagões e chegadas e partidas está em algumas de nossas melhores canções: O TRENZINHO DO CAIPIRA, de Villa-Lobos; TREM DAS CORES (“As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar, os dois lados da janela...”), de Caetano Veloso; TREM AZUL, de Lô Borges; O TREM DAS SETE, (“Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem...”), de Raul Seixas; NAQUELA ESTAÇÃO, (“E o meu coração, embora finja fazer mil viagens, fica batendo parado naquela estação...), cantada por Adriana Calcanhoto, de Caetano Veloso, João Donato e Ronaldo Bastos; TREM DO PANTANAL, (“Enquanto este velho trem atravessa o pantanal, só meu coração está batendo desigual...”), consagrada por Almir Satter, autoria de Simões e Roça; ENCONTROS E DESPEDIDAS, de Milton Nascimento e Fernando Brant (“A plataforma desta estação é a vida deste meu lugar..”); TREM DAS ONZE, de Adoniram Barbosa, unanimidade nacional, cantada em todas as rodas; GENTE HUMILDE, de Garoto, Vinicius e Chico (“Eu, muito bem, vindo de trem de algum lugar...”); PONTA DE AREIA (“... ponto final da Bahia-Minas, estrada natural ... caminho de ferro mandaram arrancar...”) e tantas outras. 

Não gosto de nessas crônicas dar um tom de “Ah, o bom era antigamente!”, mas neste caso só posso lamentar profundamente as decisões que acabaram com nosso transporte ferroviário. Desculpem-me, amigos!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

SENHORA DO TEMPO. CINEMAS DA MINHA VIDA

Por Vera Guimarães


Muito cedo as salas de cinema me encantaram. Na minha cidade no interior de Minas, cresci sabendo da existência daqueles dois cinemas. Eles já estavam lá antes de mim.


O Cine Theatro Trianon, situado num extremo da rua do footing, velho e pequeno, era composto de uma platéia e das galerias. A platéia, provida de poltronas de madeira fixadas no piso, se situava no nível térreo. As galerias eram estruturas de madeira localizadas acima e nas laterais da platéia, formando praticamente um teatro elisabetano, o que descobri muito tempo depois, ao conhecer o teatrinho de Sabará.  Os pilares de madeira entalhada que sustentavam as galerias laterais saiam diretamente da platéia e criavam poltronas indesejáveis, das quais não se enxergava a tela. Quem se assentasse ali, ficava com o pescoço torto para se desviar do pilar e ver o filme. Azar de quem chegasse tarde, o que não ousávamos, já que ver e ser visto fazia parte do programa.

Na praça no outro extremo da rua do footing,ficava o Cine Meridiano, maior e mais novo, amplo, um vão enorme (eu gostaria de conferir esse “enorme” hoje, mas o prédio não existe mais). Neste as poltronas já eram estofadas e a tela era grande, permitindo a projeção de filmes em cinemas cope.

Logo que pude sair de casa sozinha, isto é, sem a companhia de meus pais ou irmãos, lá pelos 8 anos, ia com amigas para a porta do Trianon e dávamos  um jeito de nos irmos esgueirando para dentro do saguão, com a desculpa de vermos mais de perto os cartazetes, e aos poucos estávamos vendo pedaços do filme pela greta da cortina. Por várias vezes o porteiro veio nos dizer que aquele filme não era para nós. No passeio e na rua procurávamos por pedacinhos de filmes, fotogramas que guardávamos como tesouro quando encontrávamos uma cena inspiradora ou o galã dos sonhos.

Lá pelos 10, 11 anos, já familiarizada com as salas de cinema, comecei a ir, às terças-feiras, à Sessão das Moças, cujo ingresso custava “um dinheiro”, provavelmente Cr$1,00, valor que eu conseguia vendendo vidros e garrafas para a farmácia, vendendo jornais velhos, entregando marmita, ou, bênção, ganhando um trocado de algum irmão mais velho ou de algum tio em visita à cidade. E principalmente de minha mãe.

Pouco tempo depois, eu devia ter uns 14, 15 anos, anunciou-se a construção de outro cinema, esse, sim, prometendo tecnologia, conforto e charme. Ainda mais que a vizinha cidade de Curvelo, tida como rival de Sete Lagoas, tinha acabado de inaugurar seu Cine Denise, que diziam ser uma maravilha. Existir lá um cinema assim era um desaforo para os setelagoanos. Perto da inauguração, já pronto o prédio de amplas dimensões e linhas modernas, os donos lançaram um concurso para escolha do nome do cinema. Espalharam urnas pela cidade, e as vitrines de uma loja de tecidos exibiam alguns dos palpites. Eu me lembro de ter ficado ansiosa pelo resultado que, quando veio, para mim foi absolutamente decepcionante: Cine Rivello. Como?  Por quê? Revelou-se, depois, que Rivello era a cidade italiana de onde vieram os ascendentes dos donos do cinema. Não importa, era um nome simpático e passou a fazer parte da minha vida.


Conheci, depois, muitas salas. Na Capital, freqüentei cinemas que ainda exibiam o luxo de arquitetura art déco, cortinas de veludo, pisos de mármore e granito, ferragens preciosas, lustres e arandelas bem desenhados, jogos de luzes, trilha sonora para antes e depois do filme. Frequentei também as salas mais modestas de cineclubes, instalados em centros acadêmicos, na Imprensa Oficial, ou mesmo em algum cinema que se dispusesse a carregar o título, para o bem e para o mal, de “cinema de arte”. Vi, depois, os cinemas darem lugar a igrejas e migrarem para os shoppings, onde hoje se encontra a maioria delas. Embora o bulício e a desconcentração que reinam nas salas de hoje não me agradem, continuo amando ir ao cinema.

Mas foi naquelas salas da minha infância que conheci a magia do cinema. Nos filmes que vi viajei por lugares inacessíveis e inimagináveis, aprendi História e acompanhei histórias, chorei por amores contrariados, torci por mocinhos, vibrei com cowboys falsos, copiei modelos de vestidos e cabelos, ri demais com O GORDO E O MAGRO, desejei tanto saber dançar sapateado, me afligi com o destino da mocinha em seriados que se interrompiam em horas cruciais, me meti  a falar inglês embromation...


Mas, principalmente, comecei a considerar a possibilidade de uma vida que, até ali, eu não sabia ser possível.