domingo, 17 de fevereiro de 2013

SENHORA DO TEMPO - WOODSTOCK E ROMARIAS

Vera Guimarães

Minha neta de quase 17 anos se prepara para seu primeiro grande festival de música. Depois de vários meses de negociação quanto a dinheiro, desempenho escolar, companhias, onde ficar, passagens, finalmente ela exibe, feliz, os ingressos para o evento.



A mãe dela, minha filha mais velha, mais ou menos com essa idade, foi a um Rock in Rio. Dizem que a primeira edição do festival, em 1985, reuniu 1.500.000 pessoas.



Woodstock deve ter sido o primeiro megaevento de música, a partir do qual se implantou esse formato festivo, no qual se reúnem durante vários dias as grandes bandas, naquele caso, bandas de rock, e seus milhares de jovens fãs, adeptos, seguidores, aficionados, não sei exatamente que termo usar. Nos três dias que durou Woodstock, estiveram por lá 500.000 pessoas.

Antes disso, só mesmo a religião era capaz de reunir tanta gente. No mundo todo e desde tempos imemoriais, existem romarias, jubileus, celebrações diversas, cerimônias de adesão ou confirmação de adesão a determinado culto, fazeção e pagação de promessas.  A Meca, para honrar o Profeta, todos os homens devem ir pelo menos uma vez na vida. Anualmente, dois milhões de pessoas cumprem a obrigação, numa gigantesca procissão em torno da Kaaba. Lourdes e Fátima, na França e em Portugal, recebem milhões de romeiros o ano inteiro, em certos meses mais que nos outros.

Neste momento, está na minha frente recorte de jornal desta segunda semana de fevereiro de 2013, dizendo o seguinte: “Aproximadamente 30 milhões de peregrinos hindus - um recorde – mergulharam ontem nas águas sagradas do rio Ganges para celebrar o ritual de Kumbh Mela, a maior festividade religiosa do mundo, que acontece a cada 12 anos em Allahabad, no norte da Índia. (...) Ao longo de 55 dias – o festival começou em 14 de janeiro e termina em março – 100 milhões de hindus devem passar por Allahabad, cidade que tem 1,2 milhão de habitantes. ‘Entrar no rio pode mudar sua vida para sempre’, destacou Malti Devi, de 65 anos, que viajou de Londres para participar do ritual.” 100 milhões de pessoas?

No Brasil, as romarias a Aparecida do Norte, a Juazeiro do Norte e ao Círio de Nazaré devem ser as que reúnem maior número de pessoas. E em cada região do país, perto de cada cidade, existe com certeza um lugar sagrado para onde nos dirigirmos em busca de consolo, elevação da alma, resgate de promessa, louvação ou para um pedido desesperado. Mas não apenas. Romarias e jubileus são oportunidade de diversão, espairecimento, turismo, negócios, namoros.


Na minha infância, décadas de 1940/1950, no nosso mundo pequeno, eu ouvia falar em Congonhas do Norte, no Jubileu de São Geraldo, em Curvelo, na romaria a Congonhas do Campo. Nessa última, se construiu hospedaria para os romeiros, um conjunto impressionante para abrigar os peregrinos que vinham de longe. Demolida e reconstruída, hoje é um centro cultural. 

 imagem: IEPHAMG
  
Na nossa família, não éramos particularmente chegados a peregrinações. Nossas romarias eram mais a casas de parentes e amigos. Minha mãe, devota de São Geraldo, dava notícia do jubileu do santo em Curvelo MG. Eu não me lembro de ter estado lá. 

Uma amiga me conta de peregrinação que fazia para honrar Nossa Senhora da Abadia, em Goiás. A festa era esperada o ano inteiro. A família se deslocava em caminhonete, os adultos na boleia, as crianças, algum agregado da fazenda, os colchões, os mantimentos, as comidas prontas e as roupas na carroceria. No meio do caminho havia uma parada para refeição. Depois de um dia de viagem por estradas poeirentas e esburacadas, chegava-se ao destino: um descampado, onde havia apenas e unicamente uma capela. Durante uma semana aquele lugar se transformava e fervilhava de gente: padres, freiras, devotos, comerciantes, doentes, crianças. O lugar se enchia de barracas e tendas, tanto para comércio e refeições, quanto para hospedagem das famílias. Cumpria-se a devoção anual, divertia-se, as pessoas passeavam. E esperava-se com ansiedade a festa do ano seguinte.

Já meu Woodstock era a Serra de Santa Helena