Anibal Bragança, autor do livro "Impresso no Brasil" , prêmio Jaboti de 2011 como melhor livro na área de Comunicação, e a Fundação Biblioteca Nacional convidam para a mesa redonda sobre O Real Gabinete Português de Leitura e a circulação de idéias no século XIX, dia 21 de maio, segunda-feira, das 16 às 18 horas, na Fundação Biblioteca Nacional, auditório Machado de Assis, Rua México, s/n, (entrada pelo jardim) Centro.
O expositor será o professor Fabiano Cataldo de Azevedo, da Unirio, os debatedores, Professores Antonio Edmilson Martins Rodrigues da UERJ e PUC do RJ e Madalena Vaz Pinto , também da UERJ/FFP-RGPL.
O debate coordenado pelo professor Anibal Bragança faz parte do IV Encontro da Série "Os livros e a vida literária do Rio de Janeiro"
Sábado, dia 19, Laura Guimarães e Vera França lançarão dois livros que reúnem textos dos dois colóquios sobre Imagem e Sociabilidade promovidos pelo Gris/UFMG( Universidade Federal de Minas Gerais), no espaço TIM do Conhecimento/UFMG, na Praça da Liberdade em Belo Horizonte, às 12hs30m.
Haverá coquetel de lançamento às 12h30, lá no Espaço TIM do Conhecimento/UFMG, na Praça da Liberdade. )
Está chegando o tempo de Perséfone voltar a Hades. O outono já anuncia os preparativos da viagem em que Perséfone volta ao seu amor.
Eu particularmente não gosto do frio, eu me sinto desprotegida. Mas me agrada acompanhar o ciclo, as folhas caem, as pessoas se recolhem, é como se o exagero do verão exigisse um descanso.
Depois que atingimos uma determinada idade começamos a ter uma perspectiva mais ampla, obviamente por ter mais pontos de referência acumulados. Não sei se a vida vem em ciclos. Os óbvios, sim, nascemos, alguns de nós reproduzimos, e depois morremos, mas a diversidade humana é tão fascinante que acho que esses são os únicos ciclos que todos temos em comum.
Quando somos jovens, há tantas perspectivas mas não temos os referenciais, raros são os que sabem o que querem. E mesmo esses mudam de ideia ao longo do caminho.
O que aprendi nestes últimos anos é que sempre é tempo. O tempo só para para quem não quer andar com ele. Eu tive uma vida muito calma (demais) por muitos anos, hoje minha vida é um redemoinho. Escolhas.
Mas há que se escolher o vórtice, a paixão pela vida. O que viemos fazer aqui? Quem sabe? Então perder tempo para quê?
Outra constatação que vem com a maturidade é o inexorável “This too will pass”. Não há absolutamente nada que não mude e por mais pétrea que pareça uma situação amanhã com certeza ela será diferente. Isso é de certo modo reconfortante, mas inquietante. Não queremos que o que é bom vá embora. Mas o que é bom muda também e passa a ser não tão bom.
Então, simplificando tudo, não há nada a perder. E se não há nada a perder, temos tudo, todas as possibilidades, os universos paralelos devem existir, afinal.
Talvez Perséfone não tenha querido voltar para sempre porque percebeu que o maior horror de todos, ser levada por Hades, tinha também seu “nada a perder”. Hades fez dela uma mulher, e a terra foi salva por ela concordar em satisfazer também à mãe.
Acho que poderíamos aproveitar o inverno, que não tarda, para brincar de Perséfone.
Está todo mundo puxando o saco do povão, quer dizer o nosso: banqueiros, operadoras de telefonia, empresários, publicitários, emissoras de televisão, jogadores de futebol, obesos mórbidos, pagodeiros universitários, sem contar os pedidos de autógrafos e de empréstimos, entre outros.
Mas a glória não nos modificará.
O sucesso do Brasil não nos subirá à cabeça, mesmo no caso de uma reviravolta, e o Tiririca assumir o Judiciário.
Ainda assim, continuaremos as mesmas pessoas simples, alegres ou reflexivas, que éramos antes de ficarmos formidáveis.
Mas isso não quer dizer que não estejamos fazendo planos. Sabemos que não basta atingir a onipotência. É preciso saber o que fazer com ela.
Eu, por exemplo, uma emergente que faz, e apesar da idade avançada, ando pensando maior e mais longe. Vou abrir uma “vaquinha entre amigos”, o mais novo com 70 anos, para juntos, comprarmos uma grande extensão de terra.
Após algumas investigações descobrimos uma bela extensão de terra (que não é indígena), e que seus atuais donos estão tentando vendê-la incluindo a parte construída, por uma ninharia. Quase dado!
Além do terreno que é uma beleza: matas, rios, muito minério, inclusive ouro, algumas benfeitorias, ótimo lugar para passeios e piqueniques, terra de primeira qualidade, provavelmente com petróleo em baixo, pelo preço de pasmem, um quarto e sala sem vaga na garagem. Imperdível!
Mesmo com todo o nosso sucesso econômico e financeiro, com a “vaquinha” fechada entre os amigos, com os empréstimos consignados, com o total das rifas de quermesses de igreja, ou com as vendas de empadinhas das mulheres do grupo, é possível que o total arrecadado não seja suficiente para fazer o negócio.
Já pensamos até numa oferta razoável: dar o cão “Farofa” (de 18 anos de idade) como garantia para que possamos arrematar toda a propriedade.
Esse é o nosso sonho: um lugar que tenha a nossa cara e que seja a nossa casa, e que a gente tenha orgulho de receber visitantes sem ter que estar explicando, a toda hora, a violência, a insegurança, a desorganização na saúde pública, os altos juros, a falta de saneamento básico, a corrupção política, e os etc.
Só prá começar.
Lançamento amanhã, 17 de maio
livro da Fal Azevedo "Sonhei que a neve fervia"
Livraria Prefácio - Rua Voluntários da Pátria, 39, Botafogo (RJ)
fone (21) 2527-5699
1) Como surgiu a ideia de escrever "Sonhei que a neve fervia"?
Ana Laura, o Alexandre morreu. E fui escrevendo sobre isso. Sobre o que eu sentia. Sobre o que eu me lembrava do que aconteceu. Sobre minha dor. Sobre meu medo e minha solidão. Sobre o que acontecia em volta de mim. Sobre você, minha margaridinha comedora de cebolitos e sobre a nossa belíssima e macia Esther. E daí, virou livro.
2) Como se deu o trabalho de criação?
No caso específico do Sonhei, fui colocando cronologicamente no papel. Vivia hoje, escrevia amanhã. Depois, na relida, coloquei cousas, tirei cousas. Porque, né? É assim.
3) É o seu quarto livro publicado, o segundo pela editora Rocco: quais os planos futuros? Outro livro na costura? Na ideia? Em processo de feitura?
Tem um de humor, um manual mal educado de etiqueta. Um de comida. Esses, prontos. Um começado, de cartas, em parceria com mermão, o Pedrão, também de humor. E um alinhavado, uma jornalista policial neurótica e gorda chamada Olímpia, hahaha, não teça comentários
4) Quanto à reação do público, incluindo a sua legião de fãs [amei dizer isso porque também me incluo: estou em todas as variáveis da sua vida], qual a sua expectativa em relação à obra mencionada?
Tou me pelando de medo pra falar a verdade. É um treco todo muito pessoal, não sei bem onde eu tava com a cabeça. Devia ter escrito em terceira pessoa e chamado a fia de Marieta.
5) Como foi desenvolvido o seu processo de criação? Do princípio ao fim, quais alterações (se é que houve alguma) mexeram de alguma forma contigo?
Meu processo de criação assim, na vida? Eu anoto compulsivamente, tudo, tudo mesmo. O que penso, o que sinto, o que ouço, o que você disse e que roupa você está vestindo. Quando o volume de anotações espalhadas vira uma massa critica, releio tudo, tento organizar, separo, dou forma, junto parágrafos, elimino coisas. Ah, até aqui foi tudo feito à mão. Daí, a coisa é toda digitada. Assim, meio molenga e sem forma. Imprimo. Releio. Mais anotações à mão, isso vira crônica, isso entra no livro tal, isso vai pro blog, isso vai pra gaveta, isso vira carta pro Ricardo, isso aqui é e-mail pra Camila. Junto, separo, acrescento parágrafos. Mais uma rodada de digitação, mais uma rodada de impressão. Releio, anoto,digitio e, geralmente, daí fico só na tela, o material não volta a ser mexido na mão.
O Sonhei foi meio atípico, porque foi diário. Dia tal, pa-pá, aconteceu isso, vi aquilo, pimba, fechou.
6) Sendo escritora, como se classifica hoje?
Hahaha, Ana Laura, que pergunta... capciosa. Sou uma escritora que trabalha pacas. Que recomeça todos os dias. Que não sabe bem pronde o trem vai, mas sigo firme. Que nem prego na sopa.
7) Fal por ela mesma: uma descrição.
Eu sou um amor de criatura, Ana.
8) "Sonhei que a neve fervia" por "Sonhei que a neve fervia". O que o livro diz dele mesmo?
É um livro pessoal, em primeira, sofridinho, soluçado.
9) Qual(is) dica(s) você dá para as pessoas, jovens ou adultos, que desejam escrever um livro?
Encontrem um narrador. Comigo é o que funciona: achar quem vai contar a história, antes do resto. Final, tempo, forma e tal, vemos depois. Mas sem um narrador, não da nem pra começar. E trabalho. Escrever é um negócio pesado, grudento, difícil, é um eito. Esqueçam as manguinhas bufantes, tinteiros de cristal, plumas de ganso, tinta lilás e arranjos de rosas cor de laranja no centro da mesa. Bem vindos ao mundo dos descabelados, da caneta bic sem tampa, dos guardanapinhos cheios de manchas e anotações, das cadernetas sem capa, dos computadores que fervem, das impressoras que não funcionam, dos caras que deixam o banho para amanhã.
10) Dá pra viver sendo escritor? Conheço, no mínimo, nove jovens adolescentes que sonham com isso.
Dá. Não eu, mas tem gente vivendo disso, né, Aninha.
11) Como analisa o mercado editorial hoje no Brasil? Acha que mundo afora é diferente?
Ô Ana, num sei analisar mercado editorial, não. Tem livro bom, tem livro ruim. Tão caros, mas eu sou pobrinha, acho tudo caro. Tem injustiça, tem justiça, tem editoras boas e ruins. Espero que, em algum lugar, seja diferente :o)
Tava eu vagando à toa por essa internet véia sem porteira de meu deus quando me deparei com esta receita em inglês: Bodacious Brownies. Gente, falei com meu parco inglês, que diabo será bodacious? A receita era simples, as fotos eram saborosas. Bodacious, bodacious, isso tem cara de ser coisa boa. Pesquisei no dicionário e descobri: bodacious: prodigioso, audaz, inesquecível. Hmmmm! Eu tinha que contar para vocês!
1/2 xícara de farinha de trigo
1/4 colher de chá de sal
2/3 de xícara de chocolate meio-amargo picado ou em chips
8 colheres de sopa de manteiga sem sal
1 xícara de açúcar refinado
2 ovos
1 colher de chá de extrato de baunilha (difícil de achar, mas pode usar essência, mesmo)
Como fazer
1. Preaqueça o forno em temperatura média/alta
2. forre uma assadeira retangular ou quadrada com papel manteiga, deixando sobras para poder desenformar
3. Peneire junto a farinha e o sal; reserve.
4. Derreta o chocolate e a manteiga juntos. A maneira mais fácil é colocar no microondas, em temperatura média, e mexer de minuto a minuto. Se houver instruções sobre como derreter o chocolate na embalagem dele, é melhor segui-las. Uma vez que o chocolate e a manteiga estiverem bem derretidos e bem incorporados (vai ficar uma mistura suave e brilhate), reserve.
5. Em uma batedeira, bata o açúcar e os ovos, até ficarem bem cremosos. Adicione a baunilha e a mistura de chocolate e manteiga e continue batendo em velocidade baixa.
6. Adicione a farinha de trigo aos poucos, batendo bem.
7. Asse em forno médio por 25 ou 30 minutos (claro que vai depender do seu forno). Faça o teste do palito de dente para ver se assou bem.
8. Deixe esfriar por 5 minutos, retire da assadeira com a ajuda da sobra do papel-manteiga. Deixe esfriar completamente e corte em quadrados. Sirva com sorvete de creme.
O Rio tem um quê de inesperado. Aqui acontecem coisas
difíceis de encontrar em outras cidades do mundo, até mesmo do Brasil. São
traços de personalidade que os cariocas e seus amigos de fora vão absorvendo, à
medida que se acostumam às ruas de bairros urbanos ou da periferia. São cenas
típicas, sentimentos que se instalam na gente que vive aqui; paisagens que
incorporamos ao dia-a-dia; costumes que se adotam sem saber bem por quê.
Nada mais característico do Rio do que essa sensação de
gratuidade, esse contágio fácil que vai generalizando um jeito de viver e agir;
que inventa hábitos, expressões, gírias que acabam incorporadas ao carioquês. O
jeito de vestir irreverente, a informalidade. A vivacidade, uma espécie de
astúcia malandra de procurar o que fica mais simples, mais à mão, o que soa
mais despreocupado e casual. A alegria de viver que chega às raias da
inconsequência. Um certo atrevimento. E mesmo no inverno, o descaramento de
sair sem casaco num frio de dez graus. Ou de casaco e sandália havaiana. Só um
carioca pode fazer questão de ignorar o guarda-chuva, faça o tempo que fizer. E
só as (poucas) cotias do Campo de Santana não fogem das pessoas. Passa-se pela
lagoa e lá está uma ave desafiadora na proa de um barco, e a gente para só pra
ver um voo se desenhar no meio do céu.
De repente, um poodle
miniatura chama para a briga os pés de quem passa e todos se encantam por ele,
enquanto sua dona segue adiante e deixa na calçada os dejetos do bichinho como
se não tivesse notado. Ninguém como um carioca sabe se fazer de desentendido,
quando lhe interessa. Ninguém desconversa melhor. E ninguém liga pra isso; há
uma ética do desinteresse que sustenta a infinita tolerância carioca para com a
contravenção, o crime, a bandalha, o relaxamento. O carioca é um leniente que
perdeu o freio.
São cariocas os motoristas machões e marrentos e o poder
desassombrado dos pivetes de qualquer idade. O carioca é cheio de saídas
criativas. Improvisa, programa só pra não cumprir e não cumpre horários, a não
ser que o emprego seja dos bons. Pode conviver com o caos e a promiscuidade das
ruas, dos bares, das boates sem perder uma ponta de compaixão e uma leveza que
recria pessoas e ambientes, mas de repente se invoca por qualquer bobagem e
parte para a briga.
É bem a nossa cara virar padrinho de um garoto de rua, ficar
inteiramente eufórico por isso e depois perder o afilhado de vista. Acreditar
cegamente em alguém só porque tem uma boa conversa. Apaixonar-se de repente por
alguém que nunca viu. Fazer amizades instantâneas como se morasse no paraíso.
E no entanto o paraíso carioca é cada vez mais apenas uma
linda paisagem. Parece que as virtudes desse povo criaram raízes tão enormes
que, com o passar do tempo, viraram um cipoal em que se tropeça a toda hora e
atrapalha a vida. Porque uma virtude é o extremo oposto de um defeito, e
acontece que os extremos se tocam.
Foi a Bel quem achou esta foto. Isabel Pacheco Bernini. Saía do trabalho para fumar quando viu a foto do casal caída na calçada.
Fotografou a fotografia e a postou no facebook com a legenda “Tá lá uma foto estendida no chão”. Lembrada a música do João Bosco.
Mas Isabel não ficou somente de frente para o crime. Incitou que as pessoas escrevessem sobre o achado. E quem conta um conto aumenta um ponto, foi assim que ensaiamos, várias amigas, a história da fotografia que surgiu na rua:
Alguns acreditavam que, por ter havido desentendimento, um dos pares jogara a foto fora, em alguma cesta de lixo na calçada e o vento a levara, ou teria sido posta em agradecimento por algum milagre, na Igreja da Cruz Torta, que fica perto do trabalho da Bel, no Alto Pinheiros, em São Paulo, e o vento também a levara. Como vimos o vento tem culpa pelos sete costados.
Marina Lobo, disse- Ou não! tudo depende do olhar criativo, de repente o chão pode virar as paredes da igreja... (independente disso a foto é muito linda!)
Ana Laura Diniz- Belzinha, eu não falei desde sexta sobre essa foto - quando você postou - porque me falta contexto... mas não aguento: achei muito criativa a sua abordagem e não consigo ler essa frase com essa foto sem rir... mas não sei se é pra rir, se pode rir... enfim... e o mais doido é que o chão da igreja se mistura ao chão em que a foto repousa...
IsaBel Pacheco Bernini- NáLaura, podemos até rir. Embora o fim de um amor suponha choro, em certos casos, né?
Esse foi o seguinte: Fui fumar meu cigarrinho e me deparo, logo ali, no chão da rua da empresa, com essa foto, do nada. Deve ter caído de algum saco de lixo?
Eu fiquei boquiaberta, como podia ter caído uma foto dessa, né? Ou foi ele ou ela que jogou pela janela do carro? Várias hipóteses...
Ana Laura - uau, que loucura... a história cada vez mais toma outra dimensão... hahahaha, não demora, os donos da foto então poderão se ver no face . Que doideiraaaaaaaa. mas que a foto ficou ótima, ficou!!!
IsaBel i- ééé, aí um deles pode contar o casamento pra nós... e as doidas vão começar a opinar... umas de nós vão defender o moço. outras a defenderão...
Ana Laura - eu não ia dormir bem se não desse esse comentário hoje. estou desde sexta me coçando, mas estava super sem graça de externar minha emoção.
IsaBel - eu acho que ela veio jogar a foto na porta da igreja onde casou - tem uma famosíssima lá perto mesmo. Onde era moda casar nos anos 80 - época desse casamento aí (pela foto dá pra sacar). Igreja da Cruz Torta...
Ora, minhas amigas... uma igreja com um nome desses, Deus que me livre.
Aí, após voltar da Alemanha (ele tem cara de alemão), ela veio, jogou a foto na porta desta igreja.
A foto veio voando pelas ruas de Pinheiros e parou bem no meio das minhas lágrimas.
Isabel Pacheco Bernini
Esther - Por que ela jogaria a foto na porta da igreja?
IsaBel - Pra simbolizar a dor do fim. Ela queria continuar. Ele não. Ela não se daptou ao clima da Alemanha, às gentes, a família dele era autoritária demais.
Ele ficou na Alemanha. Ela voltou... tá aí mais um motivo pra raiva
.
Ela amou. Olha as costas dela. Toda pra frente... ela virou alemã no início do namoro.
Ele se apaixonou por outra. Uma grega. Ela tinha virado alemã demais.
Ela voltou por mágoa. Tanto tempo de dedicação à alemãzice. Aprendeu até a fazer linguiça, coisa trabalhosa... E ele querendo feijoada, pratos quentes, samba e a Paula lá, no bordado da Baviera.
Mas foi influência da sogra, ela desejou agradar fazendo frivolites e olha no que deu... e a grga fazia uma feijoada como ninguém. entendo, IsaBel Pacheco Bernini. Mas foi influência da sogra, ela desejou agradar fazendo frvolites e olha no que deu...
Esther - Karl Spaeth. O nome dele, está escrito atrás da foto, você viu? Resolveu da Grécia ir para Manaus derrubar árvores, montar uma serraria e lá encontrou mestiças lindas que cozinhavam pequi perfeitos. No entanto acabou espetando a boca num daquelas espinhos do pequi e o calor propiciou a infecção. Daí que ele veio para o Rio se tratar. Abandonou a serraria e foi morar em Vila Isabel.
Ana Laura- A Paula aprendeu a fazer chucrute...
Inara Almeida Rodrigues
Inara Almeida Domingues- Preciso ler os próximos capítulos dessa tragédia do chucrute.
IsaBel - Opa. Osasco na área. Eu tava certa mesmo em ter ido fumar.
Inara - A Paula tem cara de quem não encararia tirar espinho de pequi da língua de ninguém.
IsaBel - Pois é. Agradou demais. Se aculturou muito. Jogou a latinidade fora. E tudo que ele queria era o chaleur do brasil em terras frias, duras..
A Paula descobriu a receita original do chucrute. A sogra queria matar a louca.
Esther - Na realidade, contam que ele veio procurar o chaleur da Joana Francesa, montada no jegue com o decote provocante. Mas , mais uma vez, entra o chico na história e ele era fã de caetano...
abhinc 2 momenta • Mihi placet
•
Ana Laura Diniz e ela se amarrou em cozinhar "kassler mit Sauerkraut", ou seja, costeleta de porco com chucrute acompanhado de batata cozinha. arroz com feijão, necas
Inara - A sogra até gostava dela, mas Paula (a do Rio?) já sabia demais. Precisava ser exterminada. Não restaria salsichão sobre salsichão.
IsaBel- Ah, Inara, minha jovem. Você não conhece o poder do amor. Paula foi encarar o joelho do porco, Inara. Vivo! Por amor ela matava o porco sozinha só pra fazer o melhor joelhinho pro marido, querida. O amor faz coisas que nem Deus faz melhor.
Sandra Salles D'Alcantara- E se os dois morreram, e alguém da família veio deixar a fotografia aos pés da Santa Cruz (já tem a trilha): você se ajoelhou, em nome de Jesus um grande amor você jurou- Zé da Zilda/ Marino Pinto.
Esther - E o mais doloroso, Sandra, é que até hoje neste mesmo ponto, neste mesmo pedaço de calçada, onde a IsaBel Pacheco Bernini foi fumar passa um realejo que toca esta música cantada pelo Adoniran Barbosa.
IsaBel - É, Esther. A Joana Francesa dele virou a Paula Alemoa e ele voltou para as casas brancas e silenciosas da Grécia.
Aí, Sandrinha, a história fica bonita. Mas como a foto voou do altar? Um pé de ventania fortíssimo. O que me lembra uma frase da sua filha, que bem pode ser do seu marido: ninguém dá uma chance pro romance!
Igreja da Cruz Torta , em São Paulo
Inara - Esther, diga-nos, por favor, qual é a música do Adoniran que toca no realejo?
Esther- Como não conheço nenhum música do Adoniran em realejo, falei somente para fazer parte do enredo, lá vai o próprio Adoniran:
Ana Laura - Mamma mia, foi pra grécia encontrar Sofia.
IsaBel - Joana Francesa, Inarão. Uma das coisas mais lindas deste mundo. Sim, porque este mundo tem coisas lindas. Que você tem que conhecer já!
IsaBel - Não, Inarão! A Esther tá falando de outra música..
Esther - e hoje, Sandrinha, Paula e Karl estão profundamente arrependidos das escolhas que fizeram.
Ela foi até a lata de lixo catar a foto depois que recebeu uma carta de seu ex marido vinda da Grécia. mas mal sabe ela que IsaBel Pacheco Bernini está com sua lembrança guardada e chorou muito quando viu a foto estirada no chão.
Mas um dia, como diz Karl na carta, ele chegará no cais do porto , lá em Santos, e irá em busca de sua Paula especialista em frivolite.
Sandra Salles D'Alcantara- D. Maguinho, como bom pisciano, opinou dizendo que pode ser uma promessa ou algum ritual para segurar o casamento deles!!!Um romântico este meu marido!
Esther - Pode avisar para Dom Maguinho que há possibilidades neste fundamento e que a vida deu certo porque os dois estão juntinhos de novo, recebi notícia por telex inda agora, e pensam em prolixa prole.
IsaBel - Aê, Esther fez um final possível. (minha cara). Mas eu acho que uma vez que ele viu os gregos, NaLaura... difícil ficar saudoso dos frivolites, da feijoada. Karl está em óóótema companhia. E se eu fosse a Paula eu endireitava esse ombro, e andaria com fé, que a fé não costuma faiá.
IsaBel Pacheco Bernini- Ai, muita honra Dom Maguinho na nossa história, hein?
Sandra - Pois é...o fato de ser músico, pisciano o torna apto a embarcar nesta "viagem" feminina! ( foi a única opinião masculina).
Esther - Paula está confiante, aprendeu a fazer feijoada, carré, leitão a pururuca com a Terlinha , toca uma gaita afinadíssima e canta emboladas paulistas nos bares do Bexiga.
E soube também que Paula aceitou a vinda da grega numa boa, e viverão numa imensa casa, os três mais as crianças- a grega tem filhos tem filhos com Karl- .
Dom Maguinho, pelo que sei, prometeu tocar no batizado do primeiro filho/a dele com a Paula. Será festança!
E com esta história contada por sentimentos de várias pessoas sensíveis certamente era virará conto de fada, ou lenda urbana, pois desde que a Bel - Isabel Pacheco Bernini- resolveu fumar na calçada a vida do casal tornou-se pública e as hipóteses de hoje podem ser consolidada em alguma realidade passada ou futura. Não seja o diabo a lhe atrapalhar as botas nem a cruz torta da Igreja.
Pois o vento faz coisas, segundo Riobaldo: " Ah, a gente, na velhice, carece de ter uma aragem de descanso. Lhe
agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém
devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar...
Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens.
Até: nas crianças — eu digo. Pois não é o
ditado: “menino — trem do diabo”? E nos usos, nas plantas,
nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio
do redemunho... (Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.)
Um dia, amigas comemoraremos nossa vitória com um banquete, em homenagem a todas que lutaram, ou que só usaram o batom. E bêbadas de nós mesmas, a mesa coberta com os destroços do combate, brindaremos as cadeiras vazias daquelas que lá não estão.
A que morreu no exílio
A que foi devorada por vermes estrangeiros
A que enlouqueceu um pouco e ainda tem delírios passageiros
A que comprou um sítio nos Cafundós e manda fotos de seus pés com tamancos
A que só encontro na rua, correndo entre o banco e o supermercado
A que fazia poesia maldita e acabou numa agência de propaganda
A que se casou com o Agenor e dizem que vive um triangulo amoroso
A que queria ser freira e dizem que transa droga
A que fazia parte do movimento “proletário”, que abriu uma butique
A que foi quase a nossa Maria Bonita, que hoje vive de trambique
A que era mãe e hoje é órfã de filho e viúva do Dói-Codi
A que queria mudar o mundo e se mudou
A que ia ser a melhor de nós todas, e vacilou
A que cantava hinos revolucionários sob protestos dos vizinhos
A que dava desconto no almoço aos esquerdistas
A que fumava Belmonte, que hoje cuida de cinco crianças adotadas
A que se tornou mãe de miss que é dona de um canil para cães de rua
A que desanimou no meio do caminho
A que rezava a Ave Maria antes de dormir e hoje posa para sites eróticos
A que saiu das trincheiras com deficiência física numa cadeira de rodas
A que lia Marx e hoje freqüenta uma igreja evangélica
A que militava na Resistência e se tornou Presidenta da República
Apesar das constantes violações aos direitos humanos e as torturas físicas e psicológicas sofridas no período da ditadura militar, e mesmo sem placas nas ruas como heróis da Resistência, mas com a consciência de que os bárbaros não passaram, porque nós também estávamos lá, nas barricadas da história, esta civilização nos deve, pelo menos, outra rodada.
Esta é a minha homenagem às mães remanescentes das trincheiras revolucionárias e a todas as mães fantasmas da minha geração.
A atenção dada pelos japoneses ao florescimento das cerejeiras é algo
muito sério e até difícil de explicar. O país inteiro acompanha as
notícias diárias sobre as primeiras floradas e existe um serviço
especial, dentro da competentíssima Agência meteorológica do Japão,
dedicada somente a registrar os percentuais de floração e emitir os
boletins.
É comum nesta época, entre março e maio, ligar a
televisão e ficar sabendo que na cidade tal, a floração chegou a 80%,
90%… em outras partes as árvores são contadas, sim, isso mesmo, algo do
tipo, “as 127 cerejeiras da rua tal…”.
É um acontecimento tão
grande que traz gente do mundo inteiro somente para ver as cerejeiras,
que são de diversos tipos. Estas cerejeiras em particular não dão
frutos.
Para se ter uma ideia da dimensão deste evento que leva
milhares de pessoas aos parques públicos durante o tempo da floração
(não mais do que alguns dias), a cidade de Tokyo precisou criar um
esquema especial para recolher as quase vinte toneladas diárias de lixo
(garrafas pet e latas na maioria).
O Hanami é um costume antigo no Japão, com registros por volta do século
8, e se manteve essencialmente o mesmo até os dias de hoje, pois caiu
no gosto do Japão moderno, sendo popular entre todas as idades e classes
sociais. Junto com o início da primavera (reinício da vida após um duro
e castigante inverno), também marca o início do ano fiscal e letivo.
A
flor da cerejeira (sakura) tem um tempo de floração muito curto, não
passando de poucos dias, portanto é um acontecimento muito aguardado por
todos os japoneses.
Basicamente colegas de trabalho, de escola,
familiares e amigos, se encontram nos parques, estendem plásticos sob
as cerejeiras e celebram bebendo, comendo, cantando, rindo e se
divertindo.
O evento é propício para se refletir sobre a beleza e a brevidade da vida, sua delicadeza e fragilidade.
Apresentando Elaine Pereira, a nova colunista do PF
Como falar de Elaine? Posso começar pelo seu amor imenso pela vida. Elaine não molha os pezinhos na beira da piscina - ela se joga de cabeça. Longe de parecer porra-louquice, isso é de uma sabedoria antiga. Carpe diem, diriam os mais sábios do que eu. Elaine é inteira. Inteira no amor pela filha, que cresce com um exemplo ímpar de mulher e mãe, inteira na felicidade, inteira na dor. E, por ser inteira, é grande, e nada exagera ou exclui. E aqui, no Primeira Fonte, assumindo a coluna 84, Charing Cross, ela vai nos contar de sua vida, de suas viagens pelo mundo - trazendo o olhar límpido e a palavra exata. Se preparem - ela sabe o que faz.
Telinha Cavalcanti
Datas, Lugares
Elaine Pereira
Eu sou mãe, tenho mãe, tive vó até um bom tempo. Mas não vou falar de Dia das Mães. Eu odeio todos os Dias de alguma coisa. Nem vou entrar no mérito do comércio, mas acho que é porque sou mesmo uma pessoa horrorosa. As homenagens me dão canseira e acho tudo muito chato. Eu cumpro a tabela, porque vivo em sociedade, portanto tenho que ao menos parecer normal.
Porém, frequentemente sopram ares familiares ao meu redor. Eu sou primeira filha, primeira neta, sobrinha, etc., a mais estragada e no entanto a que tem um senso de amor familiar mais depurado, com toda modéstia.
Meu avô nasceu na Ilha da Madeira, em Portugal e muito pouco convivi com ele. Quando ele se foi eu tinha sete anos e ele foi longe de ser o avô que meu pai é para minha filha. Sisudo, eu nem me lembro da voz dele, só guardo com amor o anel de ônix que ele me trouxe quando foi ver pela última vez a terra mãe, já de avião, o que era o luxo dos luxos nos idos de 1970.
Na verdade eu tive mais contato com a minha tia Paulina, irmã dele, apesar de nunca tê-la visto. Nós nos correspondíamos. Sim. Carta. Papel. Caneta. Ir ao correio. Era uma emoção para mim, sabe-se lá para ela. Os primos que vinham de Portugal sempre traziam as recomendações de saber como eu estava.
Eu fui a Portugal com vinte e poucos anos e não a visitei. Com vinte e poucos anos a gente acha que tem coisas importantíssimas para fazer em uma viagem e acaba deixando de lado o que interessa, mas é assim. Pouco tempo depois ela se foi também, e meu primo disse, perdeste a oportunidade de vê-la, ela queria tanto.
Há um mês atrás, depois de muito viver, conviver com família, ganhar membros novos, perder insubstituíveis, fiz o caminho inverso ao do meu avô no começo do século. Fui de navio à Ilha da Madeira. Ao chegar, perdida, com um papelzinho com meio endereço, porque na época em que minha tia me escrevia a aldeia era tão pequena que todo mundo sabia quem ela era, nem sabia se queria ir procurar, com medo da decepção de não achar.
Mas os anjos me mandaram o seu Virgílio, o motorista de táxi. Ele não só me levou à Ponta do Sol como foi mostrando tudo o que tinha até lá. Bananeiras a perder de vista. Mas ao chegarmos a mini aldeia era um bairro inteiro e não se tinha como saber onde nascera meu avô e onde morara a Tia Paulina. E novamente os anjos me deram vontade de tomar café e eu fui tomar café no café do marido da afilhada da Tia Paulina. Como foi isso? Sei lá, começamos a falar de nomes, sobrenomes, ele teve um clique e disse – mas é a madrinha da minha mulher!
Lá fui eu para a casa da tia Paulina e de repente o bairro todo sabia quem ela era e onde era a casa, e eu fui lá, coração aos pulos, passando pelas ruelas, casinhas, casonas, bananeiras sem fim (a Ilha da Madeira produz bananas pacas) e chego em uma casa com uma senhorinha lavando o quintal. “A senhora sabe onde era a cada da D. Paulina”. “Ó, pá. Claro que sei. É esta aqui.” Depois das explicações de quem eu era, vi a casa toda da minha tia Paulina das cartas de 35 anos atrás, pus as mãos nas paredes e ainda vi uma foto que a Dona Amália, a nova proprietária guardava com carinho – uma foto igualzinha a uma que eu tenho comigo, do meu avô bem pequeno com os irmãos.
Eu realmente sou uma ovelha negra. Não compareço a aniversários, não comemoro datas, não visito bebês e doentes, sou péssima anfitriã. Mas voltar à casa onde meu avô nasceu foi uma coisa que não vou saber descrever. É um sentimento maior que família, é como se eu estivesse, por exemplo, em Marte, e visse um outro terráqueo. É a sensação que a gente tem quando ouve um brasileiro falando em outro país. Fazemos parte. Os genes fervilham dentro do corpo. O coração reconhece o lugar onde nunca estivemos fisicamente. Eu fiquei lá tocando, sentindo os cheiros, o sol, vendo o mar através das bananeiras e imaginando que parte de mim ficou lá sem eu nunca ter ido antes e que eu estava reencontrando.
As fotos e a história causaram furor na família aqui no Brasil, especialmente no meu pai. A mim foi acrescentado um sentimento que eu ainda não tinha catalogado e nem sei o nome. Mas preenche tudo, corpo, cabeça, coração.
Detesto formalidades. Sempre me incomodou a existência daquelas relações sociais que somos obrigados a ter, aquelas pessoas que temos que engolir contra a nossa vontade apenas porque fazem parte da vida de outras com quem convivemos, como se viessem de brinde no pacote... Gente que não escolhemos, mas que vêm junto. E na maior parte das vezes, temos que passar por isso por causa dos pais e familiares em geral. Não consigo me acostumar com essas situações por acreditar muito na individualidade e não conseguir assimilar bem esses conceitos de grupo, de "conjunto". É terrívelmente desconfortável ter que herdar e lidar com suas inimizades, implicâncias, convivências sociais/profissionais, rotina. Não só nesse sentido, mas acho que em tudo, é difícil mesmo viver com outras pessoas por ter que se adaptar aos que os outros gostam ou não, e fica pior com a quantidade de gente. Não dá pra agradar todo mundo ao mesmo tempo, certo? Pois é.
Em outras palavras, não consigo aceitar o fato de que devo fazer ou não algo só porque alguém está com vontade, mesmo se eu não estiver. Depender da vontade alheia. E como filha, amiga, parente/familiar, enfim, é exatamente o que devo fazer, ou pelo menos é esperado que eu faça. Está aí o que de fato me incomoda. Não basta ter que arcar com as minhas escolhas na vida, ainda tenho que aguentar outras e sofrer consequências. E é desfavorável porque, claro, sou eu quem deve seguir os outros, mas aposto que se fosse o contrário, os outros que seguissem minhas vontades, nem perceberiam a diferença. Acho que é exatamente esse o comportamento dos pais... Pois por serem quem comanda, criticam nossa intolerância, mas não percebem que fariam o mesmo se os papéis se invertessem.
Por exemplo, se algum familiar seu brigar em alguma loja, e diz que nunca mais vai entrar lá, você deve fazer parte disso e também não pode mais entrar. Ou se brigar com alguém, e por você ser um parente solidário, também estará automaticamente brigado com aquela pessoa. Ou até o contrário, ele pode fazer amizade com alguém que você não suporta, e você terá que concordar e sorrir.
É realmente mais grave quando, por algum acaso, pegam uma pessoa (ou até mesmo um local, uma instituição) do seu convívio (seja social, profissional, whatever) ignorando esse fato e usando-o para outros fins. Seja o que for, acabaremos, de novo, sofrendo as consequências disso. Os pais deveriam estar cientes disso: todas as suas escolhas nos afetam indiretamente, então, mais cuidado! Não é só porque decidem algo que nós temos fazer também, porém, já que por enquanto não há escolha, calma lá, sem radicalismo, tudo deve ser pensado antes da melhor forma para não criar dificuldades indesejadas aos outros.
O sonho de consumo de todos: família feliz (Imagem Google)
"Na semana passada, o Superior Tribunal de Justiça tomou uma decisão inédita no Brasil: determinou a um pai o pagamento de R$ 200 mil por “abandono afetivo”. Antonio Carlos Jamas dos Santos, empresário do ramo de combustíveis de Sorocaba, no interior de São Paulo, terá de pagar à sua filha, Luciane Nunes de Oliveira Souza, professora da rede municipal da mesma cidade, por sua ausência como pai. Na sentença, manchete da maioria dos jornais brasileiros de quinta-feira (3/5), a frase lapidar da ministra-relatora do caso, Nancy Andrigui: “Amar é faculdade, cuidar é dever”.
Nos dias posteriores, Luciane deu entrevistas, em que chorou muito pelo abandono, assim como comemorou a vitória dos filhos abandonados do Brasil, representada pelo seu triunfo no tribunal. Minha pergunta: é possível – e desejável – que um pai seja condenado por falta de afeto? "
Assim começa o artigo que Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista escreveu nesta segunda feira, dia 7 de maio na revista Época.
O caso é assustador e permite que o Estado interfira diretamente em nossa vida doméstica, forneça a medida para o bem ou mal querer, e administre a vida familiar e se nosso amor está compatível com o equilíbrio da balança da justiça:
"(...) Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
(...) Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro (...)" (Carlos Drummond de Andrade - Correio da Manhã, 14/10/66).
Medida para o amor (Imagem Google)
Raphaela Saragiotto,25 anos, advogada em São Paulo diz:
"Gente, desculpa, cada um tem sua opinião, mas só quem teve seu pai distante de você, em uma fase importante, que pode dizer se a sentença foi justa ou não e eu concordei com ela, também sou advogada e achei um passo grande do direito esta sentença.
A pior coisa é você se formar
na faculdade e na valsa dos pais ter que dançar com seu tio, porque seu
pai não quis ir por conta de outra mulher...
Eu sempre falo com o meu pai todos os dias, porque ele me liga todos os dias, saio com ele alguns finais de semana para almoçar, paga algumas contas de casa, mas creio que isso não basta, ele não sabe mais absolutamente nada da minha vida, pois o pouco que se interessa ele acaba esquecendo e não mostrando interesse, o que me faz perder a vontade de contar qualquer coisa para ele. As ligações que ele me faz são para perguntar se eu almocei, se eu estou com blusa porque está frio, assuntos completamente desnecessários entre pais e filhos. Eu gostaria de sentir realmente preocupação, preferia mil vezes que ele me ligasse uma vez por semana e com assunto para falar, do que me ligar três vezes ao dia para me perguntar se trabalhei muito, pra comentar do trânsito de São Paulo ou do clima.
Não o processaria porque creio que seria um desgaste desnecessário, relembrar muitas coisas, remoer coisas piores ainda, na verdade tem horas que o desprezo de uma filha pelo pai é muito mais punição do que ter que pagar uma indenização. Falo isso porque, apesar do meu pai ser deste jeito, hoje em dia, tenho certeza que ele não suportaria ficar sem falar comigo, pois lembro quando ele saiu de casa - eu olhei nos olhos dele e disse: “estou decepcionada com você”, e os olhos dele encheram de lágrimas. Apesar dele sempre querer converter a situação, ele acha que as ligações que ele faz supre a falta que ele faz como pai...
A sentença mostra que uma pessoa pode, sim, sofrer sérios distúrbios com a falta de um pai ao lado. No meu caso, por exemplo, minha irmã teve que frequentar psicólogo por um ano, pois ficou totalmente arrasada. A punição não é solução nenhuma, mesmo porque se fosse solução, não teríamos crimes mais, já que a maioria é punível, mas creio que é uma forma da “vítima” se sentir “vingada” pela falta de carinho que sofreu, pelo abandono que teve.
Claro que dinheiro não te dá um abraço, um carinho, mas você acaba usando-o para se sentir melhor e também para começar a pensar: “viu, ele não me deu carinho, agora tirei dele o que ele mais tem de precioso, o dinheiro”... Pra mim, afeição é muito mais que abraço, que presença, pois é possível você ter afeto por uma pessoa que está longe de você, basta você demonstrar que se importa, buscar ajudar, procurar sempre ainda que longe, estar perto da pessoa e quando possível estar perto, um abraço, um carinho.
Meu pai não foi nem à minha formatura, nem à formatura da minha irmã; ele não chegou a dizer que não ia por conta da outra mulher dele, simplesmente falou que não ia e ponto. Desde que ele se separou da minha mãe eles não se falam, nem por telefone, nem nada, então acredito que ele não tenha ido para não ter que encontrar minha mãe, porém a formatura era da filha dele e isso que ele deveria ter levado em consideração, pois fico pensando, se ele não foi na minha formatura, será que iria no meu casamento? Ou teria que entrar na igreja com minha mãe?!
É muito difícil falar em esquecê-lo, sempre fui MUITO apegada a meu pai (quando ele estava com minha mãe) e agora tenho medo de “largar mão” dele e me arrepender depois, pois acredito que ele tem os motivos dele em ser assim e cada um irá acertar suas contas lá no final, então, deixo como está, creio muito na justiça divina acima de tudo, por isso não “me vingo”. E por outro lado, acabo usando nosso relacionamento como forma de conseguir dinheiro também, pois sempre que peço dinheiro ele dá, me paga contas, então se for pensar, acabo recompensando a falta de afetividade com o dinheiro dele mesmo, igual a menina que processou o pai."
Rozeli Mesquita, 49 anos, mora em Campinas, São Paulo, também é favorável à sentença que dá ganho de causa por ausência afetiva. Ela trabalha numa ONG com adolescentes de 16 a 18 anos - encaminhamento ao primeiro emprego.
"Meus pais se separaram eu ainda era adolescente e sofri muito com a
ausência dele, embora minha mãe fosse (e ainda é) uma super mãe e que me
fez o que sou hoje. Dói a ausência. E muito. Morria de inveja das
minhas amigas que saíam ou eram buscadas pelo pai... e eu não tinha o
meu. Nas festas do colégio, cadê meu pai? Hoje sou separada, e luto
muito pra manter minha filha ao lado do pai e dos avós e tenho
conseguido sim. Eu também concordei com a sentença , pois como disse a Raphaela Saragiotto, só quem teve um pai ausente pode julgar se foi justa ou não a sentença."
PF- Por que a história da separação se repetiu com você, há alguma explicação para isto?
Rozeli - A história da minha separação foi por motivos
diferentes da separação dos meus pais. A única explicação que eu encontro
para isso, além do amor ter acabado (sim, acaba porque a gente esquece de cuidar
dele) é que nos tornamos pessoas totalmente diferentes em tudo: enquanto
eu sou realista, traço planos, vou atrás do que quero e etc, ele era o
oposto de mim; e outras coisas que acho que não vale a pena comentar. Quanto a ausência física de pai com a minha filha não há. Mas a ausência emocional talvez esteja comprometida exatamente pela pouca presença. Acredito que eles deixaram de se conhecer.
Ele mora
na mesma cidade que nós, o contato é quase diário (telefone), e físico
sempre que ela pode. Eles jamais se distanciaram fisicamente e, eu faço o que posso
pra que isso não aconteça.Tenho ótimo relacionamento com ele e a
família e de verdade, amo meus sogros e minha cunhada. Eles continuam a
ser parte da minha familia. Minha filha, como qualquer adolescente (ela tem 17 anos), dramatiza
muito algumas coisas. Ela sabe da minha luta para dar a ela o que dou (e
olha que não é pouco pra quem cuida praticamente sozinha dela - sim, o pai dá a pensão e, sempre que pode, algo mais) mas, às
vezes, ela fala que sente inveja dos pais das amigas, que têm ciúmes das
filhas colocarem shorts curtos (risos) e o pai dela não está aqui pra
fazer o mesmo..."
Marise Caetano- "Eu também concordo com a
sentença. Já que não se pode obrigar ninguém a gostar do filho e estar
presente, pelo menos se penalize o bolso, onde mais dói nesse tipo de
gente. Eu não sou favorável, por exemplo, à intervenção do Estado na família não, mas
acho que botar filho no mundo carrega uma responsabilidade à qual não
se pode fugir. Fica muito fácil parir e achar que os outros devem
cuidar. Por essa razão, optei por não ter filhos, não queria ficar presa
a ninguém. Minha mãe foi uma educadora severa e eu acho que por isso me
tornei um ser humano decente, cumpridora das minhas obrigações e com
respeito pelos outros."
Keila Rodrigues Barreira - 50 anos, dona de casa, com 2 filhos, mora em Vila Velha, no Espírito Santo. "A minha filha também é advogada. Meus
pais foram presentes, mesmo depois de separados...Eu acho que cada um dá o
que pode. Cada um tem seu modo de demonstrar amor. Jamais processaria
meu pai por achar que não fez da maneira que eu acho que deveria ter
feito. Ele fez o que estava a seu alcance. Também tenho filhos e faço o
melhor que posso por eles. É o suficiente? Acho que não. Talvez o que eu
dê esteja aquém do que eles desejam. Carinho, amor, atenção, afeto... dinheiro nenhum paga isso. Existem coisas que não tem preço!"
Marise Caetano - (respondendo à Keila Rodrigues Barreira) "Eu sei, Keiloka. Grana não paga falta de carinho, de amor. Eu entendo que uma filha que entra com uma ação dessas está muito ferida pela ausência, pelo desamor e quer chamar atenção do pai, nem que seja por esse motivo."
Sonia Mello - de Piracicaba, São Paulo. Tem um filho de 29 anos. "Realmente não se pode medir a falta da afetividade mas sim, os transtornos que a falta do amor de qualidade pode causar. Todo o sofrimento deve ser reparado. Dar amor, presença, carinho não custa nada, então... Os pais devem, sim, ser responsabilizados pelo sofrimento causado. Infelizmente só quando é posta a mão no bolso que a punição é respeitada. E que isso sirva de exemplo. Pra que todos se conscientizem que a qualidade de amor é que deve estar presente. Mas a falta dele é, realmente, um grande absurdo."
Stella Cavalcanti fala com relação ao amor paterno (seu pai está na foto ao lado):
"A única reclamação que eu tenho é do meu pai ter morrido cedo demais. Ele tinha um coágulo na jugular e não quis operar porque "não sou galo para ninguém cortar meu pescoço" e "não quero médico mandando em mim". Ele fez o que achou correto (por gênio ou por medo) e todos nós pagamos o preço: o coágulo se soltou, subiu pro cérebro, ele teve um AVC; não pôde ser operado na hora (pulmões pretos de nicotina, ele fumava desde os 15 anos) e o estrago foi feito. Quando, finalmente, os pulmões limparam o mínimo suficiente para a cirurgia, ele já tinha um comprometimento cerebral seríssimo. Ele adoeceu quando eu tinha 17 anos. Ficou cinco anos em coma vigil (dorme/acorda mas sem consciência), acabou com a saúde de mamãe e eu sobrevivi a trancos e barrancos.
Se eu pudesse mudar alguma coisa, ele teria se cuidado e não teria o derrame. Passamos cinco anos dolorosíssimos que talvez pudessem ter sido evitados. É essa a única queixa que eu tenho dele."
Amores
Sobre o amor paterno, peguei carona numa conversa da Fal Azevedo, que lançou, recentemente, seu livro "Sonhei que a neve fervia" e ficou assim:
FalDo Drops: "hahaha, então meu pai morreu me devendo um milhão, aquele filho da puta..."
Claudio Luiz: "Fal...
Ah, se eu fosse a Esther publicava a sua frase - devendo um milhão - e seria ótimo. Por que, né?... se o cara fudeu e gerou um filho eu acho que ele tem que contribuir com o dinheiro do leite, da escola... agora, amor? e R$ 200 mil já tá bom? ela ficou feliz? que amorzinho barato, heim?"
Fal Do Drops: "Você é genial, Clau. Pronto, o Claudim disse tudo que eu não tenho talento pra dizer: que amor barato. Eu queria ser um tipo de compositor."
Beth Salgueiro complementou:"Fico tão confusa com essa historia aí - de cara fico achando que o Estado não tem que se meter nas intimidades da família, juíza dando sentença sobre o amor que um pai deixou de dar pro filho, eu hein?! Mas depois fiquei achando que ela estava falando de cuidados, de presença desse pai, na vida da filha, porque parece que grana ele sempre deu, mas nunca pintou em carne e osso... Nesse sentido a sentença abriu uma jurisprudência que pode ser interessante pra esses machinhos aí, né não?"
Nelson Tostes Ramos: "Pavor dum Estado que tira o cigarro da sua mão, que te obriga a amar, que te diz com quem você não pode casar, que símbolos religiosos VOCÊ não pode usar. Pavor".
Eloisa Arduina Magalhães: "Isso do Estado se meter na vida das pessoas é podre. Legislar sobre amor ou desamor? Daqui a pouco vai ter filho, marido, mulher, entrando na justiça porque o pai, esposa, marido não te ama, mesmo dentro de casa.... entrando na justiça e pedindo indenização, que amor com dinheiro se paga, é uma máxima do capitalismo.
Ah, e por onde anda aquela coisa antiga que advogados chamavam de "foro íntimo"? Agora tudo é público e legislável/intrometível pelo Estado?"
Fal do Drops : "Tou falando, Eloisa Arduina Magalhães, eu ia ganhar uma baba de grana, flor, e a gente ia visitar dr. Zahi Hawass. Visita do século XIX, a fia vai e fica 3 meses, hahahaha. É Estado demais pra mim."
Eloisa Arduina Magalhães: "Sou absolutamente contra o Estado legislar sobre sentimentos, aquilo que sempre foi chamado "foro íntimo"... amor não se pode obrigar, e nem será reparada sua falta com indenização... se é amor mesmo que a mulher quer, a juíza devia obrigar o pai a amar a filha, dar-lhe atenção... é possível? Claro que não. Então, arbitra-se uma indenização e a filha fica satisfeita? Agora se sente amada? Ou vingada?
Amor barato, de Chico Buarque de Holanda e Francis Hime, dica da Fal
Ana Laura Diniz, jornalista, professora, que faz pós-graduação em Neuroeducação comenta: "O que é certo e o que é errado, afinal? É complicadíssimo tecer um juízo de valor acerca do assunto. O que leva as pessoas tomarem determinadas medidas? O que faz as pessoas, às vezes, repetirem as histórias de seus pais? O que faz as pessoas serem de fato o que são? Quem somos nós? Tudo acaba sendo muito filosófico, mas também científico.
Particularmente, sou totalmente contra essa determinação da Justiça. Afinal, o que isso significa? Se a carência da pessoa é afetiva, o dinheiro não proporcionará a ela o que lhe falta. E esse pai, obviamente, não passará a amar a filha depois dessa atitude. Ou seja, em termos sentimentais: escala zero. Ou abaixo de. De qualquer forma, creio que quem tem amor próprio não mendiga amor alheio. E veja, não falo nada atrelado a orgulho, falo da falta de necessidade mesmo. Suponha: você tem um pai que não te amou? Ora, você pode ter perdido alguma coisa (ou muita, dentro da tua escala de necessidades), mas ele perdeu também, e possivelmente, muito mais. Vá viver e ser feliz independentemente disso. Ame quem te ama, e siga adiante. Agora se a falta é estritamente financeira, aí é diferente... pois cabe o recurso da Justiça.
Cientificamente, no entanto, a explicação é outra... e como é extremamente longa, resumo: a situação que ocorreu nesse processo foi, na verdade, cobrança de desistência emocional ou seja, de abandono - no caso, de pai para filha. Mas poderia ser o contrário. Há milhões de histórias de filhos que abandonam os pais, principalmente quando estes se encontram velhos, doentes. E aí? Serão estes também processados? Não sei. Mas a pergunta que cabe é: quais os motivos que levam a isso? É necessário conhecer cada caso, claro, antes de sair afirmando qualquer coisa, aleatoriamente. Mas há aspectos que podem ser "trabalhados" nessas pessoas, principalmente naquelas que se sentem desprezadas, desprestigiadas, vítimas da falta desse amor. E por que principalmente elas? Simplesmente pelo motivo de, ao menos aparentemente, sentirem maior impacto e tristeza por determinada ausência. A sociedade acredita que aquele que despreza sente muito menos que aquele que foi desprezado. E o que muitos desejam então? Vingança. E o vazio sentimental pode até ser preenchido de alguma forma, mas será momentaneamente. É preciso entender, compreender, e ir além: superar situações dessa natureza - se o desejo for o de ser feliz. Tanto a Neuroeducação quanto a Neurociência tratam desses e outros aspectos porque podem atuar na reprogramação - com a pessoa totalmente consciente - da mente: há intervenções para sanar todo tipo de carência, de timidez de compreensão, de traumas, e mais, é possível desenvolver sem demora as questões da autoestima e da autoconfiança permanentes, geralmente nulas em vivências dessa natureza.
Pessoalmente, creio que as pessoas, no fundo (e no raso), só querem ser felizes: mas como viver de fato essa realidade tendo tamanhas amarras? Ou culpa? Ou amargura? Ou o que valha? Dinheiro não cura e não resolve nada disso. E a Justiça, perdoe-me o Estado, mas ela não tem como medir o abstrato, o emocional. Há no mercado um termômetro para o amor? Existe algum "amômetro"? E quanto vale o amor? Sexo pode até se comprar, mas amor, não. Eis um raro caso, aliás, em que na vida não cabe a corrupção, a prostituição... nem de ética, nem de valor, nem de moral... real ou metaforicamente. Mas cá entre nós, nessa coisa toda, quem está certo? Quem está errado? Voltamos ao círculo filosófico... ao ciclo vital: Quem somos nós? E o que somos capazes de fazer por amor? Ou pela falta de? Quem arrisca um palpite?! Quem?"
Essa
semana me peguei antecipando algumas linhas de diálogo do filme do James L.
Brooks, Melhor é Impossível, que algum canal reprisou. Eu estava ouvindo o
filme com a TV ligada e usando o computador. Dizia as frases antes das
personagens que logo após, confirmavam a minha –quase boa- memória. Jack
Nicholson dizia para Helen Hunt:
Melvin: Você me faz
ter vontade de ser um homem melhor.
Carol: Esse deve ser
o melhor elogio da minha vida.
Melvin: É provável
que eu tenha exagerado. Eu só queria impedir que você fosse embora.
Depois
eu fiquei pensando em filmes, tantos filmes que já assisti e acabei
incorporando algumas linhas de diálogos nas brincadeiras com amigos e familiares.
E fiz uma pequena seleção de diálogos ou apenas frases que me marcaram, pelos
mais diversos motivos. Os filmes são variados. Quem sabe
não vira uma série essa reunião de frases? Começo pela minha preferida:
- Se eu fosse uma fazenda, não teria cercas.
(Rita Hayworth em Gilda)
*****
Miles: Por que gosta de vinhos?
Maya: Eu... Eu acho... No começo me envolvi com vinhos por
causa do meu ex-marido.
Miles Raymond: Ah.
Maya: Ele tem uma adega enorme que adora exibir, sabe.
Miles Raymond: Certo.
Maya: Mas depois descobri que eu tinha o paladar aguçado.
E quanto mais eu bebia, mais eu gostava do que aquilo me fazia pensar.
Miles: Como o quê?
Maya: Como ele era uma fraude. (Risadas) Digo, eu gosto
de pensar na vida do vinho. Como é algo vivo. Gosto de pensar no que se passou
quando as uvas cresciam... Como o sol brilhava. Se choveu. Gosto de pensar em
quem cuidou e colheu as uvas. E se for um vinho velho, como essa gente toda
deve estar morta. Eu gosto do modo como o vinho continua a evoluir. Se eu abrir
uma garrafa hoje, terá um gosto diferente de qualquer outro dia que eu a
abrisse. Porque uma garrafa de vinho está de fato viva. Constantemente
evoluindo e ganhando complexidade. Quero dizer, até chegar ao seu auge, como o
61 que você bebe e então começa seu contínuo e inevitável declínio. E é gostoso
pra cacete.
(Sideways, Entre Umas e
Outras)
*****
Clarissa –
Eu me lembro que um dia acordei de manhã e havia uma sensação de possibilidade.
Sabe esse sentimento? E eu me lembro de ter pensado: “Este é o início da felicidade.
É aqui que ela começa. E, é claro, haverá muito mais.” Nunca me ocorreu que não
era o começo. Era a felicidade. Era o momento. Aquele exato momento.
(As Horas)
*****
Rick Blaine: De todos os botecos, de todas as
cidades, no mundo todo, ela entra logo no meu.
(Casablanca)
*****
Harvey - Posso explicar?
Kate - Não precisa explicar nada.
Harvey - Mas eu gostaria.
Kate - Você não me deve explicação.
Harvey - Kate, eu estava no hospital.
Kate - Meu deus, por que?
Harvey - Não é nada demais, eu deixei meus remédios
em Nova York e tenho problemas com o ritmo cardíaco desde criança.
Kate- Arritmia.
Harvey - Como sabe?
Kate - Porque... meu pai também tem. (sorri)
Harvey - Bem, homens jovens também podem ter. Kate,
eu lamento muito por não ter aparecido.
Kate - Está tudo bem, Harvey. Nós passamos bons momentos. E eu gosto de você,
eu realmente gosto de você. Obrigado. Mas eu não costumo fazer essas coisas. Eu
vivo aqui e você vive onde quer que seja...
Harvey - Eu vivo num avião branco.
Kate - Exatamente. Segunda de manhã. A vida segue o
seu rumo. Não somos adolescentes, não há piadas e diversão. Passei bons
momentos com você, sério. Eu não vou esquecer. Obrigada. Mas...
Harvey - O que?
Kate - Você sabe, não é a vida real.
Harvey - É sim.
Kate - Não, não é.
Harvey - É sim.
Kate - Não é, Harvey.
Harvey - É a vida real. Para mim é.
Kate - Eu sei, eu sei, mas não se trata só de você,
trata-se de mim também. Você não sabe nada sobre mim. Olhe para mim... É
patético. Eu sabia desde o início que você não ia aparecer. Na verdade, eu
quase torci para que fosse assim. Seria mais fácil desse jeito. Já estive nessa
situação, desejando, dependendo de...Eu não...Eu não sou de ter esperanças, nem
quero ser. Não quero ser. Porque parece que vai acontecer. E vai acabar de todo
modo e eu vou sofrer. Uma hora ou outra vai acontecer, você sabe, 'não está
dando certo' ou 'eu preciso do meu espaço' e sei que vou terminar magoada. Não
vou fazer isso, eu não vou.
(Ela se emociona e se afasta. Ele se aproxima
lentamente)
Kate - O que eu acho é que eu me sinto mais
confortável quando estou decepcionada. E estou zangada com você por tentar me
tirar isso.
(Tinha que ser Você)
*****
Nina - Você deve me achar bem diferente.
Rodney - Tenho opiniões sobre Shakespeare. Sobre a
vida alheia eu não tenho opinião nenhuma. E acho que não devemos ser severos
demais com nós mesmos quando a razão do nosso afeto retribui o carinho com um
pouco menos de entusiasmo do que gostaríamos. Mas uma observação de alguém
velho o suficiente para ser seu avô?
Nina - Você não é tão mais velho assim.
Rodney - Já reparou que é a única mulher neste
jantar de Ação de Graças?
Nina - Sim, mas as minhas amigas estão ocupadas
ou...
Rodney - Não fique na defensiva. Já reparou também
que você é a única heterossexual praticante no seu jantar de Ação de Graças?
Nina - Bem, ultimamente não tenho praticado muito.
Rodney - Falo sério. O que acontecerá quando todos
esses homens encontrarem outros homens? Quem estará à sua mesa então? Não
arrume a sua vida de tal modo que vá se achar sozinha no momento em que você
menos quer.
(A Razão do Meu Afeto)
*****
Alyssa - Entrei nessa porque eu quis. Não porque
segui o que me ensinaram: 'homem e mulher devem ficar juntos, é natural', essas
coisas. Não estou com você porque minha família, a sociedade, a vida me
impuseram isso desde que eu nasci. Do jeito que o mundo é, quando é que nós
conhecemos uma pessoa que simplesmente nos compreende? É tão raro. Meus pais
não tinham isso. Não tive um bom exemplo de uma relação bacana entre um homem e
uma mulher. Desistir de encontrar essa pessoa cortando imediatamente pela
metade as minhas opções, eliminando a chance de encontrá-lo no meu 'gênero', me
parecia estupidez. Daí não eliminei. Até aparecer você, a pessoa mais
improvável, pois você era homem. E, embora eu tivesse me apaixonado por você,
tentei fugir disso pois você era homem. Aí me lembrei porque tinha aberto a
porta a mulheres: para não limitar a possibilidade de entrar alguém que me
completasse totalmente. Então aqui estamos. Eu estava inteira quando te
procurei.
Me sinto à vontade nos seus braços porque cheguei aqui por escolha própria e
não me questiono se faltou procurar em algum lugar. Pra mim, faz toda a
diferença.
(Procura-se Amy)
*****
Rimbaud – Você acha que os poetas podem aprender
uns com os outros?
Verlaine – Só se forem poetas ruins.
(Eclipse de uma Paixão)
*****
Alvy Singer – Não critique a masturbação. É apenas
sexo com alguém que eu amo.
(Noivo Neurótico, Noiva Nervosa)
*****
Summer - Eu sempre adorei este lugar desde que você
me trouxe aqui.
Tom - Então eu... Acho que devo lhe dar os
parabéns.
Summer - Somente se forem sinceros.
Tom- Bom, nesse caso...
Summer - Você está bem?
Tom - Eu vou ficar, um dia.
Summer - Gostei do seu terno.
Tom - Obrigado.
Summer - Você está elegante.
Tom - Você também. Eu saí do escritório.
Summer - Mesmo? Eu não sabia. Que ótimo!
Tom - E você... você se casou.
Summer - É... Loucura, não?
Tom - Você devia ter me contado... Quando
estávamos...
Summer- Eu sei.
Tom - Bem, no casamento, quando dançamos...
Summer- Ele ainda não havia proposto.
Tom - Mas ele já estava na sua vida.
Summer - Sim.
Tom - Então por que você dançou comigo?
Summer - Porque eu queria.
Tom - Você só faz o que quer, não é? (...) Nunca
quis ser namorada de ninguém e hoje é esposa de alguém.
Summer - Também fiquei surpresa.
Tom - Acho que eu nunca vou entender isso. Não faz
sentido.
Summer - Simplesmente aconteceu.
Tom - Mas é exatamente o que eu não entendo. O que
exatamente aconteceu?
Summer - Eu acordei um dia e eu sabia.
Tom - Sabia o quê?
Summer - Sabia o que eu nunca tive certeza com
você.
Tom - Sabe o que é pior? Perceber que tudo aquilo em que você acreditou é pura
mentira. É um saco.
Summer - Como assim?
Tom - Destino, alma-gêmea, o amor-verdadeiro, toda
essa fábula infantil e idiota. Você tinha razão, eu deveria ter ouvido.
Summer - Não.
Tom - O que? Por que você está rindo?
Summer - Tom...Bem sabe... Eu acho que é porque...
eu estava em uma lanchonete lendo Dorian Gray e um cara chegou perto e me
perguntou do livro... e agora ele é meu marido.
Tom - É... E então?
Summer - E se eu tivesse ido ao cinema? E se eu
tivesse ido almoçar em outro lugar? E se tivesse me atrasado dez minutos?
Era... Era para ser. E eu ficava pensando... Tom tinha razão.
Tom - Não.
Summer - É, pensei. Pensei. (...) Você só não teve
razão no meu caso.
(500 Dias com Ela)
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Felicidade não é felicidade sem um bode tocando
violino.
(Um Lugar Chamado Notting Hill)
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Os
filmes foram escolhidos por motivos afetivos. E você, quais as suas frases
preferidas do cinema? Em breve haverá continuação dessa série.