quinta-feira, 28 de julho de 2011

OS PARADOXOS DE MARCEL PROUST

Por Dade Amorim
Foto: Google Images
Já adulto e escritor, Marcel Proust via segundas intenções em excesso nos aristocratas dos salões que frequentava. Em troca, entre os habitués desses salões, ele mesmo era incompreendido. O formalismo do escritor fazia-o obedecer a um código, de acordo com o qual ele, nunca bem integrado com seus hóspedes, não se sentava à mesa com eles. Preferia jantar antes de sua chegada para ficar livre de ter de prender-se a um só lugar durante a ceia, podendo assim dar atenção ora a um, ora a outro, mostrando-lhes desse modo que dava extrema importância à presença de cada um.
Parece que essa extrema importância emprestada por Proust aos convidados, não só de sua casa, como também dos salões que frequentava, criava um obstáculo a que convivesse com eles em termos de igualdade. Em uma carta do escritor à mãe, onde narra seu espanto e a agradável surpresa que lhe causara um cumprimento "de verdade" que conde d'Eu lhe concedera, “a saudação de um velho e bom homem extremamente educado", como jamais recebera, nem dos "simples burgueses" diante dos quais se curvava, mas que permaneciam "empertigados como príncipes".
Proust deixava transparecer aí sua não-integração à sociedade, à qual no entanto estava sempre presente. Ele via um pouco a alta sociedade, a aristocracia, e em particular os Guermantes, como uma realidade um tanto distante, apesar de ter aprendido a valorizar e aspirar a seus objetivos. Analisava, com agudeza e sem idealizações, o comportamento daqueles com quem convivia nos salões que ocuparam largo espaço em sua obra.
Havia simplicidade e uma certa timidez nos Guermantes, que surpreendiam o escritor, incapaz de entender a exata extensão e o significado verdadeiro desses sentimentos.
Criava-se assim um paralelismo entre Marcel e os personagens de seu grupo social, o que não o impediria de exercer uma análise de gênio desses personagens e de suas vidas.
A explicação disso deve estar enraizada na própria genialidade e perfeição técnica com que Proust se serviria das reminiscências para recriar esses personagens, aproveitando deles seu potencial de poesia e transubstanciando suas próprias dificuldades de convívio em um fator a mais de harmonia.