Tudo é sertão, tudo é paixão
Se um violeiro toca
A viola e o violeiro
E o amor se tocam
(Almir Sater/Renato Teixeira)

Já perceberam? Os nobres do sertão carregam na aparência o aspecto desidratado de eucalipto. Suas influências variadas vão do romanceiro medieval, que culminou diga-se passagem na época de Elizabeth, da Inglaterra, ao cancioneiro do nordeste brasileiro, com cordéis e toadas. São compositores, poetas, cantador-cantor, violeiro-violonista que percorrem Brasil afora para manter acesa a tradição da música tropeira, mais conhecida como caipira.
Engraçado é que moro no interior de minas e, ao contrário dos que muitos imaginam, aqui no Sul de Minas as rádios não dão vez para esses artistas.
Mas, apesar da sua desintegração, aspectos dessa cultura ainda sobrevivem na memória de boa parcela da população brasileira. Prova disso são nomes como Tonico e Tinoco, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Tião Carreiro, Zé Mulato e Cassiano, Almir Sater, que ainda bem sobrevivem.

Mas os tropeiros são muitos, ainda que os nomes que rompam a fronteira do mercado sejam poucos. O que vale em geral é a “lei do cão”: o ostracismo implacável a quem não aparece nas ondas do rádio ou da televisão. Dificuldade que nem o programa “Viola, minha viola”, apresentado pela também memorável Inezita Barroso, consegue evitar.
Se há alguma sorte nessa roda de tropeiros – e existe - é só para dizer que toda regra há pelo menos uma exceção. Porque seria impossível não mencionar um artista que se mantém no auge, ainda que totalmente desconhecido pela grande massa.
Vou cantar no cantori primero
as coisa lá da minha mudernage
que me fizero errante violêro
eu falo sério num é vadiage
e pra você que agora está mi ovino
juro inté pelo Santo Minino
Vige Maria que ôvi o qui eu digo
si fô mintira mi manda um castigo
Apois, pro cantadô e violêro
só hai treis coisa nesse mundo vão
amô, furria, viola, nunca dinhêro
viola, furria, amor, dinhêro não.
Já sabem de quem se trata? Elomar, e seu “Violeiro”.

Tudo isso pra dizer que o que caracteriza esses nômades artistas, de alma livre e tementes ao “Pai Todo Poderoso", é a força da tradição oral. Afinal, assim como os cancioneiros que vagavam de “reinos a reinos”, os tropeiros carregam mais que a arte: o papel de repórter que informa os causos das outras bandas.
E se analisarmos a história da música popular brasileira, incluindo a comercial voltada ao mercado fonográfico, é fácil traçar que em diferentes momentos houveram retomadas para esse tipo de música caipira de raiz. Até a amada e sempre atual Elis Regina interpretou uma canção que se tornaria um dos maiores clássicos de Renato Teixeira, “Romaria”, evidenciando que o bom da música brasileira não está apenas na mistura das tendências, mas principalmente no que diz respeito às origens do seu povo.
Cascatinha e Inhana: "Índia"
Elomar: "O Violeiro"
Sérvio Túlio: "Romance de uma caveira"