sábado, 9 de abril de 2011

84, Charing Cross

(essa foi uma carta escrita há alguns anos para uma querida amiga e que hoje tem o importante papel de cobrir a ausência da Nalaura, que cuida do pai aqui em São Paulo e não pode vir atender ao Primeiríssima Fonte. Se você não me suporta e ia mesmo pular essa crônica, tem mais um motivo, é um escrito enorme, enorme mesmo, porque publico na íntegra, ordens expressas da Esther — e eu não sou louca de desobedecer a Esther.)

A primeira vez que vi Lisboa


Por Fal Azevedo


Vera querida.
A primeira vez que vi Lisboa, Lisboa não me viu.
Era uma noite de inverno, o céu estava cor de chumbo, sem estrela nenhuma e eu, que desci a escadinha do avião toda-toda (no meu tempo, a gente saía do avião pela escadinha) esperando ver as setes maravilhas do mundo duma vez só — mais ou menos isso que meu pai havia prometido — não vi coisa alguma. Mas o velho jurou por Deus que era questão de horas.
Hotel, banho, sopa, cama.
Na manhã seguinte, acordamos às vinte para as seis da manhã (meu pai não acreditava em Deus, em alergias e nem em jet-lag e eu herdei suas crenças religiosas. Pessoas fortes e sacudidas levantam da cama, tomam banho e café, andam, andam, andam e em seguida vão ao museu). Assim sendo, depois do pequeno-almoço (aaaahhhh, amoooo!!), botamos o pé na calçada.
A primeira vez de verdade que vi Lisboa foi como levar um choque, encontrar o primeiro amor, comprar a primeira dúzia de rosas amarelas para si mesma, dar o primeiro beijo, pintar as unhas de cor de uva, tomar a primeira limonada feita de limão cravo, passar a primeira noite comendo polenta e fazendo fofoca com o amigo num bar gostosinho.
A primeira vez que vi Lisboa, cheirei o ar. Nenhum ar do mundo tem o cheiro do ar de Lisboa. Foi uma dessas primeiras vezes, foi cheia de esperança do que estava por vir, do que poderia acontecer, das muitas e muitas possibilidades que a vida encerra.
A primeira vez que qualquer um viu Lisboa faz tanto, tanto tempo, que ninguém sabe quando foi.
Lisboa tem um rio, o Tejo, e foi ele quem primeiro atraiu gente pra lá, nos remotos tempos que meu velho pai não era vivo e que, portanto, ainda não era o embaixador extra-oficial da cidade. Não só o que viraria Lisboa, mas toda a península Ibérica é habitada desde sempre. Primeiro foram os neandertais (há 30 mil anos. Não é uma quantidade doida de tempo? Pense. 30 mil anos), depois por nós — o que, na minha modesta opinião, não representou nenhum avanço. Mil anos antes de Cristo (pouco mais, pouco menos, porque historiador é bicho que não se entende), meus favoritos, os fenícios, passam por ali em direção à Inglaterra para comprar estanho. Os fenícios, estou cansada de encher seus ouvidos com isso, Vera Maria, foram os caras mais sensacionais que já existiram.
Bão, o Tejo, ali por Lisboa, formava um porto natural muito do bacana. A moçada local e os fenícios se encontravam ali pra vender uns lances, comprar outros, fofocas, fumar seja lá que a moçada fumava na época, beber uma bebidinha e tale e cousa. Ali mesmo, os fenicinhos fundaram Alis Ubbo, que no idioma fenício queria dizer “porto seguro”. E o rio eles chamaram de Taghi que quer dizer “boa pescaria". O lugar, Verinha, fervia. Nativos iberos, fenícios, judeus, celtas, e miles doutros caras chegando e partindo, adouro.
Os gregos também passaram por lá. Mas eis que gregos e cartagineses (os herdeiros fenícios, também donos de meu amor imorredouro) não iam um com a cara do outro. E por isso os gregos não ficaram ficando, só ficaram passando. Os postos de comércio grego não vingaram  ali. Fosse vivo, meu velho além de contar isso tudo no seu no ouvidinho sem dar a mínima pro fato do Tarcísio andar armado e ser mau, inda diria (pois Camões adorava a história de ter sido Lisboa fundada pelo Ulisses, de Homero):

Ulisses é o que faz a santa casa
A Deusa, que lhe dá língua facunda;
Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,
Cá na Europa Lisboa ingente funda.

Hum, mesmo não ficando assim, pra valer, em Lisboa, os gregos tinham um nome prela: Olios hippon — que quer dizer ‘o lugar onde se encontra cavalos’ (os cavalos da Península Ibérica são espetaculares até hoje, Vera – mais uma coisa espetacular numa península espetacular). Os gregos tinham nome para tudo.
Lembra das Guerras Púnicas? Eram romanos e cartagineses brigando por cada grão de areia, molusco, ondinha, baleia e cocozinho de foca no Mediterrânio. Lembra do Cipião? Durante a Segunda Guerra Púnica, (218 a.C. a 201 a.C., tipo assim, Vera), O Cipião, que a essa altura do campeonato já era general, entra dando porrada Península Ibérica afora. Enquanto Aníbal, meu particular neguinho (você sabe, eu amo esse homem mais do que todos os homens reais que já tive na vida excetuando meu Alexande e mais ainda que todos os meus amores imaginários. Amo mais o Aníbal que o Robert Goren, Vera!!) se espalhava pela Península Itálica, Cipião tomava tudo que era dele pelo Mediterrânio, inclusive na Península Ibérica. Tomô, mas num levô, né, Vera, que os ibéricos eram uns brigões   e viviam dando problema pra Roma. Os romanos anexam a Península Ibérica, mas os caras estavam sendo, dando problema (problema é da vida, pobrema é de matemática.. meu irmão que me ensinou). Bão, té que teve uma revoltona más o menos em 140 a.C. e Roma manda um romanim muito do brigão, o consul Decimus Junius Brutus para buzinar a moça, comandar a massa e comandar também as tropas e acabar com aquela folga toda. E aí, olha que coisa, Lisboa se alia às tropas romanas que tavam passando por ali, rumo ao nordeste de Portugal, acabar com a baderna. Hum. Captou? Eram tribos célticas lá em cima, e os proto-lisboetas, os habitantes de Olisipo, que era como os romanos chamavam Lisboa, lutaram ombro a ombro com as legiões romanas, Vera. 
Revoltas contra Roma: a coisa só acalmou quando o líder da revolta, o lusitano Viriato, foi assassinato. A capital da província romana da Lusitânia era Mérida, não Lisboa. Em troca da ajuda e infra, quando o sobrinho do velho Júlio César vira o chefe da boca de fumo no século I antes de Cristo, os cidadãos de Olisipo viram cidadãos romanos, com tudo que isso queria dizer, a cidade vira minicípio romano, um Municipium, recebe o título de Felicitas Julia (Felicidade de Julio, olha que coisa mais linda? O Julio é, claro, o César, hahaha, olha minha intima com o pudê?) e um baita dum posto comercial romano, escoando tudo que chegava ali.
Fia, ser cidadão romano devia de ser uma glórea. Imagina. Imagina se os moradores do Brócolis Paulista passam a ter direitos de cidadão de Paris, Vera. Tamos aí. Naquela altura, nega, néra qualquer não-italiano que tinha essa moleza, visse? O turista empreendedor e ativo (que era meu pai e que, constantemente, arrastava a mim, a turista exusta, faminta e que queria voltar para o hotel), poderá ver, na rua das Pedras Negras, as ruínas das termas dos Cássios, construídas, se eu ainda não estiver desmaiando de sono, pelo velho e bom Tibério, um imperador como se deve ser. Há também ruínas das termas dos augustais, tudo romano, tudo maravilhoso, não sei se estão abertas à visitação, porque faz onze anos que lá estive, mas se estiverem, Vera, não perca. Ah, e o Museu do Teatro Romano de Lisboa (cara, é o teatro de Nero), na rua de São Mamede, Vera, tu já foi? Esse teatro é da fase do Augusto imperador (o sobrinho do véi Julim). Tem um mundo exposto lá (pensa bem: é mesmo todo um mundo. Dá vontade de chorar, Vera? Em mim sempre dá). Se calhar ainda se podem ver os arqueólogos fazendo a escavação do sítio.
Mas tudo o que é bom acaba, meu sorvete de morango e o Império Romano e um belo dia chegam os bárbaros, que só eram chamados de bárbaros porque não eram da nossa tchurma. Germanos, Hunos, Godos (os Godos chegaram lá em 419... e daí, quando meu pai e eu fomos pra lá, chegaram os Gordos), Visigodos, Vândalos e Alanos em sangrenta camaradagem, pilhando, matando, engravidando, morrendo de sarampo e varíola, tacando fogo em tudo e tale e cousa. A vida era animada, Verinha, não há como negar.
Bão, em 468, um ano antes de morrer, o rei dos Suevos, Remismundo que não era nem uma rima e nem uma solução conquista Lisboa em 457. Lisboa é anexada ao Reino Suevo, que tinha capital em Braga. Os Suevos chamavam Lisboa de Ulishbona. Depois dos Suevos vieram os visigodos. Eles eram sensacionais, organizados, as leis deles eram espetaculares e bem escritas e eles ficaram um tempão lá. Muitas heranças dos visigodos, que foram uns caboclos importantes para a história da formação do que viria a ser Portugal, tem o Código de Eurico, a Lex romana visigothorum e o Liber judiciorum, que nada mais que um código visigótico de leis, que serviu de base para toda a legislação da Idade Média na Península Ibérica.
A população visigoda estudava, Vera, eles anotavam a vida, faziam registro de tudo, compras, vendas, dados administrativos, caras sensacionais. Eles foram primeiro arianos pra depois virarem católicos (o rei  visigodo Recaredo I, em 586, converteu o reino ao cristianismo – Fal é cultura. Inútil, mas cultura). E eles construíam igrejas lindas, lindas. Aliás, a Capela de São Frutuoso de Montélios, em Braga (ela sim, mais velha que a Sé de Braga, hahaha!, perdoa, não resisti) é todinha feita em arquitetura visigótica, colunas, blocos, arcos de ferradura e planta de basílica. E mesmo durante esse período, quando Lisboa não é mais parte do Império Romano (cuja capital já era Constantinopla fazia tempo), ela ainda é uma parada comercial importante. Produtos da Ásia, do Mediterrânio e de tudo quanto é canto da Europa passam por lá.
Aí, olha que coisa, os visigodos enfrentam uma guerra civil (Vera, são quase 9 da noite duma sólida quinta-feira, se não acelerar não acabo antes de você embarcar, então não vou enrolar mais por aqui, mas saiba, falaria dos visigodinhos até o sol raiar). Com a guerra civil os visigodos cochilam, o cachimbo cai e o velho e bom Tarique (que ia lá só para resolver umas pendengas) invade a Península Ibérica em 711. Taricão invade a Península e se instala, pede serviço de quarto e não usa camisinha. Um dos filhos dele domina a parte ocidental da parada, Lisboa incluída. Lisboa vira domínio muçulmano em 716.
Os árabes chamaram Lisboa de al-Ushbuna (ou Aschbouna) e foram bons para ela. Ela continua sendo aquele tremendo centro comercial e cresce, cresce e se desenvolve e ah, aquela arquitetura. Além do mais, aqueles mouros lindos contribuíram, e muito, para que sejam os homens portugueses a delícia que são. É o sangue mouro que fez surgir ali homens que dizem ao que vieram. Hum, bom, vários convertidos, boa parte da população vira muçulmana, fala árabe e tal. Os árabes são uns gênios com água, irrigam plantações e em se plantando tudo dá, lembra disso? Há ainda a população cristã, moçárabe, que seguia o rito moçárabe, o cristianismo visigodo. Também havia uma população judaica organizada e ativa e o comércio comia solto.
 Al-Ushbuna ganha uma mesquita, um castelo (ali onde hoje fica o Castelo de São Jorge. A Alfama (do árabe al-hamma, “banhos diários”), território essencialmente Nelsístico, meu pai ali siacabava de felicidade, se desenvolve, as nascentes dali ficam famosas, e se você for lá, vai poder ver a Cerca Moura, murão sarado, que os mouros não brincava quando o assunto era segurança. Os vickings de quando em vez atacam, mas o que pode um cara que usa um chapéuzim chifrudo contra uma cimitarra, me diga Vera, não pode nada, “os alemão se ferraram”, dizia meu pai, aquele carcamano rude e sem coração. A vida segue.
Mas, quando o Califado de Córdoba se desintegra e começam a pulular facções e mais facções dentro da organização muçulmana, o caldo começa a entornar. E daí, adeus banhos diários, arquitetura linda, matemática e negões sarados.
Astúrias e Leão estavam lá no norte ficando fortinhos.
Os espanhóis começam a se organizar e partem pra cima de Portugal.
E a reconquista começa. Dom Afonso VI, de Leão e Castela é ajudado pelos príncipes da Borgonha, Raimundo e Henrique. Depois, esses caras casam com as filhas do Afonsão. O Reino de Leão passa pro seu nome o norte de Portugal, onde se instala o Condado Portucalense. Dom Afonso Henriques, rei de Leão, tenta abiscoitar Lisboa em 1137. Dança. Os reis de Leão e Castela são descendentes de Raimundo (mundo, mundo, vasto mundo) e os de Portugal descendem de Henrique. Henrique herda o condado Portucalense. Nada mal. O filho dele, que se chamava Afonso Henriques, se recusa a prestar vassalagem ao primo, filho de Raimundo, Afonso VII. Família é um inferno na vida da pessoa. Ele funda a dinastia de Borgonha e independe Portugal, numa tacada só, esse moço corajoso. O Papa esfrega o focinho de Afonso VII no mapa e ele, então, reconhece Afonso Henriques como rei de Portugal.
Em 1147, ajudado por uns caras que tavam indo para a Segunda Cruzada, flamengos, alemães e ingleses (e que estavam de olho na pilhagem da cidade, claro), entram lá, abotoam geral, saqueiam e aiaiai, tomam a cidade na porrada, as usual,  e Lisboa é tomada dos mouros.
A mesquitona vira a Sé e Dom Afonso Henriques vira dono de Lisboa em novembro daquele ano. Os árabes que sobrevivem tem autorização para ficar num bairro chamado mouraria.
A vocação comercial da cidade renasce.
A navegação pega no breu e mercadores portugueses prosperam como nunca. Seda, mel, corantes, armas, estanho, ferros, linho, lã, cortiça, sal, azeite, vinho, arroz, marfim, açúcar, peles, âmbar, o escambau de madureira, passa tudo pelos portos de Lisboa. Os barcos vão ficando cada vez mais fortinhos e lindos e velozes e seguros. Eles inventam a caravela, baseados nos barcos vickings e nas embarcações árabes. Eles entendem rapidim, os portugueses, que a riqueza está lá fora, e começam a molhar os pezinho no Atlântico. O filho dele, Sancho I continua a luta contra os mouros, mas Vera, ele era da pá virada e o Papa o excomunga em... não sei. Mas excomunga, veja você. O Papa dessa história era um dos Honórios, o II ou o III, eu não sirvo pra nada, Vera, de modos que não tenho certeza do numerinho do papa. 
Daí veio Afonso III muda a corte pra Lisboa no glorioso ano de 1256, disso eu sei, fazendo da cidade a capital do reino. O filho dele, Dinis, funda a primeira universidade, em 1290, em Coimbra (também tenho certeza dessa data, Vera) e monta uma esquadra, garoto esperto. Ele era um craque na agricultura, mas também craque em expansão naval.  E era poeta, quem resiste a um homem desses? Se eu não estiver enganada, ele era chamado de “rei lavrador”. E mulher dele foi canonizada, “Santa Isabel”. (Em 1290 também acontece um grande terremoto por lá. Morre gente, cai coisa, aquilo de sempre. O século XIV tem montes de terremotos, 1318, 1321 (acho), 1366, e isso só as datas que eu me lembro, tem uns sei lá, mais de cinco grandes terremotos).
Daí, vieram Dom Afonso IV, filho e dele, e depois Dom Pedro I, o cruel, filho de Afonso IV. Foi Dom Pedro que se casou com Inês de Castro, lembra dessa história? (A gente aprendia no colégio espanhol, narrada por um professor chamado Juan, que cheirava a tabaco e liberdade.) Depois o filho dele, Dom Fernando, que casa sua filha, Beatriz, com o rei castelhano João I, o que deu uma trégua aos constantes conflitos em que esses caras viviam. Quando Fernandão morreu, D. João I, que não era bobo, quis o trono de Portugal.  A viúva assume o trono, daí, numa virada de mesa sensacional, assume o trono um filho ilegítimo do velho, D. Pedro I, que também se chamava João. Ah, eu adoro essas coisas, Vera Maria, pelo amor de Deus. Ó, atenção para o chute das datas: se ele assumiu (o trono, o trono), em 1383, foi em 1384 que Castela sitia Lisboa. Foi um ano depois, disso eu sei. Bom, já que João assumiu o trono, cabou a dinastia de Borgonha e começo a de Avis. Os caras dessa dinastia são meus preferidos, Vera. Dom João vence a batalha de Aljubarrota, que é sensacional e casa com Filipa (eu adoro esse nome), que é filha do duque de Lancaster. D. João também toma Ceuta, torcida brasileira, Ceuta é muito importante para a expansão marítima de Portugal, prestenção no lance, Vera.
O norte da África era a casa dos piratas mouros. Tomando Ceuta, D. João cria uma base importante, um ponto de apoio sensacional pros futuros navios portugueses que passariam por lá, uma base militar fundamental pra impor respeito e botar os piratas no lugar deles. Um dos filhos de D. João, D. Henrique, participa dessa conquista. Esse também foi um cara importante para a força marítima que Portugal se tornaria. Esse cara passa boa parte da infância no castelo de Sintra. Vera, vai lá, pelo amor de Deus. O que aconteceu foi que, em 1385 — o rei de Portugal resolve ‘levantar’ o Palácio Real de Sintra — Sintra era chamada de “a terra dos antigos reis”, porque foi lá que os mouros reinaram (do século VIII até 1147). Os mouros construíram aquilo e é maravilhoso, arquitetura espetacular e tal, então, psicologicamente, era importante, entende, que o reino católico imprimisse sua cara ao lugar. O Palácio tem umas arcadas pontudas do estilo gótico, palmeiras estilizadas nos tetos, ao estilo mouro, assim como lagos artificiais nos pátios internos — característica arquitetônica também moura, eles adoravam um pátio com aguinha, você sabe (Vera, tudo sei sobre arquitetura na Ana Paula que me fortalece, ela sabe um monte de coisas de lá que nem suspeito, perguntemos, pois, a ela). O rei contrata um craque mudejar da época, se não me engano a criatura chamava Alguma-Coisa-Toledo, e ele fez coisas lindas por lá (mudejar é o estilo mouro que os árabes usavam pra arquitetura e decoração na Península Ibérica, especialmente nos séculos XV e XVI. Mais ou menos. Hahahah, a minha precisão histórica é tuda, Vera, tuda). As chaminés têm mais de 30 metros: o tamanho das chaminés indicava a importância da casa real. Quando eu entrei naquela cozinha, me veio aquele desejo ancestral de assar veados, ursos, mamutes inteiros naqueles fornos, Vera, aquilo é espetacular. A rainha Felipa vinha da nobre casa inglesa de Lancaster e ela decora o maior salão do palácio o “Salão do Cisne”. Que mais eu sei? Ah, uia, fofoca: ela pega o rei prevaricando com uma das aias. A corte arde na fofoca maligna, cê sabe. Vai daí que o rei manda pintar no teto de um dos salões 137 pegas (que é um tipo de passarinho). 137 era o número de damas da corte. Tipo assim, ele quis chamar as minas de gralhas e mandar todo mundo parar com a fofoca, mas de um jeito fino, Vera, o povo era educado. E pintar também a inscrição “Pelo Bem — Que era seu mote ou sua atenção”. (uma resposta a um dito popular comum na época e o rei era filho ilegítimo, né, então ele era todo sensível com essas cousas. O quarto focou conhecido como “Sala das pegas”.
Então, um dos meninos do rei se chama Henrique (ele é o quarto ou quinto filhotinho). Esse guri cresceu em Sintra, ouvindo a mãe inglesa contar sobre o Rei Artur e com os padres enchendo a cabeça de dele. Esse menino seria conhecido como Henrique — o navegador. Lembra de Ceuta? É dele a ideia, e o pai acha uma boa, de fazerem uma cruzada e atacarem Ceuta, do outro lado do Estreito de Gibraltar. Foi a maior esquadra que Portugal já montou. Eles invadem Ceuta e ganham muito ouro. Os mouros capturados são levados para Sintra e obrigados a trabalhar como artesãos no palácio, que fica maravilhoso. (Vera, quando eu era freqüentadora — hahaha, que finaaaaa — nunca dei a sorte de pegar uma visita guiada ao Palácio. Compra um guia bem bom, porque tem coisa pacas pra ver ali).
Em 1435, Henrique, que desde Ceuta ficara com a idéia fixa de encontrar uma passagem pelo mar para o Oriente, passa a mandar um navio por ano com a missão de encontrar a tal passagem. Ele era bem doidão. Usava uma camisa de crina por baixo da roupa, aquelas cousas.
A partir de 1419, por causa do Henrique, Portugal se apossa da Ilha da Madeira, Ilha dos Açores, a Guiné, o Tanger.
Em 1460 Portugal toma Serra Leoa, na África. É nesse ano que morre Henrique, o navegador. Ele nunca descobriu a passagem. (ah, e ele também botou grana na Universidade de Coimbra, Vera, para implantarem o curso de astronomia, porque estudar as estrelas era muito importante pra navegação. Eu amo esse doido, Vera). O fato é que nos séculos XIV e XV Portugal cresce demais e Lisboa, em especial, cresce horrores, o comércio de ouro e escravos faz todo mundo muito rico. Tão ricos que eles resolver ir buscar as “mercadorias” direto na fonte. Ah, a nobre arte de arrancar seres humanos dos colos de suas mãezinhas. Vai dai que o Infante Dom Henrique bota lenha nessa fogueira. Estimulado pelos comerciantes portugueses, ele cria escolas de marinheiros, bota grana na navegação, e lança expedições de reconhecimento e busca (bancadas pelos comerciantes, diga-se de passagem). Ele organiza a parada, digamos assim. Tá, mas agora ele morreu mesmo.
Depois vieram D. Duarte (irmão de D. Henrique), D. Afonso V, D. João II (“O Príncipe Perfeito”, uia!). Sob o governo dele, Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança, Vera! Índias, lá vamos nós. Quando ele era rei, também é assinado o tratado de Tordesillas, lembra disso, que determinava a linha de demarcação das futuras colônias. (Não pense que sei de cor a lista dos reis portugueses, Vera. É que eu tenho um pôster em meu quarto e meu guio por ele — anexei uma fota procê ver).
Quando D. João II morre o primo dele, duque de Beja, assume o trono. Sabe quem era, Vera Maria!? O seu, o meu, o nosso Dom Manuel I, o Venturoso! Nós amamos Dom Manuel, Vera. Vasco da Gama alcança as Índias pelo ar quando Dom Manuel é rei (isso foi em 1498 e dois anos depois, Pedrão chega aqui!).
Depois de 83 anos de exploração, Portugal acha uma passagem para a Índia. Pense em matéria prima barata, Vera. Pense em império. Pense em grana. Pense em chineses falando português (hahaha, acho sensacional). O resultado disso tudo é que lá pelo século XVI (não é a toa que o Brasil é descoberto quase no século XVI), está entrando dinheiro por tudo quanto é buraco de Portugal e Lisboa fica com a parte do leão. O Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, o Bairro Alto, são testemunhas em pedra e estilo manuelino, dessa prosperidade toda. Muitos detalhezinhos mouriscos, barrocos e góticos: conchas, sereias, monstros marinhos, o estilo manuelino é meio.... over. Mas eu adouro. Aliás, a Torre de Belém é o monumento do Rei Manuel para Portugal, erguido numa época em que parecia que a grana nunca mais ia acabar (meu pai me fazia subir aqueles degraus, Vera, a vida era dura pras crianças Vitiello). As ruas são, pelo menos em parte, pavimentadas em calcário e basalto, coisa cara e finíssima e Lisboa tem quase 200 mil almas. Há negros e galegos por toda parte para fazer o trabalho pesado, Camões, Gil Vicente, Pedro Nunes, tava todo mundo lá no século XVI, mandando brasa.
 No fim do século XV os espanhóis acabam de expulsar os judeus da España, numa jogada duma burrice inimaginável, e parte desses judeus vai para Portugal. Dom Manuel se casa com a filha dos reis espanhóis, Isabel. Uma das condições do casamento é que ele dê cabo dos judeus portugueses. No começo, a portuguesada acochambra, disfarça, finge que não vê que os cristãos novos ou marranos professam em segredo o judaísmo. Mas depois a Inquisição alcança todo mundo. Em 1506 os judeus são massacrados em Portugal, fogem pra Holanda, no que fazem eles muito bem. Esse fanatismo religioso é péssimo pros negócios, Vera. Péssimo. Os comerciantes de sanguinho meio misturado fogem do país, pééééssimo negócio.  
O filho de Dom Manuel foi João III e instala o tribunal da Santa Fé em Portugal, olha que beleza.  O neto de João III dele foi D. Sebastião, que ele batia dez fora do bumbo, Vera, sejamos francos. 
O país vai à falência depois que Dom Manuel morre. É muita corrupção, muita grana sendo gasta à toa e além do mais, tem um monte de outros países aproveitando dos conhecimentos marítimos portugueses, fazendo uma grana com comércio. E não ajudou em nada Dom Sebastião ser um fanático religioso. Ele queria montar uma cruzada maluca contra a África muçulmana. Montou uma expedição gigante em 1578, quando tinha 24 anos, e desapareceu na batalha de Alcácer Quibir. Nunca encontraram o corpo do doido e vem daí a lenda que Dom Sebastião inda vai voltar, o sebastianismo, mas acredite, estamos melhor sem ele.
Quem pega o trono é o tio de Tião, um cardeal (ou arcebispo? Vera, num sei mais), Dom Henrique, que era padre, não tinha filhos (bem, esperamos que não) e quando o velho morre, dois anos depois, temos um problema sucessório. Adoro escrever sucessório.
Um neto de Dom Manuel, Felipe II da Espanha, em 1580, pula na sela do cavalo, Vera, e vira rei de Portugal e da España ao mesmo tempo, hahaha, adouro essa gente. Prestenção que ele era Felipe II na España e I em Portugal, isso dá o maior nós na minha cabeça, porque depois, os meninos dele serão Felipe III da España e Felipe II em Portugal e Felipe IV da España e Felipe III em Portugal — e isso porque eu nem comecei a beber ainda, Vera. Os Felipes todos não estavam dando pelota para Portugal. Nunca visitavam, não mandavam flores, não levavam para o cinema, não perdiam tempo com preliminares. Assim não era possível. Olha a humilhação, Vera.
Mas foi só em 1640 (uau) que o duque de Bragança vira o líder do movimento de libertação, e nesse mesmo ano ele é coroado Dom João IV, rei de Portugal. É assim que a dinastia de Bragança começa, Vera Maria, olha a emoção da vida dessa gente, meu Deus do céu. Bão, Dom João IV pede ajuda de todo mundo para não ser expulso pelos espanhóis do trono. A Inglaterra ajuda e Dom João ainda casa sua filha, Catarina de Bragança, com Carlos II, rei da Inglaterra. Ele reorganiza a vida militar de Portugal, equipa todo mundo e treina a moçada, fortalece a defesa nas fronteiras e é bamba na diplomacia também.
Quando ele morre nem tudo está resolvido, e quem o substituí é D. Afonso VI, seu segundo filho. Olho nesse cara, Vera. Ele era meio zoró. E meio revortado também. E só tem 13 nos quando vira rei. Tipo, sentiu a treta, né? E era casado com Marie Nemours, que consegue anulação do casamento deles para, em seguida, se casar com o cunhado (aaahhhh!!) (e isso que eu nem tou contado direito, porque antes, a mãe dele consegue rancar ele do trono, prender ele e passar o trono pro Dom Pedro, que era o fio preferido dela ou, pelo menos, o fio menos maluco dela, daí ele dá um golpe, volta, olha, uma fofoca imensa, as festas de Natal dessa família deviam ser bem tensas).
Pouco depois, D. Pedro II, espertão, passa uma chinela nele e, além da mulézinha ainda leva o trono.
Dom Afonso VI é desterrado, depois volta, é trancafiado em Sintra e vive lá até morrer. Na boa, Vera eu moraria em Sintra até morrer, sinceramente.
D. Pedro II consolida a independência de Portugal, O filho de Pedro II, Dom João V, vira rei em 1707 e terminar de botar Portugal nos trilhos. Entra muita grana vinda das colônias (oi, gente, tudo bem?) em Portugal. Bibliotecas e palácios e academias e portos gigantes em pau-brasil são feitas, tudo que se move é folheado à ouro minero, aquelas cousas, dinheiro é um negócio sensacional, a mi me gusta
Além disso, hahaha, Dom João V tinha tesão por freiras. Veja você, dona Vera, como é que é a vida. Quem herda o trono é um filho dele, José I. Ele assume o trono em 1750 e sabe quem foi o primeiro ministro dele?
Yeah, o Marquês de Pombal.
O Marquês de Pombal era um diplomata, vira Primeiro Ministro quando Dom José herda o trono e cara, ele mandava mesmo. Ele era um represente daquela era, Vera, do Iluminismo, e se ele foi um cara cheio de defeitos, também foi de qualidades. Em 1755, teve um terremoto, certo? Certo. Durou seis minutos. Detonou a cidade. O que o terremoto não arrebentou, um maremoto, na sequência, estraçalhou. Ondas com mais de doze metros, Vera, só faltou o Godzila. E daí veio um incêndio de seis dias. Mas Deus adora os ricos, Vera, de modos que nesse dia a família real não estava em Lisboa, no Palácio da Ribeira, que ficava no Terreiro do Paço. Todo mundo que casa com prima tava no Paço de Belém. Aliás, depois do terremoto (que portugues chama de terramoto, hahaha, são uns fofos Vera, quero comer de colher) a turma começou a dormir de touca: fizeram um castelo de madeira, Vera e gaiatamente chamaram de “Real Barraca”.  E daí surge o Marquês de Pombal. Eu tinha que falar dele, porque ele dá uma cara nova e moderna para Lisboa. Ele manda enterrar os mortos, decreta pena de morte para os saqueadores (adouro, meu ‘eu’ de direita simija de alegria), e encarrega um chegado chamado Manuel da Maia (olha que nome mais lindo) de traçar o plano de reconstituição da cidade.
Esse engenheiro bolou um plano bacaninha, ranca aquela mixórdia de vielas medievais sem rumo e sem sentido, abre avenidas largonas, geométricas, com calçamento, instala uma rede geral de esgotos na cidade, cuida para que as casas seja iguais e tenham a mesma altura, reconstrói o Terreiro do Paço, que vira a Praça do Comércio. Pombal estimula o fortalecmento da indústria e a crição de associações de comércio. E, de quebra, diminui o poder da nobreza e cuida para que a burguesia floresça e faça cada vez mais grana e pague impostos, muitos, muitos impostos. :o)
Ah, e olha que bacana: depois do terremoto, ele pede notícias de todas as regiões do páis, pede que lhe contem como é que estava a vida antes do terremoto, se os animais domésticos tinha se comportado de jeito esquisito, se a água nos poços tinha tido alguma altração, se o céu estava estranho, como as construções tinha se comportado, o que havia caído e, se possível como as as coisas tinham desabado. Ah, o iluminismo. Os ouvidores de vozes e astrólogos de plantão querem renegá-lo, mas ele aconteceu, eu sei.
Bão, quando o rei morre, quem vai pro trono é D. Maria I. Aqui no Brasil, nós a chamamos carinhosamente e Dona Maria, a louca. Ah, essa! É, essa. A primeira coisa que ela faz é bota o Marquês de Pombal no olho da rua.
Uma porção de nobres franceses, fugitivos da Revolução Francesa, encontrou asilo sob as asas de Dona Maria I. Ela era muito, muito religiosa. E, esperta, baixa decreto limitando de forma bárbara a atividade industrial no Brasil.
O filho dela, Dom João VI, assume o trono. E eles mudam a Corte para o Brasil, quando Napoleão fica saliente demais e exige que Portugal faça parte do Bloqueio Continental à Inglaterra.
Dom João abre os portos às nações amigas, noutras palavras, Inglaterra, noutras palavras, Vera: baubau, pacto colonial. Vanja vai, vanja vem ele assume o trono quando a mãe fica maluca demais da conta  ele foi o único rei coroado na América, olha, olha só. Ele cria o Banco do Brasil, libera a atividade industrial (abre uma fábrica de pólvora no Rio, fia), cria a biblioteca real e mete faculdades de medicina aqui também (coisa que a América portuguesa nunca tinha tido, universidade) e tale é cousa. É legal ser capital, Vera, inda mais dum império, vamos combinar.
O Brasil vira uma nação soberana. De repente, a gente pode uma porção de coisas.
E Portugal? Depois que a família real se “transfere” (dizer que a família real fugiu arruma um monte de inimigos pra gente, Vera, e além disso, se você pensar bem, como o Brasil era parte do território português, foi mesmo meio que uma transferência. Eu sei, eu sei, Vera, mas vai por mim, diga “transferência”), Portugal é invadido por homens de Napoleão. O véio Napa não perdia tempo.
A Inglaterra ajuda a mandar os franceses embora, mas em troca fica lá, controlando o exército portuga. Cara, a Inglaterra tá no céu. Com a transfência da corte pro Brasil, a vida comercial de Lisboa vai para a casa do chapéu. Além disso, os ingleses ganham o Brasil de mercado consumidor. Pense num bom negócio, Vera. Só que em 1815, quando Napoleão dança, os moços em Portugal, que já não estavam felizes, poxa vida, querem os britânicos fora de lá. Cobertos de razão. Ora bolas. Forma-se o "Supremo Conselho Regenerador de Portugal e do Algarve", que tenta expulsar os ingleses, mas não consegue. Os líderes do movimento são enforcados. O que só aumena a indignação da turma. Claro, né.
Vai daí que em 1820 ocorre o Levante do Porto, nova revolta contra os ingleses (Vera, a Inglaterra tinha mesmo se instalado em Portugal, foi brincadeira não). Dessa vez a coisa anda e os revortosos exigem a família real de volta a Portugal e o pacto colonial restaurado.
Hum.
A família real volta pra Portugal, tudo bem. Eles voltam em 1821. Mas, cara, Dom Pedro fica como príncipe regente no Brasil. E olha só, o Brasil não queria a volta de pacto colonial nenhum. Além do mais, a Inglaterra também não queria a volta do pacto colonial. E a Inglaterra mandava muito, Vera, muito mesmo. Portugal quer que o Brasil volte a condição de colônia. Dom João VI manda buscar Pedrinho. A Inglaterra ia perder esse baita mercado consumidor, a compra de matéria prima barata, e tale e cousa. Lá, Dom Pedro era fio do rei, mas aqui, ele mandava. Mandou dizer “é tu, nada” pro pai, disse ao povo que ficava, proclamou a independência e a gente deixou de ser português, Vera, eu acho isso tudo lastimável. Eu gostaria muitíssimo mais de mim se fosse portuga.
Daí, quando Dom João VI morre em 1826, Nosso Dom Pedro I vira Dom Pedro IV de Portugal e tem que voltar lá pra assumir a direção do boteco.
Dom João era casado com Carlota Joaquina, né? Vamos dizer que ela não era muito certa. Bão, apavorado que a mulher tomasse o trono, quado D. João sentiu que a barca ia virar, nomeou a filha, Isabel, como regente, até que Dom Pedro conseguisse voltar para Portugal. Não que os portugueses quisessem ele lá, sabe? Não queriam. Os portugueses não gostavam dele e não queriam ele lá se metendo em tudo. Gostavam mais do irmão mais moço del, Dom Miguel. Dom Pedro abdica do trono, desde que Dom Miguel se case com uma das filhas dele, dona Maria. O casamento deles deveria unir os portugueses e evitar uma guerra civil, que guerra civil ninguém merece. E pode casar tio com sobrinha? Pode, uai. Dá sapinho, mas pode. Então, uia, Dom Miguel aceita ficar noivo da sobrinha e faz o que? Haha, dá um golpe de estado, joga o irmão-futuro sogro pra escanteio e vira Dom Miguel I, rei de Portugal. Resultado? Yeah, guerra civil. Dom Miguel perde a guerra civil, volta D. Maria pro trono e depois dela, seu filho, Pedro V (D. Maria casa com o tio, mas daí o Papa anula o casamento e ela torna a se casar. Primeiro ela casa com um cara chamado Augusto, mas ele morre de difteria, tipo, logo e daí ela casa de novo com um carinha chamado Fernando, em 1836 ou 1837 (Vera, tipo, eu me atrapalho nos anos e os nomes e os fatos, mas no fundo o charme é esse, vá?). Esse tal desse Fernando é que é o pai de Pedro V, sacou? Ah, e dona Maria morre de parto... no décimo, ou décimo primeiro ou décimo segundo parto, Vera, pense numa mulher fértil). Eu lembro sempre de Pedro V porque ele botou o primeiro telégrafo de Potugal para funcionar e também o primeiro trecho da estrada de ferro. Ele era culto pra dedéu e foi aluno partucular de Alexandre Herculano (lembra dele? Lindas poesias, bons romances, e Eurico, o presbítero, que eu simplesmente amo. Ah, Vera, imagina ter um professor desses?). Ele deve ter feito um monte de outras coisas, mas eu não sei. Só sei que ele mórreu novinho, vinte e poucos anos, e daí o irmão dele assume o trampo.
O imão dele foi Luís I. Outro homem culto para cacete, fruto do século XIX (que século sensacional, Vera) e tale e cousa, ele eliminou a pena de morte e a escravidão em Portugal, botou de pé e publicado o primeiro Código Civil português,  durante seu reinado alguns partidos são fundados tipo o Reformista, o Socialista e o até mesmo o Republicano começa a botar as manguinhas de fora. Ele gastava uma baba com oceonografia e gente bancada por ele anda pelos oceanos do mundo fazendo altas pesquisas. A gente tem que amar um cara desses, Vera.
Quando ele morre, quem assume o trono é o filho dele, Dom Carlos I. Dom Pedro II foi à coroação dele e tudo. Bão, esse cara botou luz elétrica nas ruas de Lisboa, pintava, fotografava, olhava passaríneos pelos aí, estudava peixinhos, falava muitas línguas, coisa finíssima esse rei. A Inglaterra queria que Portugal se arrancasse de Moçambique e Angola. Mas a rainha Vitória era folgada, Vera Maria, onde já se viu isso? Usando apenas a diplomacia como arma, D. Carlos dá um jeito no lance, fia. Daí, nega, em 1908, ele é morto por membros do movimento republicano.
O século XX foi uma merda, Vera, isso lá é coisa que se faça? Quando ele foi assassinado, morreu junto seu filho mais velho. Então é seu filho mais novo, Manuel II, que assume o trono. Ah, sim, ele teve um caso famoso e fofocado ao máximo com uma atriz, modelo e manequim (aquelas cousas, Vera), chamada Gaby, vai vendo. E daí dá um troço na cabeça dos portugas, Vera, a mesma bobose que já tinha dado na gente e eles proclamam a República. Mas é tudo tonto mesmo. Deram um golpe de estado na criatura, que muda pra Londres, veja você.
O Salazar deixou ele ser enterrado em Portugal, com honras de chefe de estado, em... 1934? Ou 1932? Sei lá, mais ou menos isso. Vera, depois eu nem vou falar, porque eu acho um saco esse negócio de presidente da repúlica e primeiro ministro e esses trecos, eu só gosto de rei, você sabe.  
Tem mais, Vera, tem tanto mais que dá vontade de chorar, mas tenho que levantar às 5 da manhã, amore. A história de Lisboa está incompleta e feia do jeito que escrevi, tem mais, muito mais mesmo e essa carta está uma droga.
Todas as vezes que voltei à Lisboa sempre me emocionei. Em parte claro, porque meu pai amava a cidade e eu queria que ele me amasse. E como ele não me amava, eu achava que amar Lisboa, indiretamente, faria ser um bocadinho amada também. Mas em grande, grande parte, amei e amo Lisboa por ela mesma, pelas construções magníficas, pelo céu que é cinza e azul, pelo sol que corta a sua pele no verão e pelo frio que no inverno também corta sua pele, pela conversa, pelos sotaques, por causa das calçadas largas e estreitas, dos livros baratos (deliciosamente baratos), pelos motoristas mal-humorados dos táxis, pelos museus, pela história, pelo amor e pelo orgulho que todo mundo lá tem da própria história, porque cresci grande parte de mim lá, pelo cheiro da cidade que é como nenhum outro do planeta, pela comida, (a melhor, a melhor, mesmo eles tacando coentro em tudo, os loucos). Eu, que não sou bonita, acho que fico quase bonita em Lisboa. Eu, que não sou uma pessoa boa, em Lisboa, fico um tantinho melhor.
Se eu tivesse só dois dias para ficar em Lisboa, como você terá nessa viagem, Vera, (nunca entrei num shopping de lá, não posso aconselhar nisso não conheço direito nem os de São Paulo a única coisa mais ou menos burguesa que fizemos lá foi a Expo 98 e só. Todo o resto, toooooodas as vezes, foram bateção de perna em calçada) passaria um dia todinho ali nos Jerónimos, Torre de Belém, pasteizinhos do pecado e Museu da Marinha, dando uma escapadela pro Museu dos Coches. Mais tarde hotel, banho e fado no Mesquita, onde depois de garrafa e meia de vinho verde, meu velho pai subia ao palco e cantava Ronda, Praça Clóvis, Ouça e demais pérolas do cancioneiro popular. Meus primeiros programas de menina grande foram lá, minha primeira taça de vinho foi lá, meu primeiro salto alto foi lá e minha primeira paixonite inviável foi lá, por um cantor de fado de 36 anos (eu devia ter 16... e fui uma burra, Vera. Hoje ele deve ter o que, uns 58, diferença de idade nenhuma, mas eu não tava raciocinando no meu normal. Em minha defesa quero dizer que o sotaque deles é de matar, uma mulher não tem a menor chance de pensar direito quando um homem fala com sotaque português no ouvido dela, você há de concordar, daí a gente mete os pés pelas mãos e não dá os maus passos que deveria). Amo cada azulejinho branco e azul daquele lugar e se você for pedir um vinho, bota na conta do Nelsão, por favor.
Meu segundo dia, passaria todinho ele na Alfama (nota pessoal, querida, “oooooutraa??”, você gemerá cansada de mim: os motoristas de táxi da Alfama chamavam meu pai pelo nome. Não é a coisa mais linda isso? A gente vinha andando e eles gritava “Ó, lá vem o doutor Nelson”, e vinham abraçar e mostrar foto de neto. Era raro a gente usar táxi por lá, mas eles todos viam a gente por ali sempre, meu pai vivia de mapa na mão pedindo informação, foi todo mundo se conhecendo. Acho isso lindo, é uma parte importante de quem meu velho era, isso dele falar com todo mundo e tal. Além do mais, descendo a Alfama, de vez em quando ele batia numa porta e pedia pra quem abria “Posso ver sua casa?” E UM MONTE DE GENTE DEIXAVA!! Isso quando a porta não era aberta por uma velhinha que dizia “O senhor não cá esteve ano passado?” HUAUHAUAU, era a vergonha de pai suprema o que eu sentia nesses momentos). A Alfama com suas ladeiras infernais, garçons solícitos e gatos gigantes. E no Castelo de São Jorge. Talvez então, Vera, se você se comportar, o fantasma do meu velho apareça para você e guie você por lá, e estenda um lenço (ele sempre tinha muito lenços) enquanto você olha para o horizonte e chora feito uma patinha, como já fiz tantas vezes. Não devo ter mais chance de voltar lá, então você aproveite quando, com o mesmo velho roliúde no canto da boca e malha cor de vinho e olhos cinzentos, o Fantasma declamar pra você num sotaque que nem Camões poria reparo enquanto beija a sua cabeça:

O céu fere com gritos nisto a gente,
Com súbito temor e desacordo,
Que, no romper da vela, a nau pendente
Toma grã suma d'água pelo bordo:
"Alija, disse o mestre rijamente,
Alija tudo ao mar; não falte acordo.
Vão outros dar à bomba, não cessando;
A bomba, que nos imos alagando!"


Ele vai declamar isso aos gritos, o que, invariavelmente, atrairá aplausos dos turistas alemães. Seu rosto vai arder e ficar vermelho, mas fique firme. E aplauda também. Não conheço tão bem as outras cidades, íamos um bocado para Sintra, Braga (que é lémcima) e Estoril, Évora e Beja. Só duas vezes ao Porto, só duas vezes em Coimbra, o negócio do velho era mesmo Lisboa, mas você vai também ao Porto e a Sintra, não vai? Divirta-se muito, aproveite cada pedacinho. Seja feliz em Portugal, Vera, porque aquilo é terra da gente ser feliz para vida toda e mais seis meses. Sinto uma inveja nada cristã neste momento. Prometo melhorar sua carta. Boa viagem. Amor. Fal.