domingo, 16 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. UM PULO RÁPIDO NA INFÂNCIA

Por Ana Laura Diniz


Carrego tanta lembrança da infância que fica difícil falar de uma coisa ou outra. Mas eis que estou em São Paulo, e vendo a casa da minha irmã cheia de caixas de mudança - pois meus pais retornaram para cá - pensei nas tranças, nas tramas, nos caminhos, nas aventuras, nas viagens, enfim, nas situações inusitadas. E foram muitas.

A mais comum era inventar que algum tio tinha chegado de surpresa em São Paulo (eles moravam, em maioria, em Belo Horizonte), o que fazia meu pai chegar mais cedo do trabalho... ah, que delícia! Podíamos curti-lo um pouco mais, pois sempre trabalhou demais.

Meus pais - Neyde e Mário Lúcio -, criaram uma casa de Anas e Luíses: Ana Beatriz, Luís Henrique, Luís Fernando, Ana Cristina e eu, Ana Laura. Nasci sendo uma estatística - um caso em um milhão - pois minha mãe ficou grávida quase quatro anos depois de já ter ligado as trompas. 

E nós cinco aprontávamos! Costumávamos fazer surpresas sempre que possível. Hoje, lembrando das situações, penso que a cada vez que dizíamos ter uma surpresa, eles deviam temer... Mas não sei, pois nunca, jamais esboçaram nenhum desgosto. Como num domingo de sol em que resolvemos lavar o carro do papai - um passat novo em folha, de um verde metálico muito bonito... terminamos e fomos chamá-lo: 


- Pai, pai, venha ver, fizemos uma surpresa para você!


Todos junto, querendo levá-lo pela mão, até que ele chegou, viu e disse sorrindo:


- Ah, que legal... vocês lavaram o carro do papai?!?
- Sim, pai, lavamos!!!
- Agora diz uma coisa para o papai: vocês passaram bombril nele?
- Sim, pai, passamos, passamos!!!
- Ah, que legal, ficou muuuuito bonito!!! 


E todos entramos felizes da vida.


Dispensável dizer que só tivemos consciência do que tínhamos feito muitos anos depois, uma vez que ele não brigou com a gente. O carro só tinha uma semana e o arranhamos por inteiro... E ganhamos o melhor sorriso do mundo como recompensa.

E mamãe seguia a mesma política: não se estressava por nada. Uma vez, a casa recém-pintada, chamamos os dois para a sala dizendo ter uma surpresa! Eles chegaram, olharam e disseram:

- Desculpem, filhos, mas não estamos vendo nada...

Nós rimos. Três de um lado e dois do outro lado - abrimos a cortina:

- Tcharammmm...

- Nossa filhos, que legal, vocês desenharam a parede inteira??!
- Sim, vocês gostaram??
- Muito, filhos, está lindo!!!

E havia o que quisesse: carros, montanhas, sol, lua, mar, estrela, crianças brincando, andando de bicicleta... o que mais pudesse.

As histórias são muitas, quase que infindáveis... coisas que nem imaginam...

Então olho para essas caixas de mudança e penso no número de vezes que já mudamos de casa, de bairro, de cidade... e mais ainda: que é possível viver num mundo de harmonia, sem qualquer nível de violência para se obter realmente o respeito. No lugar de palmada, diálogo sempre (muito) aberto. E pensando bem, essa característica sobreviveu e nos acompanha até hoje.