domingo, 9 de outubro de 2011

SENHORA DO TEMPO. URBANIDADE

Por Vera Guimarães


ur.ba.ni.da.de

sf (lat urbanitate) 1 Qualidade do que é urbano. 2 Delicadeza, cortesia; civilidade, polidez. Antôn: grosseria.(Dicionário Michaelis on line).


A crônica de FREDZILA, aqui do PRIMEIRA FONTE, sobre a diferença de comportamento entre toquianos e japoneses em geral, me deu o mote. Ao ler outro relato do cronista em que ele diz que empurrar e ser empurrado no metrô de Tóquio é aceitável, uma coisa explicou a outra. Relevem minha superficialidade, que me faz pensar que existe uma única justificativa para nossos maus modos. Se assim fosse, os pobres brasileiros seriam os campeões das grosserias. Afinal, como se não bastasse haver aqui a superlotação que se vê no metrô de Tóquio, temos também rotas desconexas, desrespeito de horários, trajetos pouco inteligentes, veículos mal conservados, vias em péssimo estado, tarifas altas. Se eu tivesse que sacolejar nessas condições, gastando duas horas do dia para ir e duas horas para voltar no trajeto casa-trabalho, trabalho-escola, seria, para dizer o mínimo, uma pessoa intratável. (Ok, às vezes sou uma pessoa intratável.) O transporte público degrada as pessoas. Como costumo dizer, esses vagões e ônibus são a nova senzala. Com este transporte, os brasileiros teriam todo motivo para serem grosseiros sempre. Mas não são.

Em várias de nossas cidades, há grupos de pessoas que sempre pegam o mesmo ônibus, no mesmo horário, e, bravamente, com muito humor e capacidade de superação, fazem dessas duas horas horrorosas um espaço para brincadeiras, compartilhamento e solidariedade, e ali dividem histórias, lanches, companhia, casos, música.  

Dia desses, conversando com duas de minhas irmãs, perguntei a elas se na escola havia aulas de civilidade. Eu não me lembrava de lições explícitas sobre o assunto.   Mas minhas irmãs, mais velhas que eu, me contaram que havia, sim, aulas formais da matéria no grupo escolar, nas quais se ensinava como devíamos tratar os mais velhos, grávidas e parentes. Eu também não me lembrava de ver Mamãe, sempre ocupada com assuntos sérios de manutenção de uma casa e família numerosa, interromper alguma atividade para nos passar esses preceitos. Mas passou, pelo exemplo de todas as horas, no trato com parentes, empregados, vizinhos. E fico feliz de ver que os passei adiante: meu filho mais novo, quando tinha uns quatro anos, em passeio por uma fazenda, ali no meio do mato, no cerradão, ficou a rodar com um papel de bala na mão à procura de uma lata de lixo.

O que sei é que era absolutamente normal cedermos assentos aos mais velhos, apanhar para eles um objeto caído, dar passagem a grávidas, parar de varrer o passeio quando viesse alguém.

Começo a fugir de situações nas quais a falta de educação impera, como, por exemplo, nas salas de espetáculos. Não consigo conviver pacificamente com as conversas, os ruídos e cheiros de comida, os toques de celulares, os pés nas poltronas, tudo isso que hoje é parte integrante de uma ida ao cinema. Considero seriamente me mudar para Austin, Texas, USA, apenas para ter o prazer de frequentar as salas do Alamo Drafthouse, um complexo de entretenimento que leva a sério o direito dos espectadores de verem em paz o filme que escolheram, que leva a sério o dinheiro que essas pessoas gastaram, o tempo e o esforço que despenderam para se deslocar de suas casas. Simplesmente respeita as pessoas que lá estão para a experiência mágica de uma sessão de cinema. Cliquem aqui e vejam o que acontece lá.

Sou muito autoritária? É, eu também acho.

Outros maus comportamentos sociais, a meu ver, simplesmente desafiam o bom senso, já nem são mais falta de consideração com aqueles eventuais merecedores de atenção extra, como os citados idosos e grávidas. Por exemplo, é prática cada vez mais comum ninguém ceder passagem, como num corredor de shopping, que supostamente serviria para o ir e o vir, de preferência  observando-se a mão direcional usada no país.  Aqui no Brasil, vai-se sempre pela direita, elementar, meu caro Watson! Por falar no fiel escudeiro de Sherlock, na Inglaterra deve ser pela esquerda. Sem digressões, dona Vera! Pois bem, o que eu observo e do que tento me esquivar nesses corredores é das linhas de pessoas vindo em minha direção, elas lado a lado, e não lhes passa pela cabeça me abrir passagem. Eu que pare e me esgueire contra a parede ou a vitrine e as deixe passar naquela mesmíssima formação.

Andando pela praia com aquelas minhas irmãs, comentamos que nada custa cumprimentarmos os desconhecidos que estão dividindo aquele espaço conosco. Um sobrinho que morou na Inglaterra relatou que jogava futebol umas duas vezes por semana, quase sempre com as mesmas pessoas. E que ele só seria cumprimentado se tivesse sido formalmente apresentado ao colega de prática esportiva. Ah, entendi, encontrões e troca de passes pode, cumprimentar e confraternizar, ah, isso não, só depois de serem devidamente introduced.  Nem tanta cerimônia, por favor! Felizmente por aqui não é assim.
Não sou um modelo de delicadeza, sou impaciente e carrego nas costas muitos pecados de grosserias que fiz. Todas desnecessárias. Peço perdão a parentes, amigos, desconhecidos, parceiros e adversários de esporte, marido, filhos, netas.

E reverencio aqueles que fazem vicejar flores de cortesia: as pessoas que confraternizam dentro do ônibus-senzala, o operário do aeroporto que, sem que eu pedisse, tomou o trabalho de procurar debaixo de uma escada vazada o meu batom, amiga que me envia linda toalha bordada com as próprias mãos, o jovem que se ofereceu para içar minha mala até o vagão do trem, a moça que guardou meu cartão de crédito esquecido na loja e... eu poderia citar centenas de gentilezas que me fizeram e fazem sempre, mesmo que eu não seja delas merecedora.

Que surpresa! Terminando este texto, alimentado a princípio pela minha rabugice, vejo que há muito mais civilidade do que eu estava disposta a lembrar. Serei mais atenta às gentilezas que me fazem. Quem sabe me torne mais cortês...